Cultura de Graça

(Pedro Santos Guerreiro, in Expresso Diário, 26/11/2018)

PSG

Pedro Santos Guerreiro

(Eu, Estátua de Sal, posso criticar os jornais, discordar do seu alinhamento noticioso, desdenhar da comunicação social. Mas isso sou eu que não sou a Ministra da Cultura.

O Governo e o PS andam cada vez mais nervosos à medida que se aproximam as eleições. É só tiros no pé. Começou a Ministra da Cultura com as touradas; agora sente-se aliviada por não ler jornais portugueses (lembrei-me logo do Cavaco que dizia que também não lia). Depois o César, qual mestre-escola a dar notas, veio chumbar as aptidões do PCP e do BE para governar, dizendo que “não estão preparados”. E para culminar até António Costa, opinando sobre a greve dos estivadores, onde arrasou por completo os direitos de quem trabalha, teve a sua pior e mais lamentável prestação desde que é Primeiro Ministro.

Não, o PS não pode ser deixado à solta. Faz-me lembrar o meu cão. Quando sai à rua só com trela e, de preferência, trela bem curta.

Comentário da Estátua, 27/11/2018)


Um mês de trabalho depois, a ministra da Cultura já precisa de férias dos jornais portugueses. Podia ser enfado, mas é desrespeito pela própria função. Podia ser uma gaffe, mas é uma estupidez. Da ministra. Da Cultura. Da pasta da comunicação social. Daqui a nada está a pedir “deixem-me trabalhar”.

Não há como usar ironias, uma frase bruta precisa de posições brutas. “Uma coisa ótima de estar em Guadalajara é que não vejo jornais portugueses”, diz Graça Fonseca, com um sorriso nos lábios de quem não sabe que cargo desempenha ou, talvez seja melhor dizer, do cargo que ocupa. Habituada a política de gabinete, Graça Fonseca deve estar a adorar passear pelo México como atriz convidada, rodeada de uma corte de literatos, afinal é uma experiência. A experiência de uma ministra à experiência.

À experiência, sim, porque Graça Fonseca nunca tinha tocado estas bandas, o que não é eliminatório. O seu perfil assegurava robustez política, mas em meia de dúzia de semanas já magnetizou duas polémicas. O seu perfil sugeria a humildade de quem iria ouvir, mas compraz-se por nem sequer ler. O seu perfil criava o benefício da dúvida, que tem aniquilado com o malefício da falta de dúvidas.

Eliminatório é o desdém fútil. Eliminatório é cultivar a não leitura de jornais, porque o regozijo com essa sua “coisa ótima” é uma sugestão a leitores para que deixem de o ser. Se governar fosse só gerir um orçamento, Graça Fonseca seria uma casa decimal, mas é a ação e o discurso político que podem fazer de um ministro um número inteiro. Com piadas como esta, a ministra parece concorrer furiosamente para ser um zero, um zero à esquerda.

Os jornais são contrapoder ou não são jornais. Fazem perguntas, têm memória, duvidam, cobram promessas, cruzam factos e têm a mania de publicar coisas diferentes das que o poder gostaria. No país ideal de Graça Fonseca não havia notícias, havia comunicados. Hoje, por exemplo, talvez lhe fosse aprazível que todos os jornais tivessem como manchete “Governo cumpre três anos de sucessos”, sobre uma fotografia de António Costa em Bruxelas com a legenda “Estadistas europeus vergam Reino Unido às misérias da saída da UE” e uma chamada para “Graça Fonseca leva cultura portuguesa aos píncaros no México”. Notícias sobre o mau serviço da CP, zero. Do favor que a Santa Casa esteve para fazer há um ano injetando 170 milhões no Montepio, nem uma breve. De Marcelo, nada nunca. Da estrada de Borba, da greve dos estivadores ou das negociações com os professores, coisa nenhuma.

É mesmo preciso dizer a Graça Fonseca que só os políticos autocráticos ou ignorantes dissuadem interessadamente a leitura de jornais? É mesmo preciso dizer à ministra da Cultura o que é cultura?

É por isso que há políticos que gostariam de escolher jornalistas, de condicionar perguntas e que repetem frases sobre decadências e dependências dos jornais, fogo tão fácil de atear nas redes sociais. A quem mais convirá que os jornais enfraqueçam do que ao poder? Quem beneficiará mais de criar má reputação? Querem mesmo um país sem jornalistas exigentes e sem leitores inteligentes? É mesmo preciso explicar Trump? É mesmo preciso dizer a Graça Fonseca que só os políticos autocráticos ou ignorantes dissuadem interessadamente a leitura de jornais? É mesmo preciso dizer à ministra da Cultura o que é cultura?

Talvez Graça Fonseca tenha acordado feliz naquela manhã em Guadalajara, nimbada de orgulho por representar Portugal como país convidado de honra na Feira Internacional do Livro. Talvez tenha aberto jornais mexicanos e lido artigos semelhantes sobre Portugal: que não, não é apenas o país de Ronaldo, de Saramago e de Pessoa, que há “escritores como António Lobo Antunes, Nuno Júdice, José Luís Peixoto y Gonzalo M. Tavares”. Talvez tenha pensado no poema de Pessoa e sentido o prazer de não cumprir um dever, ter um jornal para ler e não o fazer. Talvez tenha à tarde cruzado as mãos com a poeta uruguaia Ida Vitale, que aos 95 anos recebeu o grande prémio na Feira, que lê jornais e se diz pasmada com a coluna de emigrantes que chega ao México a caminho dos Estados Unidos, onde na Casa Branca está “o monstro ruivo”, como lhe chama.

Talvez pudesse ter sido só isto, uma resposta enfastiada à pergunta anticlímax de uma jornalista sobre touradas. Mas não é só isto. É uma ministra da Cultura possivelmente deslumbrada com o seu novo cartão de crédito cultural e provavelmente feliz por estar longe de Portugal e dos seus jornais.

No fundo, ser ministra da Cultura é “uma coisa ótima”. Graça Fonseca ainda está fora de Portugal, aliás, pelo que este texto não vai ler. Ou, como diz a ministra, não vai ver. Está certo. Como escreveu um heterónimo do poeta, “eu sou do tamanho do que vejo”.

 

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7 pensamentos sobre “Cultura de Graça

  1. Caro director,
    Não sei se foi pensamentos e atitudes como a desta ministra que contribuíram para o estado actual de falência da imprensa em Portugal (Marcelo falou há pouco desta situação) mas sei que foram os próprios jornais e, consequentemente, os seus jornalistas e jornalismo que paulatinamente afastaram os leitores dos jornais.
    São os seus trabalhadores mais interessados em ser lidos, comentados e considerados pelos leitores que se deixaram enredar não no jornalismo de informação e opinião isenta mas em comentaristas políticos partidários encapotados. Se por acaso quiseram servir mais obedientemente os patrões para ganhar mais uns cobres de imediato, deviam ter pensado que a longo prazo a coisa daria para o torto.
    Por cá quem comprava e lia jornais era uma classe média que se zangou com o jornalismo visceralmente engajado a fazer política de forma cúmplice com partidos quando esperava informação honesta e completa dos casos para, por si e sua sensibilidade própria, formar em consciência a sua opinião.
    Eu próprio comprei o “Expresso” desde o 1º número e deixei de o fazer em meados dos anos’80, depois o mesmo com o “Público” e “DN”.
    Hoje, quando vou ao café e está na mesa o “cm” da manha dou-lhe uma olhadela pois se tenho de ler jornalismo de “manha” pela cópia então melhor é fazê-lo directamente no original e onde salta logo à vista a mentira e manipulação.

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  2. Que o snr Santos Guerreiro, jornalista medíocre, defenda a sua dama, ainda aceito.
    O que não admito, é o comentário vergonhoso da Estátua. Esse corporativismo fica-vos muito mal.
    Presentemente, a CS portuguesa, toda ela, falada e escrita é uma vergonha nacional.
    Deviam, ao menos, todos vocês, jornalistas, ter a decência de ouvir, calar e fazer mea culpa.

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    • Isabelinha, quer desenvolver um pouco mais os seus pesares, passamentos e… pensamentos?

      Sobre isto, nomeadamente, qu’estou confuso.

      – «corporativismo»
      – «a CS portuguesa, toda ela, falada e escrita é uma vergonha nacional.»
      – «todos vocês, jornalistas, ter a decência de ouvir, calar e fazer mea culpa.»

      Nota, entretanto. Vi que, n’A Estátua de Sal, defendeu o José Pacheco Pereira merecidamente, que disse algo sobre a Isabel Moreira-duplamente-filha-do-Regime, que se confessa leitora atenta do senhor Daniel Oliveira, que evocou ao Manuel G. o lapso sobre a senhora Ivone porque, eventualmente, não gostará da senhora Irene e que, num tempo distante, não gostava nada do idiota Bruno Maçães («Keep calm and be happy diz em inglês para os portugueses que é um rematadíssimo idiota. Não era preciso. Nós sabemos.», hum).

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      • Ah, e alargue a sua resposta até à blogosfera indígena que é um dos pontos essenciais bem referidos pelo PSL (parágrafo que o Manuel G. imagino que leu, mas não deixou de assobiar para o lado…).

        «É por isso que há políticos que gostariam de escolher jornalistas, de condicionar perguntas e que repetem frases sobre decadências e dependências dos jornais, fogo tão fácil de atear nas redes sociais. A quem mais convirá que os jornais enfraqueçam do que ao poder? Quem beneficiará mais de criar má reputação? Querem mesmo um país sem jornalistas exigentes e sem leitores inteligentes? É mesmo preciso explicar Trump? É mesmo preciso dizer a Graça Fonseca que só os políticos autocráticos ou ignorantes dissuadem interessadamente a leitura de jornais?», cito.

        Nota, Isto talvez a, e vos, ajude a pensar num assunto sificientemente complexo em que, para o fazer, temos de ter os pés bem assentes no chão e que por mim abordei, de vez em quando, por aqui.

        https://estatuadesal.com/2018/09/20/o-expresso-e-as-fake-news/#comment-10887

        https://estatuadesal.com/2018/09/22/o-expresso-faz-mea-culpa/#comment-10937

        https://estatuadesal.com/2018/10/22/nao-ha-noticias-falsas/#comment-11413

        [Depois eu volto, prometo.]

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          • Das duas uma, ó Manuel G.

            Ou a siesta foi colectivizada n’A Estátua de Sal e, a partir de hoje, entrará pelos vistos noite dentro, ou estamos perante mais um caso evidente d’o direito à defesa, como diz a sôtora Virgínia, No País das Maravilhas, O que pensas sobre, muito-pouco-ou-nada?

            5 pensamentos sobre “O direito à defesa”, hum?

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