Quando os denunciantes dizem a verdade são traidores. Quando o governo mente é política

(Carey Wedler, in Theantimedia.org, 08/03,2017, Tradução de Estátua de Sal)

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Imediatamente após o Wikileaks ter libertado milhares de documentos revelando a extensão da vigilância da CIA e das práticas de hackers, o governo pediu uma investigação – não sobre a razão porque a CIA acumulou tanto poder, mas sim sobre quem expôs as suas políticas de intrusão.

“Uma investigação criminal federal está sendo aberta sobre a publicação pelo WikiLeaks de documentos que detalham supostas operações de hacking da CIA, segundo vários funcionários dos EUA”, informou a CNN.

De acordo com o Usa Today:

“O inquérito, de acordo com fonte governamental, procurará determinar se a divulgação representou uma violação do exterior ou um vazamento do interior da organização. Uma revisão separada tentará avaliar os danos causados por tal divulgação, disse o oficial. “

Mesmo o representante democrata, Ted Lieu, que tem exortado a que denunciantes surjam para denunciar irregularidades do governo Trump, afastou o foco daquilo que os documentos expuseram e deu toda a importância a questionar como tal poderia ter acontecido.

“Estou profundamente perturbado com a alegação de que a CIA perdeu o seu arsenal de ferramentas de hacking”, disse ele ao pedir uma investigação. “As consequências podem ser devastadoras. Peço uma investigação imediata no Congresso. Precisamos saber se a CIA perdeu o controle das suas ferramentas de hacking, quem pode ter essas ferramentas e como podemos agora proteger a privacidade dos americanos “.

De acordo com as declarações de Lieu, o problema não é necessariamente que a CIA esteja a espiar os americanos e  a invadir através da tecnologia a vida de pessoas inocentes sem o seu consentimento. É que a CIA tem utilizado mal as suas ferramentas de espionagem e, ao fazê-lo, colocou em risco a privacidade dos americanos colocando as ferramentas supostamente ao alcance  de “atores maus”. O problema então não é a agência ter sido corrupta ao violar os direitos básicos de privacidade dos cidadãos, mas não ter sido suficientemente competente para manter a sua corrupção em segredo.

É neste estado que se encontra a narrativa acerca dos denunciantes nos Estados Unidos. Os denunciantes dão um passo em frente para denunciar atos ilegais por parte do governo – algo que o governo alega apoiar – e, imediatamente, as instituições e os meios de comunicação afastam o debate sobre o delito denunciado, e concentram a sua atenção na libertação ilícita de segredos.

Pondo de lado o fato que, de acordo com a popular mitologia americana, violar a lei é um dever patriótico, as reações do governo e dos políticos são hipócritas como é habitual.

Quando Chelsea Manning revelou a evidência dos condenáveis crimes dos EUA na guerra do Iraque,  que levaram soldados a atacar diretamente a equipa de jornalistas da Reuters, a resposta não foi investigar quem permitiu esses crimes (de fato, um manual do Pentágono posterior descrevia casos em que seria permissível matar jornalistas; esta versão do manual só foi retirada depois de protestos de repórteres). Em vez disso, Manning foi submetido a um tribunal militar que emitiu várias sentenças de prisão perpétua, uma punição cruel e inusitada revertida somente nos últimos dias de governo do presidente Obama, no meio das suas tentativas de salvar a sua pecaminosa governação do seu record de ataque aos direitos humanos, à transparência e ao registo de denunciantes.

Quando Edward Snowden revelou a extensão da vigilância em massa, sem mandato, da NSA a cidadãos americanos e milhões de outros em todo o mundo, a resposta do governo não foi investigar em primeiro lugar a razão desses programas existirem. Em vez disso, os EUA fizeram uma perseguição mundial ao denunciante, e ordenaram que o avião do presidente boliviano, Evo Morales, fosse forçado a aterrar, na esperança de apanhar o denunciante. E o Congresso aprovou de seguida a decepcionante lei “EUA Freedom Act”, que legalizou a vigilância contínua.

Edward Snowden permanece no exílio, e os políticos do establishment apelidam-no repetidamente de traidor por ter exposto os crimes do seu governo. Alguns, incluindo o diretor da CIA de Trump, Mike Pompeo, pediram sua execução. A vigilância em massa continua, e o próprio presidente Trump está a tentar conter esses poderes, ao mesmo tempo que acusa o ex-presidente Obama por supostamente o ter espiado.

E assim por diante. O mesmo aconteceu com John Kiriakou, Thomas Drake, William Binney e Jeffrey Sterling. O governo é denunciado por transgressões  e abusos e os governantes, ao invés de tentarem provar serem representantes do povo e remediarem essas transgressões, apontam o dedo às denúncias e desviam-se do essencial, ao mesmo tempo em que se recusam a pôr em causa ao poder injusto que é revelado as agência de informações possuírem.

Muitas pessoas já estão conscientes de que o governo faz pouco por elas, e de facto não trabalha para as servir, (a confiança dos americanos nos líderes políticos  e no governo, em geral, é assustadoramente baixa). Em vez disso, agentes e agências governamentais operam para aumentar e concentrar os seus próprios interesses e poder. É por isso que as penas previstas na lei contra a morte de funcionários do governo são mais rigorosas do que contra a morte de civis. É por isso que roubar o governo é considerado mais escandaloso para o Estado do que roubar um civil. O governo considera os “crimes” cometidos contra si próprio merecedores da maior sanção, mas muitas vezes não consegue levar a justiça aos assuntos da sociedade civil, satisfazendo as pretensões das pessoas que materializam o seu suporte financeiro através dos impostos que pagam.

Desse modo, o Estado nem sequer tenta mostrar arrependimento pelas suas políticas violadoras, mesmo quando elas são expostas e espalhadas pelos meios de comunicação social para que o mundo veja. Em vez disso, com a ajuda da corporação dos media, o debate é deslocado para saber se a WikiLeaks é uma organização criminosa, ou se Edward Snowden é ou não um traidor.

Como disse o secretário de imprensa da Casa Branca, Sean Spicer, sobre os vazamentos:

“Esse é o tipo de divulgação que mina nosso país, a nossa segurança. Este alegado vazamento deve preocupar todos os americanos pelo seu impacto na segurança nacional. … Qualquer pessoa que revele informações classificadas será responsabilizada e punida de acordo com as sanções máximas previstas  na lei. “

Enquanto isso, é suposto que temos que aceitar as investigações que o governo faz sobre si próprio e sobre as suas próprias acções, que (surpresa!). Normalmente tais investigações  encontram pouco ou nenhum desvio no comportamento das agências governamentais, o que, muitas vezes, consolida e amplia os poderes e actos clandestinos postos a nu pelos denunciantes.


Fonte aqui

 

 

O direito a não existir

(Daniel Oliveira, in Expresso, 08/10/2016)

Autor

                       Daniel Oliveira

Um dia, já lá vai quase uma década, uma produtora contactou-me. Queria a minha ajuda para fazer um documentário sobre Herberto Helder, um homem que sempre fez questão de não ser aquilo a que chamamos “figura pública”.

Públicos eram os seus livros, nada mais. “Tudo pelos vícios privados, nada pelas públicas virtudes”, respondia ele a quem o atormentava com pedidos de adesão a nobres causas comunitárias. O meu pai não queria existir no meio da tribo. E esse era um direito seu. E por isso mesmo recusei o apoio, pedi para desistirem e telefonei-lhe para o avisar do “ataque”. E ele logo se pôs em campo, com a militância angustiada que punha nestes assuntos, telefonando a amigos para que não colaborassem com a coisa. O título do fraco e amputado filme era a confissão da traição e da incompreensão da intenção de quem queriam retratar: “Meu Deus, faz com que eu seja sempre um poeta obscuro.”

Escrevo pela primeira vez sobre o meu pai por causa do triste episódio que envolve a escritora que assina com o nome de Elena Ferrante. “The New York Review of Books” decidiu tornar pública a identidade da popular escritora que, dizem-nos agora, é tradutora.

O jornalista italiano Claudio Gatti foi vasculhar os pagamentos feitos pela editora à dita tradutora — mulher de um escritor que há muito estava na lista de “suspeitos” — e os sinais exteriores da sua riqueza, incluindo o seu património imobiliário. Num tempo em que nos escasseiam direitos — laborais, cívicos, económicos e sociais —, um direito cresce a cada dia que passa: o direito à verdade. E essa verdade inclui, numa sociedade que se está a transformar numa provinciana e sufocante aldeia global, meter o nariz na vida de todos. Esta investigação fez-se com base numa confusão: a de que tudo o que o público deseja é direito seu. O investigador ignorou, como bem escreveu a jornalista Deborah Orr, no “The Guardian”, o meu direito a não saber quem é Elena Ferrante. O meu direito a só conhecer o que a escritora quis revelar.

Um escritor só tem um dever para com o seu leitor: escrever. E a única verdade que interessa é a verdade interna à sua obra. É ali, naquelas páginas, que o escritor e a sua verdade se consomem. Pode, quem o queira, promover a sua própria personagem pública para fugir à solidão da criação. Mas esse não é um dever seu e muito menos é um direito nosso. Só que a arrogância coletiva acha-se devedora de explicações e julga ter a tutela da vida privada de cada um. À medida que perdemos o estatuto de cidadãos parecemos ganhar o estatuto de ditadores. Elena Ferrante, como o meu pai e todos os que façam essa opção, tem o direito a não existir. Ainda mais quando tantas pessoas se transformam em personagens virtuais sedentas de ‘gostos’. Onde a privacidade se tornou um bem de baixo valor comercial, de tal forma está disponível a todos e para todos. Não existir é, aliás, a única forma de fugir a um sistema que transforma a vida do autor no produto que vende os seus livros. Tivesse eu mais talento e não existia. Longe da multidão coscuvilheira e de tantos jornalistas que, chafurdando no moralismo da verdade, se transformaram no inverso do rei Midas: tudo aquilo em que tocam se transforma em porcaria!

Se vende é bom, mesmo que seja esgoto

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 07/10/2016)

Autor

                              Daniel Oliveira

É muito interessante ler o último artigo de José António Saraiva no “Sol”. Sonso, Saraiva defende que foi sóbrio, não insultou ninguém e apenas repetiu o que lhe contaram. Tinha o dever, escreve acompanhado por violinos, de divulgar o legado de que era depositário. Uma quadrilheira tem muito mais classe quando se atribuiu a si próprio um dever histórico. Mas não é isso que me interessa. Interessa-me outra parte do texto, quando Saraiva entra na fase megalómana que todos já lhe conhecemos. Cita quem fez um paralelo entre a coisa e os “Os Maias”. A comparação saiu no “Correio da Manhã”, suponho que no seu suplemento literário. Podemos dizer que a obra está para os “Os Maias” como aquele diário está para o “Washington Post”. Saraiva descreve o efeito das críticas que lhe foram feitas: “Claro que tudo isto provocou uma corrida às livrarias. Nalgumas formavam-se filas para comprar o livro. Noutras, onde estava esgotado, havia longas listas de reservas. Todos os dias começaram a imprimir-se novas edições.” É desta, Saraiva, que te sai o Nobel.

O contentamento de Saraiva, reconhecendo que a polémica e o choque acabaram por o favorecer, correspondeu à dúvida que eu próprio tive antes de escrever sobre o assunto: ao criticar estou a publicitar. Mas ao não criticar estou a aceitar com naturalidade o que não é natural, a banalizar o que é inaceitável. É sempre uma escolha difícil. E esta contradição, que faz do que é imoral um bom produto, e do autor da imoralidade um vencedor no mercado, é, na realidade, um problema com que os jornalistas hoje têm de lidar. Aqueles que têm o dever de informar são permanentemente confrontados com a concorrência de quem joga outro jogo: quem vive de vender escândalos, sejam verdadeiros ou falsos, seja informação recolhida legitimamente ou não. Os que vivem do esgoto têm sobre os que cumprem os seus deveres enormes vantagens. E o problema é que, ao contrário de outras atividades, todos são protegidos por um grande chapéu, que é o da liberdade de imprensa. Debaixo desse chapéu cabe muita coisa nobre e muito lixo indefensável.

Tinha acabado de ler o “artigueco” de Saraiva e decidi ver “Amanda Knox” na Netflix. Tal como fizera “Making a Murderer”, este documentário exibe a combinação explosiva de um crime mediático com uma investigação feita com os pés. É muitíssimo interessante ver o procurador do processo fazer o retrato de si mesmo, mostrando como a vaidade pode ser, na sua cegueira, tão perigosa. É esclarecedor observar como uma opinião pública cheia de certezas e os sentimentos patrióticos de britânicos (nacionalidade da vítima), norte-americanos (nacionalidade da principal acusada) e italianos (onde o crime aconteceu) criam um ambiente onde a verdade já interessa muito pouco. Tivemos contacto com isso no caso Maddie.

Mas as passagens mais interessantes, e que vêm a propósito do livro de José António Saraiva, são aquelas em que participa Nick Pisa. Pisa era então jornalista do “Daily Mail”, um dos principais tabloides britânicos. E fala de forma desabrida de como construía as notícias de forma a serem apelativas. Como pintava as personagens. Como pormenores mais ou menos inócuos da vida de Amanda eram transformados em comportamentos suspeitos. Como não hesitou em publicar passagens do seu diário, que lhe foi roubado na prisão. Como o preconceito e o conservadorismo serviam para a incriminar, retratando uma perversa devoradora de homens e inventando as coisas mais delirantes. E como tudo isto encaminhou a opinião pública e, com ela, a Justiça para uma condenação que só ao fim de muitos anos foi revertida pelo Supremo.

A parte mais interessante é como Nick Pisa se gaba de tudo isto. Como o seu principal critério, como jornalista, é ter uma boa primeira página. Como fala de Amanda como se fosse uma personagem de ficção. Como se comporta como o sociopata, incapaz de sentir remorso pelo seu comportamento e de compreender o sofrimento que causou. Pelo contrário, ele acredita que inventar e torcer histórias, construir personagens que alimentem os instintos mais primários dos leitores, é o elemento central do seu trabalho. Ele acredita que aquela rapariga, acusada de homicídio e com a sua vida destruída, é apenas um produto que ele vende. E encontra, na “ética” retorcida que arranjou para a sua própria profissão, uma enorme alegria de viver.

Chegado ao fim do documentário, o jornalista conclui, só com um aparente sentido autocrítico: “Sei que dizem sempre: ‘o julgamento mediático, o julgamento mediático…’. Talvez porque sou jornalista, eu não compro essa. Mas acho que agora, olhando para trás, algumas das informações divulgadas eram loucas e, na verdade, totalmente inventadas. Mas o que podemos fazer, não é? Somos jornalistas e relatamos aquilo que nos dizem. Não é como se pudesse dizer. ‘Certo, espere um minuto, só quero reconfirmar isso eu mesmo de uma outra forma’, sabe Deus como. E deixo o meu rival chegar lá antes de mim e perdi um furo jornalístico. Não funciona assim. Não no jogo das notícias.”

Poucas vezes vi tão bem explicada a cultura tabloide como neste documentário.

A “deontologia” do jornalismo tabloide segue a mesma lógica da literatura de cordel ou do capitalismo em geral: a função de cada um na vida é produzir coisas que se vendam. Se o conseguem fazer são competentes. Só que os jornalistas de tabloides vendem um produto muito especial: a vida das pessoas. São, em sociedades em paz, o que de mais parecido há com mercenários na guerra ou assassinos a soldo.

São, e é altura para começarem a ser tratados como tal, criminosos. O facto de José António Saraiva celebrar o choque que causou o seu livro por ter levado a uma “corrida às livrarias” e “novas edições” demonstra como a principal arma concorrencial desta gente é a sua própria amoralidade. Usarem a liberdade de imprensa e de expressão para se protegerem é como um saqueador defender-se com a liberdade de manifestação ou um mafioso agir ao abrigo da liberdade de associação.