O muro e as razões

(José Gabriel, in Facebook, 15/11/2016)

muro

Não me entusiasma regressar a este tema, mas as interpelações de alguns amigos sobre a nota com que terminei a minha anterior breve publicação que acompanhava as fotos do muro entre o México e os EUA, motivam-me a aprofundar um pouco mais a questão – sem ter direito a esperar que a vossa paciência me tolere. Resumamos factos e razões:

I – A ordem que desencadeia a construção do muro não foi, como a maioria parece pensar, uma iniciativa de George W. Bush na ressaca do 11/9/2001. Ela é determinada pelo Bush pai, em 1991, no contexto da “Operação Guardião”, com a alegação de conter tráfico de droga e a emigração clandestina, mas a coisa não é levada muito a sério. Quem, de facto, dá um forte impulso, muito para lá do que estava previsto e em prática, é, em 1994, o presidente Clinton. Curiosamente, mas não inocentemente, logo após os acordos NAFTA (North American Free Trade Agreement – Acordo de Livre Comércio da América do Norte) e, note-se, sem que tenha ocorrido a ideia de fazer o mesmo em relação ao Canadá, também parceiro nesse Tratado. Desde então, sendo a circulação de cidadãos mexicanos em direcção ao Norte fortemente contida, o mesmo não aconteceu a uma imensidade de empresas americanas e multinacionais que então começaram a deslocalizar-se para o México em busca de mão de obra e outros recursos baratos. Começam aqui a acumular-se as contradições neste processo. É que já não se trata de um país cuidar – por razões que lhe parecem boas – das suas fronteiras. Os objectivos começam a ganhar outros sentidos. É um grande negócio para o vizinho do Norte que, note-se, distribuía aos quadros norte-americanos dessas empresas livre-trânsito para atravessar a fronteira sempre que quisessem, mas, aos trabalhadores mexicanos não era permitida tal circulação ou, quando muito, precisavam de um visto especial. No fundo, não é por mal, como dizia o outro: são negócios.
Acentua-se, então, o caracter simbólico e ideológico do muro que vai crescendo, como se fosse preciso deixar claro que daquele muro para cima era o mundo desenvolvido do Norte, sendo os povos do Sul votados a uma espécie de inferioridade ontológica. Eram menos que os outros.

II – Assim, o muro foi crescendo durante, não o esqueçamos, os mandatos de Clinton e, depois, com as operações de pânico político com que W. Bush, depois do ataque às Torres Gémeas, quis ter na mão a(s) América(s), lançando uma espécie de sub-terrorismo securitário que limitava a liberdade aos seus concidadãos e, como seria de esperar, ainda mais a dos povos do Sul, sobretudo aos mexicanos, as coisas pioraram muito. Tudo isto foi pretexto para ir intensificando as obras e ir acrescentando tecnologia de segurança às vedações que chegam a ter dupla, ou mesmo tripla linha divisória, podendo veículos de patrulha circular entre as várias cercas. Valeu toda a espécie de meios para obter as colossais extensões de terrenos necessárias, apropriações à força, expropriações de legalidade mais que duvidosa, enfim, negócios. Quanto às empresas, o negócio continuava, as deslocalizações no Norte para o México continuavam de vento em popa, o que ajuda a perceber os comportamentos das cidades norte-americanas que assistiam à sua desindustrialização. Mas paciência. Negócios.

III- Entretanto começam a surgir os alertas dos ambientalistas cujos estudos mostravam uma catástrofe ecológica em marcha. Muitos animais viam as suas áreas de reprodução separadas das de alimentação, as migrações impedidas, a possibilidade real de extinção, a médio prazo, de algumas espécies. E assim, passo a passo, o muro já cresceu para lá dos 1. 300 quilómetros dos 3.500 a 4.000 previstos.

IV- E Obama? Que fez Obama e a sua Secretária Hillary Clinton, que enfrentaram Trump nesta, entre outras questões. Pois o amável Obama, nos seus mandatos, continuou com entusiasmo a obras do muro, dobrou o número de funcionários a ele destinados, investiu fortemente na sofisticação dos meios tecnológicos de vigilância, mandou refazer e reforçar extensas áreas das cercas. E surge aqui a pergunta premiada: se os presidentes democratas não tiveram problemas em se empenhar convictamente na construção do muro, como foi possível que Trump fizesse dele um tema central de campanha sem que tivesse a resposta no mesmo terreno e, pelo contrário, acabou por esbarrar com o silêncio envergonhado do outro lado, ficando, assim, só, na defesa desta bandeira. É que os democratas fizeram-na pela calada; não queria assumir a xenofobia de Trump e o clamor pouco cordato das classes trabalhadoras dos estados do Sul. Não era politicamente correcto e todos sabemos a importância que as máscaras têm para estes personagens. Assim, Trump arvorava-se, com os argumentos mais grosseiros, no paladino dos alegados espoliados, enquanto os democratas de Clinton fingiam que não é nada com eles. É que eles não dizem tais barbaridades; na verdade, limitam-se a fazê-las. O mais delicada e discretamente possível. Porque eles não fazem nada por mal. São negócios. Porque é que o povo não percebe?

V –  Epílogo

No fim, o balanço de toda esta insanidade é dramático. Os efeitos em termos de contenção de emigração clandestina e de repressão do tráfico de droga são pífios e completamente desproporcionados com o gigantismo da obra e, ainda mais, da sua configuração final – se alguma vez existir. Mas resta a amarga carga ideológica, a humilhação de um povo, um drama humanitário que já custou, registadas, mais de seis mil vidas, isto é, 30 vezes mais que o muro de Berlim em toda a sua existência. Direitos humanos? Pois.

2 pensamentos sobre “O muro e as razões

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