A política das catástrofes

(António Guerreiro, in Público, 07/01/2018)

Guerreiro

António Guerreiro

Há cerca de dois meses, a seca estava na ordem do dia, era assunto dos noticiários e até foi difundido um anúncio de iniciativa ministerial a apelar aos cidadãos para que reduzissem o consumo da água. Entretanto, choveram umas pingas, a terra ficou húmida e verdejou um pouco. Foi o suficiente para as preocupações se dissiparem e o assunto deixar de assomar nas vozes públicas. Observando o que se passa no terreno, a situação catastrófica não se atenuou e não devemos esperar por chuva abundante quando o tempo em que ela é mais copiosa já começa a ficar para trás. A não ser que o Governo e demais entidades a quem cabe a tarefa de gerir o Inferno que aí vem tenham substituído os alarmes públicos pela oração à Virgem, a aparente tranquilidade que se vive por esses lados é de uma grande imprudência. Mas não é uma falha pontual: a denegação das questões do clima e a recusa em aceitar a ideia de que entrámos num novo regime climático fazem parte das posições do poder político. Um dos fenómenos da vida política, social e cultural do nosso tempo, em que o espaço público parece tão alargado que todos parecem poder aceder a ele, é o facto de haver grandes zonas de exclusão, onde falta a voz pública e os seus amplificadores. As vítimas principais da seca, as que mais sofrem os seus feitos, são um exemplo desta obliteração.

O sueco Andreas Malm, que escreveu um livro sobre o Antropoceno (o nome que se dá à nova época geológica), reduzindo-o a uma simples máscara ideológica, mobilizou para este campo a análise marxista, às vezes demasiado vulgar, mas com algumas iluminações a que não devemos fechar os olhos. Este geógrafo tenta mostrar que por trás desse “ecrã ideológico” está uma velha oposição com novas roupagens: hoje, diz ele, as classes opõem-se pelo maneira como as transformações do planeta dividem as populações entre as que são apanhadas nas falhas abertas pelos processos geo-tecnológicos, responsáveis pelo novo regime climático, e as que têm meios de se proteger e de evitar zonas de risco. Se a catástrofe seguir o seu curso, como parece inevitável, a médio prazo vai deixar de haver espaços herméticos, protegidos. Não haverá nenhuma green zone. Na perspectiva de Malm, sem antagonismos não é possível qualquer mudança política. Por isso, ele denuncia no conceito de Antropoceno aquilo que nele está ao serviço da narrativa de uma humanidade pirómana em que todos somos culpados, ainda que seja sabido que os dezanove milhões de habitantes do estado de Nova Iorque consomem mais energia do que os novecentos milhões que habitam em toda a África sub-saariana. E, por isso, ele submete à crítica “o mito do Antropoceno” e aponta os “maus usos” e as contradições desse conceito. O que na análise de Malm parece demasiado vulgar e esquemático é a sua insistência numa categoria ideológica e historicamente cristalizada como é a categoria política da classe. O antagonismo de classe precisa hoje de ser substituído por outros antagonismos. Verificámos isso recentemente, com os grandes incêndios de Junho e Outubro.

De repente, emergiu um antagonismo entre o litoral e o interior, e entre as zonas urbanas e as zonas rurais. Ora, a denegação e o silêncio do poder político sobre a catástrofe climática só se consegue manter enquanto esta atravessar os campos, matando toda a vida que neles existe, mas sem afectar fortemente as cidades, para as quais trabalham os institutos meteorológicos e a protecção civil, com os seus divertidos alertas coloridos (do amarelo ao vermelho), como quem conta histórias de fantasmas a gente adulta, mas analfabeta quanto à meteorologia.

 

Anúncios

Os azeiteiros excelentíssimos

(António Guerreiro, in Público, 20/10/2017)

Guerreiro

António Guerreiro

Como é que a gente das cidades, neste tempo em que o planeta se urbanizou, se tornou tão analfabeta nas questões da meteorologia que só percebe que o “bom tempo” prolongado é um inferno quando tudo arde e as chamas e o fumo chegam à porta da cidade? A natureza gosta de se esconder, tanto quanto a ignorância gosta de se mostrar.

Mudemos de assunto. Quem passa pela região de Ferreira do Alentejo, vindo de Lisboa em direcção a Beja, pousa os olhos numa mancha verde-escura, compacta, de oliveiras. São milhares e milhares de hectares, cobertos por oliveiras que têm a forma de arbustos e foram dispostas de modo a formarem linhas de sebes paralelas, completamente fechadas. Entre as sebes, em sentido longitudinal, há um espaço livre cuja medida exacta é a largura de um tractor. Assim, as máquinas podem avançar sem obstáculos e ocupando o mínimo espaço possível. No meio de um desses olivais, quase à beira da estrada, foi construído um lagar que parece um edifício de Silicon Valley. Este lagar da empresa que produz o azeite da marca Oliveira da Serra, desenhado pelo arquitecto Ricardo Back Gordon, é de uma exuberância arquitectónica e tecnológica que reduz à insignificância os empreendimentos da civilização mediterrânica do azeite e do vinho. No site do Lagar do Marmeleiro (assim se chama a herdade onde ele está implantado), podemos ler que ele “homenageia o Olival português e representa o expoente máximo da tecnologia ao serviço da qualidade do azeite e da sustentabilidade ambiental”. Trata-se, portanto, de um monumento, de um” memorial” como aqueles que celebram as vítimas da guerra ou os heróis mortos em combate. E, para além de evocar a epopeia do azeite, o monumento foi construído em nome da “sustentabilidade ambiental”. Este discurso da sustentabilidade ambiental, acrescentado como um apêndice, é a manifestação de um sintoma: o sintoma da má-consciência. Parece o assassino que, sem que ninguém lhe peça contas, vai ao posto da polícia gritar: “Não fui eu que matei a minha mulher”. Só um idiota urbano, daqueles que precisam de ser submetidos a 35 graus centígrados em meados de Outubro, depois de seis meses sem chover, para chegar à conclusão de que aquilo a que insistentemente chamaram “bom tempo” é uma catástrofe, é que não percebe que aquele mar verde de oliveiras a perder de vista, alimentadas para crescerem mais num ano do que os antigos olivais cresciam numa década, e ocupando o terreno com a mesma densidade que uma plantação de couves, consomem água e fertilizantes em porções criminosas. Em pouco tempo, a terra fica exaurida e o deserto cresce. Noutros lugares do Alentejo, os olivais com mil anos não precisam que lhes seja erguido um “memorial” porque são eles que transportam a memória do mundo. Aquele lagar imponente no meio da planície não homenageia o olival português: insulta-o. Apetece gritar, trazendo para este contexto duas palavras que deram expressão a um poderoso manifesto: ornamento e crime. Mas parece que as catástrofes lentas e serenas, como aquelas que advêm de olivais que parecem oásis no meio do deserto, não põem os bombeiros e as populações em estado de alerta.

Mudemos de assunto: as campanhas a favor de medidas que desacelerem o aquecimento da Antártida não estão a ser muito bem sucedidas. Entretanto, na Europa e muito especialmente no seu extremo ocidental, as reacções químicas do fogo e as reacções políticas misturaram-se e estão a provocar um perigo global. E de repente, confrontados com problemas tão arcaicos como os da água e do fogo, começamos a descobrir que talvez nunca tenhamos sido modernos.

É mentira que depois disto nada será como antes

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 22/06/2017)

Autor

                               Daniel Oliveira

Perante uma tragédia das dimensões da que vivemos esta semana é suposto quem tem espaço público dar voz à indignação. E isso puxa explicações fáceis e definitivas com soluções óbvias e relativamente simples. A incúria dos políticos, o lóbi da celulose, a incompetência dos bombeiros. A regra é esta: tem de haver um culpado e não somos nós. A resolução do problema tem de ser rápida e contra alguém.

Sei muito pouco sobre florestas e o pouco que aprendi recentemente com quem sabe leva-me a chegar à conclusão oposta: o problema tem origens muitíssimo complexas, ligadas a bloqueios estruturais do país, e as soluções são igualmente complexas e dependentes de alterações profundas no nosso modelo de desenvolvimento, da nossa economia e até da nossa relação com a propriedade.

Comecemos pelo eucalipto. É evidente que o eucalipto é, tal como o pinheiro, um excelente propagador do fogo. Assim sendo, porque há tantos eucaliptos? Não é apenas por causa do lóbi da celulose. É porque o eucalipto e o pinheiro bravo são os que garantem rendibilidade mais rápida. A cortiça ou o pinheiro manso até são mais rentáveis, mas demora mais tempo a ter retorno. Ganância? Não. Apenas racionalidade: a probabilidade do pinheiro bravo ou do eucalipto arderem antes de terem retorno é muito mais baixa do que noutras espécies. Assim, é um investimento mais seguro. Ou seja, duas espécies especialmente difíceis para quando há incêndios são especialmente apetecíveis também por causa dos incêndios.

Continuemos com a limpeza das matas e tudo o que é gestão florestal. Há soluções imediatas para que a limpeza das matas seja lucrativa. Mais uma vez, a economia da floresta pode ser usada em favor da floresta. As centrais de valorização de resíduos de biomassa florestal são a forma mais eficaz de garantir que a limpeza das matas é mesmo feita. Mas é preciso mais do que isso. Um dos principais problemas da floresta e uma das principais razões para o seu abandono é o facto dela ser sobretudo constituída por minifúndios, com proprietários sem meios nem incentivos para tratar do que é seu. Infelizmente, os portugueses têm pouca tradição cooperativa. A integração em sociedades de gestão (proposta pelo Governo) ou de exploração pode garantir economia de escala e dimensão sem perda de propriedade. Mas, para funcionar, a sua integração deveria poder ser coerciva (com pagamento da devida renda e salvaguarda da propriedade) para quem não explora nem trata. Mas mudar isto é mudar um país e uma cultura. Leva muito tempo e contará com a resistência dos que consideram que a propriedade é um direito absoluto.

Por fim, o terceiro grande problema da floresta é, na realidade, um dos maiores problemas do país: o despovoamento. É impossível defender a floresta se poucos viverem onde ela arde e se os poucos que lá vivem forem pessoas idosas. Alguém tem uma solução para isto? Eu tenho um desejo, que não chega a ser uma proposta, apenas evita caminhos equívocos: mais do que a revitalização da vida rural, o repovoamento do “interior” depende da existência de cidades médias atrativas. Esta é a condição para que no meio desta rede de cidades médias cresçam atividades económicas que permitam um povoamento mais equilibrado. E tudo isto depende de um modelo económico muito diferente do nosso.

Do que fui lendo da reforma proposta por Capoulas Santos parece haver um esforço para tomar algumas decisões certas. E erros graves, como a municipalização da gestão florestal. Não porque o princípio esteja errado, mas porque os resultados práticos serão desastrosos. As câmaras municipais, sobretudo as das zonas onde a situação é mais crítica, não têm dimensão técnica, financeira e até política para fazer esta gestão. E esta reforma pode vir a padecer do mesmo problema que as anteriores se falhar, como explicou Vítor Louro numa entrevista ao “Jornal de Notícias”, a fiscalização. Diz este engenheiro silvicultor e ex-secretário de Estado que 92% dos proprietários notificados pela GNR para limparem os seus terrenos cumprem. A questão são os meios para fiscalizar, notificar e fazer cumprir.

O estado da nossa floresta não tem causas simples de resolver e soluções rápidas de implementar. Não se consegue convencer ninguém a trocar o pinheiro e o eucalipto, que lhe dão retorno antes de haver o incêndio seguinte, por espécies menos lucrativas ou com um grau de risco maior. Para mudar isto é preciso, entre outras coisas, quebrar um ciclo vicioso. A gestão florestal dificilmente será racional se os minifúndios não se integrarem em unidades maiores. Mas alterar isto implica mudanças culturais, que a lei pode facilitar mas não decreta. Não é possível defender a floresta se o interior continuar a esvaziar-se e apenas lá ficarem os velhos. Apesar do repovoamento também depender de políticas, quem prometer fazê-lo rapidamente está a mentir. O ritmo da mudança raramente é o ritmo da exigência. Quem diz que depois disto nada será como antes engana-se. Será exatamente como antes. Irá mudando, claro. Como outras coisas mudaram na sociedade portuguesa e só com muita distância o percebemos e por isso nem valorizamos.

Podemos fazer as escolhas certas para as coisas serem diferentes. Mas quando isso se sentir já Pedrógão Grande será história. Porque, lamentavelmente, o tempo da política não é o tempo de uma indignação.


Contactos do autor:  Email