Candidato derrotado na Venezuela foi operacional da CIA na Operação Condor em El Salvador

(In Horadopovo.com.br, 01/08/2024)


(O texto que segue é bem interessante. Apesar de se basear em fontes públicas, nenhum dos “comentadeiros” das televisões sabe – ou se sabe nunca refere – estes detalhes sórdidos do currículo do homem, um grande “democrata”, dizem eles… Será que, para tal gente, democrata e assassino são sinónimos? Com este currículo não admira que os EUA digam que ele é que ganhou as eleições…

Estátua de Sal, 03/08/2024)


Candidato da extrema-direita, González Urrutia, agora exibido como ‘democrata’ por certa mídia, foi nos anos 1980, operacional em El Salvador da Operação Condor, sob comando da CIA, de tortura e assassinatos em favor da intervenção norte-americana, denuncia a ex-deputada Nidia Díaz.


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“Não se pode esquecer do papel nefasto que Edmundo González Urrutia (candidato atual à presidência da Venezuela pela extrema direita) em El Salvador quando ele era o segundo na embaixada da Venezuela, juntamente com o embaixador Leopoldo Castillo, conhecido como El Mata Curas (O Mata Padres)”, afirmou a advogada e líder salvadorenha Nidia Díaz, em artigo reproduzido por vários sites no continente (Ver, por exemplo, aqui).

Conforme a ex-deputada da Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN) e integrante do Parlamento Centro-americano, “o rosto oculto de Edmundo González” precisa ser iluminado, para que se saiba quem é.

“Isto aconteceu entre 1979-1985, como parte do Plano Condor (ver detalhes aqui ) em El Salvador do projeto contrainsurgente que o republicano Ronald Reagan impulsionou contra o povo de El Salvador para impedir que as forças revolucionárias avançassem, já que o fator que prolongou a guerra civil foi a intervenção americana”.

“A missão do embaixador Castillo e Edmundo González foi ser um agente da morte. Nos documentos desclassificados da CIA em fevereiro de 2009, Castillo foi mencionado como corresponsável dos serviços de inteligência que coordenaram, financiaram e deram a ordem para a execução da Operação Centauro”, denunciou.

Nidia Díaz esclareceu que “a operação consistia em uma série de ações violentas do exército de El Salvador e dos ‘esquadrões da morte’ para eliminar fisicamente as comunidades religiosas reunidas em torno da busca coerente da teologia da Libertação de uma solução pacífica e negociada da guerra”.

“Nos anos em que a embaixada estava encarregada de Castillo e González, o exército e os esquadrões deixaram um saldo de 13.194 civis mortos, incluindo Dom Oscar Romero, quatro freiras Maryknoll, e os padres Rafael Palacios, Alirio Macias, Francisco Cosme, Jesus Cáceres e Manuel Reyes. E apesar de já não exercer a função diplomática, ainda estava desempenhando como conselheiro de estruturas de inteligência (pentagonito) quando os seis jesuítas e as duas trabalhadoras foram assassinados em 16 de novembro de 1989”, acrescentou.

“Os crimes apoiados pela gestão de Leopoldo Castillo e seus colaboradores como Edmundo González são considerados ‘crimes contra a humanidade’ e, por isso, são imprescritíveis. Chegará um dia em que terão de prestar contas à justiça espanhola e salvadorenha pela sua participação no extermínio de religiosos e religiosas e comunidades pacíficas que estiveram ao lado da paz durante o conflito bélico que assolou El Salvador. As terríveis sequelas dos seus atos ainda sobrevivem”, destacou Díaz.

A oportuna denúncia de Diáz confronta a versão cor de rosa da mídia pró-EUA, de que a chapa de González seria o suprassumo da democracia, apesar de reunir a nata dos vários partidos de extrema-direita cevados desde Washington para retomar o controle da maior reserva de petróleo do planeta, a da Venezuela, deles arrancado pelo governo de Hugo Chávez. Um esforço que começou em 2002 e nunca parou desde então, tendo se agravado nas guarimbas de 2014 e 2017, quando se recusaram a reconhecer o resultado das eleições, e chegado até à nomeação, sob Trump, do “presidente autoindicado [pela Casa Branca]”, Juan Guaidó.

BIOMBO DE CORINA MACHADO

O veterano González foi reciclado para ser o El Cid da cavalgada de María Corina Machado ao poder na Venezuela, assim que sua inelegibilidade foi confirmada em 2023 pelo Conselho Nacional Eleitoral. Apresentada por âncoras de telejornais como a ‘grande líder oposicionista venezuelana’, Machado foi um dos 300 signatários da carta do golpe de Carmona de 2002, aquele que fechou o parlamento e prendeu Chávez, até ser varrido pelo povo nas ruas.

Ela participou, desde então, destacadamente, de todas as tentativas de golpe. Mais recentemente, ela defendeu, durante a “presidência Guaidó”, uma invasão militar “cirúrgica” – norte-americana, claro – para derrubar Maduro. Também apoiou as sanções draconianas decretadas pelos EUA, incluindo o bloqueio à exportação do petróleo venezuelano, que levaram o país à maior crise em décadas, bem como o confisco das reservas de ouro venezuelanas pelo Reino Unido, e a expropriação de duas subsidiárias da PDVSA no exterior, a CITGO, rede de postos de gasolina, nos EUA, e a Monômeros, na Colômbia, enquanto a quadrilha de Guaidó se locupletava.

A bem dizer, é ela uma versão venezuelana de portentos como Javier Milei, Jair Bolsonaro e José Antonio Kast, com um “programa” ultraneoliberal de corte de direitos e gastos sociais, juros altos, favorecimento dos especuladores e desnacionalização do patrimônio público.

AS BOLAS FORA DE MADURO

É certo que Maduro, muito aquém dos voos altivos de Chávez, facilitou o serviço para os Guaidó, Leopoldo López, Corina Machado e Edmundo González da vida e, sob pressão do império, entregou o arco mineiro – a riquíssima província mineral venezuelana – ao capital estrangeiro, entre outras tantas bolas fora.

Maduro também teve imensas dificuldades diante dos ataques contra a moeda venezuelana, promovidos por esquemas mafiosos desde Miami, e que empurraram a uma brutal desvalorização, seguida por hiperinflação sob as sanções, que penalizou sobremodo a população mais pobre e desalentou a classe média.

Sob a chamada “pressão máxima” de Trump, com 900 sanções e proibição de exportação de petróleo, até a produção de petróleo despencou, as prateleiras de supermercado ficaram vazias e milhões de venezuelanos emigraram, tentando uma escapatória. Trump dizia abertamente que era favorável a roubar o petróleo venezuelano, que fica logo ali na outra margem do Caribe.

Sem manutenção e sem poder importar sobressalentes, o sistema elétrico venezuelano entrou em pane, com numerosos apagões. Também ocorreram escândalos de corrupção, deserções de ex-integrantes do governo e alguns setores progressistas se afastaram de Maduro.

Apesar de todos os avanços na sociedade venezuelana nos anos bons da alta do preço do petróleo, o não enfrentamento a tempo da questão histórica de superar a dependência quase absoluta na renda do petróleo – o que se expressou em não jogar vigorosamente pela industrialização nos anos melhores do superciclo das commodities -, acabou fazendo a Venezuela enfrentar essa confrontação com o imperialismo nas condições mais penosas.

A ajuda da Rússia, da China e do Irã foram imprescindíveis para que se abrisse um caminho de superação. Também mais recentemente Washington abrandou algumas sanções.

TRÊS VEZES PIOR QUE A GRANDE DEPRESSÃO

Recente matéria do Washington Post sobre a “guerra econômica desencadeada pelos últimos quatro presidentes norte-americanos” (Clinton, W.Bush, Obama e Biden), assinada por Jeff Stein e Federica Cocco, dimensiona o peso dessa brutal investida: “as sanções à Venezuela contribuíram para uma contração econômica cerca de três vezes maior do que a causada pela Grande Depressão nos Estados Unidos.”

Nesses anos de bloqueio, sem dólares para importar 90% dos alimentos como antes, a Venezuela agiu para atingir a autossuficiência de 97% na produção de alimentos. Agora as prateleiras novamente estão repletas, segundo os observadores que viajaram para lá para monitorar as eleições. A indústria petroleira começa a se recuperar, mas a economia em larga medidasegue dolarizada. No último trimestre, o PIB cresceu 5%.

CIDADANIA SE MOBILIZOU MACIÇA E PACIFICAMENTE NO DIA 28

O Centro Carter, que na época da criação do sistema eleitoral venezuelano sob Chávez o considerou o melhor do mundo, agora diz que não pode endossar o resultado das eleições por falta de atas e condenou a “falta de transparência do Conselho Nacional Eleitoral (CNE) na divulgação dos resultados”. O Centro Carter esteve em Caracas nas eleições a convite do governo venezuelano.

Apesar dessa declaração, o instituto admitiu que “a cidadania venezuelana se mobilizou maciça e pacificamente no dia 28 de julho para expressar as suas preferências. O dia da votação decorreu de forma cívica, apesar das restrições de acesso aos recintos eleitorais por parte dos observadores nacionais e, sobretudo, das testemunhas dos partidos, dos mecanismos de possível pressão sobre o eleitorado (pontos de controle dos partidos do governo perto dos recintos eleitorais para verificar a presença dos eleitores) e dos incidentes de tensão ou violência relatada em algumas localidades”.

“No número limitado de distritos eleitorais visitados, as equipes de observadores do Centro Carter verificaram a vontade dos cidadãos venezuelanos de participar num processo eleitoral democrático e demonstrar o seu compromisso cívico como membros da mesa, testemunhas do partido e observadores”.

O que não impediu o Centro de concluir que a eleição na Venezuela não se adapta aos parâmetros e padrões internacionais de integridade eleitoral e “não pode ser considerada democrática”.

No entanto, comunicado da OAB norte-americana, a National Lawyers Guild (NLG), disse que sua delegação de cinco observadores eleitorais “visitou vários locais de votação em Caracas e La Guaira e compartilhou notas e informações com os 910 observadores eleitorais presentes de 95 países”.

A presidente do NLG, Suzanne Adely, disse que as eleições de domingo “não foram apenas justas e transparentes, mas também representaram um exemplo de participação cívica popular”.

“Seu resultado bem-sucedido é um triunfo para o povo venezuelano”, acrescentou Adely, “especialmente considerando o nível de interferência dos EUA e a tentativa de sabotagem do processo democrático, particularmente por meio de sanções e medidas econômicas coercitivas destinadas a produzir ‘mudança de regime’ na Venezuela”.

LÓPEZ OBRADOR E WIKILEAKS

Por sua vez López Obrador, presidente mexicano em fim de mandato, questionou “com base a OEA sustenta que o outro candidato [González] venceu?” Ele criticou a ingerência estrangeira nos assuntos internos venezuelanos.  “Existe um governo mundial ou uma confederação de governos mundiais que decide o que é bom, o que é mau, quem é democrata e quem não é democrata?” 

Também o WikiLeaks entrou no debate sobre a suposta “fraude” nas eleições na Venezuela, afirmando que “as alegações da oposição venezuelana de extrema-direita e da mídia dos EUA de que houve fraude nas  eleições de 28 de julho têm com base uma pesquisa de boca de urna feita pela empresa ligada ao governo dos EUA Edison Research, que trabalha com organismos de propaganda dos EUA ligados à CIA e que esteve ativa na Ucrânia, Geórgia e Iraque”.

SITE DA TELESUL É HACKEADO

Além da linha privada do CNE ter sido hackeada tentando gerar um pretexto para desqualificar a eleição, conforme o manual de fraudes que a OEA usou contra a Bolívia, também a TeleSul foi hackeada, no esforço de silenciar um contraponto à mídia venal, alinhada ao candidato oposicionista.

A presidente da TeleSul, Patrícia Villegas, denunciou que na noite de segunda-feira a página do canal offline foi atacada e “inseriram informações falsas”. De acordo com Villegas, “esta situação insere-se na mesma linha de acontecimentos ocorridos contra as instituições estatais venezuelanas durante este dia”, quando “os falsos democratas mostram a cara”.

“Temos sido a janela da verdade e porta-voz da dignidade deste heroico povo. Estaremos à altura do desafio que enfrentamos e defenderemos este espaço latino-americano e caribenho que luta todos os dias pela sua soberania e integração comunicacional. TeleSul é um patrimônio do povo e como tal iremos protegê-lo”, concluiu.

(Nota: Quem tiver TV via MEO pode ver a TeleSul no canal 239. Se via NOS no canal 223).

Fonte aqui

O problema é o Maduro…

(Carlos Matos Gomes, in Facebook, 02/08/2024)


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O mercado eleitoral está em pleno funcionamento nas Américas. Na do Norte há o mercado das doações/ações para comprar votos. Na do Sul, na Venezuela há mercado de votos para comprar petróleo. O neoliberalismo conduz a estas encenações em nome da democracia!

Que nos cresçam asinhas de anjo, tal como a Rangel, a Bugalho, a Santos Silva – fiéis de Guaidó, presidente em photoshop da Venezuela, e acreditemos quão antigas e desinteressadas são as preocupações dos Estados Unidos com as democracias no seu quintal sul-americano.

Nada a ver com os colossais lucros das empresas americanas. Tudo pelo bem dos povos.

Assim de repente, em 1954, com tropas treinadas pela CIA e comandadas por um militar local, os Estados Unidos derrubaram o governo de Jacobo Arbenz, na Guatemala, um governo constitucionalmente eleito, que apenas empreendia reformas que visavam minorar a exclusão social em que a maioria da população indígena vivia. Não havia nenhuma evidência de ligações de Arbenz com o comunismo. A irritação de Washington tinha outro motivo: o governo de Arbenz havia tomado medidas que prejudicavam os interesses da United Fruit, uma empresa bananeira americana instalada no país.

 Em 1969, na Colômbia, havia uma empresa conhecida pelo cognome de “Mamá Yanay” pela Zapata Corporation, empresa relacionada com George H. W. Bush passando a designar-se por Chiquita Brands. Esta empresa foi acusada de financiar grupos paramilitares na Colômbia responsáveis pelo massacre de sindicalistas, camponeses.

O Chile é, porventura, o exemplo mais marcante da técnica de apresentar como comunismo qualquer ofensa aos interesses americanos. A desestabilização do governo de Salvador Allende no Chile (1973), promovida por Nixon e Kissinger, deveu-se à nacionalização das empresas mineiras de capital americano, ou à diminuição das compensações que lhes tinham sido atribuídas.

O cuidado dos Estados Unidos com a qualidade democrática e as virtudes dos seus aliados tem um bom exemplo em Noriega, o presidente do Panamá. Com o conhecimento e o apoio das autoridades dos EUA, Noriega formou “a primeira narco-cleptocracia do hemisfério”, como um relatório de um subcomité do Senado norte-americano classificou o Panamá de Noriega, “o melhor exemplo da política externa recente dos EUA”. Após a captura, Noriega declarou que havia trabalhado sempre de mãos dadas com Washington. Colaborador pago da CIA desde o início dos anos 1970, Noriega permitiu que forças norte-americanas instalassem postos de escuta no Panamá e usassem o país para direcionar ajuda a forças pró-EUA em El Salvador e na Nicarágua.

Depois da morte do presidente do Panamá, Torrijos, em 1981, Noriega assumiu o comando do Panamá e aliou-se aos chefes do narcotráfico da Colômbia, como Pablo Escobar, a contrabandearem cocaína para os EUA e a lavar o dinheiro das drogas nos bancos do Panamá, recebendo milhões de dólares de suborno.

Mas de facto o problema é o Maduro, que se distingue dos outros “democratas” sul-americanos por não entrar no jogo do petróleo dos Estados Unidos. Mas é o mercado a funcionar.

Acusação de fraude eleitoral é jogo Venezuela x EUA e o prémio é o petróleo venezuelano

(Caio Teixeira In Diálogos do Sul, 30-07-2024)


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Definitivamente, disputa entre Venezuela e EUA não é só “ideológica”: com todas as letras, trata-se de R-O-U-B-O, em todos os sentidos.

É roubo antes do jogo porque quem está escrevendo as regras é o competidor mais forte. É roubo durante o jogo porque o juiz autonomeado é o próprio competidor mais forte e os árbitros de VAR são nomeados por ele escolhidos entre países com governos ou alinhados ou com medo de represálias, ou o pior, governos ingênuos que se deixam levar pelo discurso moralista do mais imoral personagem de toda a trama: os EUA.

É roubo gigantesco de propriedade. É como assaltar o Banco Central de um país e levar todas as suas reservas monetárias. É isso que representam as enormes reservas de petróleo da Venezuela que pertencem ao seu povo. 

Se os EUA vencerem esse jogo roubado, vão assaltar a Venezuela e roubar toda sua principal riqueza que pode garantir um futuro de desenvolvimento econômico e social para o povo venezuelano. Para os EUA tanto faz se o governo fantoche de direita ou de extrema direita, ou simplesmente criminoso, bandido, vai massacrar o povo venezuelano como Israel faz em Gaza com total apoio e participação estadunidense. Desde que lhes venda a empresa estatal de petróleo da Venezuela, a PDVESA, e entregue todo o petróleo, podem cometer todas as perversidades e imoralidades que quiser, especialmente se for para conter as imensas mobilizações populares de um povo politizado e consciente, que com absoluta certeza acontecerão para tentar impedir o roubo e defender a soberania do país. Para os EUA, transformar a Venezuela numa praça de guerra é juntar o útil ao agradável. Rouba o petróleo e provoca uma guerra civil que será alimentada pela indústria armamentista estadunidense gerando empregos e ingressos de capital para tentar salvar sua economia cada vez mais decadente. Encurralados pela nova ordem mundial que surge veloz e com passos firmes justamente a partir da Ásia e da África, os EUA estão chegando à zona do desespero. 

É irônico que justamente os continentes saqueados por anos a fio pelo império britânico, por iniciativas menores mas igualmente imperialistas de países da Europa e, finalmente, pelos EUA, estejam agora colocando em cheque os antigos algozes no seu próprio território, o capitalismo, com cheque mate previsível. Irônico, mas com a satisfação de saber que todo tirano um dia tem seu fim, e que ele não precisa ser substituído por outro. A queda do Império pode significar o retorno a um tempo de solidariedade entre todos da espécie e dela com o planeta. 

A China, líder da atual resistência ao Império, assumiu compromisso com energia limpa, assinou e está cumprindo o protocolo de Kioto, e de lambuja, tomou o mercado mundial de carros elétricos de Elon Musk com tecnologia mais avançada e preços menores e hoje é disparado a maior vendedora de carros elétricos do mundo. Ops! Prejuízo para o Império. Tem gente que sabe jogar capitalismo e ganhar deles no tabuleiro e com as regras deles! 

Quem só conhece uma árvore não sabe o que é uma floresta. É para esse jogo maior, que devemos olhar se quisermos entender qual a parte que nos toca desse latifúndio e que peleias vamos ter que pelear para tomá-la de tiranos apossados de coisas que não tem dono. Estamos diante de uma luta entre o Império decadente querendo se apossar de uma reserva de petróleo maior que a da Arábia Saudita, ao lado de casa. Sem precisar atravessar meio mundo ema petroleiros. Basta um oleoduto menor que o Nord Stream que eles explodiram. É como redescobrir petróleo no Texas. Uma nova e romântica era de ouro do petróleo. -Mas tem um problema senhor diretor da CIA, esse petróleo tem dono. 

É, esse petróleo tem dono! Pertence a Venezuela, um país formado pelo seu território e pelo seu povo de cultura milenar e espírito guerreiro ancestral. 

Ora disse o cowboy, esses índios não importam! Sempre soubemos lidar com índios. Vamos usar a solução de sempre, substituír de regime. Transformamos a vida do povo num inferno com sanções econômicas e congelamos as reservas internacionais, para deixar o governo sem caixa. É fácil. Tudo está em nossos bancos. Deus salve o santo espírito de Bretton Woods! Criamos uma oposição financiando quem garantir a venda da PDVESA para nós, e ganhamos a próxima eleição. Democraticamente! 

Mas não deu. O grande legado de Chávez foi a organização do povo desde a base da sociedade e organizada ela se defende bem. 

Não deu?, disse o cowboy, vamos organizar um golpe. Achem um bandidinho confiável. Serve este? Guaidó é o nome. E está em posição estratégica, é o presidente da Assembléia Nacional e pela primeira vez os chavistas não tem maioria. Mas tem um problema, pela Constituição deles o presidente só pode ser destituído por plebiscito. Não importa. É só o cara se declarar presidente e a gente na hora já reconhece e mandamos os de sempre reconhecer também. Assim foi feito. Guaidó se proclamou presidente contrariando as garantias constitucionais democráticas e os EUA e aliados liberaram para ele todos os recursos da Venezuela em bancos estadunidenses e europeus. 

Mas ainda não foi desta vez. Maduro convocou uma Constituinte, de acordo com a Constituição que prescreve sempre uma eleição popular para resolver impasses políticos. E não é o correto democratas? Chamar o povo a votar pela privatização da Vale? Chamar o povo a votar se era crime de responsabilidade ou não? Chamar o povo a votar sobre a venda da PDVSA? Já viram algum “ditador” apostar em tantas eleições? É que o Maduro não é um boneco. Maduro é a parte que aparece de um partido político muito forte devido à sua organização capilar dentro de toda a sociedade. Um partido que consegue chegar cara a cara nas casas, nos bairros e debater política, debater capitalismo, debater socialismo, o Partido Socialista Unificado da Venezuela, o PSUV. É por isso que os chavistas ganham eleições sem precisar roubar. É isso que assusta os inimigos.

Vou dar num exemplo que ajuda a entender o que acontece na Venezuela. Em 2012 eu e minha colega jornalista, Vanessa Martina-Silva, chegamos a Caracas antes dos demais, no sábado a uma semana da eleição onde disputavam, de um lado o Comandante Hugo Chávez, título outorgado pelo povo organizado, e de outro, Henrique Capriles, representando os EUA sempre babando por petróleo. 

Naquele domingo tinha o comício do Capriles e nós, como repórteres insaciáveis, fomos cobrir. Era um comício muito grande na Praça Bolívar, maior do que tudo o que já tínhamos visto no Brasil ou na América Latina. Lembro de termos comentado: o Chavez vai perder! Fomos almoçar e como sempre puxamos conversa com o garçom, que era chavista, e manifestamos nossa preocupação com o tamanho do comício de Capriles e com a possibilidade de derrota de Chávez. O comício ocupou um imenso espaço na praça Bolívar. Ele riu sinceramente e disse: não se preocupem, o comício do Chavez vai ser muuuito maior. Só fomos ficar aliviados durante a fala do Comandante no comício de “cierre de campaña”, na quinta-feira. 

A praça Bolívar é o lugar para onde convergem sete avenidas como se cada uma fosse um raio de uma roda de bicicleta. Ali, vimos o orgulho do PSUV: vimos lotar as sete avenidas até onde a vista alcança, além do enorme espaço da praça. Encher as sete avenidas é uma tradição muito cara aos chavistas. 

Eles lotaram mais uma vez as sete avenidas no comício do Maduro semana passada. Não viram as fotos na Folha? Nem viram as imagens na TV? Claro que não e nunca vão ver. Já fui sindicalista e lembro da emoção de estar dirigindo uma  assembléia grande para decidir uma greve. É a sensação de que todo o trabalho para construir aquele movimento deu certo. Toda a organização deu certo. Fizemos a coisa certa. Agora imaginem a emoção do Chávez ou do Maduro falando para aquela praça diante das sete avenidas entupidas de gente, soldados ideológicos dispostos a defender seu projeto de país e de sociedade que não inclui a entrega de sua principal riqueza. Lembro que na saída do comício no meio daquele mar de gente alguns militantes eufóricos, vendo que éramos jornalistas de fora diziam orgulhosos no meio da multidão: “Lo ves? Esto es socialismo!”.

É compreensível que muitos companheiros de luta não entendam o que isso significa, pois as maiores manifestações que já ocorreram no Brasil foram os comícios no final da campanha pelas Diretas Já, em 1984, com um milhão e meio na Candelária, e um milhão na praça da Sé para derrubar a ditadura. Depois tivemos outro grande momento para derrotar o neoliberalismo de FHC com uma marcha de 100 mil pessoas, em Brasília em 2002, que garantiu a primeira eleição de Lula.

As sete avenidas lotadas equivalem a milhões de pessoas. É essa mobilização, esse patrimônio organizativo, que elege os chavistas e elegeu Maduro no último domingo frustrando mais uma tentativa dos EUA se apossarem do petróleo  venezuelano. 

O que os saqueadores internacionais estão fazendo agora é o que sempre fazem, usar todo o aparato midiático controlado por agências de notícias euro-estadunidenses, aliados a traidores locais recrutados a preço de ouro, para tentar concretizar um golpe com campanhas de demonização de Maduro, que é muito mais que um homem, é a cara que aparece de um povo organizado. 

É isso que está em jogo na Venezuela. A PDVESA já tem comprador, o grupo Chevrom, compromisso assumido publicamente por Corina Machado. Até Roger Waters sabe disso e conclamou os venezuelanos a não vender seu país. 

Então, minhas amigas e meus amigos olhem para a floresta e não para a árvore que o inimigo com toda sua força de persuasão midiática coloca na sua frente como a espiga de milho pendurada numa vara na frente da mula para que ela só caminhe naquela direção. Todas essas acusações fajutas de fraude, como fez Trump quando perdeu a eleição, como fez Bolsonaro quando perdeu a eleição, são cortinas de fumaça sopradas aos quatro ventos pelos EUA para ROUBAR o petróleo da Venezuela, para roubar o futuro de uma Nação que luta cotidianamente para defender sua soberania. Alimentar esse fogo, essa versão da História imposta pelo inimigo ladrão, sob qualquer justificativa, é legitimar o SAQUE. E não me venham falar em democracia porque isso não é democracia. Ou é democrático destruir a economia de um país criando artificialmente insatisfação popular para roubá-lo logo em seguida? É democrático fazer uma campanha midiática internacional, com todo seu poder de fogo, para manipular o resultado de uma eleição como fazem os EUA? Como já fizeram com as armas químicas do Iraque? Ou com a campanha sionista em defesa do genocídio em curso por Israel? Nem os aliados tem perdão. A Europa embarcou numa guerra absurda na Ucrânia destruíndo a base energética de sua própria economia que está em frangalhos.

Então, pergunto: é com esse que vocês vão? Entre um país irmão latino-americano que luta bravamente por sua soberania e o ladrão que vem roubá-lo, de que lado você fica? O mesmo ladrão que articulou um golpe no Brasil para apossar-se do petróleo do pré-sal, imediatamente entregue por Temer e por José Serra. Vai ficar do lado de uma moral de cuecas do país mais imoral do planeta? Ou do lado da resistência contra esse inimigo impiedoso? Esse é o jogo em curso. Se Maduro e o povo da Venezuela forem derrotados, perderão seu petróleo. E todos sabem como é difícil recuperar depois. Até agora não conseguimos reverter a privatização da Vale, as reformas da previdência, a reforma trabalhista, a venda em pedaços da Petrobrás. 

Tirem os olhos da árvore e se afastem para ver a floresta.

Fonte aqui