Joe Berardo: “Eu pessoalmente não tenho dívidas, claro que não tenho dívidas”

(In Público, 10/05/2019)

(Estou a ver a audição a Joe Berardo na Assembleia da República, ao abrigo da Comissão de Inquérito à CGD. Uma perca de tempo. Os deputados querem que o homem assuma que levou “de pandeireta” os bancos que lhe emprestaram dinheiro e que isso, eticamente, não é bonito. Ora o homem está-se nas tintas para a ética e não percebo porque se perde tempo a querer dar lições de moral a um homem de negócios. 

A questão de reaver ou não as dívidas de Berardo à CGD é um problema jurídico e não uma questão de moral. E, no que toca às questões de Direito, Berardo farta-se de rir. O seu advogado, André Luís Gomes, o arquitecto de toda a teia jurídica que torna o património do comendador inatacável – excepção à tal garagem que ainda possui -, merece destaque pois levou a palma aos departamentos jurídicos da banca nacional e aos escritórios de advogados que, provavelmente, os assessoraram. 

Não tenho ideia que a gestão pública tenha que ser necessariamente sempre mais ineficiente que a gestão privada. Mas, neste dossier, a consultoria jurídica de apoio aos interesses privados de Berardo suplantou à légua a gestão do dossier jurídico por parte dos interesse do banco público representado pela CGD, seja por inépcia, seja por subterrâneos e sinuosos compadrios.

Assim, não vale a pena chorar sobre o leite derramado. O banco público vai perder milhões, e estas comissões não adiantam nada e apenas fazem os deputados perder tempo, sem qualquer benefício para o país, pois não chegam a qualquer conclusão que tenha efeitos práticos. E claro, são sempre os contribuintes a pagar. 

Estátua de Sal, 10/05/2019)


Joe Berardo foi esta tarde no Parlamento para prestar declarações sobre os créditos que criaram imparidades de vários milhões na Caixa Geral de Depósitos, mas colocou várias condições para falar com os deputados. O comendador recusou falar sobre os créditos que pediu à Caixa Geral de Depósitos (CGD) à porta aberta. Contudo, na sua declaração inicial, lida pelo seu advogado André Luís Gomes, recusou ter participado em qualquer “assalto figurado ao poder no BCP”.


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Joe Berardo, o comendador da garagem

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 12/04/2019)

Joe Berardo brinda à saúde dos papalvos que lhe emprestaram milhões

Joe Berardo é uma espécie de Ricardo Salgado do Atlântico. Foi sempre um homem encantador a quem ninguém conseguia dizer que não. Íntimo de políticos e banqueiros, era unha com carne com jornalistas. Fizeram-lhe perfis extraordinários. Um “self made man” alimenta os sonhos de quem julga que um dia lá pode chegar. E os sonhos não se estragam com perguntas. Mesmo quando se meteu em problemas – e meteu-se imensas vezes em problemas –, isso apareceu sempre como excessos naturais de um homem intenso e “polémico”.

Até ao dia em que o madeirense que subiu a pulso se transformou, aos olhos de todos, num simples aldrabão. Não se pode dizer que ele tenha tentado passar pelo que não era. Mas ninguém o tinha visto. Como poderiam ver? Estamos a falar de um comendador, valha-me Deus. Foi o impoluto (mesmo) general Ramalho Eanes que lhe ofereceu a medalhinha que acabaria por se transformar no seu primeiro nome. Foi Jorge Sampaio que subiu a parada e o elevou à Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique. E, como quando é para ser em grande tem de ser à francesa, foi Jacques Chirac que lhe deu a mais alta condecoração de França. Dava gosto ver um homem simples, que só tem uma garagem no Funchal, chegar tão alto na hierarquia das honrarias de Estado.

Nos bancos, não era tratado como qualquer cliente. Joe Berardo era Joe Berardo. Um homem que parecia um vigarista, cheirava a vigarista, falava como um vigarista mas era um comendador. Até ao dia em que alguém deixou de bancar. Foi aí que o país inteiro se indignou. Passou de comendador a bandido

Era difícil os bancos não acreditarem que estava tudo bem. Não iam pedir-lhe mais garantias do que o seu próprio esforço e trabalho. Se o homem dizia que as ações que ia comprar de um banco concorrente com o dinheiro que estava a pedir emprestado serviam de garantia para esse mesmo empréstimo, quem era um pobre manga de alpaca da Caixa para desconfiar? Claro que não era tratado como qualquer cliente. Como poderia ser? Joe Berardo era Joe Berardo. Um homem que parecia vigarista, cheirava a vigarista, falava como um vigarista mas era um comendador.

Uma coisa é certa: não foi só a Caixa que ficou a arder. Foi a Caixa, o Novo Banco e o BCP. Agora estão de olho nas suas obras de arte. Só que, além delas estarem em nome da sua Fundação, foram emprestadas ao Estado. Foram para o CCB porque provavelmente ele não tinha espaço na garagem. Houve quem dissesse que aquilo era valorizar a coleção à borla, mas eram as más línguas. Mesmo assim, Berardo deu-as como garantias aos três bancos ao mesmo tempo. E todos caíram.

Parece que o problema não é só do Estado, é de quase toda a banca. Como Berardo tratava ministros por “babe” e banqueiros por “tu” tinha crédito infinito na credulidade de quem guardava as chaves do cofre. Até ao dia em que tudo correu mal e alguém deixou de bancar. Foi aí que o país inteiro se indignou. Joe Berardo passou de comendador a bandido. E entrou para ao clube dos génios mortos, fazendo companhia ao rei proscrito Ricardo Salgado, o primeiro.


Como?! Atão, mas o Vara, coiso e etc.?…

(Valupi, in blog Aspirina B, 08/02/2019)

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«Carlos Costa foi administrador da Caixa Geral de Depósitos (CGD) entre 2004 e 2006, parte de um período crítico onde uma auditoria independente detetou perdas de 1,64 milhões de euros. Mas, ao contrário dos restantes gestores da Caixa à altura, não será submetido ao exame de idoneidade do Banco de Portugal. Isto porque Carlos Costa é atualmente governador do próprio Banco e, por lei, “o Banco de Portugal não supervisiona a própria casa”, segundo explicou uma fonte próxima do processo ao Jornal Económico.

Carlos Costa, ex-gestor da CGD, fez parte da administração do banco que aprovou alguns dos créditos que se revelariam ruinosos, como os empréstimos a Manuel Filho e Joe Berardo, que geraram perdas de 161 milhões de euros para o banco público. De acordo com a revista Sábado, o atual governador do Banco de Portugal esteve em pelo menos quatro reuniões do Conselho Alargado de Crédito onde foram aprovados empréstimos a alguns destes devedores.» 

Fonte aqui



Carlos Costa, um dos carniceiros ao serviço de Passos&Relvas no afundanço do País em 2011, ficou calado enquanto Vara foi transformado no bode expiatório e bombo da festa do ataque da oligarquia ao PS e à CGD. Não é preciso explicar porquê. Apenas se regista para ilustrar por que razão notícias como esta não fazem manchetes nem despertam infindos disparos da opinião engajada.

É que a aldrabice demencial para trocar os olhinhos aos borregos, isso de Vara ter sido o “todo-poderoso” na CGD capaz de dar dinheiro aos amigos de Sócrates sem que ninguém o conseguisse impedir ou sequer denunciar, não aguenta um nanossegundo no plano de realidade onde as pessoas realmente aquecem água para o chá e distinguem um sinal verde de um sinal vermelho.

Igualmente fascinante é o efeito antibiótico das declarações de Paulo Macedo, famoso socrático que foi ministro de Passos e tem uma reputação à prova de bala. De cada vez que abre a boca para explicar o b-a-bá do que se está a tentar fazer na indústria da calúnia e pela direita, o plano de comprometer o negócio e viabilidade da CGD, cria-se uma zona à sua volta onde até as mais resistentes bactérias da pulhice desaparecem. É no que dá recorrer a evidências por parte de quem não troca a sua integridade pela decadência dos decadentes.

A novela da CGD, e o seu novelo de protagonistas e decisões, não permite concluir que houve um assalto chefiado pelo bandido Sócrates, como o mais vocal dos conselheiros de Estado publicita semanalmente. Num certo sentido, é pena. É que essa versão acabaria por ser benigna na sua indescritível estupidez e alucinada calúnia quando comparada com a exibição ofuscante de um regime onde impérios mediáticos, tribunais e órgãos cimeiros da República confluem para a instauração de excepções onde o Estado de direito deixa de valer para certos cidadãos.