Se vende é bom, mesmo que seja esgoto

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 07/10/2016)

Autor

                              Daniel Oliveira

É muito interessante ler o último artigo de José António Saraiva no “Sol”. Sonso, Saraiva defende que foi sóbrio, não insultou ninguém e apenas repetiu o que lhe contaram. Tinha o dever, escreve acompanhado por violinos, de divulgar o legado de que era depositário. Uma quadrilheira tem muito mais classe quando se atribuiu a si próprio um dever histórico. Mas não é isso que me interessa. Interessa-me outra parte do texto, quando Saraiva entra na fase megalómana que todos já lhe conhecemos. Cita quem fez um paralelo entre a coisa e os “Os Maias”. A comparação saiu no “Correio da Manhã”, suponho que no seu suplemento literário. Podemos dizer que a obra está para os “Os Maias” como aquele diário está para o “Washington Post”. Saraiva descreve o efeito das críticas que lhe foram feitas: “Claro que tudo isto provocou uma corrida às livrarias. Nalgumas formavam-se filas para comprar o livro. Noutras, onde estava esgotado, havia longas listas de reservas. Todos os dias começaram a imprimir-se novas edições.” É desta, Saraiva, que te sai o Nobel.

O contentamento de Saraiva, reconhecendo que a polémica e o choque acabaram por o favorecer, correspondeu à dúvida que eu próprio tive antes de escrever sobre o assunto: ao criticar estou a publicitar. Mas ao não criticar estou a aceitar com naturalidade o que não é natural, a banalizar o que é inaceitável. É sempre uma escolha difícil. E esta contradição, que faz do que é imoral um bom produto, e do autor da imoralidade um vencedor no mercado, é, na realidade, um problema com que os jornalistas hoje têm de lidar. Aqueles que têm o dever de informar são permanentemente confrontados com a concorrência de quem joga outro jogo: quem vive de vender escândalos, sejam verdadeiros ou falsos, seja informação recolhida legitimamente ou não. Os que vivem do esgoto têm sobre os que cumprem os seus deveres enormes vantagens. E o problema é que, ao contrário de outras atividades, todos são protegidos por um grande chapéu, que é o da liberdade de imprensa. Debaixo desse chapéu cabe muita coisa nobre e muito lixo indefensável.

Tinha acabado de ler o “artigueco” de Saraiva e decidi ver “Amanda Knox” na Netflix. Tal como fizera “Making a Murderer”, este documentário exibe a combinação explosiva de um crime mediático com uma investigação feita com os pés. É muitíssimo interessante ver o procurador do processo fazer o retrato de si mesmo, mostrando como a vaidade pode ser, na sua cegueira, tão perigosa. É esclarecedor observar como uma opinião pública cheia de certezas e os sentimentos patrióticos de britânicos (nacionalidade da vítima), norte-americanos (nacionalidade da principal acusada) e italianos (onde o crime aconteceu) criam um ambiente onde a verdade já interessa muito pouco. Tivemos contacto com isso no caso Maddie.

Mas as passagens mais interessantes, e que vêm a propósito do livro de José António Saraiva, são aquelas em que participa Nick Pisa. Pisa era então jornalista do “Daily Mail”, um dos principais tabloides britânicos. E fala de forma desabrida de como construía as notícias de forma a serem apelativas. Como pintava as personagens. Como pormenores mais ou menos inócuos da vida de Amanda eram transformados em comportamentos suspeitos. Como não hesitou em publicar passagens do seu diário, que lhe foi roubado na prisão. Como o preconceito e o conservadorismo serviam para a incriminar, retratando uma perversa devoradora de homens e inventando as coisas mais delirantes. E como tudo isto encaminhou a opinião pública e, com ela, a Justiça para uma condenação que só ao fim de muitos anos foi revertida pelo Supremo.

A parte mais interessante é como Nick Pisa se gaba de tudo isto. Como o seu principal critério, como jornalista, é ter uma boa primeira página. Como fala de Amanda como se fosse uma personagem de ficção. Como se comporta como o sociopata, incapaz de sentir remorso pelo seu comportamento e de compreender o sofrimento que causou. Pelo contrário, ele acredita que inventar e torcer histórias, construir personagens que alimentem os instintos mais primários dos leitores, é o elemento central do seu trabalho. Ele acredita que aquela rapariga, acusada de homicídio e com a sua vida destruída, é apenas um produto que ele vende. E encontra, na “ética” retorcida que arranjou para a sua própria profissão, uma enorme alegria de viver.

Chegado ao fim do documentário, o jornalista conclui, só com um aparente sentido autocrítico: “Sei que dizem sempre: ‘o julgamento mediático, o julgamento mediático…’. Talvez porque sou jornalista, eu não compro essa. Mas acho que agora, olhando para trás, algumas das informações divulgadas eram loucas e, na verdade, totalmente inventadas. Mas o que podemos fazer, não é? Somos jornalistas e relatamos aquilo que nos dizem. Não é como se pudesse dizer. ‘Certo, espere um minuto, só quero reconfirmar isso eu mesmo de uma outra forma’, sabe Deus como. E deixo o meu rival chegar lá antes de mim e perdi um furo jornalístico. Não funciona assim. Não no jogo das notícias.”

Poucas vezes vi tão bem explicada a cultura tabloide como neste documentário.

A “deontologia” do jornalismo tabloide segue a mesma lógica da literatura de cordel ou do capitalismo em geral: a função de cada um na vida é produzir coisas que se vendam. Se o conseguem fazer são competentes. Só que os jornalistas de tabloides vendem um produto muito especial: a vida das pessoas. São, em sociedades em paz, o que de mais parecido há com mercenários na guerra ou assassinos a soldo.

São, e é altura para começarem a ser tratados como tal, criminosos. O facto de José António Saraiva celebrar o choque que causou o seu livro por ter levado a uma “corrida às livrarias” e “novas edições” demonstra como a principal arma concorrencial desta gente é a sua própria amoralidade. Usarem a liberdade de imprensa e de expressão para se protegerem é como um saqueador defender-se com a liberdade de manifestação ou um mafioso agir ao abrigo da liberdade de associação.

Um pensamento sobre “Se vende é bom, mesmo que seja esgoto

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