A conversa da Greta

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 07/12/2019)

Clara Ferreira Alves

Todas as tardes de semana, das 16h às 20h30, consigo respirar partículas finas. Não as vejo, mas os ecologistas e especialistas de ar dizem-me que existem e são responsáveis por dezenas de doenças, não apenas do aparelho respiratório. As partículas finas, das emissões de CO2, retiram anos de vida. Da minha casa, apenas consigo detetar o cheiro a gasolina queimada e o fumo a sair dos escapes no para-arranca. O sinal abre, passam dois ou três carros, o sinal fecha. Acresce a poluição sonora, as buzinas dos condutores zangados, os roncos dos motores, a algazarra quando há um impedimento no trânsito. E as camionetas gigantes que nunca desligam os motores enquanto os turistas desembarcam à porta dos restaurantes e hotéis, visto que não podemos deixá-los andar meia dúzia de metros. Ao fim de semana, os carros suburbanos diminuem, sendo compensados pelos aviões, que passam a rasar a cada cinco minutos, conforme o vento. Aos sábados e domingos, a poluição sonora é insuportável e não se consegue ter uma conversa sem levantar a voz. Mais partículas finas, e em quantidades que ultrapassam os valores razoáveis e saudáveis. Não se passa um dia do ano sem respirar este ar carregado de venenos e de ruídos. De Campolide ao Largo Camões, assim vivem os bairros residenciais. A Rua da Escola Politécnica é um inferno, da Avenida da Liberdade nem vale a pena falar, porque as modificações foram nefastas e não diminuíram o fluxo de carros. E os passes? Zero efeito. Os donos dos carros não são os dos passes e nunca serão. Os transportes públicos continuam deficientes.

De que nos queixamos, os moradores destes bairros da capital? O senhor presidente da Câmara declarou aos quatro ventos internacionais que Lisboa é uma cidade verde. E parece que foi para os lados das docas cumprimentar a Greta do ambiente e o seu veleiro não-poluente. Assim sendo, e por comparação com esta vacuidade, a poluição da cidade de Lisboa em certas zonas, todas por onde passa o trânsito de esgoto da cidade, não existe. Para o autarca e os ecologistas de serviço, ou para o serviçal ministro do Ambiente que despertou da letargia para escrever uma carta sentimental à Greta, estas coisas da poluição real são pormenores que não empatam a imagem pública. O que importa é aparecer na fotografia, não é retirar os carros suburbanos de Lisboa, promessa nunca cumprida por nenhum dos partidos que a governam e governaram. Quem quer prescindir dos milhões da EMEL, dos parquímetros e das concessões dos parques de estacionamento? Fora a renda das portagens.

O que se pretende é acrescentar a este aeroporto poluente mais um aeroporto poluente na outra margem do rio. O que se pretende é estragar os pulmões da margem sul, tal como estão a ser estragados os da margem norte. E matar uns pássaros que, nas imortais palavras do senhor da Ryanair, mais não servem do que para serem mortos para deixar passar os pássaros dele. Estiveram dezenas de anos os crânios portugueses a estudar e pensar e repensar os aeroportos para, de repente, se perceber que o Montijo é um imperativo. O Montijo aqui ao lado, servido por mais veículos a gasolina, única maneira de ultrapassar o obstáculo do rio. E a grande autarquia de Lisboa não se esqueceu dos barcos, e providenciou um magnífico terminal de cruzeiros mesmo no centro de cidade histórica. Assim levamos todos com a poluição e o turismo predador.

Lisboa cumpre sempre e bem a vocação de estalajadeira-mor. Os políticos vão cumprimentar vedetas e não deixam passar uma oportunidade de aparecerem como ambientalistas preocupados. Medidas concretas? Nenhuma. Talvez o aumento da frota de autocarros, mais poluição.

Isto passa, esta hipocrisia, porque tendo os moradores de Lisboa sido destituídos dos seus direitos, e cedido a quota de conforto e habitabilidade aos turistas, embora não tenhamos sido destituídos dos impostos ocultos, diretos e indiretos, cederam também o protesto e a revolta. O conformismo e o desalento, com exceções como o protesto contra a imbecilidade dos contentores no Martim Moniz e o pedido de um jardim, são o diapasão porque todos afinamos em Lisboa. Nenhuma entidade política em Portugal é tão inescrutável e inimputável como a Câmara Municipal de Lisboa, grande empregadora. De mãos dadas com um Governo da mesma cor, cenário ideal para a unanimidade e a camuflagem.

Em Lisboa, o PS tem feito o que quer, como quer e quando quer. Dos monos como o do Rato aos inexistentes espaços verdes, da poluição aos pavimentos esburacados, da ausência de regulação dos direitos individuais dos moradores face aos alojamentos locais selvagens, da ausência de mobilidade para deficientes às subculturas e zonas dedicadas aos sem-abrigo, da especulação sem freio à deficientíssima recolha de lixo e limpeza das ruas, Lisboa é o exemplo de tudo o que numa cidade pode correr mal e corre mal. A poluição põe pessoas em risco, crianças em risco, e esta gente mais não faz do que ir exibir-se sem pudor ao lado de uma criança que não conhecem e que defende o contrário do que eles praticam.

A vinda da Greta a Portugal é um revelador dos políticos que nos governam. A quantidade de repentinos ecologistas que foram apresentar os respeitos diz muito sobre a espécie de oportunistas. Se o ridículo matasse, as docas estariam cheias de cadáveres. Até o Presidente, parece, estava indigitado para ir para as docas, como um criado ao serviço de vossa excelência, cumprimentar a menina. Marcelo, com a sua inteligência, disse que a recebia, mas não ia cumprimentar, “por causa do aproveitamento político”. Desde quando um Presidente deveria fazer esta figura, ir abanar o sobretudo para o cais e curvar a espinha lusitana? O infantilismo tomou conta do Portugal dos pequeninos.

Tenhamos tino. Greta pode ser uma ecologista e ativista muito respeitável, mas o mundo não depende dela e muito menos do privilégio de ter um veleiro às ordens. Coisa que nós, meros mortais, não temos. O mundo e a salvação dele dependem de todos nós e dependem muito dos políticos, oportunistas e não oportunistas, que em vez de legislarem e executarem as medidas que diminuam as emissões, que em vez de proporcionarem aos cidadãos que governam uma medida de qualidade de vida e prevenção, vão pavonear-se com os ídolos do Instagram. Talvez fosse preferível saírem todos de circulação, como fez a grande Greta Garbo. E deixarem-se desta conversa da treta, perdão, da Greta.


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Ó homem, os cajados são para suportar o corpo na idade e nas inclinações das serras!

(José Pacheco Pereira, in Público, 16/11/2019)

Pacheco Pereira

Um secretário de Estado, responsável por uma história pouco esclarecida a propósito das concessões mineiras do lítio, foi a um dos locais onde é suposto ir haver as ditas minas. Foi a Boticas, e escolheu muito mal a terra, por razões que adiante se verão.

Chegou lá e havia um ajuntamento hostil à sua espera. O homem encolheu-se e voltou para trás. Chamou a GNR e voltou lá de novo, pensando certamente que a protecção dos guardas metia medo aos habitantes de Boticas. Não meteu medo nenhum, e ele nem saiu do carro, encolheu-se de novo, retirou-se, para depois fazer a habitual acusação de que estavam lá pessoas de Montalegre, que convinha dizer-lhe que é um pouco mais acima.

É nestas alturas que eu tenho muitas saudades de Mário Soares, porque estou a vê-lo sair do carro sem hesitação e dirigir-se aos manifestantes. Posso falar à vontade, porque já me aconteceu coisa semelhante e posso dizer-vos que, após um momento tenso, o PSD que estava “proibido”, por umas milícias justiceiras de entrar numa terra de Aveiro, entrou solitário e acabou por ganhar as eleições. Está na imprensa da época. Mas, pelos vistos, a escola de Soares está em desuso.

Eu conheço bem Boticas, onde dei aulas, naquela diáspora que os professores tinham que fazer. E foi um daqueles tempos que nunca esquecem. Aprendi muito sobre a natureza, a mesma natureza que as minas agora ameaçam. Aluguei uma casa na aldeia de Pinho, e lembro-me de que tinha havido um grande incêndio entre Boticas e Pinho, estando tudo enegrecido. Aprendi como o negro “comia” a luz dos faróis. Aprendi também o que era ter uma nuvem no andar térreo, onde havia a arrecadação da lenha, e o primeiro andar da habitação de onde, na varanda, se via um sol luminoso e quilómetros de serra. Descia-se e era nevoeiro cerrado, meia dúzia de metros abaixo. E o frio que fazia brilhar uma paisagem imaculada, que ia do Barroso até Vidago, onde começava outro mundo.

Havia também outra natureza que se aprendia. Uma vez, o então chefe de secretaria da escola, que era retornado, perguntou-se se eu não tinha medo de morar sozinho numa casa isolada na montanha. Eu disse-lhe que não, não era zona de lobos, e que a minha única preocupação eram cães vadios, e à beira da cama tinha uma caçadeira, por isso estava confortável. “Não, não era disso. Eu queria saber se não tinha medo do Diabo”. E depois contou-me que uma vez o Diabo lhe tinha puxado os cobertores da cama. Bom, com o Diabo não havia muito a fazer. E havia os meus jovens alunos que vinham das aldeias da serra com uma espécie de pistola de madeira e fulminantes para assustar os lobos e que pediam autorização para escrever na “coroa” da página. E um padre que parecia saído de um livro de Aquilino, com quem almoçava num restaurante sobre o qual Ferreira de Castro tinha escrito, e que me dizia que quando as mulheres lhe pediam para as abençoar a elas e aos bois, lhes dizia “vade retro mulieribus”, e elas ficavam muito contentes. Não me esqueço do que devo a Boticas e, num irrelevante agradecimento, ajudei a recuperar alguns elementos para a monografia da terra.

A beleza de Boticas não era resultado de uma opção, mas da pobreza e da interioridade. Não havia fábricas, o mais parecido era a empresa das águas de Carvalhelhos e, nas aldeias à volta, havia a economia de subsistência do Barroso e do Larouco, algum comércio de gado, e de produtos florestais. Também não me esqueço do que me disse um homem da terra “não sei como o senhor doutor gosta disto, são só serras e árvores”.

Por isso, assustei-me com a história do lítio, não sem alguma dúvida sobre como os homens e as mulheres de Boticas iam receber a possibilidade de não ser “só serras e árvores”. Nestes anos, todos Boticas estragou-se alguma coisa mas pouco. A sua população tem muito serviços essenciais, melhorou a sua condição e diminuiu o isolamento das aldeias da montanha. Mas de Montalegre até ao Douro, vários ecossistemas foram destruídos, desde as cumeadas cheias de eólicas, até aos vales dos rios desaparecidos debaixo das barragens e, com eles, as velhas linhas férreas herdeiras do Fontes Pereira de Melo.

O secretário de Estado, que não saiu de dentro do carro ao ver uns cajados, trazia consigo um dilema que não é fácil de resolver, uma promessa de empregos, de dinamismo económico local, com o preço da destruição do meio ambiente disfarçado de juras sobre a inexistência de impacto ambiental.

O que os meus amigos transmontanos sabem de ciência certa, é que em todos os sítios onde houve essas promessas, nem houve emprego estável, nem desenvolvimento para as terras, mas situações de destruição irreversível do valor ecológico, turístico, cultural das suas terras. E sabem também que alguém lucrou muito, chegou lá, sugou tudo de valor, e depois deixou os estragos.


Mensagem para Greta Mortágua e os jovens ridículos que se preocupam com o ambiente

(Por Jovem Conservador de Direita, in Público, 28/09/2019)

As eleições legislativas são demasiado importantes para perdermos tempo a discutir temas irrelevantes como alterações climáticas. Mas, esta sexta-feira, um grupo de jovens ignorantes decidiu interromper discussões verdadeiramente fulcrais para o futuro do país, como o caso de Tancos ou a subida do PSD nas sondagens, e fazer uma marcha pelo clima, com a liderança espiritual de uma adolescente sueca. Bons tempos em que os jovens eram inspirados por outros jovens a ingerir cápsulas de Tide ou a fazer o desafio do manequim. Agora são inspirados a mudar o mundo, como se o mundo estivesse mal e precisasse de mudança.

Esta Dra. Greta Mortágua tem 16 anos e, em vez de andar a fazer coisas típicas de 16 anos, como estudar e brincar com o telemóvel, anda a querer fazer política. Um jovem que queira fazer política não faz discursos, nem vai à ONU. Vai para uma juventude partidária, cola cartazes, bate palmas e, se souber obedecer aos adultos, pode eventualmente ir para assessor. Não pode é ter opiniões.

Se a Dra. Greta quer liderar um movimento global, nós, como adversários, temos o dever de a criticar como adulta. Merece todos os memes insultuosos que são feitos com a sua imagem na Internet. É uma menor? Sim. Mas é uma menor que decidiu ser insolente e ter opinião. É uma pena que os pais dela não a tenham protegido para que nós não nos víssemos forçados a ter de a insultar na Internet ou a fazer trocadilhos com o seu nome.

Quanto às crianças que decidiram marchar pelo clima, tenham vergonha. Se nós não as tivéssemos colocado no mundo, elas nem sequer teriam clima para defender. Queixam-se das alterações climáticas, mas, se não fosse o capitalismo, não poderiam usufruir do luxo que é manifestarem-se pela sua sobrevivência.

Andámos nós a destruir o planeta e a libertar dióxido de carbono para agora termos estes jovens a quererem implementar socialismo para salvar o planeta. Foi por estes mal-agradecidos que nós criámos um planeta pior. Em vez de nos agradecerem por termos utilizado recursos e adiado eventuais soluções para as alterações climáticas pelo bem-estar deles, temos de aturar protestos.

Há crianças em países do terceiro mundo a produzir os telemóveis que eles utilizam para divulgar imagens dos cartazes ridículos deles, que, já agora, são feitos em cartão. Sabem de onde vem o cartão? Das árvores, seus hipócritas. Sabem o que salva árvores? O capitalismo e os tablets que crianças da vossa idade andam a produzir em fábricas e que não podem protestar pelo ambiente. E, já agora, queixam-se da libertação de dióxido de carbono, mas sabem o que é que liberta dióxido de carbono? Vocês! Se conseguirem deixar de expirar dióxido de carbono, podem protestar. Até lá deixem de ser hipócritas. Se vocês têm direito a libertar dióxido de carbono, a Exxon Mobil também tem. Julgam que são mais que uma corporação? Uma corporação pelo menos cria empregos. O que é que vocês fazem? Comem cereais enquanto vêm vídeos no YouTube?

Não lêem o Dr. Zé Diogo Quintela? Vocês podem perfeitamente ter uma opinião diferente da comunidade científica. Ninguém vos obriga a estarem preocupados com o ambiente. Vão gozar a vida e abrir franchises de padarias. Até porque, se a comunidade científica estiver certa, vocês podem nem sobreviver até à idade adulta. Sabem que, enquanto protestam, há jovens da vossa idade na Índia a aprender programação e matemática avançada? Eles vivem no mesmo planeta e não estão preocupados. Estão felizes, ao contrário de vocês.

Greves pelo clima? É assim que querem arranjar empregos no futuro? Sabem qual é a melhor competência que o mercado procura? Capacidade de adaptação. Eles querem jovens que aceitem a realidade como ela é e que se adaptem a ela. Não querem jovens que querem mudar as coisas. Um bom colaborador não faz greves para mudar as coisas. Olha para a situação e procura ser o mais produtivo possível em função dessa situação.

É por isso que vocês vão ser praxados quando chegarem à universidade. Os vossos colegas da praxe vão arrancar a rebeldia de dentro de vocês aos gritos e tornar-vos preparados para, com sorte, serem colaboradores das empresas de sucesso contra as quais protestaram ontem. Deixem os adultos resolver os assuntos e não nos chateiem. Cumprem a vossa função, que é estudar e aceitar sem questionar a opinião dos adultos. Podemos estar a destruir o planeta, mas sabemos o que estamos a fazer.

Caso a comunidade científica que estuda e analisa o clima esteja certa, o que é pouco provável, serão os jovens que vão sofrer mais com as alterações climáticas, visto que vão ter de viver mais tempo num planeta inabitável. Em vez de estarem a chorar com pena do planeta e a defender regulações que limitam o capitalismo e o mercado livre, podiam ser empreendedores e descobrir novos planetas. Se a sobrevivência do capitalismo depender do fim do planeta, temos de aceitar. É preferível acabar a vida na Terra do que ter de aceitar medidas socialistas para o planeta continuar a existir. Pessoalmente, prefiro não existir do que viver no socialismo que exige à indústria petrolífera que deixe de extrair petróleo. Os dinossauros morreram para que nós os pudéssemos utilizar para fazer andar os nossos carros. Sempre que enchemos o depósito estamos a homenagear um pequeno velociraptor em decomposição. Ao deixar de queimar combustíveis fósseis só para controlar emissões de dióxido de carbono, estamos a dizer aos dinossauros que a extinção deles foi em vão. É uma falta de respeito para com os mortos. Se tivermos de nos extinguir para os honrar, qual é o problema?

Dizem que não há um planeta B. Como é que sabem? Em vez de andarem a querer gastar dinheiro num Green New Deal ou a taxar grandes fortunas, deixem o capitalismo funcionar. Se houver solução para as alterações climáticas, ela está no mercado livre. E pode muito bem haver um planeta B. A maior esperança da humanidade é o Dr. Jeff Bezos realizar o seu sonho de construir uma nave espacial e enviar-se para o espaço com um bidão do seu sémen e milhares de óvulos para inseminar, garantindo, assim, que a Humanidade não acaba. O planeta B pode ser muito melhor do que o planeta A porque vai ter o Dr. Jeff Bezos como o novo Dr. Adão. A Amazónia antiga pode desaparecer e, com ela, a vida na Terra. Seria poético se fosse a nova Amazónia, a Amazon, a garantir a sobrevivência da Humanidade através do sémen do seu CEO e fundador.