António Costa, repita comigo: não tenho maioria

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 02/03/2020)

O PS apresentou uma lista de nomes para o Tribunal Constitucional onde constava Vitalino Canas. Tão boa ou tão má que nem conseguiu os votos de todos os deputados do Partido Socialista. Também apresentou nomes para o Conselho Económico e Social e o Conselho Superior da Magistratura. Todos chumbados. Precisavam de dois terços dos votos e ficaram longe disso.

Ana Catarina Mendes disse: “É absolutamente espantoso que a Assembleia da República e os seus deputados se permitam bloquear o funcionamento de outras instituições”. O que me parece absolutamente espantoso é a ideia de que os deputados estão obrigados a eleger as pessoas que o PS escolhe para as instituições. Que negoceie o que quer ver aprovado. Já chega desta novela requentada

Perante estes chumbos, a líder parlamentar do PS, Ana Catarina Mendes, disse: “É absolutamente espantoso que a Assembleia da República e os seus deputados se permitam bloquear o funcionamento de outras instituições. O chumbo destas três entidades significa que a Assembleia está a bloquear o normal funcionamento das instituições democráticas. O que se pede aos deputados é responsabilidade para exercerem as suas escolhas, mas que não sejam meramente partidárias e que sejam em função das personalidades”. A mim, parece-me absolutamente espantosa a ideia de que os deputados estão obrigados a eleger as pessoas que o PS escolhe para as instituições.

Com exceção do Conselho Superior da Magistratura, onde havia uma lista conjunta do PS e do PSD e Ana Catarina Mendes tem razões de queixa, o PS decidiu fazer listas sem negociar com ninguém. Nem com os partidos à sua esquerda, nem com o PSD. Espera o quê? Que o regular funcionamento das instituições resulte da ilusão de que o PS tem a maioria no Parlamento e não precisa de falar com ninguém? Que se finja que dois terços dos deputados são do Partido Socialista?

No início da legislatura, António Costa decidiu que não queria nenhum acordo estável (escrito) com quem o ofereceu – o Bloco de Esquerda. Também decidiu que, por sua iniciativa mas sem qualquer compromisso em troca, os entendimentos preferenciais seriam com a esquerda (à sua revelia), o que inviabilizava acordos com o PSD em assuntos fundamentais. Logo na altura escrevi que o PS se preparava para saltar de chantagem em chantagem, de dramatização em dramatização, de crise dos professores em crise dos professores. Tem feito mais do que isso. Tem procurado as crises. Na relação com o BE, que Costa julga poder esvaziar numa qualquer crise política, as provocações aproximam-se do bullying. E em muitas escolhas, de que a de Vitalino Canas é só o último exemplo, parece procurar a derrota.

A estratégia da dramatização não vai resultar. Tem faltado subtileza a Costa. A hostilização sistemática daqueles com quem se poderia entender e a repetição demasiado frequente deste discurso de Ana Catarina Mendes tornam o PS, e não os restantes partidos, no centro de todos os impasses. Para ganhar qualquer coisa com uma crise política é necessário que as pessoas acreditem que ela não foi procurada. E o PS não tem procurado outra coisa. Resultou nos professores, quando havia “geringonça” e se estreou o drama. Agora só cansa.

O PS não tem maioria absoluta. Não tem e, olhando para a política nacional e o que se passa por essa Europa fora, não vai ter tão cedo. Isso quer dizer que, tal como o PSD, só pode governar agora e no futuro com base em acordos parlamentares. Quanto mais cedo isso for interiorizado melhor para a saúde da nossa democracia. Neste momento, a força de bloqueio, acusação cavaquista que o PS ressuscitou, é António Costa. Que negoceie o que quer ver aprovado. Já chega desta novela requentada.

A política como dramalhão

(Francisco Louçã, in Expresso Diário, 01/10/2019)

Quando daqui a uns anos olharmos para trás e reconsiderarmos esta campanha eleitoral, não será difícil reconhecermos que foi bizarra. O PS desprezou a direita, seguro do encanto do seu Centeno, e namorou as associações patronais, que fizeram romaria para apoiar a maioria absoluta. Embalado pelas palavras de Rui Rio, que levou um ano a dizer que o seu principal objetivo era ajudar o PS a livrar-se da influência da esquerda, o primeiro-ministro acreditou num bloco central espiritual em que tutelaria os restos de uma direita fragmentada. Isso acentuou a sua agressividade e, depois de quatro anos em que dependeu do acordo com os partidos de esquerda, o PS centrou-se numa estratégia de condescendência para com o PCP, para o neutralizar, e de ataque contra o Bloco, para queimar os navios ao chegar à praia da sua esperada vitória esmagadora. Para lhe dar voz, multiplicou os apelos a uma maioria absoluta, que é detestada pela maioria dos eleitores, e colocou na ribalta os que se tinham oposto desde o primeiro dia à geringonça, de um chefe parlamentar quezilento a um ministro que tinha sido o bulldozer de Sócrates. Foi tudo errado e, na reta final da campanha, o preço está à vista. Nem tem a simpatia da direita, nem fala com a esquerda. Assim, o PS ficou refém de si próprio no sonho, sempre repetido, da tal maioria absoluta, e nem sei se é melhor dizê-lo ou disfarçá-lo com palavras de circunstância sobre a “maioria reforçada” ou “absolutamente clara”, um gato escondido com rabo de fora que trata os eleitores como se fossem retardados.

Mas o que mais será recordado desta campanha eleitoral é a estratégia do dramalhão. Foi em seu nome que a direita se agarrou a Tancos para evitar o naufrágio. Pede ao Parlamento que seja câmara de confirmação, ou de repercussão, de uma acusação judicial, e ainda que aprecie uma insinuação sobre o primeiro-ministro, logo depois de um jogo de sombras para atingir o Presidente. Mesmo sendo tão óbvio, aliás confirmado pelos próprios autores materiais, que a encenação da entrega das armas constituiu um crime de obstrução à Justiça, eventualmente suportado por uma gestão política irresponsável ou cúmplice em cúpulas militares e no ministério, a invocação da culpa do primeiro-ministro ou do Presidente no encobrimento, o que ambos terminantemente rejeitaram, é um artifício da política dramalhão. Na confusão, salvam-se os feridos e ficam os mortos, ou, se a culpa não é sua é do seu colega, tal parece ser o mote da política dramalhão. Que tudo isto é unicamente dirigido pelo desespero eleitoral, só agrava a perceção dessa falta de escrúpulo destes partidos, que tem ribombado na campanha.

Bem sei que alguma imprensa gosta de sangue e que elogia esta resiliência litigante de um candidato que temiam mortiço e de uma candidata perseguida pelos fantasmas do seu partido, que agora renascem em campeonato de lama. E que essa mesma imprensa castiga quem nota que se trata de um truque para nada dizer ao país sobre o que querem estes partidos fazer a partir de segunda-feira. Criar dois discursos paralelos, em que um é excessivo, segura-me que o vou matar, e outro é propositivo, é sempre arriscado no país latino que somos. Creio, no entanto, que essa imprensa não tem razão e vive numa bolha demasiado fechada. O país aborrece-se e irrita-se com o festival de irresponsabilidade que Tancos demonstrou, mas quer mesmo saber como vai ser o salário no fim do mês, se os filhos vão poder alugar uma casa ou se as urgências vão continuar com falta de médicos. As eleições costumam ser sobre escolhas e não sobre ódios e qualquer pessoa prefere saber o que vai acontecer a assistir a um tiroteio sobre o que já se passou.

Por isso, mesmo que incensada pelo espetáculo, a direita corre dois riscos com esta estratégia. Creio que se apercebe de ambos, embora pense que a curto prazo não pesam o suficiente para desincentivar o dramalhão. O primeiro é que isto é um boomerang: com as assinaturas falsas de deputados do PSD num requerimento ao Tribunal Constitucional (ao Tribunal Constitucional!), o seu grupo parlamentar veio lembrar uma especialidade da casa e o debate viverá destes acontecimentos. Tudo se torna hiperbólico neste novo mundo dramatista. O segundo risco é que nada fique da encenação política: no domingo, o CDS continua limitado a disputar com o PAN, e o PSD, que agora festeja uma subida nas sondagens, continua a tentar alcançar o seu pior resultado dos últimos 40 anos. Somados, PSD e CDS continuam em todos os estudos atrás do PS. Só que do dramalhão não há regresso. Por tudo isto, permitam-me o viés de elogiar quem quer mesmo que haja uma campanha eleitoral, sugerindo programas e propostas aos eleitores e esperando que o voto se decida sobre aquilo de que o país precisa a partir da noite de 6 de outubro.

Quando dentro de meses ou anos olharmos para trás e avaliarmos o que se passou nesta semana, notaremos que houve uma viragem na forma de fazer política pelas direitas e que, preso da sua ambição (desmedida, foi o termo utilizado pelos próprios) de maioria absoluta, o PS ficou preso no seu labirinto. São duas más notícias. Os eleitores decidirão o que fazer com elas.

A campanha eleitoral para as eleições legislativas começa amanhã

(Carlos Esperança, 21/09/2019)

Devo aos jornais, que teimo em comprar, saber que amanhã, dia das eleições regionais da Madeira onde 43 anos ininterruptos de PSD vão prosseguir com a ajuda de alguns milhares de votos de retornados da Venezuela para quem a palavra socialismo é associada ao regime de que fugiram.

Se não comprasse o jornal diário, cuja falta considero imprescindível e empobrecedora, pensaria que a campanha eleitoral destas legislativas tinha começado com a insistência de Cavaco Silva a querer impor ao País um governo de Passos Coelho/Paulo Portas, com o velho salazarista a desafiar a AR e a esconjurar o Governo apoiado pelo PS, BE, PCP e PEV no órgão próprio e único do qual depende.

É ocioso recordar os prejuízos provocados ao país por esse PR enraivecido, a quem as vacas dos Açores sorriam, e que, alheio às reações dos mercados que decidem os juros da dívida da República e aos votos de todos os portugueses, vociferava contra o governo legítimo.

Felizmente, a credibilidade com que deixou Belém era igual no País e no estrangeiro, e a campanha eleitoral do PSD, prosseguida pelo ora catedrático Passos Coelho, a insistir na vinda do Diabo, levou ao descrédito do partido que, daqui a duas semanas, os seus sequazes vão atribuir a Rui Rio.

A propaganda sobre a dúvida dos resultados, se o PS tem ou não maioria absoluta, como se a hipótese alguma vez se pusesse, esconde o desejo dos adversários de Rui Rio para que a derrota se avolume, jogando com o medo de que o BE e/ou o PCP possam decidir a governação em vez de a influenciar.

O mesmo coro, à esquerda, tem o natural objetivo de disputar o voto que pode alterar a correlação de forças, sendo certo que nenhum partido quererá suicidar-se, se os eleitores o responsabilizarem pela rutura da frutuosa solução governativa desta legislatura.