Quanta vida poderemos esperar?

(Viriato Soromenho Marques, in Diário de Notícias, 10/08/2019)

Viriato Soromenho Marques

Nunca tivemos tanto dados, mas escasseia a capacidade de os pensar articulada e sistemicamente, produzindo conhecimento relevante. Um bom exemplo disso confirma-se no confronto entre duas séries temporais, distintas mas associadas, que se prendem, respetivamente, com a cronologia da Terra e a longevidade humana. A Terra foi até ao século XVIII, dominantemente, considerada como um planeta jovem. O diretor da classe de Matemáticas da Academia de Ciências de Berlim, o francês Alphonse de Vignolles (1649-1744), depois de uma vida de pesquisa matemática em torno dos livros do Antigo Testamento, calculava que, no máximo, desde o momento do Genesis (que formara a Terra e o resto o universo) não teriam decorrido mais de 6984 anos (a sua obra Cronologia da História Santa foi publicada em 1738). Contudo, seja com o conde de Buffon (1707-1788), seja com Kant (1724-1804), a Terra rapidamente ganhou um imenso passado. Buffon, modestamente, não arriscou, por escrito, mais de 74 000 anos. Kant, na sua obra Teoria do Céu (1755), na altura pouco influente, rompe com a clausura bíblica falando de uma Terra como parte de um cosmos potencialmente infinito no espaço e no tempo.

Na entrada do século XX, a Terra tinha já um longo passado (hoje estimado em 4,54 mil milhões de anos), e os humanos uma breve esperança de vida (pouco mais de 40 anos na Grã-Bretanha vitoriana). O futuro, por seu turno, parecia prenhe de esperanças tanto para o planeta como para a humanidade. No século XXI, pelo contrário, ocorre uma reviravolta paradoxal. A Terra aparece envolta num processo de alterações ontológicas aceleradas, induzidas pela ação tecnológica da civilização humana, que levaram mesmo ao atual debate sobre a mudança da nossa época geológica da designação de Holoceno (iniciada há 12 000 anos, no final da última glaciação) para Antropoceno, que segundo o nobel da Química Paul Crutzen, um dos seus proponentes, teria sido iniciada com a Revolução Industrial. O planeta não se encontra fisicamente ameaçado, pois continuará a rodar no espaço em torno do Sol ainda por muitas centenas de milhões de anos. O que corre risco de colapso irreversível nas próximas décadas são as miraculosas condições biofísicas do Sistema Terra que suportam a exuberância de vida no planeta. Condições de que a humanidade moderna se apoderou de modo predatório, irresponsável e potencialmente suicidário. Defender a tese de que o aumento da esperança de vida da espécie humana pode atingir mil anos, como o faz, entre outros, o biogerontologista Aubrey de Grey – autor do bestseller Acabar com o Envelhecimento (2007) – é sinal da imensa perturbação moral do nosso tempo, que não poupa sequer o mundo académico.

A vida dos indivíduos humanos não pode prolongar-se indefinidamente num planeta em que o atual modelo de crescimento económico destrói o software que permitiu e protege toda a vida, incluindo a da espécie humana. Quem não percebe isto envergonha não só a ciência como ofende o simples senso comum.

Professor universitário

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PAN para mangas

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 01/06/2019)

Miguel Sousa Tavares

1 O PAN é uma fraude política contada às criancinhas e aos incautos. No fundamental, constrói o seu caminho numa geração e num tempo desprovido de causas, servindo uma causa pronta a vestir, supostamente moderna, correcta e que não dá trabalho algum a enfiar. Cavalga ainda o discurso anti-sistema e antipartidos, que também é uma moda — uma moda perigosa. E alimenta-se da ignorância de quem confunde os direitos dos animais com a defesa do ambiente e o veganismo com a protecção da natureza. Não admira que tenha três ou quatro vezes mais votos nos centros urbanos do que nas zonas rurais, 10% de votos em Oeiras e zero votos em Barrancos.

Mas o que caracteriza o PAN não é só aquilo que defende, aberta ou encapotadamente, mas também a forma como o faz. E fá-lo de forma totalitária, intimidatória e arrogante — como quando André Silva, dissertando sobre a caça ao javali em montarias, declara que se trata de escolher entre “o lado do progresso ou dos sectores mais violentos da sociedade”, só faltando chamar assassinos aos caçadores (coisa que no seu íntimo deve ser o que pensa). Experimentei isso na pele quando, depois de dizer mais ou menos isto no domingo, logo me caíram em cima, com fúria animal, todos os corajosos das redes sociais, numa verdadeira caça em matilha. Como não frequento as redes sociais, esse é o lado para que melhor durmo, mas não deixei de constatar como estes neoambientalistas são gente aberta à troca de argumentos e ao contraditório.

Justamente, a maior fraude do PAN é agora a tentativa de se reconverter (de se disfarçar, melhor dizendo) em partido ambientalista, que nunca foi, para, aproveitando o seu sucesso nas europeias, conseguir uma acreditação na grande família dos verdes europeus e, por arrasto, aqui também. O seu deputado em Bruxelas anunciou até que quer integrar a Comissão de Agricultura — eles que aqui nunca estiveram preocupados com a proliferação fatal de eucaliptos, até já em zonas de Reserva Agrícola, com o olival super-intensivo do Alqueva, com a desafectação de terrenos agrícolas para especulação imobiliária turística, com a política da água e dos rios e, sobretudo, com o mundo rural, que vive e prolonga a agricultura, a caça, a pecuária, a produção de queijos e enchidos e tantas outras coisas que fazem parte do Index do PAN e que, a serem cumpridas, significariam a morte da agricultura e de todo o mundo rural.

A maior fraude do PAN é agora a tentativa de se disfarçar de partido ambientalista

Mas se o PAN pode ensaiar agora despudoradamente a máscara de partido ambientalista é porque todos os outros se demitiram de o ser e todos viveram uma legislatura inteira agachados com medo do PAN. Para começar, há uma coisa chamada o PEV — Partido Ambientalista Os Verdes — mas que não passa de um estratagema para duplicar os tempos de intervenção do PCP na Assembleia, sem jamais ter tido voz própria e sem jamais ter ido a votos. Quando, por razões eleitorais do PCP, foi necessário apoiar os ocupantes ilegais das ilhas do Parque Natural da Ria Formosa, os verdes lá o fizeram, deixando cair qualquer resquício de fachada ambientalista.

O PS, particularmente, vive no terror do deputado André Silva, e agora, com a perspectiva de vir a encontrar em Outubro mais uns quantos como ele, passou do terror ao namoro descarado: se for preciso vender as touradas e a caça para garantir o apoio do PAN para governar, fá-lo-á, sem vergonha. O PSD, como vem sendo habitual, não sabe o que fazer, ainda não entendeu se deve temer mais o PAN ou os professores, os camionistas ou os magistrados.

O CDS é um caso à parte: tem a notável excepção da deputada por Santarém, Patrícia Fonseca, a única com coragem e conhecimentos para os enfrentar, e depois um vazio arrepiante que é o paradigma do vazio ideológico em que caiu a direita portuguesa, incapaz de incarnar esta como qualquer outra causa, uma ideia alternativa, um projecto diferente para o país. No anterior Governo, Assunção Cristas conseguiu a pasta com que Gonçalo Ribeiro Telles sempre sonhou, reunindo num mesmo Ministério a Agricultura, as Florestas, o Mar, o Ambiente (com a Habitação) e o Ordenamento do Território — talvez o Ministério mais importante para traçar o futuro do país nas próximas décadas. Infelizmente, porém, a sua absoluta impreparação em cada uma das pastas e a sua insensibilidade para sequer perceber a importância do que tinha em mãos conduziram a um dos maiores desperdícios políticos a que já assisti. Quanto ao Bloco de Esquerda, tem sido, sem surpresa, o parceiro de serviço do PAN. Têm a mesma raiz sociológica — a burguesia urbana e a juventude das redes sociais e das causas da moda — e o mesmo desprezo e ignorância pelo país do interior. Não fossem eles fazedores de leis, e até daria vontade de rir ver o BE justificar o seu voto a favor da proibição da caça ao javali com matilhas de cães (declaração de interesses: não pratico) com o argumento de que assim se “impede a luta entre animais”. Será que eles alguma vez passaram um dia no campo a observar como os animais gastam o tempo todo a lutarem, a caçarem e a comerem-se uns aos outros? Ou acharão que os animaizinhos comem todos couves e curgetes? Resta o PCP que, honra lhe seja feita, tem sido inabalável naquilo que considera a defesa do modo de vida do mundo rural e da actividade económica dos seus sobreviventes, que, muito justamente, põe a par da luta contra o encerramento de postos de correio, centros de saúde, linhas férreas. Dirão que é o PCP a defender o seu eleitorado natural, mas isso só lhe fica bem.

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O PAN cavalga o vazio. O vazio de quem associe a protecção do ambiente com o ordenamento do território, a defesa da agricultura sustentável contra as monoculturas intensivas e predadoras, a defesa do mundo rural, das suas regras, valores e tradições contra a arrogância e ignorância dos ayatollahs urbanos, de quem tenha um pouco mais de humildade e de respeito quando fala de coisas de que não sabe e de gente que pensa diferente. Mas, sabem que mais? Talvez um dia, mais cedo do que tarde, esse vazio seja preenchido. Talvez um dia o PAN seja enfrentado como merece por quem não tenha medo de o fazer. Oxalá não tenham de ser outros populistas como eles a fazê-lo.

2 Dois presidentes de Câmara do PS estão detidos provisoriamente sob suspeita de várias trafulhices com dinheiros públicos, envolvendo, no centro da “teia”, a mulher de um deles. Outro está a ser julgado por motivos semelhantes. É cedo para qualquer juízo de culpabilidade, mas não para constatar as coincidências. São tudo distintos autarcas socialistas, excelentíssimos dinossauros do poder local, gente influente na terrinha, provavelmente comendadores da República. E são todos naturalmente candidatos a mais altos voos num futuro Portugal regionalizado. Tenham medo, muito medo.

3 Berardo vai processar as câmaras da Assembleia da República que o filmaram no desempenho do papel de orgulhoso caloteiro, que desempenhou com indisfarçável gozo e inultrapassável brio. Diz que o faz em nome do direito à protecção da imagem. Ou seja: como, reflexão feita, não gostou da imagem que deu, Berardo processa-se a si mesmo. É, de facto, uma originalidade. E, atendendo a que não tem quaisquer bens próprios, não será de espantar que ainda venha pedir assistência judiciária, com dispensa do pagamento de custas.


Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

#SchoolStrike4Climate: a lição dos estudantes

(Por José Soeiro, in Expresso Diário, 15/03/2019)

Não viemos pedir aos líderes que se preocupem. Ignoraram-nos no passado e ignorar-nos-ão de novo (…) A mudança está a chegar, quer queiram quer não”. As palavras de Greta Thunberg, a jovem sueca de 15 anos que iniciou o movimento da greve estudantil pelo clima, impressionam não apenas pelo seu conteúdo, mas pelos lugares onde foram proferidas. Diante dos mais poderosos do mundo, Greta nunca se acanhou nem deslumbrou, nunca recuou na sua mensagem nem nunca se intimidou com quem tinha à sua frente. Disse sempre o mesmo, com a mesma radicalidade: os jovens não vêm pedir licença a ninguém nem vêm pedir favores aos donos do mundo. Vêm desobedecer a quem os quer conformados e vêm fazer o que tem de ser feito, contra a irresponsabilidade dos dirigentes políticos que, em todo o mundo, têm colocado os interesses económicos, a lógica do lucro e do curto prazo à frente do combate às alterações climáticas e do bem comum.

“Aulas há muitas, planetas só temos este”, afirmavam alguns dos milhares de jovens que estiveram nas dezenas de manifestações que hoje varreram Portugal de uma ponta à outra. Os pais e mães, os professores ou diretores das escolas que, perante este alerta, estão mais preocupados com uma falta injustificada ou com uma nota, parecem não ter percebido a profundidade do que nos estão a dizer os e as adolescentes. Sem planeta não há notas, nem escola, nem sucesso individual.

Mais valia, por isso, aprendermos com os miúdos e miúdas a lição que nos dão. Já é tempo de deixarmos de olhar só para nós e para o nosso umbigo. Já é tempo de pensarmos em comum e no nosso futuro. Ainda bem que há quem nos esteja a obrigar a fazer isso.

O desafio com que estamos confrontados é, de facto, radical. De acordo com o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (mais conhecido por IPCC), a organização da ONU para esta matéria, para que o planeta sobreviva precisamos de cortar para metade as emissões globais de gases com efeito de estufa até 2030. Isto implica uma mudança total de paradigma no modo de produção e de consumo, acabar com a exploração de petróleo, gás e carvão e com uma economia que funciona com base nos combustíveis fósseis, no plástico, na obsolescência programada e no descartável. Sem isso vamos continuar a assistir a catástrofes naturais provocadas pelos danos que estamos a infligir ao planeta, às migrações em massa de refugiados climáticos, a pessoas a quem faltam bens básicos como a água e a comida, ao agravamento das desigualdades e do sofrimento à escala mundial. Sim, estamos numa crise climática grave e ela não vai resolver-se apenas com pequenas mudanças individuais – é a própria lógica do sistema que tem de ser posta em causa. E esse sistema tem um nome: capitalismo.

Já sabemos que sobre esta manifestação, muitas coisas se dirão. Que “é uma causa bonita”, como se fosse apenas uma consensual e inconsequente causa bonita de uma juventude ingénua – e não um grito de alerta concreto sobre problemas candentes que vão desde os furos de petróleo (que ainda não foram cancelados em Portugal, por exemplo) às consequências das barragens, dos transportes públicos ao investimento em energias renováveis (será preciso lembrar que acabámos de deixar encerrar a maior fábrica de painéis solares do país?) ou à omnipresença dos plásticos. Para sacudir a água do capote, pode sempre enfatizar-se a necessidade de uma “mudança de comportamento individual por parte de quem hoje se está a manifestar”, como se o aquecimento global fosse sobretudo responsabilidade das decisões individuais de consumo e não consequência das regras globais de produção e das decisões políticas sobre o funcionamento da economia, que foram o que motivou o início deste movimento. Houve até quem já tivesse sugerido que os estudantes, por não serem trabalhadores, não têm legitimidade para fazer greve (como se não tivessem feito desde sempre…) e acusado a greve feminista do passado dia 8 e a greve estudantil de hoje de serem “um mero instrumento ao serviço de interesses que, em muitos casos, são estranhos aos interesses dos trabalhadores”.

Pela minha parte, só posso dizer isto a quem hoje se manifestou: obrigado por estarem a fazer a vossa parte. A alertar para a necessidade de respondermos à crise climática. A expandir o conceito de greve, reforçando e reinventando este repertório de luta, a provar que em Portugal o movimento feminista, o movimento estudantil, o movimento ecologista têm espaço, vão à raiz dos problemas e não pedem permissão para existir.