As reveladoras incompreensões de António Costa

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 26/11/2018)

Daniel

Daniel Oliveira

(Ó Daniel, grande sova no Costa, quer pela força do murro, quer pela elegância da execução, mas justamente merecida. A Estátua assume uma pontinha de inveja porque não conseguiria escrever melhor, e assina de cruz toda a prosa, o que é raríssimo suceder com os textos que publica de outros escribas, que não os dela própria . Parabéns e go on. 🙂

Comentário da Estátua, 27/11/2018)


Perante a paralisação dos estivadores precários do porto de Setúbal e a intervenção policial para ajudar substituir os grevistas, António Costa foi obrigado a vir em socorro da ministra do Mar. E fê-lo da pior maneira: repetindo uma mentira veiculada pela entidade empregadora. Disse: “Estão abertos concursos para a contratação de pessoal efetivo. Tenho muita dificuldade em compreender porque é que alguns dos eventuais que estão em greve exigindo ser efetivos não concorrem e respondem a essas ofertas em emprego para serem efetivos.” E depois dedicou-se a atacar um sindicato que é “uma condicionante ao bom funcionamento do porto”. Não reservou o mesmo género de críticas a uma empresa que tem 90% de precários. Se a posição neutral já seria difícil de defender – porque não estamos perante lados com igual força –, esta posição foi um murro na barriga.

A mentira é esta: não foi aberto concurso algum. A empresa contactou trinta trabalhadores para aceitarem integrar os quadros através de contratos individuais. A tática é antiga: dividir para reinar. E estes recusaram porque querem ser integrados através de uma negociação coletiva com os sindicatos que tenha em conta a situação de todos. Em vez do desenrasque da sua situação particular, para partir a luta destes estivadores, estes trabalhadores esperam solidariedade entre trabalhadores e concertação social. Se António Costa tem dificuldade em compreender estes dois valores é porque não sabe que eles estão na fundação da social-democracia e do socialismo democrático. Lamentavelmente, o PS não tem a origem sindical e operária da maioria dos seus congéneres europeus. Se tivesse, a intervenção policial e estas declarações de Costa teriam levado a reações firmes da militância. Pelo menos mais audíveis do que as ouvidas sobre a polémica da tourada.

Felizmente, há esperança. O discurso que se espera de um socialista veio da JS do Porto. Que não só pôs os pontos onde eles têm de estar como não hesitou em criticar o comportamento do Governo. Não é raro serem os novos a ensinarem os velhos. E são estes jovens, que cresceram nas duas décadas de traição da social-democracia, de que a terceira via foi apenas o mais deprimente dos suicídios, que vão dar a volta a isto. Mesmo que a velha guarda resista.

Esta intervenção de António Costa, que deixa a concessionária turca mais confortável para esticar a corda e um acordo mais distante, é das mais reveladoras de toda a sua carreira política. Num conflito com uma empresa que emprega 90% dos seus trabalhadores ao dia, optou por enviar a polícia para garantir a substituição dos grevistas e por ser porta-voz de quem não tem defesa possível, repetindo até as suas mentiras

Não há qualquer intransigência do sindicato que era de Lisboa e está a crescer noutros portos, para substituir sindicatos corruptos que ignoram os direitos dos precários e são intermediários para o trabalho à jorna. Com esses, é verdade, tem sido fácil “trabalhar”. O Sindicato dos Estivadores e Atividades Logísticas (SEAL) fez uma proposta aceitável para os 90 trabalhadores que estão em causa: que fossem integrados 56 e que os restantes tivessem prioridade na contratação ao turno (é assim que as pessoas são contratadas no porto de Setúbal – ao turno). Não era a solução ideal, mas era um compromisso. A concessionária turca, que desde este fim de semana conta com um porta-voz de luxo, optou pelo truque de tentar acabar com a greve através da divisão dos trabalhadores.

Todos estamos preocupados com as exportações e com o que acontece no porto de Setúbal. Note-se, no entanto, que a Autoeuropa, que é a maior prejudicada, não teve a leviandade de António Costa. Não tomou partido pela concessionária, que é quem tem de resolver o problema. Nem me parece que esteja satisfeita com a solução de ir abrindo, através da PSP, momentos de exceção a uma greve para garantir o embarque da sua mercadoria. E apenas da sua, o que é de legalidade duvidosa e deve levar a ministra do Mar e o ministro da Administração Interna a darem explicações ao Parlamento e ao país. Primeiro, porque a cultura desta empresa alemã não é dada a este tipo de expedientes, dignos de uma república das bananas. Depois, porque isto sai demasiado caro. A Autoeuropa quer uma solução negociada, como costuma encontrar na sua própria casa. Com esta intervenção de Costa a concessionária turca sente-se mais confortável para esticar a corda e o acordo fica mais distante. E, no entanto, o que se esperaria de um primeiro-ministro era uma pressão junto da empresa para resolver o problema. O Governo tem todos os instrumentos para isso e se o tivesse feito esta greve já tinha acabado. Preferiu pressionar a parte fraca.

Poderão dar pouca importância ao sucedido, mas esta intervenção de António Costa é das mais reveladoras de toda a sua carreira política. Num conflito entre trabalhadores e uma empresa que emprega 90% dos seus trabalhadores ao dia, o primeiro-ministro optou por enviar a polícia para garantir a substituição dos grevistas, violando o direito à greve, e por ser porta-voz de quem não tem defesa possível, repetindo as suas mentiras sem qualquer pudor. Se houve dia em que fiquei com a certeza de que o grande objetivo das próximas eleições é impedir que António Costa tenha a maioria absoluta, esse dia foi na sexta-feira. Infelizmente, ainda precisa de quem, pela força do voto, o segure à esquerda. Pelo menos nos mínimos dos mínimos.

 

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6 pensamentos sobre “As reveladoras incompreensões de António Costa

  1. Não posso limitar-me a aplaudir o post sem antes dizer que muito estranho as dúvidas do Daniel em relação a Costa. Alguém com o lastro de quase três mandatos na CML. Onde só não privatizou o que não pôde. Só para citar um exemplo. Com os “excelentes” resultados que todos os munícipes conhecem. De resto não há tema mais nobre para denunciar na actualidade nacional que o trabalho à jorna em Setúbal. Muito bem Daniel.

    p.s. por mais méritos na autêntica mudança de paradigma do Parlamento ninguém é imune à critica sempre que tal se justifique. Como é manifestamente o caso.

  2. Este ataque politico a antonio costa servindo se do jornal expresso/balsemao vem na linha do que o mesmo autor costuma fazer no eixo do mal da sic/balsemao. Compreende se o interesse da direita em publicar estas opinioes que paga bem! Ja nao se compreende que a estatua de sal assine com tantos elogios este ataque tao mal intencionado. Expresso/balsemao, eixo do mal/balsemao, e neste caso estatua/balsemao. A direita toda contente com a estatua!

    • Vamos a ver se nos entendemos. Não tenho que provar coisa nenhuma sobre a orientação editorial deste blog. Ela é mais que óbvia e clara, e nada tem a ver com a direita. Mas ser de esquerda não equivale a ter palas. Costa teve uma lamentável prestação no caso da greve dos estivadores e qualquer honesto e atento cidadão de esquerda deve denunciar isso. Apoiar a Geringonça também é criticar o Governo e Costa quando traem os valores da esquerda como foi o caso, na minha opinião. A prova de que Costa esteve mal faz-se pela via indirecta: nenhum líder político, nem nenhum comentador da direita criticou o Governo por ter largado a polícia contra os estivadores. Tal facto devia fazê-lo pensar e não reagir neste caso político com uma atitude de adepto de futebol. Cá por mim, se a medida teve a benção da direita, só pode ter a minha crítica.

  3. Onde está a novidade? Daniel Oliveira.
    De um profissional político e socialista, que há mais de uma década,
    perante uma febre sindicalista, respondia com o ar displicente da ordem:
    A greve é um direito democrático.
    Demo, disse ele.

  4. Excelente. Porém,um principio errado. Nunca poderia Daniel Oliveira “atacar” António Costa. Porquê? Porque António Costa não sabia de nada. António Costa nunca sabe de nada. Por outro lado, que esperar dum governo socialista de Sócrates, onde este só não está fisicamente? Mas os seus acólitos estão.

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