PIGS IN SPACE?

(Ana Cristina Leonardo, in Expresso, 26/11/2016)

ANALEONARDO

                     Ana Cristina Leonardo

No final de junho, o físico Stephen Hawking afirmou, no âmbito do III Festival Starmus que tinha precisamente como mote “Para lá do horizonte — Um tributo a Stephen Hawking”, que os humanos teriam cerca de mil anos para abandonar a Terra se quisessem sobreviver como espécie. A visão negra do futuro a longo prazo do autor de “Breve História do Tempo” — que, a propósito, torna a visão negra de Passos Coelho do futuro a curto prazo absolutamente irrelevante —, não sendo partilhada por todos os seus pares, coloca-nos ainda assim, e às gerações vindouras, perante a possibilidade real do abismo, por muito que se consiga reduzir o tamanho da pegada ecológica. Se aliarmos a isto a sobrepopulação e os avanços em Inteligência Artificial, poderíamos ser levados a pensar que o caldo para um novo boom da ficção científica estava criado. Ao invés, a ficção científica, pouco dada a psicologismos, continua a não atrair significativamente o público (“Matrix”, a partir de “Neuromancer”, talvez tenha sido o seu último grande sucesso popular), e quando se fala no género os nomes tendem a repetir-se: Asimov, Arthur Clarke, Frank Hebert, Fred Hoyle, H.G. Wells, Robert Heinlein, William Gibson, Philip K. Dick, Ray Bradbury, J.G. Ballard… As gerações mais novas parecem tender antes para um gosto barroco por vampiros e mortos-vivos, mais fantasia do que ficção científica, mais emoção do que racionalidade. Mera hipótese, não faz tese, mas não terá sido apenas a pensar na eleição de Trump que a palavra do ano de 2016 escolhida pelos Dicionários Oxford foi post-truth, pós-verdade. E explicaram-na: termo que se “relaciona ou denota circunstâncias em que os factos objetivos têm menos influência na formação da opinião pública do que os apelos emocionais e as crenças pessoais”. Emoção, ora aí está. E tratando-se de emoção, como cantava Nelson Ned: “Tudo passa, tudo passará”. Depois da inteligência emocional tão em voga, eis a emoção desprovida de inteligência. Sem espaço para usar instrumentalmente a massa cinzenta — porque, sejamos honestos, como e para quê compreender a realidade se não se pode transformá-la? —, sobra-nos reagir.

Encurralados num mundo que desaba a olhos vistos — septuagenário, criado sobre os escombros da II Guerra, um mundo que talvez venhamos a ter de reconhecer atípico — esbracejamos. Emocionamo-nos. Na verdade, se pudéssemos, muitos de nós embarcariam já amanhã para Marte.