Rebelião no quintal das traseiras

(José Goulão, in AbrilAbril, 23/06/2022)

A IX Cimeira das Américas, realizada em Los Angeles, entre 6 e 10 de Junho de 2022, registou o menor número de Chefes de Estado desde a primeira edição da iniciativa, em 1994 e foi marcada pela contestação à política de exclusão e de sanções dos EUA. À mão direita do presidente Joe Biden esteve o seu incondicional aliado, o colombiano Ivan Duque. Menos de uma semana depois a Colômbia elegeu o primeiro presidente de esquerda da sua história

O que aconteceu em Los Angeles na nona Cimeira das Américas tem a marca dos tempos. Nada correu como dantes: os resultados e a afluência de países e chefes de Estado foram os mais pobres desde que estas reuniões continentais se iniciaram em Miami, em 1994; sobretudo o tom de muitas intervenções e debates traduziu uma ruptura – apesar de tudo surpreendente – com o tradicional unanimismo podre das relações e dependências de tipo colonial.

Desta feita, o presidente norte-americano, no caso Joseph Biden, ouviu o que jamais os seus antecessores escutaram e o nutrido rol de descalabros da sua administração somou mais um, este bem gordo e sofrido em casa. A que sucede – a série continua – a vitória da esquerda na Colômbia, país que Washington considera estratégico para a sua dominação continental, sobretudo na componente militar.

Percebeu-se que qualquer coisa de muito diferente estava a acontecer ainda antes do início da cimeira, quando os serviços da administração Biden, seguindo o guião rotineiro com modorra burocrática, definiram a lista de participantes e a ordem de trabalhos. Cuba, Nicarágua e Venezuela foram excluídos dos convites, por serem «ditaduras»; e como ponto forte dos temas a discutir foi escolhido o das migrações continentais, o que era esperado porque habitualmente a agenda é definida em função dos assuntos que mais interessam aos Estados Unidos.

Então o inesperado aconteceu. Vários países de todas as regiões americanas – Norte, Centro, Sul e Caraíbas – fizeram saber que ou não estariam presentes ou não enviariam os seus chefes de Estado a Los Angeles por discordarem frontalmente das exclusões de nações impostas pelos anfitriões; e os países da América Central revelaram que não enviariam delegações por discordarem da agenda, essencialmente por considerem que o tema das migrações, fruto da miséria económica e social gerada pela praga colonial que os sangra há séculos, deve ser discutida bilateralmente com o actual responsável pela situação, os Estados Unidos.

Apanhado de surpresa com tão invulgar princípio de sedição no território que há muito é considerado «o quintal das traseiras» de Washington, o Departamento de Estado despachou um enxame de enviados ou entrou em contacto directo com os recalcitrantes distribuindo o habitual menu de ameaças e chantagens para que tudo voltasse à ordem natural e a cimeira decorresse como de costume, isto é sem ondas e com o coro do rebanho entoando o ámen final.

De ousadia em ousadia

Esta ofensiva também não proporcionou os resultados esperados, e que habitualmente são dados como garantidos, reforçando a ideia de que havia mesmo uma resistência nada usual ao diktat de Washington.

Dando sinais de alarme com um cenário tão inconveniente, sobretudo num período em que a seguir à debandada militar do Afeganistão os acontecimentos induzidos na Ucrânia não correm como estava previsto, e logo a poucos meses de eleições parciais para o Congresso que são de importância transcendente para o Partido Democrático e a Casa Branca, o regime norte-americano fez uma mobilização geral. O presidente disponibilizou-se para assistir a todas as sessões da cimeira, tal como a vice-presidente Kamala Harris e o governador da Califórnia, além de presenças pontuais da presidente da Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi.

Nada demoveu os chefes de Estado que já tinham decidido não se deslocar a Los Angeles, entre eles o presidente mexicano Lopez Obrador, um peso pesado no continente. «Não vou à cimeira porque não foram convidados todos os países da América», explicou.

Luis Arce, presidente da Bolívia, e Xiomara Castro, presidente das Honduras, fizeram declarações no mesmo sentido ao confirmarem as respectivas ausências.

Feitas as contas, compareceram 23 chefes de Estado, alguns deles numa situação que pode qualificar-se como «de protesto» – os da Argentina e do Chile, por exemplo – tendo em conta as declarações que proferiram durante os trabalhos.

As edições da Cimeira das Américas mais frequentadas foram as de 1994 em Miami e de 2019 em Lima, juntando 34 chefes de Estado. De notar que há três anos até Cuba esteve presente no Peru.

Desta feita registou-se a maior onda de boicotes à reunião. Além de Cuba, Nicarágua e Venezuela não terem sido convidados também o Uruguai, Guatemala e El Salvador não se fizeram representar. A ausência destes dois últimos países (o presidente uruguaio alegou Covid) representa um corajoso desafio frontal à administração Biden porque as suas histórias políticas, militares e sociais pelo menos nos últimos 70 anos têm estado totalmente dependentes de Washington através de episódios frequentes de golpes de Estado, mudanças de regime e repressão sangrenta, muitas vezes a cargo de esquadrões da morte financiados, treinados e operados pelos Estados Unidos.

Outra das características notáveis e absolutamente novas nesta edição da Cimeira das Américas foi o facto de a contestação da lista de convidados e da ordem de trabalhos ter partido tanto de países com enorme peso continental como de nações de menor dimensão, influência e peso geoestratégico como Belize e Antígua e Barbuda, que ousaram dizer na face de Biden, contra todos os «protocolos», aquilo que ele merecia ouvir.

John Brieño, primeiro-ministro de Belize, condenou o embargo a Cuba, um verdadeiro tabu que existe para ser obedecido e nada mais, e qualificou como «imperdoável que haja países das Américas que não estejam aqui presentes».

O primeiro-ministro de Antígua e Barbuda, Gaston Browne, tomou posição idêntica lamentado que «os convites para esta nona cimeira não tenham sido extensivos a todos os chefes de Estado». Quanto ao embargo contra Cuba declarou que «se trata de uma barreira à paz e à amizade neste hemisfério».

Philip Davies e Mia Mattley, respectivamente das Bahamas e Barbados, fizeram intervenções no mesmo sentido. Nunca tal se ouvira num fórum continental a este nível, sobretudo partindo de países tão «pequenos». Na realidade, como ficou provado, o exercício de soberania não é uma questão de dimensão mas da vontade e coragem dos governos para colocarem os interesses dos seus cidadãos acima de interesses externos, quase sempre adversos. Uma lição para quem deseje ir ainda a tempo de aprender.

Nayib Bukele, o polémico presidente populista de El Salvador, foi dos que não se deslocou a Los Angeles por discordar do ponto da agenda sobre migrações; mas deixou no Twitter um recado para Biden em que condenou igualmente a Organização dos Estados Americanos (OEA) e a maneira como tem funcionado: «Está claro que o Ministério das Colónias em Washington, também conhecido por OEA, já não tem qualquer razão de ser». Uma heresia. Simultaneamente Bukele ufanou-se de ter encontrado na Turquia um novo parceiro económico e comercial, uma vez que, depois de uma viagem a Ancara, o comércio entre os dois países aumentou 80% este ano.

«Momento disfuncional»

Os presidentes da Argentina e do Chile, respectivamente Alberto Fernandez e Gabriel Boric, decidiram deslocar-se a Los Angeles mas as intervenções que fizeram não pouparam Biden, a sua administração e o comportamento dos Estados Unidos no continente.

Já o brasileiro Jair Bolsonaro fez depender a sua presença da concessão de uma audiência privada com o presidente norte-americano, certamente para lhe pedir um apoio, que tem sido reticente, nas próximas eleições presidenciais. Os interesses pessoais sobrepuseram-se, mais uma vez, à afirmação dos interesses do Brasil no quadro continental.

Alberto Fernandez não foi brando nas palavras: «O silêncio dos ausentes interpela-nos». O presidente da Argentina fez votos para que «isto não volte a acontecer no futuro e que o país anfitrião não tenha a capacidade de impor o direito de admissão em relação aos países do continente».

Boric, o chefe de Estado chileno, declarou que «estamos aqui para dialogar, para ouvir e tenho a profunda convicção de que para isso funcionar a sério não poderá haver exclusões».

Lopez Obrador, o presidente mexicano, enviou a Los Angeles o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Marcelo Ebrard. «Não se pode criar uma nova agenda, não se pode pensar numa nova relação mantendo as velhas estruturas», disse em plenário. E rejeitou que os Estados Unidos continuem com poder de intervenção para dizer «tu sim, tu não».

O presidente mexicano, talvez o dirigente mais representativo no processo que está a abalar a «velha ordem» americana, divulgou uma importante declaração que coincidiu com o início dos trabalhos e traduz todo um espírito regional novo, por sinal perfeitamente inserido nas transformações que estão a decorrer à escala global e abalam o «mundo ocidental» e a ordem unipolar. «Estou convencido da necessidade de mudar a política que nos foi imposta há séculos, a política de exclusão, a ânsia de poder, o desrespeito pela soberania dos povos e a sua independência», disse o chefe de Estado mexicano. «O que pode ser uma cimeira se nem todos os países foram convidados? É a mesma velha política de intervencionismo e de desrespeito pelos povos».

Ao lado de Biden esteve, significativamente e quase isolado, o fiel escudeiro e agente golpista Iván Duque, o fascista que está prestes a terminar a sua comissão de serviço como presidente da Colômbia. «Debatamos as nossas diferenças em democracia mas estas cimeiras nunca serão terrenos férteis para ditadores», sentenciou. Um exemplo do velho discurso numa cimeira marcada por comportamentos novos e demonstrativo do isolamento a que Joseph Biden ficou submetido em Los Angeles encarando os seus «súbditos» em rebelião.

Entretanto a própria situação colombiana sofreu uma reviravolta de 180 graus. Além do fim do mandato de Duque, também as suas correntes fascizantes ditas «democráticas» foram eleitoralmente derrotadas pela esquerda.

E agora, Mr. Biden? Como vai ser a atitude da sua administração depois da eleição histórica de Gustavo Petro e Francia Marquez à frente da esquerda e dos grupos progressistas agregados no Bloco Histórico da Colômbia? Como fica a sua Colômbia, base golpista tutelada pela NATO e o Comando Sul dos Estados Unidos, a «pedra angular do Hemisfério Ocidental», usando a sua terminologia habitual? Pouco depois da Cimeira das Américas a revolta continua e as derrotas imperiais sucedem-se. Haverá golpe em Bogotá para «restaurar a democracia», como só na última década aconteceu no Brasil, no Paraguai, no Peru, nas Honduras, na Bolívia, sem contar as tentativas permanentes na Nicarágua e na Venezuela e ainda os episódios de «revoluções coloridas» em Cuba? O Pentágono exportará o que resta de Juan Guaidó para a Colômbia, sob novos aplausos da maioria dos países da União Europeia?

Um indício de como a renovada situação continental está a inquietar Washington é a cobertura da cimeira pela Voz da América, o canal oficial de propaganda do regime actuando sob controlo dos serviços de segurança. «Analistas» citados pela emissora testemunham que «o continente está num momento disfuncional, ideologizado e ressentido». O mesmo órgão de propaganda cita um «politólogo» mexicano, Leonardo Curzio, segundo o qual a administração Biden tornou mais visíveis as fracturas «de uma região incapaz de articular esforços hemisféricos». Talvez a «fractura» mais visível deixada pela cimeira, mas não enunciada por Curzio, seja a de grande parte do continente ter encontrado maneira de afirmar posições próprias em relação a Washington, uma realidade completamente nova. O «politólogo» mexicano identifica também «um encerramento dos países nas suas dinâmicas internas» – um artifício semântico para reconhecer, contrariado, o esforço de numerosos países americanos, do Norte ao Sul, para restaurarem as suas soberanias.

Mais de 200 organizações e movimentos sociais dos EUA e dos restantes países do continente americano participaram entre 8 e 10 de Junho de 2022 na Cimeira dos Povos, em Los Angeles, uma alternativa anti-imperialista à Cimeira das Américas, realizada na mesma cidade norte-americana CréditosBill Hackwel / Resumen Latinoamericano

Horizontes que se abrem

Soberania é uma das palavras-chave dos tempos que correm. Essa pode ser também a marca desta histórica e fracassada Cimeira das Américas.

As mudanças que estão a acontecer no mundo com maior clareza relacionam-se muito mais com assinaláveis convergências de interesses nacionais e soberanos do que com supostos alinhamentos «ideológicos» ou com o conceito propagandístico de enfrentamento entre as «democracias liberais» e as «autocracias». Esta é uma forma cobarde e negacionista de encarar as inevitáveis transformações à escala mundial que opõem sim o globalismo de intenções neoliberais, oligárquicas e totalitárias – o Great Reset, «grande reinício» do Fórum Económico Mundial – à tendência crescente para a cooperação entre Estados independentes e soberanos. No fundo a desesperada ordem unipolar frente-a-frente com um arranjo ou arranjos multipolares. O conflito de que, para sua surpresa e dos que lhe manipulam o teleponto, Joseph Biden foi vítima em Los Angeles.

O sucedido na Cimeira das Américas pode ser reflexo dos primeiros resultados de novas formas de cooperação intercontinental que se afirmam também na América Latina.

Cresce igualmente nesta região com um potencial pujante de desenvolvimento e progresso o número de nações que alargam horizontes para lá das relações de tipo colonial a que têm estado submetidas, moldando as suas sociedades na injustiça, desigualdades e com imensas bolsas de miséria. Esses novos modelos de cooperação privilegiam a soberania e as independências nacionais, são exercidos em termos igualitários com base em interesses complementares das economias dos países envolvidos e dos seus recursos naturais e manufacturados. Os acordos não são estabelecidos em troca de exigências políticas, em função de regimes políticos, mas de vantagens mútuas, o que no caso específico da América Latina pode significar, a termo, uma existência e uma governação que não estejam reféns de uma potência única e seus satélites sob ameaças de invasões militares, golpes de Estado, chantagens, mudanças de regime, «reformas estruturais», terrorismo e incentivos a guerras civis.

Trata-se de uma perspectiva de vida continental totalmente nova, só possível porque à escala internacional se afirmam tendências multipolares que minam os efeitos condicionadores e retrógrados do «excepcionalismo» ocidental, uma minoria de países que enriqueceram à custa do saque e da exploração do resto do mundo considerando-se «imprescindíveis» até para que o planeta continue a girar.

Quase todos os dias se tornam públicos, mas raramente noticiados, acordos de cooperação e desenvolvimento inovadores na América que envolvem países como a Rússia, a China, a Índia, nações africanas, asiáticas e até membros da NATO como a Turquia.

A China, por exemplo, desenvolve amplos e importantíssimos projectos de infraestruturas em El Salvador, Cuba, Panamá e na Nicarágua, onde a possível construção de um novo canal entre o Atlântico e o Pacífico, alternativo ao Canal do Panamá gerido pelos Estados Unidos, é matéria para provocar insónias em Washington; a Rússia tem estabelecido relações económicas e comerciais, inclusivamente de índole militar, com o Peru, Venezuela e Brasil, entre outros.

O grupo BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) é um embrião de convergência económica e comercial que pode vir a reforçar-se na próxima cimeira, na qual participará outra grande potência americana, a Argentina, além de serem possíveis presenças surpreendentes de mais países, também sob a chancela de «observadores».

Há realmente uma nova dinâmica internacional na qual as crescentes (e muito corajosas) afirmações de soberania e independência afrontam o monolitismo globalista e que também é espelhada, num estado mais avançado do que seria de prever, na maneira como decorreu a recente edição da Cimeira das Américas.

A rebelião no «quintal das traseiras» dos Estados Unidos, abrindo portas a saudáveis e rejuvenescidas manifestações de soberania e independência, contrasta com a submissão cada vez mais humilhante dos países da União Europeia aos interesses, vontades e ordens de Washington; uma abdicação de identidades e valores históricos, um sintoma de esclerose contra a corrente emergente de transformação internacional, conjuntura que não promete nada de bom para os governos e países que se arrastam, desprezando os seus povos, na decadência colonial e imperial.


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América Latina: a lição da resistência

(Manuel Loff, in Público, 14/11/2019)

Manuel Loff

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A América Latina é, com as revoluções mexicana (1917) e cubana (1959), a Unidade Popular chilena (1970-73) ou o sandinismo (1979), um laboratório de experiências políticas com mais impacto mundial do que se julga. A grande viragem progressista, que irrompeu com Chávez (1998) e se alastrou com os movimentos emancipadores de Rafael Correa (Equador) e Evo Morales (Bolívia) e com as vitórias eleitorais contra as receitas do FMI (Lula, os Kirchner, Pepe Mujica), constituiu a primeira grande vaga de contestação global ao neoliberalismo que começou a devastar os direitos sociais a partir do fim dos anos 1970. Os latino-americanos têm dado lições ao mundo sobre a emancipação camponesa e a batalha pela terra, que hoje, finalmente, se começa a perceber ser uma batalha pela salvação da natureza; sobre a emancipação das mulheres e das minorias LGBTI num subcontinente onde a violência de género tem sido mais combatida do que em qualquer outro; sobre a luta anticolonial contra a dominação económica, sustentada sobre o preconceito racista e a crueldade social das burguesias de origem europeia. A origem popular de Lula ou Mujica, que Chávez e Correa sejam mestiços e que Evo Morales seja um uru-aimará, são argumentos centrais no ataque a todos eles e nas caricaturas que deles fazem os media e as direitas de todo o mundo. O racismo nauseabundo e o fundamentalismo religioso de Bolsonaro ou do novo líder da extrema-direita boliviana, Luis Fernando Camacho, garantem a ambos um lugar de destaque como símbolos acabados da burguesia branca latino-americana.

Depois de terem desencadeado e coordenado nos anos 1970 a batalha pelo extermínio físico e político das esquerdas revolucionárias, fomentando por todo o lado ditaduras de militares e ricos empresários, os EUA, julgando-a definitivamente vencida, passaram nos anos 1980 a permitir que se aliviasse a repressão e que os militares se retirassem com a condição de que os seus sucessores prosseguissem extensão à América Latina das políticas neoliberais já adotadas pelas direitas e a social-democracia dos países ricos. Esta fórmula democratização + privatização generalizada + aumento da desigualdade entrou em crise no final do século passado e abriu caminho à vaga progressista, que, por sua vez, entrou em crise a partir de 2015.

Não é que quem sempre mandou nas repúblicas americanas desde há 200 anos tivesse aceitado algum dos projetos de mudança socioeconómica, que, apesar de todas as suas hesitações (raramente se renacionalizou algum dos avultadíssimos recursos privatizados nos anos 1990; grandes multinacionais americanas, europeias, agora também asiáticas, continuaram a operar livremente), trouxeram melhorias consistentes ao nível de vida dos mais pobres e um reconhecimento constitucional da plurinacionalidade de Estados historicamente construídos sobre o genocídio dos povos ameríndios (Venezuela, Bolívia, Equador, mas não no Brasil, ou no Chile). Também na radicalização das direitas, a América Latina foi pioneira. Acrescentou-se sabotagem económica e corrupção a modelos de produção não reformados; em sociedades em que a violência é um recurso permanente, juntou-se-a a processos de contestação social. Direitas abertamente saudosas das ditaduras do passado recente passaram a denunciar o “autoritarismo” e o “populismo” dos governos progressistas ou a “ditadura cultural marxista” que estaria na agenda destes. Para os derrubar, têm usado sobretudo meios “institucionais”: Manuel Zelaya nas Honduras (2009), Fernando Lugo no Paraguai (2012) e Dilma Rousseff no Brasil (2016). Pela via eleitoral, ganharam apenas na Argentina (Macri, 2015) — e acabam de voltar a perder; e no Brasil, mas só depois de prenderem Lula. Como acaba de se demonstrar na Bolívia (e em 2002 contra Chávez), nunca perderam o velho tique do golpe militar.

Enganou-se quem julgava que, com Trump e Bolsonaro, a vitória das direitas americanas era irreversível. O regresso em força dos movimentos sociais, persistentes e corajosos como em poucos lugares do mundo, no Equador e no Chile (onde a democratização não tocou no neoliberalismo económico herdado da ditadura), o esvaziamento de Guaidó na Venezuela e o regresso do kirchnerismo dão razão a Álvaro García Linera, o vice-presidente boloviano que agora se exilou no México: “Lutar, vencer, cair. Levantarmo-nos, lutar, vencer, cair, levantarmo-nos. Até que se nos acabe a vida.”

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

Thatcher morreu, Reagan também e o Pinochet já não se sente lá muito bem

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 05/11/2019)

Daniel Oliveira

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Vou dedicar-me, neste texto, ao que se passa no Chile e na Argentina. Mas quero deixar claro que não ignoro os acontecimentos recentes noutras paragens daquele continente. Sobre a tragédia venezuelana já escrevi inúmeras vezes. Sobre a Bolívia, tratarei noutro dia. Até porque nunca coloquei Evo Morales no mesmo saco que Maduro ou sequer Chávez. Morales vem de um movimento social e representa uma clivagem impossível de ignorar na Bolívia: a do povo indígena eternamente esquecido. Nada tinha a apontar-lhe até cometer o grave erro de mudar a ConsTituição para conseguir um terceiro mandato e violá-la para ir ao quarto. Este é o problema histórico da esquerda latino-americana: os processos de democratização social chocarem com a dependência de homens salvadores, o que é o oposto da democratização política. Seja como for, as crises na Venezuela e na Bolívia resultam de soluções políticas com décadas, evidentemente desgastadas pelo tempo e por erros. Estes eram os últimos sobreviventes do domínio da esquerda na América Latina.

Em novembro de 2007, reuniram-se em Santiago, numa cimeira ibero-americana, Lula da Silva, Hugo Chávez, Evo Morales, Cristina Kirchner, Michelle Bachelet, Rafael Correa, Tabaré Vazquez, José Manuel Zelaya, Daniel Ortega e Alan García. Com alguma relevância política, só destoava o presidente da Colômbia, Álvaro Uribe. Um ano depois, juntou-se ao clube da esquerda latino-americana Fernando Lugo, do Paraguai. Doze anos depois, a era de Nestor e Cristina Kirchner chegou ao fim na Argentina (regressa agora de outra forma); Bachelet foi alternando com o direitista Sebastian Piñera no Chile, que o dirige agora; Lenin Moreno, o sucessor de Correa no Equador, afastou-se da esquerda para rumar para os braços dos Estados Unidos; os conservadores Juan Orlando Hernández e Martín Vizcarra governam as Honduras e o Peru; e o Presidente do Paraguai é Abdo Benítez, filho do antigo secretário particular do ditador Stroessner. E Jair Bolsonaro chegou ao poder no Brasil. Entre as quedas, contam-se as destituições ilegais de Fernando Lugo e Dilma Rousseff e o golpe militar nas Honduras. Mas, regra geral, foi o voto que os fez cair. Hoje, as exceções são El Salvador, Uruguai e México. E o Uruguai está tremido.

O padrão parecia tão claro que ninguém esperava que esta guinada à direita fosse perturbada tão rapidamente. Havia quem acreditasse que as experiências de esquerda poderiam ter servido de vacina. Pois parece que está a acontecer o oposto: são as experiências de direita, com soluções económicas cada vez mais radicais e urgentes para satisfazer que as apoia, que se degradam a uma velocidade estonteante.

A Argentina foi a primeira queda de um governo instalado por esta onda de direita que parecia estar a varrer a América Latina. Mauricio Marci devolveu o poder ao peronismo de esquerda, representado por Alberto Fernández e Cristina Kirchner. Quando chegou ao poder, Marci reverteu o default da brutal dívida argentina, desenvolveu uma grande contrarreforma laboral, limitando a possibilidade de recurso à Justiça, e eliminou os subsídios à eletricidade, com efeitos devastadores. Nada disto impediu que a dívida externa aumentasse ainda mais. A economia degradou-se e a inflação tornou-se um problema grave de um governo que prometera inflação zero. Resumindo num só parágrafo, diria que estas são as razões aparentes para a sua derrota.

Mas a vitória da esquerda argentina é especialmente perturbante porque vence um duplo cerco dos mercados. Um cerco de apoio a Marci e um cerco de combate a Fernández. Sem que os resultados económicos do primeiro o justifiquem. Primeiro, através de um empréstimo inédito do FMI: 50 mil milhões de dólares que depois subiram para 57 mil milhões. Numa coincidência quase absoluta com o calendário eleitoral, reservando grande parte das transferências para o período próximo das últimas eleições. Mas inédita também porque parte destas transferências serviram para sustentar a cotação do peso e financiar o tipo de políticas sociais que o FMI costuma condenar. O objetivo foi evidente: salvar um aliado. E mal a vitória de Alberto Fernández se começou a tornar evidente, logo regressou um discurso público que exigia sinais de austeridade e contenção dos futuros governantes. Aqueles que não foram exigidos a quem contou com um forte apoio. Mesmo assim, nada resultou. Como escreveu o analista político Mario Wainfeld, no jornal “Página 12”, “às vezes os cidadãos pronunciam-se como se tivessem conjurado”. Os argentinos queriam que Marci caísse. Assim como os chilenos querem que Piñera caia.

Se a Argentina foi a primeira queda, o Chile é um caso muito mais surpreendente, porque acontece um ano e meio depois de a direita regressar ao poder. Tudo rebentou poucas semanas depois de o Chile ter sido descrito por Sebastian Piñera como um “oásis”. Como é evidente, não é o aumento de quatro cêntimos da tarifa do metropolitano de Santiago que explica a explosão de revolta. Terá sido um pretexto há muito esperado. O preço da habitação aumentou 150% na última década, enquanto os salários aumentaram 25%. O salário mínimo anda pelos 370 euros e 70% dos trabalhadores recebem menos de 680 euros. Os salário dos políticos é 33 vezes mais alto do que o salário mínimo. O Chile tem números económicos de primeiro mundo e serviços públicos de terceiro mundo. Um dos piores sistemas de educação da América do Sul, num país com muito menos razões históricas do que outros para que isso aconteça. Um péssimo sistema de saúde infantil. Pensões muitíssimo baixas num sistema que está há muito tempo em crise, onde 80% recebem menos do que o salário mínimo.

Tudo isto se resume numa frase: o grande problema do Chile é a desigualdade. É, de longe, o país mais desigual da OCDE. O relatório de 2017 da Comissão Económica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) diz que um quarto da riqueza está concentrada nas mãos de 1% da população enquanto a metade mais pobre detém apenas 2%. Para além das razões históricas coloniais, partilhadas por quase todos os países da América Latina, há uma herança mais recente. Com alguns remendos, o Chile tem a Constituição imposta por uma ditadura e que reflete muitos dos seus valores. Incluindo os valores que nortearam as suas políticas económicas. Tudo é privado: a educação, a saúde, a água (penso que é o único país do mundo) e o sistema de pensões – os trabalhadores depositam os seus descontos em contas individuais geridas por privados e os resultados têm sido tudo menos famosos. O Chile é o país mais neoliberal do mundo. Desafiando os que associam a dependência eterna ao banco, à seguradora e ao patrão à liberdade, o Chile é a prova histórica de que não há qualquer relação entre o neoliberalismo e a democracia. No Chile, o neoliberalismo é a mais sólida herança da ditadura. Aquela que nem a democracia conseguiu vencer.

Milton Friedman ainda tentou desafiar o quebra-cabeças que contrariava a propaganda, afirmando, sobre as reformas que ele e os seus “Chicago boys” defenderam e que Pinochet aplicou com mão de ferro, que “o verdadeiro milagre não foi essas reformas terem funcionado tão bem, foi uma junta militar estar disposta a fazê-lo”. Não havia qualquer contradição. E o casamento a que assistimos hoje entre a direita neoliberal e a autoritária, presente em duplas como a de Jair Bolsonaro e Paulo Guedes, é a prova disso. O autoritarismo é condição para lidar com os efeitos da destruição das almofadas que tornam o capitalismo compatível com a paz social e, por consequência, com a democracia.

Um grafitti nas ruas de Santiago diz: “O neolibarismo nasce e morre no Chile”. Lamentavelmente, acho que não morrerá lá. Mas é sintomático que esta revolta, que tem o neoliberalismo como único verdadeiro alvo, aconteça em democracia no lugar onde ele se impôs, com mão de ferro, tortura e assassínios, através de uma ditadura. Tem-se escrito e dito que a democracia liberal está em crise. É verdade. E há, como em todas as crises sistémicas, muitas causas que se cruzam. Mas ignorar os efeitos da desregulação económica e da destruição de políticas sociais é ignorar o que mais toca a vida das pessoas. Com uma agravante: o enfraquecimento do papel económico dos Estados resultou num enfraquecimento do seu papel político. Hoje, ele está mais frágil para se defender da revolta, venha ela de onde vier. E é por isso que Eduardo Bolsonaro, o tresloucado deputado filho do Presidente brasileiro, reagiu assim aos acontecimentos no Chile: “Não vamos deixar isso daí vir para cá. Se vier para cá, vai ter que se ver com a polícia. E se eles começarem a radicalizar do lado de lá, a gente vai ver a História se repetir.” É o que lhes resta: a ameaça do fuzil.

Na Europa, quem acredita na democracia tem outra resposta. Perceber que não há só uma crise da democracia liberal, que temos de combater. Há uma crise do neoliberalismo, que temos de consumar. Como? Através de um contrato social. A última vez que o percebemos foi depois da mais abjeta das guerras. Seria excelente não precisarmos de outra. O que precisamos é de restaurar a social-democracia. Só assim salvaremos a democracia.

O neoliberalismo nasceu no Chile e é o Chile que nos avisa que ele está a morrer. Salvemos a democracia com um golpe de misericórdia nessa doença que, desde os anos 70, agrava as desigualdades nas economias ocidentais, deslaça as nossas sociedades e enfraquece as nossas democracias. Enterremos de uma vez Thatcher, Pinochet e Reagan. Precisamos de um novo New Deal. E que desta vez também seja verde, para salvar o planeta.