Candidato derrotado na Venezuela foi operacional da CIA na Operação Condor em El Salvador

(In Horadopovo.com.br, 01/08/2024)


(O texto que segue é bem interessante. Apesar de se basear em fontes públicas, nenhum dos “comentadeiros” das televisões sabe – ou se sabe nunca refere – estes detalhes sórdidos do currículo do homem, um grande “democrata”, dizem eles… Será que, para tal gente, democrata e assassino são sinónimos? Com este currículo não admira que os EUA digam que ele é que ganhou as eleições…

Estátua de Sal, 03/08/2024)


Candidato da extrema-direita, González Urrutia, agora exibido como ‘democrata’ por certa mídia, foi nos anos 1980, operacional em El Salvador da Operação Condor, sob comando da CIA, de tortura e assassinatos em favor da intervenção norte-americana, denuncia a ex-deputada Nidia Díaz.


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“Não se pode esquecer do papel nefasto que Edmundo González Urrutia (candidato atual à presidência da Venezuela pela extrema direita) em El Salvador quando ele era o segundo na embaixada da Venezuela, juntamente com o embaixador Leopoldo Castillo, conhecido como El Mata Curas (O Mata Padres)”, afirmou a advogada e líder salvadorenha Nidia Díaz, em artigo reproduzido por vários sites no continente (Ver, por exemplo, aqui).

Conforme a ex-deputada da Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN) e integrante do Parlamento Centro-americano, “o rosto oculto de Edmundo González” precisa ser iluminado, para que se saiba quem é.

“Isto aconteceu entre 1979-1985, como parte do Plano Condor (ver detalhes aqui ) em El Salvador do projeto contrainsurgente que o republicano Ronald Reagan impulsionou contra o povo de El Salvador para impedir que as forças revolucionárias avançassem, já que o fator que prolongou a guerra civil foi a intervenção americana”.

“A missão do embaixador Castillo e Edmundo González foi ser um agente da morte. Nos documentos desclassificados da CIA em fevereiro de 2009, Castillo foi mencionado como corresponsável dos serviços de inteligência que coordenaram, financiaram e deram a ordem para a execução da Operação Centauro”, denunciou.

Nidia Díaz esclareceu que “a operação consistia em uma série de ações violentas do exército de El Salvador e dos ‘esquadrões da morte’ para eliminar fisicamente as comunidades religiosas reunidas em torno da busca coerente da teologia da Libertação de uma solução pacífica e negociada da guerra”.

“Nos anos em que a embaixada estava encarregada de Castillo e González, o exército e os esquadrões deixaram um saldo de 13.194 civis mortos, incluindo Dom Oscar Romero, quatro freiras Maryknoll, e os padres Rafael Palacios, Alirio Macias, Francisco Cosme, Jesus Cáceres e Manuel Reyes. E apesar de já não exercer a função diplomática, ainda estava desempenhando como conselheiro de estruturas de inteligência (pentagonito) quando os seis jesuítas e as duas trabalhadoras foram assassinados em 16 de novembro de 1989”, acrescentou.

“Os crimes apoiados pela gestão de Leopoldo Castillo e seus colaboradores como Edmundo González são considerados ‘crimes contra a humanidade’ e, por isso, são imprescritíveis. Chegará um dia em que terão de prestar contas à justiça espanhola e salvadorenha pela sua participação no extermínio de religiosos e religiosas e comunidades pacíficas que estiveram ao lado da paz durante o conflito bélico que assolou El Salvador. As terríveis sequelas dos seus atos ainda sobrevivem”, destacou Díaz.

A oportuna denúncia de Diáz confronta a versão cor de rosa da mídia pró-EUA, de que a chapa de González seria o suprassumo da democracia, apesar de reunir a nata dos vários partidos de extrema-direita cevados desde Washington para retomar o controle da maior reserva de petróleo do planeta, a da Venezuela, deles arrancado pelo governo de Hugo Chávez. Um esforço que começou em 2002 e nunca parou desde então, tendo se agravado nas guarimbas de 2014 e 2017, quando se recusaram a reconhecer o resultado das eleições, e chegado até à nomeação, sob Trump, do “presidente autoindicado [pela Casa Branca]”, Juan Guaidó.

BIOMBO DE CORINA MACHADO

O veterano González foi reciclado para ser o El Cid da cavalgada de María Corina Machado ao poder na Venezuela, assim que sua inelegibilidade foi confirmada em 2023 pelo Conselho Nacional Eleitoral. Apresentada por âncoras de telejornais como a ‘grande líder oposicionista venezuelana’, Machado foi um dos 300 signatários da carta do golpe de Carmona de 2002, aquele que fechou o parlamento e prendeu Chávez, até ser varrido pelo povo nas ruas.

Ela participou, desde então, destacadamente, de todas as tentativas de golpe. Mais recentemente, ela defendeu, durante a “presidência Guaidó”, uma invasão militar “cirúrgica” – norte-americana, claro – para derrubar Maduro. Também apoiou as sanções draconianas decretadas pelos EUA, incluindo o bloqueio à exportação do petróleo venezuelano, que levaram o país à maior crise em décadas, bem como o confisco das reservas de ouro venezuelanas pelo Reino Unido, e a expropriação de duas subsidiárias da PDVSA no exterior, a CITGO, rede de postos de gasolina, nos EUA, e a Monômeros, na Colômbia, enquanto a quadrilha de Guaidó se locupletava.

A bem dizer, é ela uma versão venezuelana de portentos como Javier Milei, Jair Bolsonaro e José Antonio Kast, com um “programa” ultraneoliberal de corte de direitos e gastos sociais, juros altos, favorecimento dos especuladores e desnacionalização do patrimônio público.

AS BOLAS FORA DE MADURO

É certo que Maduro, muito aquém dos voos altivos de Chávez, facilitou o serviço para os Guaidó, Leopoldo López, Corina Machado e Edmundo González da vida e, sob pressão do império, entregou o arco mineiro – a riquíssima província mineral venezuelana – ao capital estrangeiro, entre outras tantas bolas fora.

Maduro também teve imensas dificuldades diante dos ataques contra a moeda venezuelana, promovidos por esquemas mafiosos desde Miami, e que empurraram a uma brutal desvalorização, seguida por hiperinflação sob as sanções, que penalizou sobremodo a população mais pobre e desalentou a classe média.

Sob a chamada “pressão máxima” de Trump, com 900 sanções e proibição de exportação de petróleo, até a produção de petróleo despencou, as prateleiras de supermercado ficaram vazias e milhões de venezuelanos emigraram, tentando uma escapatória. Trump dizia abertamente que era favorável a roubar o petróleo venezuelano, que fica logo ali na outra margem do Caribe.

Sem manutenção e sem poder importar sobressalentes, o sistema elétrico venezuelano entrou em pane, com numerosos apagões. Também ocorreram escândalos de corrupção, deserções de ex-integrantes do governo e alguns setores progressistas se afastaram de Maduro.

Apesar de todos os avanços na sociedade venezuelana nos anos bons da alta do preço do petróleo, o não enfrentamento a tempo da questão histórica de superar a dependência quase absoluta na renda do petróleo – o que se expressou em não jogar vigorosamente pela industrialização nos anos melhores do superciclo das commodities -, acabou fazendo a Venezuela enfrentar essa confrontação com o imperialismo nas condições mais penosas.

A ajuda da Rússia, da China e do Irã foram imprescindíveis para que se abrisse um caminho de superação. Também mais recentemente Washington abrandou algumas sanções.

TRÊS VEZES PIOR QUE A GRANDE DEPRESSÃO

Recente matéria do Washington Post sobre a “guerra econômica desencadeada pelos últimos quatro presidentes norte-americanos” (Clinton, W.Bush, Obama e Biden), assinada por Jeff Stein e Federica Cocco, dimensiona o peso dessa brutal investida: “as sanções à Venezuela contribuíram para uma contração econômica cerca de três vezes maior do que a causada pela Grande Depressão nos Estados Unidos.”

Nesses anos de bloqueio, sem dólares para importar 90% dos alimentos como antes, a Venezuela agiu para atingir a autossuficiência de 97% na produção de alimentos. Agora as prateleiras novamente estão repletas, segundo os observadores que viajaram para lá para monitorar as eleições. A indústria petroleira começa a se recuperar, mas a economia em larga medidasegue dolarizada. No último trimestre, o PIB cresceu 5%.

CIDADANIA SE MOBILIZOU MACIÇA E PACIFICAMENTE NO DIA 28

O Centro Carter, que na época da criação do sistema eleitoral venezuelano sob Chávez o considerou o melhor do mundo, agora diz que não pode endossar o resultado das eleições por falta de atas e condenou a “falta de transparência do Conselho Nacional Eleitoral (CNE) na divulgação dos resultados”. O Centro Carter esteve em Caracas nas eleições a convite do governo venezuelano.

Apesar dessa declaração, o instituto admitiu que “a cidadania venezuelana se mobilizou maciça e pacificamente no dia 28 de julho para expressar as suas preferências. O dia da votação decorreu de forma cívica, apesar das restrições de acesso aos recintos eleitorais por parte dos observadores nacionais e, sobretudo, das testemunhas dos partidos, dos mecanismos de possível pressão sobre o eleitorado (pontos de controle dos partidos do governo perto dos recintos eleitorais para verificar a presença dos eleitores) e dos incidentes de tensão ou violência relatada em algumas localidades”.

“No número limitado de distritos eleitorais visitados, as equipes de observadores do Centro Carter verificaram a vontade dos cidadãos venezuelanos de participar num processo eleitoral democrático e demonstrar o seu compromisso cívico como membros da mesa, testemunhas do partido e observadores”.

O que não impediu o Centro de concluir que a eleição na Venezuela não se adapta aos parâmetros e padrões internacionais de integridade eleitoral e “não pode ser considerada democrática”.

No entanto, comunicado da OAB norte-americana, a National Lawyers Guild (NLG), disse que sua delegação de cinco observadores eleitorais “visitou vários locais de votação em Caracas e La Guaira e compartilhou notas e informações com os 910 observadores eleitorais presentes de 95 países”.

A presidente do NLG, Suzanne Adely, disse que as eleições de domingo “não foram apenas justas e transparentes, mas também representaram um exemplo de participação cívica popular”.

“Seu resultado bem-sucedido é um triunfo para o povo venezuelano”, acrescentou Adely, “especialmente considerando o nível de interferência dos EUA e a tentativa de sabotagem do processo democrático, particularmente por meio de sanções e medidas econômicas coercitivas destinadas a produzir ‘mudança de regime’ na Venezuela”.

LÓPEZ OBRADOR E WIKILEAKS

Por sua vez López Obrador, presidente mexicano em fim de mandato, questionou “com base a OEA sustenta que o outro candidato [González] venceu?” Ele criticou a ingerência estrangeira nos assuntos internos venezuelanos.  “Existe um governo mundial ou uma confederação de governos mundiais que decide o que é bom, o que é mau, quem é democrata e quem não é democrata?” 

Também o WikiLeaks entrou no debate sobre a suposta “fraude” nas eleições na Venezuela, afirmando que “as alegações da oposição venezuelana de extrema-direita e da mídia dos EUA de que houve fraude nas  eleições de 28 de julho têm com base uma pesquisa de boca de urna feita pela empresa ligada ao governo dos EUA Edison Research, que trabalha com organismos de propaganda dos EUA ligados à CIA e que esteve ativa na Ucrânia, Geórgia e Iraque”.

SITE DA TELESUL É HACKEADO

Além da linha privada do CNE ter sido hackeada tentando gerar um pretexto para desqualificar a eleição, conforme o manual de fraudes que a OEA usou contra a Bolívia, também a TeleSul foi hackeada, no esforço de silenciar um contraponto à mídia venal, alinhada ao candidato oposicionista.

A presidente da TeleSul, Patrícia Villegas, denunciou que na noite de segunda-feira a página do canal offline foi atacada e “inseriram informações falsas”. De acordo com Villegas, “esta situação insere-se na mesma linha de acontecimentos ocorridos contra as instituições estatais venezuelanas durante este dia”, quando “os falsos democratas mostram a cara”.

“Temos sido a janela da verdade e porta-voz da dignidade deste heroico povo. Estaremos à altura do desafio que enfrentamos e defenderemos este espaço latino-americano e caribenho que luta todos os dias pela sua soberania e integração comunicacional. TeleSul é um patrimônio do povo e como tal iremos protegê-lo”, concluiu.

(Nota: Quem tiver TV via MEO pode ver a TeleSul no canal 239. Se via NOS no canal 223).

Fonte aqui

Rebelião no quintal das traseiras

(José Goulão, in AbrilAbril, 23/06/2022)

A IX Cimeira das Américas, realizada em Los Angeles, entre 6 e 10 de Junho de 2022, registou o menor número de Chefes de Estado desde a primeira edição da iniciativa, em 1994 e foi marcada pela contestação à política de exclusão e de sanções dos EUA. À mão direita do presidente Joe Biden esteve o seu incondicional aliado, o colombiano Ivan Duque. Menos de uma semana depois a Colômbia elegeu o primeiro presidente de esquerda da sua história

O que aconteceu em Los Angeles na nona Cimeira das Américas tem a marca dos tempos. Nada correu como dantes: os resultados e a afluência de países e chefes de Estado foram os mais pobres desde que estas reuniões continentais se iniciaram em Miami, em 1994; sobretudo o tom de muitas intervenções e debates traduziu uma ruptura – apesar de tudo surpreendente – com o tradicional unanimismo podre das relações e dependências de tipo colonial.

Desta feita, o presidente norte-americano, no caso Joseph Biden, ouviu o que jamais os seus antecessores escutaram e o nutrido rol de descalabros da sua administração somou mais um, este bem gordo e sofrido em casa. A que sucede – a série continua – a vitória da esquerda na Colômbia, país que Washington considera estratégico para a sua dominação continental, sobretudo na componente militar.

Percebeu-se que qualquer coisa de muito diferente estava a acontecer ainda antes do início da cimeira, quando os serviços da administração Biden, seguindo o guião rotineiro com modorra burocrática, definiram a lista de participantes e a ordem de trabalhos. Cuba, Nicarágua e Venezuela foram excluídos dos convites, por serem «ditaduras»; e como ponto forte dos temas a discutir foi escolhido o das migrações continentais, o que era esperado porque habitualmente a agenda é definida em função dos assuntos que mais interessam aos Estados Unidos.

Então o inesperado aconteceu. Vários países de todas as regiões americanas – Norte, Centro, Sul e Caraíbas – fizeram saber que ou não estariam presentes ou não enviariam os seus chefes de Estado a Los Angeles por discordarem frontalmente das exclusões de nações impostas pelos anfitriões; e os países da América Central revelaram que não enviariam delegações por discordarem da agenda, essencialmente por considerem que o tema das migrações, fruto da miséria económica e social gerada pela praga colonial que os sangra há séculos, deve ser discutida bilateralmente com o actual responsável pela situação, os Estados Unidos.

Apanhado de surpresa com tão invulgar princípio de sedição no território que há muito é considerado «o quintal das traseiras» de Washington, o Departamento de Estado despachou um enxame de enviados ou entrou em contacto directo com os recalcitrantes distribuindo o habitual menu de ameaças e chantagens para que tudo voltasse à ordem natural e a cimeira decorresse como de costume, isto é sem ondas e com o coro do rebanho entoando o ámen final.

De ousadia em ousadia

Esta ofensiva também não proporcionou os resultados esperados, e que habitualmente são dados como garantidos, reforçando a ideia de que havia mesmo uma resistência nada usual ao diktat de Washington.

Dando sinais de alarme com um cenário tão inconveniente, sobretudo num período em que a seguir à debandada militar do Afeganistão os acontecimentos induzidos na Ucrânia não correm como estava previsto, e logo a poucos meses de eleições parciais para o Congresso que são de importância transcendente para o Partido Democrático e a Casa Branca, o regime norte-americano fez uma mobilização geral. O presidente disponibilizou-se para assistir a todas as sessões da cimeira, tal como a vice-presidente Kamala Harris e o governador da Califórnia, além de presenças pontuais da presidente da Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi.

Nada demoveu os chefes de Estado que já tinham decidido não se deslocar a Los Angeles, entre eles o presidente mexicano Lopez Obrador, um peso pesado no continente. «Não vou à cimeira porque não foram convidados todos os países da América», explicou.

Luis Arce, presidente da Bolívia, e Xiomara Castro, presidente das Honduras, fizeram declarações no mesmo sentido ao confirmarem as respectivas ausências.

Feitas as contas, compareceram 23 chefes de Estado, alguns deles numa situação que pode qualificar-se como «de protesto» – os da Argentina e do Chile, por exemplo – tendo em conta as declarações que proferiram durante os trabalhos.

As edições da Cimeira das Américas mais frequentadas foram as de 1994 em Miami e de 2019 em Lima, juntando 34 chefes de Estado. De notar que há três anos até Cuba esteve presente no Peru.

Desta feita registou-se a maior onda de boicotes à reunião. Além de Cuba, Nicarágua e Venezuela não terem sido convidados também o Uruguai, Guatemala e El Salvador não se fizeram representar. A ausência destes dois últimos países (o presidente uruguaio alegou Covid) representa um corajoso desafio frontal à administração Biden porque as suas histórias políticas, militares e sociais pelo menos nos últimos 70 anos têm estado totalmente dependentes de Washington através de episódios frequentes de golpes de Estado, mudanças de regime e repressão sangrenta, muitas vezes a cargo de esquadrões da morte financiados, treinados e operados pelos Estados Unidos.

Outra das características notáveis e absolutamente novas nesta edição da Cimeira das Américas foi o facto de a contestação da lista de convidados e da ordem de trabalhos ter partido tanto de países com enorme peso continental como de nações de menor dimensão, influência e peso geoestratégico como Belize e Antígua e Barbuda, que ousaram dizer na face de Biden, contra todos os «protocolos», aquilo que ele merecia ouvir.

John Brieño, primeiro-ministro de Belize, condenou o embargo a Cuba, um verdadeiro tabu que existe para ser obedecido e nada mais, e qualificou como «imperdoável que haja países das Américas que não estejam aqui presentes».

O primeiro-ministro de Antígua e Barbuda, Gaston Browne, tomou posição idêntica lamentado que «os convites para esta nona cimeira não tenham sido extensivos a todos os chefes de Estado». Quanto ao embargo contra Cuba declarou que «se trata de uma barreira à paz e à amizade neste hemisfério».

Philip Davies e Mia Mattley, respectivamente das Bahamas e Barbados, fizeram intervenções no mesmo sentido. Nunca tal se ouvira num fórum continental a este nível, sobretudo partindo de países tão «pequenos». Na realidade, como ficou provado, o exercício de soberania não é uma questão de dimensão mas da vontade e coragem dos governos para colocarem os interesses dos seus cidadãos acima de interesses externos, quase sempre adversos. Uma lição para quem deseje ir ainda a tempo de aprender.

Nayib Bukele, o polémico presidente populista de El Salvador, foi dos que não se deslocou a Los Angeles por discordar do ponto da agenda sobre migrações; mas deixou no Twitter um recado para Biden em que condenou igualmente a Organização dos Estados Americanos (OEA) e a maneira como tem funcionado: «Está claro que o Ministério das Colónias em Washington, também conhecido por OEA, já não tem qualquer razão de ser». Uma heresia. Simultaneamente Bukele ufanou-se de ter encontrado na Turquia um novo parceiro económico e comercial, uma vez que, depois de uma viagem a Ancara, o comércio entre os dois países aumentou 80% este ano.

«Momento disfuncional»

Os presidentes da Argentina e do Chile, respectivamente Alberto Fernandez e Gabriel Boric, decidiram deslocar-se a Los Angeles mas as intervenções que fizeram não pouparam Biden, a sua administração e o comportamento dos Estados Unidos no continente.

Já o brasileiro Jair Bolsonaro fez depender a sua presença da concessão de uma audiência privada com o presidente norte-americano, certamente para lhe pedir um apoio, que tem sido reticente, nas próximas eleições presidenciais. Os interesses pessoais sobrepuseram-se, mais uma vez, à afirmação dos interesses do Brasil no quadro continental.

Alberto Fernandez não foi brando nas palavras: «O silêncio dos ausentes interpela-nos». O presidente da Argentina fez votos para que «isto não volte a acontecer no futuro e que o país anfitrião não tenha a capacidade de impor o direito de admissão em relação aos países do continente».

Boric, o chefe de Estado chileno, declarou que «estamos aqui para dialogar, para ouvir e tenho a profunda convicção de que para isso funcionar a sério não poderá haver exclusões».

Lopez Obrador, o presidente mexicano, enviou a Los Angeles o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Marcelo Ebrard. «Não se pode criar uma nova agenda, não se pode pensar numa nova relação mantendo as velhas estruturas», disse em plenário. E rejeitou que os Estados Unidos continuem com poder de intervenção para dizer «tu sim, tu não».

O presidente mexicano, talvez o dirigente mais representativo no processo que está a abalar a «velha ordem» americana, divulgou uma importante declaração que coincidiu com o início dos trabalhos e traduz todo um espírito regional novo, por sinal perfeitamente inserido nas transformações que estão a decorrer à escala global e abalam o «mundo ocidental» e a ordem unipolar. «Estou convencido da necessidade de mudar a política que nos foi imposta há séculos, a política de exclusão, a ânsia de poder, o desrespeito pela soberania dos povos e a sua independência», disse o chefe de Estado mexicano. «O que pode ser uma cimeira se nem todos os países foram convidados? É a mesma velha política de intervencionismo e de desrespeito pelos povos».

Ao lado de Biden esteve, significativamente e quase isolado, o fiel escudeiro e agente golpista Iván Duque, o fascista que está prestes a terminar a sua comissão de serviço como presidente da Colômbia. «Debatamos as nossas diferenças em democracia mas estas cimeiras nunca serão terrenos férteis para ditadores», sentenciou. Um exemplo do velho discurso numa cimeira marcada por comportamentos novos e demonstrativo do isolamento a que Joseph Biden ficou submetido em Los Angeles encarando os seus «súbditos» em rebelião.

Entretanto a própria situação colombiana sofreu uma reviravolta de 180 graus. Além do fim do mandato de Duque, também as suas correntes fascizantes ditas «democráticas» foram eleitoralmente derrotadas pela esquerda.

E agora, Mr. Biden? Como vai ser a atitude da sua administração depois da eleição histórica de Gustavo Petro e Francia Marquez à frente da esquerda e dos grupos progressistas agregados no Bloco Histórico da Colômbia? Como fica a sua Colômbia, base golpista tutelada pela NATO e o Comando Sul dos Estados Unidos, a «pedra angular do Hemisfério Ocidental», usando a sua terminologia habitual? Pouco depois da Cimeira das Américas a revolta continua e as derrotas imperiais sucedem-se. Haverá golpe em Bogotá para «restaurar a democracia», como só na última década aconteceu no Brasil, no Paraguai, no Peru, nas Honduras, na Bolívia, sem contar as tentativas permanentes na Nicarágua e na Venezuela e ainda os episódios de «revoluções coloridas» em Cuba? O Pentágono exportará o que resta de Juan Guaidó para a Colômbia, sob novos aplausos da maioria dos países da União Europeia?

Um indício de como a renovada situação continental está a inquietar Washington é a cobertura da cimeira pela Voz da América, o canal oficial de propaganda do regime actuando sob controlo dos serviços de segurança. «Analistas» citados pela emissora testemunham que «o continente está num momento disfuncional, ideologizado e ressentido». O mesmo órgão de propaganda cita um «politólogo» mexicano, Leonardo Curzio, segundo o qual a administração Biden tornou mais visíveis as fracturas «de uma região incapaz de articular esforços hemisféricos». Talvez a «fractura» mais visível deixada pela cimeira, mas não enunciada por Curzio, seja a de grande parte do continente ter encontrado maneira de afirmar posições próprias em relação a Washington, uma realidade completamente nova. O «politólogo» mexicano identifica também «um encerramento dos países nas suas dinâmicas internas» – um artifício semântico para reconhecer, contrariado, o esforço de numerosos países americanos, do Norte ao Sul, para restaurarem as suas soberanias.

Mais de 200 organizações e movimentos sociais dos EUA e dos restantes países do continente americano participaram entre 8 e 10 de Junho de 2022 na Cimeira dos Povos, em Los Angeles, uma alternativa anti-imperialista à Cimeira das Américas, realizada na mesma cidade norte-americana CréditosBill Hackwel / Resumen Latinoamericano

Horizontes que se abrem

Soberania é uma das palavras-chave dos tempos que correm. Essa pode ser também a marca desta histórica e fracassada Cimeira das Américas.

As mudanças que estão a acontecer no mundo com maior clareza relacionam-se muito mais com assinaláveis convergências de interesses nacionais e soberanos do que com supostos alinhamentos «ideológicos» ou com o conceito propagandístico de enfrentamento entre as «democracias liberais» e as «autocracias». Esta é uma forma cobarde e negacionista de encarar as inevitáveis transformações à escala mundial que opõem sim o globalismo de intenções neoliberais, oligárquicas e totalitárias – o Great Reset, «grande reinício» do Fórum Económico Mundial – à tendência crescente para a cooperação entre Estados independentes e soberanos. No fundo a desesperada ordem unipolar frente-a-frente com um arranjo ou arranjos multipolares. O conflito de que, para sua surpresa e dos que lhe manipulam o teleponto, Joseph Biden foi vítima em Los Angeles.

O sucedido na Cimeira das Américas pode ser reflexo dos primeiros resultados de novas formas de cooperação intercontinental que se afirmam também na América Latina.

Cresce igualmente nesta região com um potencial pujante de desenvolvimento e progresso o número de nações que alargam horizontes para lá das relações de tipo colonial a que têm estado submetidas, moldando as suas sociedades na injustiça, desigualdades e com imensas bolsas de miséria. Esses novos modelos de cooperação privilegiam a soberania e as independências nacionais, são exercidos em termos igualitários com base em interesses complementares das economias dos países envolvidos e dos seus recursos naturais e manufacturados. Os acordos não são estabelecidos em troca de exigências políticas, em função de regimes políticos, mas de vantagens mútuas, o que no caso específico da América Latina pode significar, a termo, uma existência e uma governação que não estejam reféns de uma potência única e seus satélites sob ameaças de invasões militares, golpes de Estado, chantagens, mudanças de regime, «reformas estruturais», terrorismo e incentivos a guerras civis.

Trata-se de uma perspectiva de vida continental totalmente nova, só possível porque à escala internacional se afirmam tendências multipolares que minam os efeitos condicionadores e retrógrados do «excepcionalismo» ocidental, uma minoria de países que enriqueceram à custa do saque e da exploração do resto do mundo considerando-se «imprescindíveis» até para que o planeta continue a girar.

Quase todos os dias se tornam públicos, mas raramente noticiados, acordos de cooperação e desenvolvimento inovadores na América que envolvem países como a Rússia, a China, a Índia, nações africanas, asiáticas e até membros da NATO como a Turquia.

A China, por exemplo, desenvolve amplos e importantíssimos projectos de infraestruturas em El Salvador, Cuba, Panamá e na Nicarágua, onde a possível construção de um novo canal entre o Atlântico e o Pacífico, alternativo ao Canal do Panamá gerido pelos Estados Unidos, é matéria para provocar insónias em Washington; a Rússia tem estabelecido relações económicas e comerciais, inclusivamente de índole militar, com o Peru, Venezuela e Brasil, entre outros.

O grupo BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) é um embrião de convergência económica e comercial que pode vir a reforçar-se na próxima cimeira, na qual participará outra grande potência americana, a Argentina, além de serem possíveis presenças surpreendentes de mais países, também sob a chancela de «observadores».

Há realmente uma nova dinâmica internacional na qual as crescentes (e muito corajosas) afirmações de soberania e independência afrontam o monolitismo globalista e que também é espelhada, num estado mais avançado do que seria de prever, na maneira como decorreu a recente edição da Cimeira das Américas.

A rebelião no «quintal das traseiras» dos Estados Unidos, abrindo portas a saudáveis e rejuvenescidas manifestações de soberania e independência, contrasta com a submissão cada vez mais humilhante dos países da União Europeia aos interesses, vontades e ordens de Washington; uma abdicação de identidades e valores históricos, um sintoma de esclerose contra a corrente emergente de transformação internacional, conjuntura que não promete nada de bom para os governos e países que se arrastam, desprezando os seus povos, na decadência colonial e imperial.


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América Latina: a lição da resistência

(Manuel Loff, in Público, 14/11/2019)

Manuel Loff

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A América Latina é, com as revoluções mexicana (1917) e cubana (1959), a Unidade Popular chilena (1970-73) ou o sandinismo (1979), um laboratório de experiências políticas com mais impacto mundial do que se julga. A grande viragem progressista, que irrompeu com Chávez (1998) e se alastrou com os movimentos emancipadores de Rafael Correa (Equador) e Evo Morales (Bolívia) e com as vitórias eleitorais contra as receitas do FMI (Lula, os Kirchner, Pepe Mujica), constituiu a primeira grande vaga de contestação global ao neoliberalismo que começou a devastar os direitos sociais a partir do fim dos anos 1970. Os latino-americanos têm dado lições ao mundo sobre a emancipação camponesa e a batalha pela terra, que hoje, finalmente, se começa a perceber ser uma batalha pela salvação da natureza; sobre a emancipação das mulheres e das minorias LGBTI num subcontinente onde a violência de género tem sido mais combatida do que em qualquer outro; sobre a luta anticolonial contra a dominação económica, sustentada sobre o preconceito racista e a crueldade social das burguesias de origem europeia. A origem popular de Lula ou Mujica, que Chávez e Correa sejam mestiços e que Evo Morales seja um uru-aimará, são argumentos centrais no ataque a todos eles e nas caricaturas que deles fazem os media e as direitas de todo o mundo. O racismo nauseabundo e o fundamentalismo religioso de Bolsonaro ou do novo líder da extrema-direita boliviana, Luis Fernando Camacho, garantem a ambos um lugar de destaque como símbolos acabados da burguesia branca latino-americana.

Depois de terem desencadeado e coordenado nos anos 1970 a batalha pelo extermínio físico e político das esquerdas revolucionárias, fomentando por todo o lado ditaduras de militares e ricos empresários, os EUA, julgando-a definitivamente vencida, passaram nos anos 1980 a permitir que se aliviasse a repressão e que os militares se retirassem com a condição de que os seus sucessores prosseguissem extensão à América Latina das políticas neoliberais já adotadas pelas direitas e a social-democracia dos países ricos. Esta fórmula democratização + privatização generalizada + aumento da desigualdade entrou em crise no final do século passado e abriu caminho à vaga progressista, que, por sua vez, entrou em crise a partir de 2015.

Não é que quem sempre mandou nas repúblicas americanas desde há 200 anos tivesse aceitado algum dos projetos de mudança socioeconómica, que, apesar de todas as suas hesitações (raramente se renacionalizou algum dos avultadíssimos recursos privatizados nos anos 1990; grandes multinacionais americanas, europeias, agora também asiáticas, continuaram a operar livremente), trouxeram melhorias consistentes ao nível de vida dos mais pobres e um reconhecimento constitucional da plurinacionalidade de Estados historicamente construídos sobre o genocídio dos povos ameríndios (Venezuela, Bolívia, Equador, mas não no Brasil, ou no Chile). Também na radicalização das direitas, a América Latina foi pioneira. Acrescentou-se sabotagem económica e corrupção a modelos de produção não reformados; em sociedades em que a violência é um recurso permanente, juntou-se-a a processos de contestação social. Direitas abertamente saudosas das ditaduras do passado recente passaram a denunciar o “autoritarismo” e o “populismo” dos governos progressistas ou a “ditadura cultural marxista” que estaria na agenda destes. Para os derrubar, têm usado sobretudo meios “institucionais”: Manuel Zelaya nas Honduras (2009), Fernando Lugo no Paraguai (2012) e Dilma Rousseff no Brasil (2016). Pela via eleitoral, ganharam apenas na Argentina (Macri, 2015) — e acabam de voltar a perder; e no Brasil, mas só depois de prenderem Lula. Como acaba de se demonstrar na Bolívia (e em 2002 contra Chávez), nunca perderam o velho tique do golpe militar.

Enganou-se quem julgava que, com Trump e Bolsonaro, a vitória das direitas americanas era irreversível. O regresso em força dos movimentos sociais, persistentes e corajosos como em poucos lugares do mundo, no Equador e no Chile (onde a democratização não tocou no neoliberalismo económico herdado da ditadura), o esvaziamento de Guaidó na Venezuela e o regresso do kirchnerismo dão razão a Álvaro García Linera, o vice-presidente boloviano que agora se exilou no México: “Lutar, vencer, cair. Levantarmo-nos, lutar, vencer, cair, levantarmo-nos. Até que se nos acabe a vida.”

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico