Da importância da música para pastores e domadores 

(Por Carlos Matos Gomes, in Jornal Tornado, 29/10/2018)

A questão do uso da razão impõe aos intelectuais eficazes um problema muito sério. Para serem eficazes, como actualmente são Trump, Bolsonaro, ou o bispo Macedo têm de se castrarem de um elemento que os intelectuais clássicos costumam prezar: a moral. O intelectual clássico apresenta-se às massas como alguém que utiliza os seus dons de inteligência para o bem delas, foi o caso de Aristóteles, de santo Agostinho, de Hobbes, de Kant. Esses são os derrotados, como Francisco de Assis, que acabou a falar aos peixes. Os intelectuais vitoriosos são os que se despojaram da moral. Os casos mais próximos e à mão são os que ganharam eleições na América, no Brasil, na Itália, são os que inventaram igrejas e deuses-mealheiro. Na realidade esses são os intelectuais eficazes, de grande sucesso, os que sabem tocar a flauta de Hamelin e levar os ratos atrás de si.

Aquilo que hoje define um intelectual não é que reflicta sobre o conflito e o compromisso, mas que saiba tocar a música de levar os ratos a atirarem-se aos abismo a cantar, ou a sambar.


Ler o artigo completo aqui: Da importância da música para pastores e domadores – Jornal Tornado

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De que Serve a Bondade

A minha pequena contribuição para celebrar o Dia Mundial da Poesia. A palavra tanto pode ferir como aliviar, tanto pode ser justa como iníqua, tanto pode ser trivial como sublime. Mas da mensagem da verdadeira poesia sobre pode brotar o anseio pela razão, pela beleza e por um mundo mais justo. É por isso que vos convido a revistar hoje Bertold Brecht

. Estátua de Sal, 21/03/2017


Bertold Brecht, in ‘Lendas, Parábolas, Crónicas, Sátiras e outros Poemas’

Tradução de Paulo Quintela

brecht


1

De que serve a bondade
Quando os bondosos são logo abatidos, ou são abatidos
Aqueles para quem foram bondosos?

De que serve a liberdade
Quando os livres têm que viver entre os não-livres?

De que serve a razão
Quando só a sem-razão arranja a comida de que cada um precisa?

2

Em vez de serdes só bondosos, esforçai-vos
Por criar uma situação que torne possível a bondade, e melhor;
A faça supérflua!

Em vez de serdes só livres, esforçai-vos
Por criar uma situação que a todos liberte
E também o amor da liberdade
Faça supérfluo!

Em vez de serdes só razoáveis, esforçai-vos
Por criar uma situação que faça da sem-razão dos indivíduos
Um mau negócio!

PIGS IN SPACE?

(Ana Cristina Leonardo, in Expresso, 26/11/2016)

ANALEONARDO

                     Ana Cristina Leonardo

No final de junho, o físico Stephen Hawking afirmou, no âmbito do III Festival Starmus que tinha precisamente como mote “Para lá do horizonte — Um tributo a Stephen Hawking”, que os humanos teriam cerca de mil anos para abandonar a Terra se quisessem sobreviver como espécie. A visão negra do futuro a longo prazo do autor de “Breve História do Tempo” — que, a propósito, torna a visão negra de Passos Coelho do futuro a curto prazo absolutamente irrelevante —, não sendo partilhada por todos os seus pares, coloca-nos ainda assim, e às gerações vindouras, perante a possibilidade real do abismo, por muito que se consiga reduzir o tamanho da pegada ecológica. Se aliarmos a isto a sobrepopulação e os avanços em Inteligência Artificial, poderíamos ser levados a pensar que o caldo para um novo boom da ficção científica estava criado. Ao invés, a ficção científica, pouco dada a psicologismos, continua a não atrair significativamente o público (“Matrix”, a partir de “Neuromancer”, talvez tenha sido o seu último grande sucesso popular), e quando se fala no género os nomes tendem a repetir-se: Asimov, Arthur Clarke, Frank Hebert, Fred Hoyle, H.G. Wells, Robert Heinlein, William Gibson, Philip K. Dick, Ray Bradbury, J.G. Ballard… As gerações mais novas parecem tender antes para um gosto barroco por vampiros e mortos-vivos, mais fantasia do que ficção científica, mais emoção do que racionalidade. Mera hipótese, não faz tese, mas não terá sido apenas a pensar na eleição de Trump que a palavra do ano de 2016 escolhida pelos Dicionários Oxford foi post-truth, pós-verdade. E explicaram-na: termo que se “relaciona ou denota circunstâncias em que os factos objetivos têm menos influência na formação da opinião pública do que os apelos emocionais e as crenças pessoais”. Emoção, ora aí está. E tratando-se de emoção, como cantava Nelson Ned: “Tudo passa, tudo passará”. Depois da inteligência emocional tão em voga, eis a emoção desprovida de inteligência. Sem espaço para usar instrumentalmente a massa cinzenta — porque, sejamos honestos, como e para quê compreender a realidade se não se pode transformá-la? —, sobra-nos reagir.

Encurralados num mundo que desaba a olhos vistos — septuagenário, criado sobre os escombros da II Guerra, um mundo que talvez venhamos a ter de reconhecer atípico — esbracejamos. Emocionamo-nos. Na verdade, se pudéssemos, muitos de nós embarcariam já amanhã para Marte.