O Governo em coligação negativa contra os professores

(Francisco Louçã, in Expresso Diário, 27/11/2018)

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A injunção parlamentar ao Governo para relançar as negociações com os professores é uma boa intenção e nada mais. A esquerda aprova-a pois quer forçar o Governo a portar-se como se fosse sensato e estivesse preparado para governar. Mas o Governo quer guerra e, como anunciou um dirigente socialista em entrevista na edição passada do Expresso, está convencido de que a “opinião pública” virou as costas aos professores e então é eleitoralmente vantajoso atacá-los. Por isso, o Governo nunca quis negociar de boa-fé com sindicatos que aceitavam um pagamento faseado, portanto com perdas para os professores, e decidiu um decreto-lei para envolver o Presidente e ser chumbado no Parlamento. Agora, aceita o ónus de uma votação do PS isolado para simplesmente recusar o princípio da negociação, o mesmo Governo que não se importará de argumentar noutras matérias que o Parlamento abdicou do poder legislativo visto que o cedeu à negociação em concertação social. Ou seja, o Governo quer arrastar a questão para 2019, mesmo correndo o risco de reforçar uma imagem de cinismo a comandar a política.

Para os professores, isto não chega a ser uma vitória. Foram trapaceados pela direita, que ajudou o PS a recusar a única restrição que afligia o Governo, que era a imposição de uma regra concreta de reposição de carreiras, em cinco ou sete anos. Sem essa regra, o apelo a novas negociações permite uma nova ronda de fingimento e fica-se por aí. Os professores ganharam um símbolo, isso não lhes basta para decidir a contenda. A coligação negativa entre o PS e a direita conseguiu para já um empate duvidoso.

Do episódio sobram, mesmo assim, duas lições que vão ser fundamentais no ano que vem. A primeira é que, como se verifica na questão dos professores ou no discurso comemorativo do terceiro aniversário do Governo, o PS está a correr riscos excessivos. A confiança demasiada é imprudente e, pior, coloca o Governo exatamente onde os seus parceiros queriam, a reclamar aventurosamente uma maioria absoluta que é a proposta política mais arrogante. O PS parece não perceber que, numas eleições em que uma vitória da direita é uma impossibilidade absoluta, o único resultado assustador que pode mobilizar a esquerda será o risco de uma maioria absoluta. Entretanto, para os professores, esta arrogância significa que não haverá negociação. Decerto, um Governo sensato teria tratado do assunto antes do Orçamento e evitaria arrastar a questão; pelo contrário, um Governo atrabiliário semeia a discórdia para tentar efeitos de curto prazo com a divisão da sociedade e um ataque rancoroso aos professores. É isso que os professores vão ter pela frente.

A segunda implicação deste episódio parlamentar é que o PSD está a queimar os navios ao chegar à costa: desembarca na praia do Governo e não consegue voltar para trás. Como se viu, anunciou propostas e atitude mas, ao chegar ao momento do voto, limitou-se a acomodar-se ao Governo sempre que se tratou de limitar os benefícios sociais. Assim, o PSD finge que ouve a sociedade votando a injunção parlamentar mas evita que ela tenha qualquer efeito. Esta política é demasiado arriscada, por se notar exuberantemente. A lógica deste PSD é que pretende evitar que o PS fique obrigado a negociar com a esquerda, mas desse modo conforma-se à sua própria derrota.

Assim, o paradoxo do momento presente é que todos acreditam estar a ganhar: o PSD acha que resulta ajudar o PS; o PS, assim, acredita na maioria absoluta; e é esse mesmo sinal de arrogância que leva a esquerda a convencer-se de que pode evitar tal maioria absoluta e a afirmar uma posição ofensiva.

 

Cultura de Graça

(Pedro Santos Guerreiro, in Expresso Diário, 26/11/2018)

PSG

Pedro Santos Guerreiro

(Eu, Estátua de Sal, posso criticar os jornais, discordar do seu alinhamento noticioso, desdenhar da comunicação social. Mas isso sou eu que não sou a Ministra da Cultura.

O Governo e o PS andam cada vez mais nervosos à medida que se aproximam as eleições. É só tiros no pé. Começou a Ministra da Cultura com as touradas; agora sente-se aliviada por não ler jornais portugueses (lembrei-me logo do Cavaco que dizia que também não lia). Depois o César, qual mestre-escola a dar notas, veio chumbar as aptidões do PCP e do BE para governar, dizendo que “não estão preparados”. E para culminar até António Costa, opinando sobre a greve dos estivadores, onde arrasou por completo os direitos de quem trabalha, teve a sua pior e mais lamentável prestação desde que é Primeiro Ministro.

Não, o PS não pode ser deixado à solta. Faz-me lembrar o meu cão. Quando sai à rua só com trela e, de preferência, trela bem curta.

Comentário da Estátua, 27/11/2018)


Um mês de trabalho depois, a ministra da Cultura já precisa de férias dos jornais portugueses. Podia ser enfado, mas é desrespeito pela própria função. Podia ser uma gaffe, mas é uma estupidez. Da ministra. Da Cultura. Da pasta da comunicação social. Daqui a nada está a pedir “deixem-me trabalhar”.

Não há como usar ironias, uma frase bruta precisa de posições brutas. “Uma coisa ótima de estar em Guadalajara é que não vejo jornais portugueses”, diz Graça Fonseca, com um sorriso nos lábios de quem não sabe que cargo desempenha ou, talvez seja melhor dizer, do cargo que ocupa. Habituada a política de gabinete, Graça Fonseca deve estar a adorar passear pelo México como atriz convidada, rodeada de uma corte de literatos, afinal é uma experiência. A experiência de uma ministra à experiência.

À experiência, sim, porque Graça Fonseca nunca tinha tocado estas bandas, o que não é eliminatório. O seu perfil assegurava robustez política, mas em meia de dúzia de semanas já magnetizou duas polémicas. O seu perfil sugeria a humildade de quem iria ouvir, mas compraz-se por nem sequer ler. O seu perfil criava o benefício da dúvida, que tem aniquilado com o malefício da falta de dúvidas.

Eliminatório é o desdém fútil. Eliminatório é cultivar a não leitura de jornais, porque o regozijo com essa sua “coisa ótima” é uma sugestão a leitores para que deixem de o ser. Se governar fosse só gerir um orçamento, Graça Fonseca seria uma casa decimal, mas é a ação e o discurso político que podem fazer de um ministro um número inteiro. Com piadas como esta, a ministra parece concorrer furiosamente para ser um zero, um zero à esquerda.

Os jornais são contrapoder ou não são jornais. Fazem perguntas, têm memória, duvidam, cobram promessas, cruzam factos e têm a mania de publicar coisas diferentes das que o poder gostaria. No país ideal de Graça Fonseca não havia notícias, havia comunicados. Hoje, por exemplo, talvez lhe fosse aprazível que todos os jornais tivessem como manchete “Governo cumpre três anos de sucessos”, sobre uma fotografia de António Costa em Bruxelas com a legenda “Estadistas europeus vergam Reino Unido às misérias da saída da UE” e uma chamada para “Graça Fonseca leva cultura portuguesa aos píncaros no México”. Notícias sobre o mau serviço da CP, zero. Do favor que a Santa Casa esteve para fazer há um ano injetando 170 milhões no Montepio, nem uma breve. De Marcelo, nada nunca. Da estrada de Borba, da greve dos estivadores ou das negociações com os professores, coisa nenhuma.

É mesmo preciso dizer a Graça Fonseca que só os políticos autocráticos ou ignorantes dissuadem interessadamente a leitura de jornais? É mesmo preciso dizer à ministra da Cultura o que é cultura?

É por isso que há políticos que gostariam de escolher jornalistas, de condicionar perguntas e que repetem frases sobre decadências e dependências dos jornais, fogo tão fácil de atear nas redes sociais. A quem mais convirá que os jornais enfraqueçam do que ao poder? Quem beneficiará mais de criar má reputação? Querem mesmo um país sem jornalistas exigentes e sem leitores inteligentes? É mesmo preciso explicar Trump? É mesmo preciso dizer a Graça Fonseca que só os políticos autocráticos ou ignorantes dissuadem interessadamente a leitura de jornais? É mesmo preciso dizer à ministra da Cultura o que é cultura?

Talvez Graça Fonseca tenha acordado feliz naquela manhã em Guadalajara, nimbada de orgulho por representar Portugal como país convidado de honra na Feira Internacional do Livro. Talvez tenha aberto jornais mexicanos e lido artigos semelhantes sobre Portugal: que não, não é apenas o país de Ronaldo, de Saramago e de Pessoa, que há “escritores como António Lobo Antunes, Nuno Júdice, José Luís Peixoto y Gonzalo M. Tavares”. Talvez tenha pensado no poema de Pessoa e sentido o prazer de não cumprir um dever, ter um jornal para ler e não o fazer. Talvez tenha à tarde cruzado as mãos com a poeta uruguaia Ida Vitale, que aos 95 anos recebeu o grande prémio na Feira, que lê jornais e se diz pasmada com a coluna de emigrantes que chega ao México a caminho dos Estados Unidos, onde na Casa Branca está “o monstro ruivo”, como lhe chama.

Talvez pudesse ter sido só isto, uma resposta enfastiada à pergunta anticlímax de uma jornalista sobre touradas. Mas não é só isto. É uma ministra da Cultura possivelmente deslumbrada com o seu novo cartão de crédito cultural e provavelmente feliz por estar longe de Portugal e dos seus jornais.

No fundo, ser ministra da Cultura é “uma coisa ótima”. Graça Fonseca ainda está fora de Portugal, aliás, pelo que este texto não vai ler. Ou, como diz a ministra, não vai ver. Está certo. Como escreveu um heterónimo do poeta, “eu sou do tamanho do que vejo”.

 

As reveladoras incompreensões de António Costa

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 26/11/2018)

Daniel

Daniel Oliveira

(Ó Daniel, grande sova no Costa, quer pela força do murro, quer pela elegância da execução, mas justamente merecida. A Estátua assume uma pontinha de inveja porque não conseguiria escrever melhor, e assina de cruz toda a prosa, o que é raríssimo suceder com os textos que publica de outros escribas, que não os dela própria . Parabéns e go on. 🙂

Comentário da Estátua, 27/11/2018)


Perante a paralisação dos estivadores precários do porto de Setúbal e a intervenção policial para ajudar substituir os grevistas, António Costa foi obrigado a vir em socorro da ministra do Mar. E fê-lo da pior maneira: repetindo uma mentira veiculada pela entidade empregadora. Disse: “Estão abertos concursos para a contratação de pessoal efetivo. Tenho muita dificuldade em compreender porque é que alguns dos eventuais que estão em greve exigindo ser efetivos não concorrem e respondem a essas ofertas em emprego para serem efetivos.” E depois dedicou-se a atacar um sindicato que é “uma condicionante ao bom funcionamento do porto”. Não reservou o mesmo género de críticas a uma empresa que tem 90% de precários. Se a posição neutral já seria difícil de defender – porque não estamos perante lados com igual força –, esta posição foi um murro na barriga.

A mentira é esta: não foi aberto concurso algum. A empresa contactou trinta trabalhadores para aceitarem integrar os quadros através de contratos individuais. A tática é antiga: dividir para reinar. E estes recusaram porque querem ser integrados através de uma negociação coletiva com os sindicatos que tenha em conta a situação de todos. Em vez do desenrasque da sua situação particular, para partir a luta destes estivadores, estes trabalhadores esperam solidariedade entre trabalhadores e concertação social. Se António Costa tem dificuldade em compreender estes dois valores é porque não sabe que eles estão na fundação da social-democracia e do socialismo democrático. Lamentavelmente, o PS não tem a origem sindical e operária da maioria dos seus congéneres europeus. Se tivesse, a intervenção policial e estas declarações de Costa teriam levado a reações firmes da militância. Pelo menos mais audíveis do que as ouvidas sobre a polémica da tourada.

Felizmente, há esperança. O discurso que se espera de um socialista veio da JS do Porto. Que não só pôs os pontos onde eles têm de estar como não hesitou em criticar o comportamento do Governo. Não é raro serem os novos a ensinarem os velhos. E são estes jovens, que cresceram nas duas décadas de traição da social-democracia, de que a terceira via foi apenas o mais deprimente dos suicídios, que vão dar a volta a isto. Mesmo que a velha guarda resista.

Esta intervenção de António Costa, que deixa a concessionária turca mais confortável para esticar a corda e um acordo mais distante, é das mais reveladoras de toda a sua carreira política. Num conflito com uma empresa que emprega 90% dos seus trabalhadores ao dia, optou por enviar a polícia para garantir a substituição dos grevistas e por ser porta-voz de quem não tem defesa possível, repetindo até as suas mentiras

Não há qualquer intransigência do sindicato que era de Lisboa e está a crescer noutros portos, para substituir sindicatos corruptos que ignoram os direitos dos precários e são intermediários para o trabalho à jorna. Com esses, é verdade, tem sido fácil “trabalhar”. O Sindicato dos Estivadores e Atividades Logísticas (SEAL) fez uma proposta aceitável para os 90 trabalhadores que estão em causa: que fossem integrados 56 e que os restantes tivessem prioridade na contratação ao turno (é assim que as pessoas são contratadas no porto de Setúbal – ao turno). Não era a solução ideal, mas era um compromisso. A concessionária turca, que desde este fim de semana conta com um porta-voz de luxo, optou pelo truque de tentar acabar com a greve através da divisão dos trabalhadores.

Todos estamos preocupados com as exportações e com o que acontece no porto de Setúbal. Note-se, no entanto, que a Autoeuropa, que é a maior prejudicada, não teve a leviandade de António Costa. Não tomou partido pela concessionária, que é quem tem de resolver o problema. Nem me parece que esteja satisfeita com a solução de ir abrindo, através da PSP, momentos de exceção a uma greve para garantir o embarque da sua mercadoria. E apenas da sua, o que é de legalidade duvidosa e deve levar a ministra do Mar e o ministro da Administração Interna a darem explicações ao Parlamento e ao país. Primeiro, porque a cultura desta empresa alemã não é dada a este tipo de expedientes, dignos de uma república das bananas. Depois, porque isto sai demasiado caro. A Autoeuropa quer uma solução negociada, como costuma encontrar na sua própria casa. Com esta intervenção de Costa a concessionária turca sente-se mais confortável para esticar a corda e o acordo fica mais distante. E, no entanto, o que se esperaria de um primeiro-ministro era uma pressão junto da empresa para resolver o problema. O Governo tem todos os instrumentos para isso e se o tivesse feito esta greve já tinha acabado. Preferiu pressionar a parte fraca.

Poderão dar pouca importância ao sucedido, mas esta intervenção de António Costa é das mais reveladoras de toda a sua carreira política. Num conflito entre trabalhadores e uma empresa que emprega 90% dos seus trabalhadores ao dia, o primeiro-ministro optou por enviar a polícia para garantir a substituição dos grevistas, violando o direito à greve, e por ser porta-voz de quem não tem defesa possível, repetindo as suas mentiras sem qualquer pudor. Se houve dia em que fiquei com a certeza de que o grande objetivo das próximas eleições é impedir que António Costa tenha a maioria absoluta, esse dia foi na sexta-feira. Infelizmente, ainda precisa de quem, pela força do voto, o segure à esquerda. Pelo menos nos mínimos dos mínimos.