A metafísica do cuspo

(Por Estátua de Sal, 15/11/2016)
 bruno
Julgava eu que o mundo andava meio assarapantado com a vitória de Donald Trump nas eleições americanas. Julgava eu que o problema dos refugiados, a luta contra o ISIS, a guerra na Síria, a sombra de uma guerra nuclear entre as superpotências, o Brexit, a globalização, o desemprego, a crise das dívidas soberanas, mais, até o impasse na CGD, a subida das taxas de juro, a incerteza nos mercados financeiros, julgava eu dizia, que eram as grandes ameaças para o mundo.
Afinal não. Hoje durante todo o dia, nas televisões, mormente na SICN, o problema do país, aquilo que mais preocupa os portugueses de acordo com os jornaleiros de serviço, é se Bruno de Carvalho cuspiu ou se baforou!!
É, de facto, uma questão que Shakespeare tratou há séculos, “To be or not to be”, pela voz de Hamlet. Digamos que o problema do país e do Mundo passou a ser a metafísica do cuspo. É cuspo ou é vapor? O erudito Rui Santos, também conhecido por “brilhantina man”, no programa de hoje, escalpelizou as imagens ao milímetro e concluiu que, com base no seu espectógrafo televisivo, que afinal não era cuspo mas sim bafo, como aquele com que a vaca brindou o Menino Jesus deitado na manjedoura para que não perecesse de frio.
Os deuses devem estar loucos, para que o país perca tempo com esta palhaçada, erigindo isto no tema principal do debate público. Que a comunicação social esteja cada vez mais na mão de uma cambada de néscios, já não é novidade para ninguém. Mas que queiram transmitir ao país a sua insanidade e tratar os cidadãos como um rebanho de atrasados mentais, alto lá.
No dia de hoje, em que se soube que a economia portuguesa cresceu no terceiro trimestre deste ano, como nunca tinha crescido desde 2013, as televisões deram ao assunto 5 minutos de antena e “cuspiram” no assunto com os eflúvios do Bruno de Carvalho, qualquer que tenha sido a química da sopradela.
Informação de sarjeta, seja de bafo, seja de cuspo, mas em qualquer caso, de sarjeta. Estão todos a concorrer com a TV do Correio da Manhã.
O país já merecia melhor. Podem vir com todo o argumentário a favor da liberdade de expressão. Mas, se a liberdade é para educar os cidadãos para pedagogia do cuspo e para o conformismo dos carneiros, algo está mal no reino da liberdade e da comunicação social.
E infelizmente não vejo que surja comunicação alternativa que se oponha a esta mediocridade estupidificante. E depois queixem-se que avançam os populismos e que o eleitorado vota a favor do “bacalhau a pataco”. No fundo, o eleitorado não faz mais do que analisar a realidade com as fracas ferramentas que lhe são servidas em doses cavalares.

Que esperem pela recapitalização e se vão

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 15/11/2016)

Autor

                        Daniel Oliveira

Já toda a gente falou. O Governo desobrigou-se do compromisso dos administradores não terem de entregar a declaração de rendimentos. Um compromisso que nunca deveria ter existido. E mesmo que tenha sido essa a sua vontade, nenhum governo podia comprometer-se para lá de decisão do Tribunal Constitucional. O Presidente da República apoiou este ponto de vista. Todos os partidos que suportam o Governo e todos os partidos da oposição defenderam o mesmo. E o Tribunal Constitucional já notificou os administradores para cumprirem o seu dever legal. Isto deveria ser um ponto final: entregavam a declaração e o assunto estava resolvido.

Não tenho qualquer interesse em ver as declarações de rendimentos dos novos administradores da Caixa – não tenho qualquer tendência voyeurista – e só acho que merecem análise quando tivermos de comparar o que tinham e o que têm no fim do mandato. Ou seja: no fim. Mas se a lei determina que é para entregar agora e que fica imediatamente pública e se é este o entendimento do TC, já não há grande coisa para discutir.

Para António Domingues e os seus administradores isto não é um ponto final. Ao que parece, aliás, consideram que os seus desejos valem mais do que tudo o que referi no primeiro parágrafo. E se assim é, não tenho já qualquer dúvida que estas pessoas não são as indicadas para gerir um banco público. Aliás, tenho a certeza que não se dariam a estas frescuras se fossem administradores de um banco privado e os acionistas lhe fizessem exigências semelhantes. Parece evidente que estes senhores, ainda antes de estarem no total exercício do seu mandato, já se comportam como se estivessem acima da lei.

Ao que parece, há vários administradores que estão irredutíveis e ameaçam com demissões. A primeira reação que tenho é esta: que se demitam. Estão no lugar errado e não compreendem a que tipo de escrutínio um gestor público está obrigatoriamente exposto. E quem não compreende isto não pode trabalhar para o Estado. Ninguém está a devassar a sua vida privada ou a pedir-lhes o impensável. Está a pedir-lhes o mesmo a que foram sujeitos todos os deputados, o primeiro-ministro e o ministro das finanças que os nomearam, todos os gestores públicos que trabalham nas muitas empresas do Estado, incluindo na Caixa. Se acham que estão acima de todas estas pessoas temos, parece-me evidente, um problema de megalomania. Se acham que o Tribunal Constitucional não tem autoridade sobre eles é ainda mais grave do que isso.

Mas se vão demitir-se do cargo – e pelo que me está a ser dado a ver começo a desejar que o façam –, têm um dever patriótico: esperar pela recapitalização pública da Caixa Geral de Depósitos. Esse é um dever que têm como portugueses, não dando à Comissão Europeia a oportunidade de travar o processo e aos que conspiram pela privatização da CGD de aproveitarem o caos para conseguir o que desejam.

Se não estão à altura dos seus deveres enquanto gestores públicos, que ao menos estejam à altura dos seus deveres como portugueses. Porque quanto ao resto, esta novela já cansa. Os caprichos destes senhores não valem a tinta que já gastámos com eles e o dinheiro que ainda vamos gastar.

O muro e as razões

(José Gabriel, in Facebook, 15/11/2016)

muro

Não me entusiasma regressar a este tema, mas as interpelações de alguns amigos sobre a nota com que terminei a minha anterior breve publicação que acompanhava as fotos do muro entre o México e os EUA, motivam-me a aprofundar um pouco mais a questão – sem ter direito a esperar que a vossa paciência me tolere. Resumamos factos e razões:

I – A ordem que desencadeia a construção do muro não foi, como a maioria parece pensar, uma iniciativa de George W. Bush na ressaca do 11/9/2001. Ela é determinada pelo Bush pai, em 1991, no contexto da “Operação Guardião”, com a alegação de conter tráfico de droga e a emigração clandestina, mas a coisa não é levada muito a sério. Quem, de facto, dá um forte impulso, muito para lá do que estava previsto e em prática, é, em 1994, o presidente Clinton. Curiosamente, mas não inocentemente, logo após os acordos NAFTA (North American Free Trade Agreement – Acordo de Livre Comércio da América do Norte) e, note-se, sem que tenha ocorrido a ideia de fazer o mesmo em relação ao Canadá, também parceiro nesse Tratado. Desde então, sendo a circulação de cidadãos mexicanos em direcção ao Norte fortemente contida, o mesmo não aconteceu a uma imensidade de empresas americanas e multinacionais que então começaram a deslocalizar-se para o México em busca de mão de obra e outros recursos baratos. Começam aqui a acumular-se as contradições neste processo. É que já não se trata de um país cuidar – por razões que lhe parecem boas – das suas fronteiras. Os objectivos começam a ganhar outros sentidos. É um grande negócio para o vizinho do Norte que, note-se, distribuía aos quadros norte-americanos dessas empresas livre-trânsito para atravessar a fronteira sempre que quisessem, mas, aos trabalhadores mexicanos não era permitida tal circulação ou, quando muito, precisavam de um visto especial. No fundo, não é por mal, como dizia o outro: são negócios.
Acentua-se, então, o caracter simbólico e ideológico do muro que vai crescendo, como se fosse preciso deixar claro que daquele muro para cima era o mundo desenvolvido do Norte, sendo os povos do Sul votados a uma espécie de inferioridade ontológica. Eram menos que os outros.

II – Assim, o muro foi crescendo durante, não o esqueçamos, os mandatos de Clinton e, depois, com as operações de pânico político com que W. Bush, depois do ataque às Torres Gémeas, quis ter na mão a(s) América(s), lançando uma espécie de sub-terrorismo securitário que limitava a liberdade aos seus concidadãos e, como seria de esperar, ainda mais a dos povos do Sul, sobretudo aos mexicanos, as coisas pioraram muito. Tudo isto foi pretexto para ir intensificando as obras e ir acrescentando tecnologia de segurança às vedações que chegam a ter dupla, ou mesmo tripla linha divisória, podendo veículos de patrulha circular entre as várias cercas. Valeu toda a espécie de meios para obter as colossais extensões de terrenos necessárias, apropriações à força, expropriações de legalidade mais que duvidosa, enfim, negócios. Quanto às empresas, o negócio continuava, as deslocalizações no Norte para o México continuavam de vento em popa, o que ajuda a perceber os comportamentos das cidades norte-americanas que assistiam à sua desindustrialização. Mas paciência. Negócios.

III- Entretanto começam a surgir os alertas dos ambientalistas cujos estudos mostravam uma catástrofe ecológica em marcha. Muitos animais viam as suas áreas de reprodução separadas das de alimentação, as migrações impedidas, a possibilidade real de extinção, a médio prazo, de algumas espécies. E assim, passo a passo, o muro já cresceu para lá dos 1. 300 quilómetros dos 3.500 a 4.000 previstos.

IV- E Obama? Que fez Obama e a sua Secretária Hillary Clinton, que enfrentaram Trump nesta, entre outras questões. Pois o amável Obama, nos seus mandatos, continuou com entusiasmo a obras do muro, dobrou o número de funcionários a ele destinados, investiu fortemente na sofisticação dos meios tecnológicos de vigilância, mandou refazer e reforçar extensas áreas das cercas. E surge aqui a pergunta premiada: se os presidentes democratas não tiveram problemas em se empenhar convictamente na construção do muro, como foi possível que Trump fizesse dele um tema central de campanha sem que tivesse a resposta no mesmo terreno e, pelo contrário, acabou por esbarrar com o silêncio envergonhado do outro lado, ficando, assim, só, na defesa desta bandeira. É que os democratas fizeram-na pela calada; não queria assumir a xenofobia de Trump e o clamor pouco cordato das classes trabalhadoras dos estados do Sul. Não era politicamente correcto e todos sabemos a importância que as máscaras têm para estes personagens. Assim, Trump arvorava-se, com os argumentos mais grosseiros, no paladino dos alegados espoliados, enquanto os democratas de Clinton fingiam que não é nada com eles. É que eles não dizem tais barbaridades; na verdade, limitam-se a fazê-las. O mais delicada e discretamente possível. Porque eles não fazem nada por mal. São negócios. Porque é que o povo não percebe?

V –  Epílogo

No fim, o balanço de toda esta insanidade é dramático. Os efeitos em termos de contenção de emigração clandestina e de repressão do tráfico de droga são pífios e completamente desproporcionados com o gigantismo da obra e, ainda mais, da sua configuração final – se alguma vez existir. Mas resta a amarga carga ideológica, a humilhação de um povo, um drama humanitário que já custou, registadas, mais de seis mil vidas, isto é, 30 vezes mais que o muro de Berlim em toda a sua existência. Direitos humanos? Pois.