As pequenas mãos que embalam o berço

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 27/01/2017)

quadros

João Quadros

Preocupa-me mais que tipo de muro é que ele vai fazer, porque o Trump tem péssimo gosto. Aposto num muro em mármore, cheio de rococós dourados.


“The Party told you to reject the evidence of your eyes and ears. It was their final, most essential command.”
George Orwell, 1984

Já aí está a nova América prometida por Trump. Numa semana muito mudou. Trump está a cumprir todas as promessas que fez, excepto mostrar a declaração de rendimentos. Sai mais barato o muro.

Na passada quarta-feira, Trump anunciou que mandou avançar a construção do muro com o México, que vai ser pago, inicialmente, pelos contribuintes americanos. O lado de dentro do muro vai ser pago pelos americanos e, segundo percebi, os mexicanos pagam o lado de fora. Pagar pelo lado de fora é um novo conceito que, a ser adoptado, pode ser excelente fonte de rendimentos para quem mora em condomínios fechados.

Mandar fazer um muro é coisa típica do pato bravo Donald. É um cliché . A seguir vai fazer um jacuzzi gigante no Grand Canyon. O que me assusta não é o muro em si. Vai dar gozo assistir à construção da maior obra de engenharia da humanidade. É pena ser um muro, mas podia ser pior. Podia ser um bunker. Preocupa-me mais que tipo de muro é que ele vai fazer, porque o Trump tem péssimo gosto. Aposto num muro em mármore, cheio de rococós dourados. Uma espécie de Muralha da China mas que, vista da Lua, obriga a que tenhamos de franzir os olhos. Uma coisa é certa, pelo menos não vai haver decoradores de interiores mexicanos a tentar entrar nos Estados Unidos. Na minha modesta opinião, acho que a melhor maneira de assegurar que o muro é intransponível é contratar aqueles argelinos que conseguem fugir da pista do aeroporto de Lisboa, saltando cercas e barreiras.

Outra mudança, neste novo mundo em que começamos a viver, é que oficialmente acabou o aquecimento global. Não só foram cancelados todos os estudo de impacto ambiental como, de agora em diante, estudos de ciência ambiental de organismos do Estado só são publicados após o aval de Trump. Agora é o metade homem, metade delícia do mar, quem controla o clima. Um indivíduo que se vê bem, pelas companhias, que prefere o que é plástico ao que é natural, vai controlar o ambiente. Trump e filhos são pessoas que acham mais bonito um cisne de loiça do que um tigre vivo.

Se tudo correr como está a ser planeado – com o regresso ao carvão, oleodutos no Alasca e o fim das energias alternativas não poluentes – as decisões do novo Presidente dos EUA vão ser a machadada final no clima do nosso planeta. Não fico minimamente admirado, pelo contrário. Até acredito que Trump sabe que existe aquecimento global, mas o maluco tem setenta anos, e para ele só ele existe, por que raio havia de estar preocupado com o estado do planeta Terra daqui por vinte anos?! Provavelmente, até o chateia que fique cá gente.

Ficamos por aqui porque, como o estimado leitor deve saber, temos o Negócios online no Twitter e já lhe deram os códigos das ogivas nucleares… mais vale não correr riscos.


TOP 5

Fazer Portugal grande

1. PSD chumba diminuição da TSU – Se eu fosse o BE, amanhã levava a votação a reestruturação da dívida. É aproveitar que Passos vota tudo o que for contra Bruxelas.

2. Presidente Marcelo Rebelo de Sousa passa uma noite com os sem-abrigo – Desde o mergulho no Tejo que não estava tão próximo de arriscar apanhar hepatite.

3. Marco António Costa diz ter saudades dos tempos de um acordo entre Pedro Passos Coelho, Seguro e Portas – E dos tempos do Godinho Lopes.

4. Crianças transexuais vão poder usar nome que quiserem na escola – Batman!

5. PSD vota ao lado do PCP e do BE – Eu já tinha previsto isto: Passos de rabo-de-cavalo e líder do Pafemos.

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O muro e as razões

(José Gabriel, in Facebook, 15/11/2016)

muro

Não me entusiasma regressar a este tema, mas as interpelações de alguns amigos sobre a nota com que terminei a minha anterior breve publicação que acompanhava as fotos do muro entre o México e os EUA, motivam-me a aprofundar um pouco mais a questão – sem ter direito a esperar que a vossa paciência me tolere. Resumamos factos e razões:

I – A ordem que desencadeia a construção do muro não foi, como a maioria parece pensar, uma iniciativa de George W. Bush na ressaca do 11/9/2001. Ela é determinada pelo Bush pai, em 1991, no contexto da “Operação Guardião”, com a alegação de conter tráfico de droga e a emigração clandestina, mas a coisa não é levada muito a sério. Quem, de facto, dá um forte impulso, muito para lá do que estava previsto e em prática, é, em 1994, o presidente Clinton. Curiosamente, mas não inocentemente, logo após os acordos NAFTA (North American Free Trade Agreement – Acordo de Livre Comércio da América do Norte) e, note-se, sem que tenha ocorrido a ideia de fazer o mesmo em relação ao Canadá, também parceiro nesse Tratado. Desde então, sendo a circulação de cidadãos mexicanos em direcção ao Norte fortemente contida, o mesmo não aconteceu a uma imensidade de empresas americanas e multinacionais que então começaram a deslocalizar-se para o México em busca de mão de obra e outros recursos baratos. Começam aqui a acumular-se as contradições neste processo. É que já não se trata de um país cuidar – por razões que lhe parecem boas – das suas fronteiras. Os objectivos começam a ganhar outros sentidos. É um grande negócio para o vizinho do Norte que, note-se, distribuía aos quadros norte-americanos dessas empresas livre-trânsito para atravessar a fronteira sempre que quisessem, mas, aos trabalhadores mexicanos não era permitida tal circulação ou, quando muito, precisavam de um visto especial. No fundo, não é por mal, como dizia o outro: são negócios.
Acentua-se, então, o caracter simbólico e ideológico do muro que vai crescendo, como se fosse preciso deixar claro que daquele muro para cima era o mundo desenvolvido do Norte, sendo os povos do Sul votados a uma espécie de inferioridade ontológica. Eram menos que os outros.

II – Assim, o muro foi crescendo durante, não o esqueçamos, os mandatos de Clinton e, depois, com as operações de pânico político com que W. Bush, depois do ataque às Torres Gémeas, quis ter na mão a(s) América(s), lançando uma espécie de sub-terrorismo securitário que limitava a liberdade aos seus concidadãos e, como seria de esperar, ainda mais a dos povos do Sul, sobretudo aos mexicanos, as coisas pioraram muito. Tudo isto foi pretexto para ir intensificando as obras e ir acrescentando tecnologia de segurança às vedações que chegam a ter dupla, ou mesmo tripla linha divisória, podendo veículos de patrulha circular entre as várias cercas. Valeu toda a espécie de meios para obter as colossais extensões de terrenos necessárias, apropriações à força, expropriações de legalidade mais que duvidosa, enfim, negócios. Quanto às empresas, o negócio continuava, as deslocalizações no Norte para o México continuavam de vento em popa, o que ajuda a perceber os comportamentos das cidades norte-americanas que assistiam à sua desindustrialização. Mas paciência. Negócios.

III- Entretanto começam a surgir os alertas dos ambientalistas cujos estudos mostravam uma catástrofe ecológica em marcha. Muitos animais viam as suas áreas de reprodução separadas das de alimentação, as migrações impedidas, a possibilidade real de extinção, a médio prazo, de algumas espécies. E assim, passo a passo, o muro já cresceu para lá dos 1. 300 quilómetros dos 3.500 a 4.000 previstos.

IV- E Obama? Que fez Obama e a sua Secretária Hillary Clinton, que enfrentaram Trump nesta, entre outras questões. Pois o amável Obama, nos seus mandatos, continuou com entusiasmo a obras do muro, dobrou o número de funcionários a ele destinados, investiu fortemente na sofisticação dos meios tecnológicos de vigilância, mandou refazer e reforçar extensas áreas das cercas. E surge aqui a pergunta premiada: se os presidentes democratas não tiveram problemas em se empenhar convictamente na construção do muro, como foi possível que Trump fizesse dele um tema central de campanha sem que tivesse a resposta no mesmo terreno e, pelo contrário, acabou por esbarrar com o silêncio envergonhado do outro lado, ficando, assim, só, na defesa desta bandeira. É que os democratas fizeram-na pela calada; não queria assumir a xenofobia de Trump e o clamor pouco cordato das classes trabalhadoras dos estados do Sul. Não era politicamente correcto e todos sabemos a importância que as máscaras têm para estes personagens. Assim, Trump arvorava-se, com os argumentos mais grosseiros, no paladino dos alegados espoliados, enquanto os democratas de Clinton fingiam que não é nada com eles. É que eles não dizem tais barbaridades; na verdade, limitam-se a fazê-las. O mais delicada e discretamente possível. Porque eles não fazem nada por mal. São negócios. Porque é que o povo não percebe?

V –  Epílogo

No fim, o balanço de toda esta insanidade é dramático. Os efeitos em termos de contenção de emigração clandestina e de repressão do tráfico de droga são pífios e completamente desproporcionados com o gigantismo da obra e, ainda mais, da sua configuração final – se alguma vez existir. Mas resta a amarga carga ideológica, a humilhação de um povo, um drama humanitário que já custou, registadas, mais de seis mil vidas, isto é, 30 vezes mais que o muro de Berlim em toda a sua existência. Direitos humanos? Pois.