E não podemos deslocalizar as maternidades?

(In Blog O Jumento, 11/09/2017)
maternidade
O grande argumento contra a greve na Autoeuropa foi o risco de a fábrica vir a ser deslocalizada, tudo porque os trabalhadores daquela empresa fizeram uma greve de um dia ao fim de muitos anos de entendimento laboral. Na ocasião falou-se muito da luta entre o BE e o PCP pelo controlo das estruturas representativas dos trabalhadores daquela empresa. O sindicato que liderou a greve foi criticado por tudo e por todos.
Agora os enfermeiros fazem uma greve de uma semana, promovida por uma dirigente nacional do PSD, onde não se percebe muito bem o que se reivindica, a não ser a esperança de fazer o Estado ceder e conseguir aumentos que dizem ser de mais de 100%. Parece também que, animados pelo movimento dos enfermeiros das maternidades, se pretende a criação de carreiras de especialistas, à semelhança do que sucede com os médicos.
Há uma evidente corrida ao pote liderada por uma bastonária que supostamente não tem funções sindicais, mas que usa uma linguagem e agressividade que faz corar os sindicalistas da Autoeuropa. Qual são as diferenças entre a greve da Autoeuropa e a dos enfermeiros?
Na Autoeuropa foi um escândalo a greve ser liderada por sindicatos, enquanto nos enfermeiros ninguém repara que há uma bastonária a criar mau ambiente e que é uma verdadeira líder sindical. Na Autoeuropa os sindicalistas referem-se aos gestores da empresa com respeito e cortesia, enquanto a bastonária cria um ambiente de faca na liga. Na Autoeuropa os trabalhadores não querem mais, quem apenas defender direitos que tinham. Na AutoEuropa acusa-se o sindicato de estar ao serviço do PCP, enquanto nos enfermeiros ignora-se que a bastonária é dirigente nacional do PSD. Na Autoeuropa os trabalhadores não se gabam dos prejuízos que a greve provocou, nos enfermeiros a bastonária orgulha-se de haverem mães a procurarem onde parir, sinal da sua grandeza sindical A Autoeuropa pode ser deslocalizada, as maternidades e os hospitais não.
Aquilo a que estamos a assistir é a uma bastonária e dirigente nacional do PSD tentando meter o SNS de pernas para o ar com uma greve de uma semana. A lógica é simples, em tempo de eleições vamos tentar destruir o SNS se não lhes derem o dobro do que têm. Se pudesse fazer o mesmo também faria, quem não faria uma greve de uma semana se fosse premiado com o dobro do ordenado.
Note-se que os enfermeiros não iniciaram a corrida ao pote em tempo de eleições, os juízes também querem ganhar mais. É óbvio que ninguém o diz de forma clara, a bastonária/sindicalista/dirigente do PSD está muito preocupada com a qualidade dos cuidados de saúde. Por sua vez, os juízes sindicalistas não conseguem dormir porque está em causa a democracia. Enfim, tudo boa gente muito preocupada com o país.
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Viva o 1º de Maio

(Por Estátua de Sal, 01/05/2017)

1ºMAIO1

Já banalizámos a Liberdade. Como banal já é também o sol, a guerra, a miséria e a morte. Como se pela Liberdade não tivesse sido necessário lutar, sofrer, trepar muros a pique, e também morrer. Como se aquilo que aos trabalhadores é dado fosse uma dádiva divina e não o resultado de um combate de séculos, sangrento muitas vezes, e que irá durar até ao fim dos tempos.

Numa época prenhe dos sobressaltos da dívida, do déficit, do PIB e dos cofres vazios de um Portugal carente, esquecemos muitas vezes que há coisas que nenhum dinheiro compra. A História e a memória dos homens. “Aqueles que se vão da lei da morte libertando”, como dizia Camões. Temos, pois, a riqueza do nosso passado.

Um passado nem sempre trágico, nem sempre marítimo, e por vezes heróico.

Como em Abril de 1974. Como em Maio de 1974. Para que a memória dos mais velhos não se apague, para que a memória dos mais novos nos acolha, em testemunho e norte para a luta dos vindouros.

Não festejamos a chegada da Primavera. Essa já chegou. Festejamos o trabalho e os trabalhadores. Porque a festa também pode ser luta, rumo para a fraternidade que gera a união. União na festa, união na luta contra a exploração.

Contra a precariedade. Luta pela alvorada de uma vida digna a que muitos não tem direito. E são cada vez mais. Sem esperança e sem futuro mas com medo. Medo do amanhã porque nada mais têm de seu que não o suor, as lágrimas e a vontade de estar vivos.

E dizem os oráculos que tem que ser assim. Menos direitos, menos salários, mais e mais horas de trabalho. É a competitividade, dizem também os fariseus, os adoradores do bezerro de ouro.

Mas nada é imutável, mas também nada nos é dado sem peleja. Em 1974 lutou-se e celebrou-se a Liberdade de lutar. Hoje podemos e devemos lembrar esse momento. (Ver textos, fotos e vídeos, aqui).
Para que nos sirva de guia. A luta, aparentemente, é diferente. Ou talvez não. Porque a luta é sempre contra o conformismo, contra o nosso silêncio perante a arbitrariedade, a injustiça e a desigualdade.

E, essa luta será sempre uma labareda perene no coração de todos aqueles que se empenham em lutar por um mundo melhor. Que sejamos muitos. Que sejamos cada vez mais.

O 1º de Maio, seguido de homenagem.

1º DE MAIO

Há quem diga que já não há trabalhadores. Os trabalhadores teriam sucumbido sob os escombros de uma qualquer praga de robots, admirável mundo novo de carcaças inteligentes, e são agora ditos colaboradores.

Há quem diga que também já não há patrões. Os patrões teriam comungado o espírito da solidariedade e acordado numa manhã solar, imprevista e inédita, e são agora empresários, empreendedores, iniciados do saber-fazer.

Há quem diga que também já não há propriedade. Pelo menos com cara, a efígie do sinete, a lacre. A propriedade agora é uma profusão de incógnitas e atómicas vontades, a disseminação abstracta e sem rosto das cotações em bolsa.

Há quem diga também que já não há capital, enquanto relação social de domínio, e que tudo não passou de um delírio de um judeu barbudo, errante figura a deambular entre a crítica da economia política e a visão de um mundo novo, plasmada em guias de marcha para consumo das massas proletárias.

Há ainda quem diga que já não há política. Pelo menos a política das causas. As causas foram enterradas, com pazadas fortes e sincopadas, desferidas por tecnocratas de fato azul, que servem os modelos da inevitabilidade do mundo plausível que sai das equações. E que só resta o balançar entre saldos da economia do deve e do haver, deficit e superavit das contas bancárias dos conglomerados e das contas públicas dos Estados falidos.

Há quem diga, por isso, que se quer menos Estado, de boas contas, inefável ausência, espectador passivo, polícia dos feirantes e mercadores de almas, não mais que uma confrangedora criatura demitida da cidade e dos cidadãos. A cada um segundo a sua capacidade, de cada um segundo o seu preço: os mercados são omniscientes, os mercados tratam de tudo. Do berço à campa vai uma sala de leilões e somos licitados sempre pela melhor oferta.

Há quem diga ainda, e por corolário, que a Democracia não é já senão um atavismo de românticos gregos, que teima em ressuscitar de quatro em quatro anos, para perturbar a harmonia celeste do asséptico mundo dos contabilistas.

Há quem diga ainda, e finalmente, que já não deveria haver 1º de Maio, Dia do Trabalhador, porque já não há trabalhadores. Ou porque somos todos trabalhadores, e nunca se celebra a regra mas a excepção, nunca se celebra o normal mas sim o inusitado.

Mas há sempre os duvidam. Herdeiros da heresia. As memórias das multidões unidas em marchas e cânticos pela Liberdade e pelo orgulho do seu suor feito obra, feito pão.

O 1º de Maio nasceu das lutas e das manifestações dos trabalhadores pelos seus direitos e pela dignificação do trabalho. Foi assim que se propalou ao mundo e se instituiu, como data marcante. Dignificação cada vez mais espezinhada, direitos cada vez mais amarrotados.

Os direitos não se reclamam, conquistam-se. E as conquistas são como as marés: vão e vem ao sabor do ritmo dos dias, e das cadências lunares. E muitas das conquistas dos trabalhadores de décadas passadas estão hoje, aqui como em muitos lugares e latitudes, a ser revogadas quotidianamente.

Por tudo isso, o 1º de Maio, devia ser hoje mais combate que festa. Mais cerrar fileiras que engalanar varandas ao som de estribilhos de outras eras. Mais cavar trincheiras que plantar cravos nos punhos erguidos em uníssono.

Porque há trabalhadores cada vez mais despojados de direitos, cada vez mais sujeitos ao livre-arbítrio e à opressão. Cada vez mais baratos. A cada um segundo a sua capacidade, de cada um segundo o seu preço. E de preços sabem os mercados. Vendem-se as raivas, vende-se o suor, vendem-se as almas. Já não se fala em salário digno. Fala-se em preço certo. Preço de equilíbrio de mercado. É a oferta e a procura de sangue, como se de uma banal mercadoria se tratasse. A miséria em nome da competitividade. Ser competitivo é ser miserável, é esta a norma dos novos alquimistas da economia de casino.

Porque há também trabalhadores despojados de trabalho, alimentando as filas da indigência e essa praga da economia dos mercados sem rédea que é o desemprego. Mais uma vez é a ditadura dos mercados a funcionar, dizem eles, a clarividência da oferta e da procura. Se estão desempregados é porque querem salários muito altos. Os mercados são sábios, e não ajustam o que não podem ajustar. Que venham, pois, os políticos fazer o trabalho sujo do ajustamento. Alterem as leis, cerceiem os direitos, dividam para reinar, propaguem a insídia e o medo. O medo, esse elixir primitivo que castra a mente e cala as consciências, mesmo aos mais temerários.

Como se os mercados não fossem uma criação humana mas divina. Como os seus mecanismos e resultados últimos não resultassem de uma conflitualidade de interesses e de vontades de humana criação. Os Deuses, de facto, não se discutem. Veneram-se, denegam-se ou ignoram-se. As criações humanas, pelo contrário. Nascem, vivem, reformam-se ou revolvem-se, e muitas morrem mesmo. Não há perenidade na coisa humana. Há contingência e finitude.

É por isso que a política das causas não está morta. A História não está parada nem o seu fim se decreta por filosóficos ou económicos axiomas. As desigualdades têm progredido nas últimas décadas e trepado a patamares quase feudais, transpostas as diferenças nas capacidades de produção actuais e os níveis tecnológicos dos dias de hoje. E isso só pode gerar fome e sede de Justiça, e as condições de empenho e garra para lutar por um mundo mais justo e equitativo.

O 1º de Maio, mais que a festa, que seja a reflexão sobre as nuvens que pairam sobre o mundo do trabalho e sobre o futuro daqueles que mais nada tem do que a sua força de trabalho, braços e mente ao serviço da sua sobrevivência.

O 1º de Maio pode ser de muitas cores. Policromático como o arco-íris de um fim de tarde em que o estio sucedeu à borrasca. Policromático como um caleidoscópio mirífico, encantamento para divertir os revoltados e os manter passivos e servis.

Mas, ainda assim, o 1º de Maio será sempre vermelho, como vermelho é o sangue que pulsa no coração dos homens e das mulheres que clamam por Justiça e pelo direito a uma vida digna. Sempre foi assim. E sempre assim será até ao fim dos tempos.


CRAVO

Em homenagem e em memória:

Hoje, alguém que muito me é querido, terminou a sua viagem entre os vivos.

A morte é uma assombração que nos esbofeteia as entranhas.

Qualquer coisa que sufoca e nos espalha a impotência por entre os dedos.

Para ti, Pai, porque foste um trabalhador raramente compensado de acordo com os teus saberes e empenho, e raramente tratado com a Justiça que merecias, aqui deixo este texto.

Neste 1º de Maio, para o trabalhador que sempre foste, para o amigo que sempre esteve, pelo que fizeste e pelo que lutaste, uma flor vermelha, e uma lágrima rebelde.

Estátua de Sal

01/05/2015