“Fini, c’est fini, ça va finir…

(António Guerreiro, in Público, 02/11/2018)

Guerreiro

António Guerreiro

Já não há dúvidas de que estamos a assistir à sexta extinção em massa. Mas desta não restará um cineasta ao serviço de Hollywood para nos apresentar belas imagens virtuais das espécies extintas.


…Ça va peut-être finir”, diz Clov, uma personagem de Fin de partie, uma peça de Beckett. O tempo dos fins está aí, diante de nós, a assombrar-nos, e já não apenas num plano existencial e metafísico: a frase que anuncia a forma contemporânea do desastre já não é “o deserto cresce” (expressão de um pessimismo cultural) mas “a extinção aproxima-se” (aviso de uma catástrofe ecológica).

Um relatório da ONG World Wide Fund for Nature, divulgado esta semana, sobre o estado da biodiversidade do planeta, diz que entre 1970 e 2014 as populações de vertebrados selvagens (peixes, pássaros, mamíferos, anfíbios e répteis) diminuíram 60% a nível mundial. Não é uma novidade: em Julho do ano passado, um outro estudo feito por investigadores americanos, publicado nosProceedings of the Natural Academy of Sciences of  the United States of America, amplamente divulgado nos principais jornais de todo o mundo, tinha chegado a conclusões idênticas: a de que está em curso uma “desfaunização” de consequências catastróficas para os eco-sistemas.

Eis alguns números desse estudo: as populações de 32% das espécies de vertebrados estão em acelerado declínio, 40% das espécies de mamíferos viram as áreas pelas quais se repartem diminuir 80% entre 1900 e 2015; 43% dos leões desapareceram desde 1993, já só restam cerca de 35000. Esta aniquilação biológica diz respeito não apenas às espécies, mas também às populações de cada espécie.

Já não há dúvidas de que estamos a assistir à sexta extinção em massa. Mas desta não restará um cineasta ao serviço de Hollywood para nos apresentar belas imagens virtuais das espécies extintas – como aconteceu aos dinossauros, por acção de um asteróide, há 66 milhões de anos – porque já não haverá um único homem e terá sido consumado o mundo feito e refeito à sua imagem.

Claude Lévi-Strauss bem escreveu no seu Tristes Tropiques que “o mundo começou com o homem e irá acabar sem ele”, mas a sua hipótese não tinha prazo para se realizar. Agora que já temos prazos e eles são curtos, agora que as eras geológicas correm à velocidade das gerações, tudo se alterou nas nossas representações de uma extinção sistémica por acção do homem.

O desafio que nos é lançado é este: não podemos deixar de pensar nisto, é absolutamente prioritário colocar estas questões ecológicas no centro das nossas acções e preocupações, mas isso transporta-nos para um outro plano em que Trumps, Bolsonaros & Co. são coisas pouco importantes, meras borbulhas num corpo canceroso. Por isso é que o pensamento ecológico tem um fundo mítico e reaccionário: porque nos transporta para fora das contingências históricas, porque reclama a urgência de interromper a dialéctica e o progresso, porque supõe um horizonte que não é o do tempo da política e introduz uma lógica que não é antropocêntrica nem humanista.

O bom ecologista é uma espécie de “último homem” nietzschiano, colocado perante o paradoxo de, em última instância, desejar um mundo sem nós, na medida em que salvar o planeta, a sua fauna e a sua flora, significa salvá-lo da humanidade. Em boa verdade, ser ecologista porque se quer defender a espécie humana da sua extinção é um contra-senso.

Ocorrem-me estas questões enquanto atravesso de carro o Alentejo e noto que o olival intensivo que cobriu grandes extensões da planície e extinguiu qualquer outra vida se prolonga agora em amendoeiras a perder de vista, que daqui a pouco tempo cobrirão a terra, intensivamente, como arbustos enfileirados em parada para a campanha da produção. Queixaram-se da monocultura? Aqui têm a bicultura. E numa estação de rádio o ministro da Agricultura anuncia: vamos aumentar a área de regadio no Alentejo não sei quantos milhares de hectares. É o anúncio de que o Alentejo vai ficar verdinho. Hoje há vinho maduro e azeitonas, mas amanhã até vamos produzir vinho verde e havemos de ter uma zona de floresta nórdica. Viva Lysenko e o lysenkoismo!

Agora só o pensamento racional pode salvar o mundo!

(Por Andre Vitchek, in GlobalResearch.ca, 14/04/2017, Tradução Estátua de Sal)

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Este texto é um texto de desconforto e desassossego. O planeta está desmoronar-se e nada vemos, o mundo oscila à beira do abismo, preso mais por humores do que por arames.  A fragilidade por destino. E continuamos alheios e encerrados no pequeno mundo que nos coube em sorte. Confortáveis uns, outros menos. Contudo, todos no mesmo barco. É um texto longo mas vale a pena lê-lo. Até ao fim. Mesmo que a amargura nos assalte.

Estátua de Sal, 14/04/2017


CENÁRIO UM: Imagine que está a bordo de um navio a afundar-se lentamente. Não há terra à vista e o seu transmissor de rádio não está a funcionar. Há várias pessoas a bordo e quer mesmo salvá-las. Você não quer que seja o fim de “tudo”.

O que é que faz?

A) Reserva para si uma boa porção de arroz frito com camarões.

B) Liga a televisão, que ainda está a funcionar milagrosamente, e vê as notícias sobre o futuro referendo escocês ou sobre o BREXIT.

C) Salta de imediato para a água, tenta identificar o dano, e tenta fazer algo impensável com suas capacidades e ferramentas simples: salvar o navio.

Imagine outro cenário:

CENÁRIO DOIS: Por engano, a sua esposa ingere dois tubos inteiros de comprimidos para dormir, supostamente confundindo-os com uma nova linha de doces. Quando a encontra no chão, ela parece estar inconsciente e seu rosto está azulado.

Qual seria a sua reação?

A) Depois de perceber que os saltos altos não combinam com a cor da meia-calça dela, você corre para o armário à procura de um par de sapatos mais condizentes.

B) Leva-a sem demora para o quarto de banho, bombeia-lhe o estômago e tenta ressuscitá-la, ao mesmo tempo que chama o 112 usando a função de alta voz do seu telemóvel.

C) Você recorda-se do momento em que se conheceram, sente-se nostálgico e dirige-se apressadamente para a biblioteca da sala de estar, à procura de um livro de sonetos de amor de Pablo Neruda, que recita para ela, emocionado, ajoelhado no tapete.

Agora prepare-se para ter uma grande surpresa. Se não escolher C) no cenário UM, e B) no cenário DOIS, ainda assim você poderá ser realmente considerado absolutamente “normal” de acordo com os padrões dominantes, quer nos EUA quer na Europa.

E se optar por C) ou B), respetivamente, pode facilmente passar por extremista, um fanático ideológico e um esquerdista radical.

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O Ocidente conduziu o mundo para perto do colapso total, mas os cidadãos, mesmo os intelectuais, continuam teimosamente a recusar-se a entender essa evidência. Como avestruzes, muitos estão a esconder a cabeça na areia. Outros, estão a portar-se como um cirurgião que opta por tratar o doente de um pequeno corte no dedo, ignorando que ele está realmente a morrer, devido a um terrível ferimento causado por uma bala no peito.

Parece haver uma ausência enorme de pensamento racional e, especialmente, da capacidade das pessoas compreenderem, em toda a sua dimensão, as ocorrências e eventos de âmbito mundial. Há anos que venho a defender que a destruição da capacidade de comparar e ver as coisas a partir de uma perspetiva universal tem sido uma das diligências mais bem-sucedidas levadas a cabo pelas instituições de doutrinação ocidentais (através da educação, média/desinformação e “cultura”). Elas têm efetivamente influenciado e pacificado tanto as pessoas no Ocidente como as que vivem nas suas colónias, atuais e antigas, (particularmente as “elites” locais e os seus descendentes).

Parece não haver nenhuma capacidade de comparar e analisar consistentemente, por exemplo, as ações certamente desagradáveis, mas principalmente defensivas tomadas pelos governos e países revolucionários, com os crimes mais horríveis e terríveis cometidos pelos regimes colonialistas do Ocidente em toda a Ásia, América, Médio Oriente e África, que ocorreram quase na mesma época histórica.

Não é só a história que é vista no Ocidente através de lentes totalmente distorcidas e “fora de foco”, é também o presente, que tem sido percebido e “analisado” de uma maneira fora do contexto e sem se aplicar praticamente nenhuma comparação racional. Os países rebeldes e independentes da Ásia, da América Latina, da África e do Médio Oriente (a maioria deles foram realmente forçados a defender-se de ataques extremamente brutais e a opor-se a campanhas de subversão impulsionadas pelo Ocidente) foram criticados, mesmo nos chamados círculos “progressistas” do Ocidente, usando padrões muito mais severos do que aqueles que são aplicados tanto à Europa como à América do Norte, duas partes do mundo que têm espalhado continuamente o terror, e infligido a destruição e sofrimentos inimagináveis a pessoas de todos os cantos do mundo.

A maioria dos crimes cometidos pelas revoluções de esquerda foram cometidos em resposta direta a invasões, subversões, provocações e outros ataques vindos do Ocidente. Quase todos os crimes mais terríveis cometidos pelo Ocidente foram cometidos no exterior e foram dirigidos contra pessoas escravizadas, exploradas, completamente saqueadas e indefesas em quase todas as partes do mundo.

Agora, de acordo com muitos, o “fim do jogo” está a aproximar-se. Os oceanos em ascensão estão a engolir países inteiros, como testemunhei em várias partes da Oceânia. É uma visão horrível, indescritível!

Milhões de pessoas, em numerosos países governados por regimes pró-Ocidente, estão a sair dos seus países, enquanto algumas nações estão basicamente deixando de existir, como a Papua ou Caxemira, para dar apenas dois exemplos óbvios.

O meio ambiente está completamente arruinado nas zonas onde,  há apenas algumas décadas atrás, os “pulmões” do mundo costumavam funcionar, mantendo o planeta saudável.

Dezenas de milhões de pessoas estão agora em movimento, já que os seus países foram completamente arruinados pelos jogos geopolíticos ocidentais. Em vez de influenciar e ajudar a guiar a Humanidade, culturas tão antigas como as do Iraque, Afeganistão e Síria são agora forçadas a produzir milhões de refugiados desesperados. Estão  apenas a tentar sobreviver, humilhadas e pouco relevantes.

Os grupos religiosos extremistas (de todas as religiões e, definitivamente, não apenas pertencentes à religião muçulmana) estão a ser preparados pelos ideólogos e estrategas maquiavélicos ocidentais, e estão espalhados por todos os cantos do globo: Ásia do Sul, Médio Oriente, China, América Latina, África e até na Oceânia.

O imperialismo conseguiu reduzir nossa Humanidade a uma desgraça total.

A maior parte do mundo está realmente a tentar funcionar “normalmente”, “democraticamente”, seguindo seus instintos naturais, que são baseados no simples humanismo. Mas acaba repetidamente por descarrilar, atacado e atormentado pela brutal, monstruosa e impiedosa hidra – o expansionismo ocidental e a sua “cultura” ou niilismo, ganância, cinismo e escravidão.

É óbvio para onde estamos a caminhar enquanto raça humana.

Nós queremos voar, queremos liberdade, otimismo e beleza para governar as nossas vidas. Queremos sonhar e criar algo profundo, significativo, feliz e amável. Mas há aqueles pesos horríveis que nos penduram nos pés. Há correntes que restringem as nossas ações. Há um medo constante, que nos está  a levar a trair todos os nossos ideais, assim como a trair-nos uns aos outros,  uma e outra vez; medo que nos faz, a nós seres humanos, agir como covardes e egoístas sem vergonha. Como resultado, não voamos, estamos apenas a rastejar, e nem mesmo para a frente, mas em elipses e círculos bizarros, irracionais.

Ainda assim, não acredito que o “fim do jogo” seja inevitável!

Há muitos anos que faço advertências, tenho escrito, mostrado e apresentado milhares de terríveis imagens de destruição, do colapso irreversível, da barbárie.

Praticamente, não guardei nada para mim. Utilizei os frutos do meu trabalho, dos meus filmes e livros, em novas viagens para os abismos mais escuros do nosso mundo. Não recebi quase nenhum apoio de terceiros. Mas não posso parar: o que tenho testemunhado, o perigo para o planeta e a devastação total, forçam-me a nunca desistir da luta. Sempre que foi necessário, e na maioria das vezes, eu estive sozinho. Passei muito tempo na América Latina; não posso desistir. Aprendi muito com Cuba e em tantos outros lugares maravilhosos; senti que não tinha o direito de me render.

Sempre que os horrores de que nosso planeta está sofrendo me sobrecarregam, posso ‘colapsar’, como aconteceu no ano passado. Então enterro-me em algum lugar por um curto período de tempo, reúno-me comigo mesmo, levanto-me e continuo o meu trabalho e a minha luta. Nunca deixei de confiar nas pessoas. Alguns vêm cheios de entusiasmo inicial, oferecem muito, depois traem-me e saem. Ainda assim, nunca perdi a fé nos seres humanos. Este ano, em vez de desacelerar, eu ‘adotei’ mais um lugar, que está em agonia – o Afeganistão.

O meu único pedido, a minha única exigência foi, que o mundo escutasse, que visse, que tentasse compreender, antes que seja tarde demais. Este meu pedido provou ser, percebo-o agora, tido também como “exigente”, e “radical”.

Às vezes pergunto: consegui muito? Abri os olhos a muita gente? Consegui construir muitas pontes entre as diferentes partes do mundo em luta? Como um internacionalista tenho de questionar as minhas próprias ações, a minha eficácia.

Tenho que admitir, honestamente: não sei as respostas para minhas próprias perguntas. Mas continuo a trabalhar e a lutar.

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O mundo parece diferente se observado e analisado a partir de um pub na Europa ou na América do Norte, ou se alguém estiver de pé num daqueles atóis no meio do Pacífico Sul (Oceânia) que estão sob o assalto constante da maré das ondas, pontilhadas com raízes das palmeiras mortas que apontavam de forma acusadora para o céu. Essas ilhotas estão na vanguarda da batalha pela sobrevivência do nosso planeta, e estão obviamente a ser derrotadas.

Tudo também parece ser muito mais urgente, mas também “real”, quando observado a partir das planícies negras e desoladas das ilhas indonésias, desesperadamente alagadas, de Bornéu/Kalimantan e Sumatra.

Eu costumava relatar nos meus ensaios, apenas para os leitores ficarem a saber, como ficavam as aldeias nalguns lugares, como em Goma na República Democrática do Congo (RDC), e como se sentiam as pessoas, após os assassinatos perpetrados por assassinos pró-Ruanda e, portanto, pró-Ocidente. Milícias. Era importante para mim explicar como as coisas são “no meio delas”, no terreno. Eu costumava escrever sobre estupros e mutilações em massa, sobre a carne queimada, a tortura terrível…Parei há algum tempo. Ou se testemunha tudo isso pelo menos uma vez ou simplesmente não se testemunha. Se se testemunha, sabe-se o que é, o que se sente e a que cheira…ou então nunca se poderá imaginar, por muitos livros e relatórios que se leia, por muitas imagens que se vejam.

Tenho tentado falar sobre tudo isto com as pessoas no Ocidente, em conferências, universidades, ou mesmo através dos meus filmes e livros. Elas escutam, principalmente com respeito. Elas mostram-se educadamente indignadas e ‘horrorizadas’, elas ficam (como é “esperado” que fiquem). Alguns dizem: ‘Eu quero fazer alguma coisa’. A maioria não faz absolutamente nada, mas mesmo quando decidem agir, é geralmente para si mesmos, apenas para se sentirem bem, para se sentirem melhor, para convencerem a própria consciência de que realmente “fizeram pelo menos algo pela Humanidade”.

Eu costumava culpá-los. Já não o faço. É assim que o mundo está organizado. No entanto, tenho reduzido drasticamente as visitas de trabalho tanto à América do Norte como à Europa. Eu não sinto empatia com as pessoas nesses lugares. Não pensamos da mesma maneira, não sentimos o mesmo, e mesmo a nossa lógica e razão são diametralmente diferentes.

A minha recente estadia de três semanas na Europa revelou-me claramente o quão pouco há de comum entre o estado mental do Ocidente e a realidade em que a grande maioria do mundo tem vivido.

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No passado, antes que os impérios ocidentais e o único “Império”, tivessem esvaziado os povos da maior parte da sua determinação e do seu entusiasmo, os seres humanos mais talentosos não faziam distinção entre as vidas pessoais, a sua criatividade e o seu implacável trabalho e dever para com a Humanidade.

Em vários lugares, incluindo Cuba, é assim que muitas pessoas ainda vivem.

No Ocidente, todos e tudo está agora fragmentado e a própria vida tornou-se objetivamente sem sentido: há um tempo distinto para trabalhar (satisfazer a carreira pessoal, garantir a sobrevivência, avançar “prestígio” e ego), um tempo para brincar e a vida familiar… e ocasionalmente há tempo para pensar sobre a Humanidade ou, muito raramente, sobre a sobrevivência do nosso planeta.

Escusado será dizer que, essa abordagem egoísta falhou na ajuda necessária para fazer avançar o mundo. E também fracassou diretamente quando se tratou de parar, pelo menos algumas, das monstruosidades cometidas pelo imperialismo ocidental.

Quando vou à ópera ou a algum grande concerto de música clássica, é para obter uma inspiração profunda, para me entusiasmar com o meu trabalho, para reciclar a beleza que exprimo nos meus romances e filmes, peças de teatro e até relatórios políticos. Nunca vou para ficar simplesmente “entretido”. Nunca é, pelas minhas próprias necessidades, somente.

Também é essencial para mim trabalhar em estreita colaboração com as pessoas que amo, incluindo a minha mãe, que já tem 82 anos.

É porque eu sei que não há absolutamente nenhum tempo para desperdiçar. E também porque tudo é, e deve estar entrelaçado na vida: amor, trabalho, dever, luta pela sobrevivência e progresso do nosso mundo.

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Posso ser rotulado como fanático, mas estou decididamente a escolher as opções C) e B) dos “dilemas” que descrevi acima.

Estou a escolher a racionalidade, agora que a “armada” dos EUA repleta de armas nucleares está a navegar em direção à China e à Coreia do Norte, agora que os mísseis Tomahawk caíram sobre a Síria, agora que o Ocidente vai enviar mais milhares de mercenários para um dos países mais devastados da Terra – o Afeganistão.

Sobrevivência e, em seguida, o avanço do mundo deve ser o nosso maior objetivo. Eu acredito nisso e fico de pé. Em tempos de crises absolutas, que estamos vivenciando agora, é irresponsável, quase grotesco, simplesmente ‘continuarmos a viver a nossa vida diária’.

O imperialismo tem que ser travado de uma vez por todas, por todos os meios. No momento em que a sobrevivência da Humanidade está em jogo, o fim justifica todos os meios. Ou, como reza o lema do Chile: “Por razão ou por força”.

Naturalmente, se aqueles “que sabem” não agirem, se forem covardes e oportunisticamente não fizerem nada, de uma perspetiva universal, nada de muito significativo acontecerá: um pequeno planeta numa de tantas galáxias simplesmente deixará de existir. Há muitos planetas habitados no universo, muitas civilizações.

No entanto, eu adoro este mundo e este Planeta particular. Eu conheço-o bem, desde a ponta mais ao sul, todo o caminho para o norte. Eu conheço os seus desertos e vales, montanhas e oceanos, as suas criaturas maravilhosas e tocantes, as suas grandes cidades e aldeias abandonadas. Conheço os seus povos. Eles têm muitas falhas; pelas quais em muito os podemos condenar, e muito deve ainda melhorar. Mas acredito que, no entanto, ainda são mais merecedores de admiração do que de denúncia.

Agora é hora de pensar, racional e rapidamente, e então agir. Nenhum remendo pequeno será suficiente, nada de ações para “sentir-se bem”. Apenas uma recomposição total, revisão. Chame-lhe a Revolução, se você quiser, ou simplesmente C) e B). Não importa como você o defina, mas algo terá que vir rapidamente, muito rapidamente, ou em breve não haverá mais nada para amar, defender e trabalhar, nunca mais.


Andre Vltchek é um filósofo, romancista, cineasta e jornalista de investigação. Cobriu guerras e conflitos em dezenas de países. Três de seus últimos livros são o romance revolucionário “Aurora”, e dois bestsellers, obras de não-ficção política: Expondo as mentiras do Império e Luta contra o imperialismo ocidental. Veja outros livros aqui. André está fazendo filmes para teleSUR e Al-Mayadeen. Assista a Ruanda Gambit, seu documentário inovador sobre o Ruanda e a República Democrática do Congo. Depois de ter vivido na América Latina, África e Oceânia, Vltchek atualmente reside na Ásia Oriental e no Médio Oriente, e continua a trabalhar em todo o mundo. Ele pode ser contactado através do seu website e pelo Twitter.


Original aqui

 

PIGS IN SPACE?

(Ana Cristina Leonardo, in Expresso, 26/11/2016)

ANALEONARDO

                     Ana Cristina Leonardo

No final de junho, o físico Stephen Hawking afirmou, no âmbito do III Festival Starmus que tinha precisamente como mote “Para lá do horizonte — Um tributo a Stephen Hawking”, que os humanos teriam cerca de mil anos para abandonar a Terra se quisessem sobreviver como espécie. A visão negra do futuro a longo prazo do autor de “Breve História do Tempo” — que, a propósito, torna a visão negra de Passos Coelho do futuro a curto prazo absolutamente irrelevante —, não sendo partilhada por todos os seus pares, coloca-nos ainda assim, e às gerações vindouras, perante a possibilidade real do abismo, por muito que se consiga reduzir o tamanho da pegada ecológica. Se aliarmos a isto a sobrepopulação e os avanços em Inteligência Artificial, poderíamos ser levados a pensar que o caldo para um novo boom da ficção científica estava criado. Ao invés, a ficção científica, pouco dada a psicologismos, continua a não atrair significativamente o público (“Matrix”, a partir de “Neuromancer”, talvez tenha sido o seu último grande sucesso popular), e quando se fala no género os nomes tendem a repetir-se: Asimov, Arthur Clarke, Frank Hebert, Fred Hoyle, H.G. Wells, Robert Heinlein, William Gibson, Philip K. Dick, Ray Bradbury, J.G. Ballard… As gerações mais novas parecem tender antes para um gosto barroco por vampiros e mortos-vivos, mais fantasia do que ficção científica, mais emoção do que racionalidade. Mera hipótese, não faz tese, mas não terá sido apenas a pensar na eleição de Trump que a palavra do ano de 2016 escolhida pelos Dicionários Oxford foi post-truth, pós-verdade. E explicaram-na: termo que se “relaciona ou denota circunstâncias em que os factos objetivos têm menos influência na formação da opinião pública do que os apelos emocionais e as crenças pessoais”. Emoção, ora aí está. E tratando-se de emoção, como cantava Nelson Ned: “Tudo passa, tudo passará”. Depois da inteligência emocional tão em voga, eis a emoção desprovida de inteligência. Sem espaço para usar instrumentalmente a massa cinzenta — porque, sejamos honestos, como e para quê compreender a realidade se não se pode transformá-la? —, sobra-nos reagir.

Encurralados num mundo que desaba a olhos vistos — septuagenário, criado sobre os escombros da II Guerra, um mundo que talvez venhamos a ter de reconhecer atípico — esbracejamos. Emocionamo-nos. Na verdade, se pudéssemos, muitos de nós embarcariam já amanhã para Marte.