Estamos tramados

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 07/10/2025)


A histeria sobre a ameaça russa à Europa permite à burocracia europeia destinar mais fundos à defesa e, em última análise, desenvolver uma narrativa que pode conduzir a um ponto sem retorno.


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São imensos os casos na história de operações de falsa bandeira para justificar guerras. Ficaram célebres o afundamento do Maine (1898), o incêndio do Reichstag (1933), o incêndio da baía de Tonquim (1964), o bombardeamento do Mercado de Sarajevo (1995), o dito massacre de Račak (1999), entre outros. Eric Frattini escreveu em 2017 um livro sobre o tema com o título “Manipulação da Verdade”. Com estas operações procura-se culpar o adversário de algo inaceitável e ter assim um pretexto para o atacar preparando, simultaneamente, a opinião pública para apoiar a guerra. É, portanto, uma prática antiquíssima e frequente. Quando posteriormente se prova a falsidade dos factos é tarde, porque os efeitos pretendidos já foram atingidos. É impossível reverter a história.

O clima de insegurança que se vive na Europa provocado pelos alegados drones russos tem contornos que se assemelham aos de operações de falsa bandeira. Fazia sentido tentar confrontar diplomaticamente os russos com provas, o que infelizmente não tem acontecido. No seguimento dos 19 drones (19 setembro) que entraram e caíram ou foram abatidos em território polaco, Moscovo disponibilizou-se para falar com Varsóvia sobre essas ocorrências, mas as autoridades polacas recusaram fazê-lo, sem explicarem o motivo da recusa. O mesmo se aplica às aeronaves russas que terão violado o espaço aéreo da Estónia. As provas são exíguas ou mesmo inexistentes.

Num outro acontecimento, a Polónia prendeu um provocador responsável pelo lançamento de um drone sobre edifícios governamentais, que por coincidência era ucraniano. Entretanto, prosseguiram as “violações do espaço aéreo” em várias capitais europeias provocadas por drones. Os aeroportos em Copenhague, Oslo e Munique foram fechados ao tráfego aéreo durante várias horas. A Noruega, Dinamarca, Suécia e Alemanha relataram a entrada de “drones não identificados” no seu espaço aéreo. Apesar do frenesim acusatório apontar para a Rússia, a Noruega acabou por prender três alemães por lançarem um drone numa área restrita perto do aeroporto.

A Roménia suspendeu temporariamente as operações no Aeroporto de Bucareste por causa de um drone civil próximo da pista (13 setembro). Posteriormente, foi suspenso o tráfego aéreo no aeroporto de Vilnius devido ao aparecimento de…balões de ar quente não identificados (5 de outubro).

Falamos de situações bizarras que, estranhamente, as autoridades não conseguem explicar. Nem a polícia nem os serviços de inteligência alemães conseguiram determinar o local de onde os drones foram lançados. À falta de melhor explicação, levanta-se a suspeita de drones russos lançados a partir de petroleiros da frota fantasma russa. Estas explicações infantis fazem lembrar a responsabilidade russa pelo apagão na península ibérica inicialmente aventada. A ameaça russa serve para tudo, incluindo para tapar a incompetência. Apesar de não poderem ser levadas a sério, a Alemanha, a França e a Suécia enviaram reforços para a Dinamarca, os quais integravam a fragata Hamburg, da Marinha Alemã, e implementaram várias medidas contra drones.

Como se isso não bastasse, o sempre prestável e lesto presidente francês ordenou um assalto a um dos navios suspeitos, que navegava ao largo da costa francesa, em águas internacionais, para encontrar provas do seu envolvimento no lançamento dos drones que teriam supostamente sobrevoado o aeroporto de Copenhaga, em 30 de setembro. Esse ato de pirataria patrocinado pelo governo francês não deu em nada e o presidente francês Emmanuel Macron meteu a viola no saco. O navio retomou discretamente viagem. Owen Matthews, no Spectator, considerou o ataque aos petroleiros da “frota fantasma” um puro ato de teatro. O ensejo de fazer concorrência aos somalis terá ficado por ali. Ted Snider mostrou no The American Conservative estar convencido de que o espetáculo da “ameaça dos drones” terá sido encenado por Kiev para obter mísseis Tomahawk.

Essa demonstração de coragem e tenacidade bélica terá, porventura, sido utilizada por Macron para desviar a atenção da população francesa dos graves problemas internos, que não consegue resolver. Ao nomear quatro primeiros-ministros em menos de um ano, Macron conseguiu bater o recorde que pertencia aos governantes portugueses da 1ª República. Quem também sabia bem como desviar a atenção do povo para ameaças externas era o presidente argentino Leopoldo Galtieri, pois quando apertado em casa pelas suas políticas calamitosas, provocou uma guerra contra o Reino Unido (1982) por causa da soberania das ilhas Malvinas, com resultados desastrosos para a Argentina. Macron parece querer seguir-lhe o exemplo.

Após uma série de alegadas violações russas do espaço aéreo europeu, os líderes da União Europeia reuniram-se em Copenhaga (7.ª Cimeira da Comunidade Política da Europa) para acordar sobre o que fazer para proteger o continente de futuras agressões de Moscovo. Juntou-se ao “porco espinho de aço”, uma outra ideia maravilhosa: construir um “muro de drones”, que na prática significa alocar milhares de milhões de euros para implantar um sistema de monitorização e defesa contra drones ao longo das fronteiras com a Ucrânia, a Bielorrússia e o enclave de Kaliningrado. Os governos alemão, italiano e grego não estiveram pelos ajustes e desaprovaram publicamente o projeto, criticando o financiamento dessa ideia estapafúrdia com fundos europeus. Entretanto, voltou a ser novamente ventilada a tão almejada possibilidade de instalar uma zona de interdição aérea em território ucraniano.

Estes incidentes têm justificado uma feroz narrativa russófoba por parte das chancelarias europeias, apelando à inevitabilidade da guerra. Provavelmente depois de ter ingerido uma dose considerável de Red Bull, o chefe do Estado-Maior do Exército francês General Pierre Schill falou da guerra contra a Rússia “já”. “O Exército francês tem de estar pronto esta noite” para enfrentar os desafios de uma guerra de alta intensidade.

Os preparativos da Europa para uma guerra contra a Rússia são mais do que evidentes e públicos. Na sequência da dita cimeira, em Copenhaga, o presidente da Sérvia Aleksandar Vucic declarou que os países da NATO se estão a preparar seriamente para a guerra. Numa entrevista ao “The Guardian”, o presidente finlandês Alexander Stubb admitiu abertamente que as chamadas “garantias de segurança” da UE para Kiev significavam que os países europeus signatários devem estar preparados para lutar diretamente contra a Rússia.

O deputado do Bundestag Roderich Kizevetter veio dizer que foram registados sobre a Alemanha, nos primeiros oito meses deste ano, mais de 500 voos de drones provenientes de navios russos sobre infraestruturas alemãs de importância crítica. “Estamos a lidar com atos de sabotagem. Portanto, não acredito que não seremos arrastados para esta guerra. A Rússia quer envolver-nos, e devemos ser capazes de nos defender e apoiar a Ucrânia.”

Entretanto, o general britânico Sir Richard Shirreff — antigo segundo-Comandante Supremo Aliado da NATO na Europa — partilhou os seus receios num alarmante artigo publicado pelo Daily Mail, onde explicou como a Rússia, a pedido de Pequim, poderia atacar a NATO num futuro próximo, assim que a China decidisse invadir Taiwan “para distrair o Ocidente”. Shirreff foi ao ponto de indicar a data do ataque da Rússia à NATO (3 de novembro de 2025, pelas 14h GMT+3). Poderíamos dar muitos outros exemplos da irracionalidade que se instalou na cabeça de muitos líderes europeus.

Independentemente do que possa realmente ser, qualquer referência a drones no espaço europeu é de imediato considerada um ato de sabotagem russo, sem ser necessária qualquer investigação ou prova. Com base nisso, certos dirigentes europeus sustentam a narrativa de uma ameaça permanente à segurança europeia. O que não conseguem explicar é a racionalidade de um ataque da Rússia à NATO. Para quê? Cui bono? Será que acreditam no que estão a dizer? Não deixa de ser curioso ninguém na Comunicação Social achar estranho e/ou interrogar-se sobre esta súbita inflação de drones, que contribui para instalar o pânico nas opiniões públicas.

Uma população com medo faz menos perguntas sobre o destino dos seus impostos e é mais facilmente manipulada. O temor dá jeito aos líderes.

Na Dinamarca, estão a transformar a ameaça fantasma dos drones numa emergência pública da forma mais escandalosa que se possa imaginar. A histeria sobre a ameaça russa à Europa permite à burocracia europeia destinar mais fundos à defesa e, em última análise, desenvolver uma narrativa que pode conduzir a um ponto sem retorno. O problema é este e está agravado por uma opinião pública anestesiada, que perdeu a capacidade de questionar e de se opor aos desmandos dos poderes. Daqui não pode vir nada de bom.

A maior fonte de fantasia


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A maior fonte de fantasia destinada a distrair as opiniões públicas do REAL objetivo de quem controla o imperialismo norte-americano (e nunca é o Presidente) são os meios de comunicação globalizados.

Reparem por exemplo no 7 de outubro em Israel.

Mas, ALGUÉM, por mais emotivamente condicionado que seja, acredita que o MAIOR proxi dos EUA, o estado pátria da Mossad, o país com o MAIOR programa de monitoramento humano à escala mundial, o recetáculo da MAIS avançada tecnologia de controle territorial, SE DEIXOU INVADIR POR UM BANDO DE MALTRAPILHOS, SEM LEVANTAR QUALQUER OBSTÁCULO?!

Será mais fácil acreditar no Pai Natal.

Agora, se pensarem que a urgência prioritária dos EUA passava por eliminar o regime iraniano, já “devidamente desgastado” pelos mídia ocidentais relatando à náusea os tais “incidentes com burcas” que, sendo o quotidiano na Arábia Saudita e no Qatar, só aqui se tornavam horrificos, assim talvez já entendam.

Morreram mil israelitas? E depois? Quantos morreram no Iraque ou na Líbia?

Netanyahu, um corrupto a contas com a justiça, tal como Zelensky na Ucrânia, era o personagem perfeito no momento ideal, para aceitar as “contingências” do “alto propósito americano”: ELIMINAR O IRÃO.

O plano está em marcha e toda a mediatização à volta do Hamas (mais um Frankenstein norte-americano/israelita) e dos reféns, são apenas o colorido novelístico que condiciona o público a aceitá-lo. Quanto ao conflito russo/ucraniano, o proxy norte-americano, Bruxelas, tem feito todo o trabalho na perfeição.

A difusão mediática da “INVASÃO RUSSA” teve por parte das estruturas da União Europeia e dos fracos líderes que a compõem, honras quotidianas de primeira página e difusão televisiva.

Tal e qual como NUNCA tiveram os “incidentes” que levaram à dita “invasão” nem, muito menos, a aquiescência TOTAL dos europeus, quer à expansão da norte-americana NATO para a fronteira de segurança russa, quer o LOGRO que foram os acordos de Minsk, quer as tentativas frustradas de controlar a Crimeia, quer a “revolução colorida” conduzida pela neocon Nuland, quer os assassínios em massa no Donbass, quer ainda a eleição de um palhaço corrupto que se prestasse ao desempenho do mesmo papel que Netanyhu desempenha em Israel: garantir o sucesso do PLANO norte-americano custe o que custar.

E QUAL É O PLANO?! USAR a sua proxi, Bruxelas, e a NATO, agora entregue a expensas da Europa, para eliminar o regime russo.

E é tão simplesmente porque o plano está em marcha e É TOTALMENTE assumido por Bruxelas, que a guerra continuará “até ao último ucraniano” ou até ao último cêntimo destinado à saúde ou às reformas dos europeus.

Não porque queiram os EUA derrotar a Federação Russa com armas. Sabem bem que tal é uma impossibilidade. Querem sim manietá-la economicamente até sucumbir. Quer através das sanções europeias que, “PASME-SE”, 24 horas após o início do conflito já estavam a ser indicadas por Bruxelas… quer através da mudança TÃO DESEJADA de compra dos hidrocarbonetos para a América.

Após a neutralização do Irão e da Rússia, a estratégia foca-se no Indo-Pacifico, com ênfase na China de Xi, a qual, acredita o Deep State norte-americano, estará fragilizada sem o apoio dos seus maiores apoiantes em armamento.

Dizem os contadores de histórias, que Trump se encontrou com Putin no Alasca para “tentar” afastá-lo de Xi. Ridículo.

Ambos encenaram a parte da novela que melhor condicionava a emotividade popular. E ambos sabiam que a guerra iria continuar. Por sobrevivência para a Rússia, e por interesse estratégico para Trump.

Contrariamente ao que muitos enfatizam, eu penso que poderão ser os europeus, cansados de governos incapazes e de uma liderança europeia de acéfalos submissos, que poderão iniciar a revolta ao maquiavélico Plano norte-americano de controle pela hegemonia global. Paulatinamente as mudanças dão-se e as mentalidades ficam libertas da amarra sub-reptícia dos órgãos de difusão, TODOS ELES a soldo de um mesmo patrono.

A flotilha: valha-nos Ferro Rodrigues, Pedro Nuno e “Chicão”

(Ana Sá Lopes, in Público, 05/10/2025)


Se tivesse sido André Ventura a enviar à família uma mensagem de que estava há 48 horas sem comida nem água, nos centros de detenção da Venezuela, a compaixão seria imensa neste país político.


Quem ainda não tinha percebido o significado profundo da grande vitória da direita em Maio percebeu agora com as reacções generalizadas à flotilha que Mariana Mortágua e mais três portugueses integraram.

Se havia dúvidas sobre o país que somos hoje, basta dar um salto às redes sociais, ouvir os comentadores, incluindo do PS, e assistir à fúria que uma missão humanitária provocou. Este ambiente político não existia antes de a direita valer dois terços dos votos dos portugueses.

O ódio à flotilha vem de todos os lados, mesmo de quem chama a Netanyahu “fascista” e admite que Israel está a cometer genocídio.

O Bloco de Esquerda é hoje um partido totalmente irrelevante na sociedade portuguesa que só elegeu um deputado. Suscita tanta fúria porquê? Ou é Mariana Mortágua?

Os argumentos contra Mortágua vão desde “porque não foi para o Sudão” ou “para a Ucrânia” a “está a perturbar o processo de paz em curso”. Não sabia que Mortágua tinha tanta influência na resolução de conflitos, mas este ódio é um sintoma da degradação do espaço público.

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Todas estas iniciativas são sempre políticas. Desde quando um acto ser “político” ou “ideológico” passou a ser crime de lesa-pátria? Odeiam Mariana Mortágua por causa do “imposto Mortágua”? Uma péssima notícia para quem ainda não deu por isso: o Governo de direita não acabou com “o imposto Mortágua”. Está em vigor, a menos que o Orçamento agora aprovado em Conselho de Ministros venha a aprovar a sua extinção.

Se a posição da direita, agora maioritária, pode não espantar ninguém (apesar de o Governo ter agora reconhecido o Estado palestiniano, historicamente quase toda a direita é aliada cega das actividades levadas a cabo pelas forças armadas israelitas), o caso da flotilha serviu para perceber como o secretário-geral do PS está perdido, sem rumo e tem só um objectivo neste momento: durar.

Se os ventos são agora desfavoráveis à esquerda, a direcção do PS parece achar que é o “parecer mais de direita” que fará com que o povo um dia o volte a agraciar com bênçãos.

O silêncio de José Luís Carneiro sobre a flotilha e a detenção de Mariana Mortágua e os outros portugueses em Israel — onde o ministro Ben-Gvir foi humilhar os participantes da flotilha acusando-os de ser “terroristas” — tem sido revelador deste medo que percorre algum PS.

Duvido que se o deputado em causa fosse André Ventura (detido na Venezuela, por exemplo, se lá fosse manifestar solidariedade com os presos políticos do regime) não houvesse uma palavrinha de solidariedade não só do PS como dos outros actores políticos em geral.

O incómodo de José Luís Carneiro voltou a ser sentido este domingo quando novamente fugiu às perguntas sobre o assunto, agora sobre a manifestação pela libertação dos portugueses e a mensagem de Ferro Rodrigues. Para Carneiro, “a actualidade política são as autárquicas” e não leu a mensagem de Ferro Rodrigues.

Para que o PS não saísse totalmente envergonhado deste episódio, perante o qual parte dos seus (ainda) eleitores se sentem perplexos, felizmente houve a mensagem de Ferro Rodrigues.

Ferro fez uma crítica dura à posição do líder do CDS e ministro da Defesa — que acusou os participantes da flotilha de “serem apoiantes de terroristas” —​ de ter “enorme gravidade e irresponsabilidade” e lembrou “o tratamento degradante que o ministro da Segurança Nacional de Israel, Ben-Gvir, lhes deu, filmando-os ajoelhados e chamando-lhes terroristas e apoiantes de assassinos”.

Se tivesse sido André Ventura a enviar à família uma mensagem de que estava há 48 horas sem comida nem água, nos centros de detenção da Venezuela, com um ministro a humilhá-lo, a compaixão seria imensa neste país político. Todos os líderes se acotovelariam para manifestar sentida e penhoradamente a sua solidariedade e a exigir a libertação.

Mariana Mortágua, por estes dias, não é pop. Já foi, no tempo em que o Bloco valia 10% e permitiu a José Luís Carneiro tornar-se pela primeira vez governante. Infelizmente, além de Pedro Nuno Santos, que veio condenar os insultos a Mortágua que enchem as redes sociais e não só, praticamente só uma outra voz de decência se fez ouvir: a de Francisco Rodrigues dos Santos, ex-líder do CDS, que não partilha uma única ideia política com Mortágua. “Chicão” disse na CNN sentir-se “revoltado” com quem “achincalha um conjunto de portugueses que teve a coragem de se opor a um genocídio”.

Não sei se o PS acha que tem mais votos nas autárquicas com este posicionamento. Pode sair-lhe o tiro ao lado.

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