O Serviço Militar ao Serviço de Quem?

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 30/03/2024)


Em contracorrente aos discursos da verdade única que os aparelhos de propaganda e manipulação nos transmitem, o professor Viriato Soromenho Marques publicou há dias no DN mais um texto de análise da realidade que vivemos e da que nos está a ser preparada (Ver aqui).

Talvez esta análise crua tenha a mesma eficácia de uma pregação a um rebanho de cordeiros sobre os perigos que os aguardam com as celebrações judaicas da Páscoa, quando os pastores lhes estão a fornecer ervas tenras para a engorda, antes de os sacrificarem, mas vale a pena acompanhar o autor, para que os magarefes não se sintam pregadores evangélicos, incontestados vendedores de asas de subir aos céus. O texto tem por título “A Ocidente, uma desolada paisagem”. Começa por pedir que esqueçamos que há uma guerra europeia centrada na Ucrânia que se pode tornar mundial e que enfrentemos a dolorosa pergunta prévia: O que é o Ocidente e quais são os seus valores atuais? Isto é, digo eu: o que nos prometem a troco da vida dos jovens europeus e das ruínas das nossas casas? Começa o professor Soromenho Marques por relembrar que, de acordo com orientações estratégicas há muito públicas e publicadas e seguindo vozes autorizadas da Casa Branca e do Congresso, existe um saldo positivo de mais esta guerra para a oligarquia que governa os Estados Unidos, e que o que está em causa não é, nem nunca foi, a vitória da Ucrânia, muito menos a de uma Ucrânia livre e com um regime representativo do seu povo, mas sim usar aquele povo como aríete para enfraquecer a Rússia.

Viriato Soromenho Marques deixa claro a quem souber ler que a guerra na Ucrânia é um negócio e está a ser tratada pelos seus administradores como um negócio, com deve e haver, lucros e prejuízos. Os Estados Unidos fazem contas e concluem que a guerra é lucrativa para as suas elites financeiras e industriais e que, com os contratos já impostos à Europa para ela se “defender” de uma invasão russa, os lucros se prolongarão para lá do fim da guerra. Quanto à Rússia: Trinta anos (desde o fim da URSS) de estratégia de encostar a NATO às fronteiras da Rússia, sobretudo na Ucrânia, mas antes dela na Polónia e nos países bálticos, levaram, como estava previsto que levassem, o urso a acordar. Os EUA estavam preparados para lucrarem com o seu despertar.

As sanções, o ataque à exportação de petróleo e gás natural russo, o impedimento de mais oleodutos (sabotagem do Nordstream II), a fuga de cérebros, o fomento da instabilidade no Cáucaso, tudo isso estava prescrito num vasto documento que mais parece uma declaração de guerra: (Extending Rússia. Competing from Advantageous Ground, James Dobbins et al., Santa Monica, CA, Rand Corporation). Nesse saldo positivo dos EUA, além da rotura dos laços entre Berlim e Moscovo, entra também o alargamento da NATO e a convicção de que a Europa vai aumentar duradouramente as compras em armamento norte-americano (quer ganhe Biden ou Trump), assegurando um grande negócio, nutrido com centenas de milhares de mortos e estropiados na Ucrânia, que se podem alargar a outras áreas e geografias na Europa e na Eurásia

“E que pensar da UE, a outra metade do Ocidente?” (Pergunta Viriato Soromenho Marques e esclarece: “Nunca a Europa sofreu, em tempo de guerra, com líderes tão perigosamente impreparados para governar. Em setembro de 2022, o triunfalismo, a presidente da CE (Ursula Von Der Leyen) troçava dos russos, dizendo que a eficácia das sanções obrigava Moscovo a usar os chips dos eletrodomésticos para fins militares. Hoje, um pânico antigo (“Vêm aí os russos”) percorre as capitais europeias. Basta ouvir o “valente” Macron, ou ler o apavorado Charles Michel.” Num artigo do El País de 29 de Março de 2024, Donald Tusk, um neoliberal que é primeiro ministro da Polónia, afirmava: “Estamos en una época de preguerra. No exageroRespondia assim ao primeiro-ministro espanhol, que na última cimeira europeia pediu que se baixasse o tom belicista.

Nesta linha dos apelos à guerra estamos a ser bombardeados com uma campanha de manipulação para reintroduzir o serviço militar obrigatório. Portugal cumpre o papel que lhe foi distribuído. Não é um acaso, nem uma inocente coincidência que no mesmo dia surjam notícias da defesa desta reintrodução através de declarações do chefe do estado-maior general das Forças Armadas, do chefe do estado-maior do Exército e até, pasme-se, do chefe de estado-maior da Armada, de uma Armada que, mesmo durante a guerra colonial, manteve a maioria dos seus efetivos profissionalizados! Da campanha escapou até ver o chefe do estado-maior da Força Aérea. Não haverá para já pilotos ou controladores de tráfego aéreo, meteorologistas ou mecânicos de aeronaves de recrutamento obrigatório! Do novel ministro da Defesa, o lusito Nuno Melo, espera-se sem surpresas que desembainhe a espada de pau e vá a Washington comprar o que der mais comissões e proporcione aos intermediários, com Paulo Portas como chave-mestra, o orgulho de Portugal possuir os melhores artefactos bélicos e de participar na primeira linha da defesa dos valores do Ocidente. Os discursos estão disponíveis no ChatGPT. Basta tocar na tecla Enter.

Convém pensar na falácia do serviço militar obrigatório: as guerras atuais assentam na operação e gestão de sistemas de armas e de comando e controlo altamente sofisticados, que exigem operadores com elevado nível de preparação, o que apenas é possível com uma exigente formação técnico científica e longo período de treino, o que implica a profissionalização dos militares. Mesmo em teatros de operações de baixa e média intensidade como os do República Centro Africana ou do Mali, os europeus só empregam tropas profissionais. A proposta de serviço militar obrigatório para um conflito de alta intensidade na Europa apenas pode ser racionalmente justificado com a previsão de uma próxima crise social resultante da evolução tecnológica, que criará uma multidão de jovens sem emprego, sem utilidade económica, potenciais elementos perturbadores. Alguém definiu o soldado como um “desempregado armado”. O serviço militar obrigatório servirá, assim, para aliviar tensões sociais e políticas. Mais, o serviço militar obrigatório em ambiente de grande letalidade recupera o conceito maltusiano da utilidade de eliminação de excedentes de população. O modelo social europeu está a atingir o máximo de população que pode suportar. Não há garantia que os jovens e adolescentes nascidos no início do século XXI tenham possibilidade de receber os benefícios sociais instituídos na Europa no pós-Segunda Guerra, há que eliminar uma boa parte desta multidão de futuros beneficiários, de subsídiodependentes: uma guerra de alta tecnologia com militares de serviço militar obrigatório como alvos moles é uma solução que os partidos populistas escondem atrás de uma retórica demagógica de quem não trabalha não come e do vai para a tua terra.

Por fim, a discussão das vantagens do serviço militar obrigatório serve objetivos de propaganda e ação psicológica: prepara as opiniões públicas para a situação de guerra, que será mais fácil e naturalmente aceite quando ela for desencadeada, surgirá nos meios de propaganda e na voz dos seus agentes como uma “escola de virtudes” e de nacional-patrioterismo pelas forças políticas de direita, como um instrumento de integração social e étnica, como uma alternativa às políticas restritivas de imigração. A promoção do serviço militar obrigatório, a conscrição napoleónica, serve os poderes instalados e é uma ameaça aos cidadãos em geral. É uma falsa e perigosa solução. Serve para a criação do tal “estado de pré-guerra” de que falou Donald Tusk, um discurso e um ambiente emocional muito parecidos, aliás, com os que antecederam a Primeira Grande Guerra.

Ao contrário da maioria dos comentadores e comentadoras selecionados para o espaço público julgo imprescindível conhecer a origem das fogueiras de hoje, à semelhança da necessidade de conhecer os 10 Mandamentos bíblicos para perceber a origem do conceito de Deus Único, ter lido o sermão da montanha para entender o cristianismo e as cartas de São Paulo para chegar aos fundamentos da Inquisição: Alguém consegue imaginar que valores arengarão os políticos europeus e os generais europeus aos contingentes de jovens soldados do serviço militar obrigatório formados e alinhados antes de embarcarem como carne para canhão para mais uma campanha? Os da libertação dos lugares santos, como nas cruzadas? Os da cristianização e da europeização como na expansão europeia que deu origem à ocupação de meio mundo e destruição das suas culturas e povos, que deu origem ao colonialismo? Os valores que na Europa originaram as chacinas ideológicas das guerras santas, da inquisição, da supremacia rácica? Que valores a defender até com sacrifício da própria vida constarão do código pelo qual os jovens europeus serão alistados?

Estamos na Páscoa dos cristãos, que no Ocidente celebra a ressurreição do único ser humano que terá ocorrido em dois mil anos! Mas não haverá ressurreição para os que morrerem na guerra que está a ser preparada, como não houve para os milhões que morreram nas anteriores.

Não são apenas o Ventura, ou a senhora Le Pen que fazem promessas mortais… Os europeus devem perguntar aos candidatos a eurodeputados o que pensam da nova guerra e da proposta de reintrodução do serviço militar obrigatório que está a ser tão insidiosamente lançado como um novo desodorizante.


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Entre a Argentina e Portugal haverá algum paralelelismo?

(Júlio Marques Mota, 27/03/2024)

Entre a Argentina e Portugal haverá algum paralelelismo?  Penso que sim, a partir dos resultados eleitorais de 10 de março.

Retomo a série Democracias Minadas e com mais um artigo de Claudio Katz sobre a Argentina, este datado de fevereiro de 2024. Talvez seja uma obsessão minha, mas as analogias de Portugal com a Argentina parecem-me cada vez mais evidentes.

O degradante espetáculo de ontem na Assembleia da República será  um bom exemplo das forças contraditórias que estão subjacentes aos diferentes discursos e às ambições dos diversos partidos e de algumas das pessoas singularmente consideradas, como Francisco Assis, Medina e Eurico Brilhante Dias. O que se mostrou ontem é que o poder, com a viragem à direita feita com estas eleições, assenta numa coligação fraca, em poder e em capacidade política de ação no complicado contexto em que a AD se encontra. Um dia marcado pela agenda politica estipulada por um maestro na política, André Ventura. Os homens da AD pareciam galinhas a sentirem que a raposa está a chegar ao galinheiro. Mas para além da raposa, havia outros animais da floresta a assustar os homens da AD, representados pelas três figuras do PS citadas.

Lembram-se do movimento antigeringonça e de um almoço possível na Mealhada entre os militantes do PS que se opunham a essa geringonça, uma geringonça que teve como principal negociador Pedro Nuno Santos? Esses homens também estão no PS no assalto ao poder no interior do PS e a lógica que os move não será bem a lógica em que assenta a dinâmica criada por Pedro Nuno Santos. Nada disso, a sua lógica é outra. Enquanto a lógica de Pedro Nuno Santos será uma lógica no sentido de servir o bem público, mesmo que possa parecer uma lógica de poder individual, a lógica dos outros dois e até a de Santos Silva, é inversa, é uma lógica de poder individual, mesmo que pareça uma lógica de sentido de servir o bem público. Resistirá   Pedro Nuno Santos às pressões internas dos que se opõem à sua visão verdadeiramente progressista  ou cairá ele no marasmo político que se desenha? Penso na segunda hipótese e, lamentavelmente, esta está em linha com o paralelo do que aconteceu na Argentina

E face aos rapazes da AD o grande vencedor do dia e da noite de ontem é, para já, André Ventura – se houvesse acordo com a AD seria uma grande vitória sua, amarrando a AD à sua agenda política; se não houver acordo com o Chega, terá de haver acordo com o PS e temos André Ventura radiante a afirmar que PS e AD são todos a mesma coisa e que, portanto, a grande oposição ao sistema político no poder em Portugal seria ele, André Ventura.

Encostada a AD ao PS, numa espécie de Bloco Central camuflado, poderia ser assim a forma de funcionamento da atual legislatura, com as forças internas no PS a levarem este PARTIDO a deslizar alguma coisa mais para a direita, mais do que aquilo que lamentavelmente já  deslizou com on governo de Antóbio Costa. 

Porém, dada a difícil situação económica e social que se vive em Portugal, alargar-se-iam as contradições no interior desse Bloco Central disfarçado, no interior da AD e no interior do PS assim como entre a AD e o PS. Reduzir-se-ia ainda mais a sua eficácia governativa no sentido de dar resposta às necessidades da maioria da sua população, os esquecidos da democracia. A situação económica, política e social continuaria a degradar-se.

Voltaria a lógica austeritária, com bons ideólogos a defendê-la pela parte do PS, como aconteceu com Miterrand em 1983, pela parte da AD não vejo ninguém com nível e com coragem para a justificar e convencer a população da necessidade da austeridade como resposta à crise que se iria assim instalar. Neste retorno da austeridade contar-se-ia com o apoio das grandes Instituições como UE, BCE, FMI, Banco Mundial, Davos. Não foi Xavier Milei aplaudido pela Finança Internacional em Davos?  , 

Nesta sequência, o  Chega alargaria ainda mais a sua base de apoio com o enfraquecimento da AD, a base eleitoral do PS reduzir-se-ia ainda mais com as gentes de esquerda do PS, que as há e muitas, à  procura de outros poisos mais em linha com as suas aspirações situados à esquerda do PS. 

Nestas movimentações, a AD e o CDS desapareceriam, a ala direita  PSD seria absorvida pelo Chega  enquanto a base de apoio conjunta de PS+AD reduzir-se-ia imensamente, e a esperança representada por Pedro Nuno Santos seria colocada no baú das coisas inúteis a guardar na história como o exemplo do que não se deve fazer e o mesmo aconteceria com Luís Montenegro .

O PS ao deslizar à direita e o PSD ao perder a sua ala direita ficariam cada vez mais iguais entre si e homens tipo Santos Silva, Brilhante Dias, Francisco Assis e algumas das figuras mais apresentáveis do PSD assumiriam depois os comandos do  Novo Bloco Político.  E André Ventura retomaria um dos slogans fundamentais em Javier Milei – eles são a casta, é contra ela que nós combatemos. E as equivalências com o que se passou na Argentina seriam imediatamente visíveis.

Este é um cenário possível, mas só será possível se a esquerda continuar a não querer perceber como é que dramaticamente se chegou até aqui. Perceber isso é, no entanto, apenas meio caminho andado para barrar o caminho aos Ventura deste mundo e do outro.

É preciso igualmente desencadear políticas que expliquem às pessoas e as convençam de que os caminhos a seguir não são os que lhes têm sido impostos, mas sim os caminhos que passam obrigatoriamente por MAIS e MELHOR ESTADO ASSIM COMO POR MAIS EMPENHO COLETIVO NA CONDUÇÃO DOS NOSSOS PRÓPRIOS DESTINOS. E aqui a responsabilidade maior será necessariamente das gentes do PS. Estarão os seus dirigentes – e em debates francamente abertos -, verdadeiramente disponíveis para em conjunto se desbloquearem as portas do futuro de Portugal?

Só assim se pode garantir que os Javier Milei deste mundo e do outro não se atravessarão no nosso caminho. Quanto aos  caminhos de Milei e das suas múltiplas contradições, aqui vos deixo, abaixo, mais um texto de Claudio Katz, o qual também irei publicar em breve no blog A Viagem dos Argonautas, no ambito da série Democracias Minadas.


Milei quer mudar o equilíbrio de forças subjugando os movimentos sociais

Entrevista a Claudio Katz – in Rébellion, 05-02-2024

Publicamos esta entrevista de Claudio Katz, economista, investigador e professor da Universidade de Buenos Aires, sobre a política do novo presidente argentino, Javier Milei, concedida a Rébellion em 5 de fevereiro de 2024. “Milei pretende introduzir na Argentina uma reforma laboral que precarizará o emprego e consolidará um modelo neoliberal, como no Chile, no Peru e na Colômbia”.

Rebellion: Em novembro e dezembro, escreveu que o projeto de Milei dependia da resistência popular. Como avalia a greve e a mobilização da CGT?

Claudio Katz: O impacto foi extraordinário, tanto pelo seu fortíssimo carácter como pelas suas repercussões políticas. A praça (em frente ao Parlamento) e os arredores encheram-se de uma multidão espontânea que complementou a presença sindical. Tratou-se de um protesto marcante 45 dias após o início do governo, em pleno período de férias e com tempo quente. A marcha foi organizada em conjunto com as assembleias regionais e contou com uma grande participação dos sectores da juventude, da comunidade e da cultura. Mais uma vez, quando o movimento operário organizado intervém, o seu poder é avassalador. Ele foi o protagonista das principais lutas populares.

Rebellion: A mobilização teve também um grande impacto internacional…

Claudio Katz: Sem dúvida que sim. Houve atos de solidariedade em frente às embaixadas de muitos países europeus e nas principais capitais da América Latina. Isto mostrou que está a tomar forma uma consciência global emergente contra a extrema-direita. Começamos a aperceber-nos de que, se Milei ganhar, Kast, Bolsonaro, Uribe ou Corina Machado na nossa região, e Trump, Le Pen ou Abascal no norte, ficarão mais fortes.

Se, por outro lado, conseguirmos parar Milei, a vaga mundial de reacionários sofrerá a sua primeira derrota nas ruas perante a resistência organizada. Enquanto o anarco-capitalismo procura o apoio internacional do FMI, dos banqueiros e dos grandes capitalistas, a luta dos trabalhadores argentinos está a gerar solidariedade a partir das pessoas de menores rendimentos em muitos cantos do planeta. Esta linha de fratura é muito promissora.

Rebellion: É possível ver o ativismo internacional de Milei no seu discurso em Davos?

Claudio Katz: Sim. Aí, repetiu os seus conhecidos elogios ao capitalismo, mas com a premissa absurda de que este sistema está a atravessar o seu momento de maior prosperidade. Esse diagnóstico inusitado foi feito no mesmo dia em que um relatório sobre desigualdade ilustrou o que aconteceu nos últimos quatro anos. Nesse período, a riqueza dos cinco homens mais ricos do planeta duplicou, à custa do empobrecimento de inúmeros outros.

Na sua apologia libertária, Milei rejeitou todas as formas de regulação estatal e negou a existência de falhas de mercado. Vive num mundo de fantasia, sem saber que o capitalismo não poderia funcionar um minuto sem o apoio do Estado. Também relançou a apresentação infantil do empresário como um benfeitor social, ignorando a exploração, a precariedade, o desemprego e o parasitismo dos financeiros.

A estas idealizações míticas da escola neoliberal austríaca, acrescentou dois complementos mais convencionais. Por um lado, a crítica reacionária ao feminismo e, em particular, ao aborto, para o exercício efetivo do princípio da liberdade individual que ele tanto valoriza. Por outro lado, voltou a negar as alterações climáticas, no meio das catástrofes provocadas pelas secas, inundações e degelos a que assistimos todos os dias. Ele não está a ignorar estas provas por ignorância, mas devido ao seu apoio egoísta às companhias petrolíferas. Alinhou-se com o negócio da poluição para privatizar a YPF (a empresa pública de petróleo da Argentina), favorecer o grupo Techint e entregar as jazidas de Vaca Muerta (um projeto para explorar gás de xisto).

Rebellion: Mas também lançou um exótico aviso contra a contaminação socialista das grandes instituições ocidentais…

Claudio Katz: Sim, parecia um lunático no discurso em que censurava os banqueiros por deixarem entrar a influência socialista nas suas reuniões. É absurdo supor que na Meca mundial do neoliberalismo e da livre iniciativa exista uma corrente de pensamento anti-capitalista. Mas, como de costume, Milei tem feito estas explosões porque está a ser contrariado. Neste caso, o seu descontentamento deve-se ao declínio da globalização e à consequente desvalorização do Fórum de Davos.

As figuras de relevo no passado já não participam nesta reunião. Esta deserção está em sintonia com o reforço da viragem para a intervenção reguladora do Estado nas economias centrais. As tarifas e as despesas públicas voltam a ser instrumentos na política económica, agora acompanhadas de subsídios às cadeias de abastecimento e de leis que favorecem a produção local de alta tecnologia. Milei está aborrecido com esta viragem neo-keynesiana em relação à sua ortodoxia globalista. É um neoliberal à moda antiga, ainda comprometido com o globalismo dos anos 90.

Rebellion: Mas ainda leal ao guião americano…

 Claudio Katz: Claro que sim. É essa a sua prioridade. Foi a Davos para apoiar a campanha de agressão dos Estados Unidos contra a China. A nova potência asiática já atingiu níveis de produtividade superiores aos do seu rival ocidental em inúmeros segmentos da atividade industrial. É por isso que participa neste fórum com propostas de comércio livre, com o objetivo de promover os seus negócios em detrimento dos Estados Unidos. Na sua exótica denúncia do socialismo, Milei apoiou o lóbi anti chinês do dirigente americano.

Está de tal modo ao serviço de Washington que não se importa que esta campanha afete o enorme comércio da Argentina com a China. Já retirou o país dos BRICS, está a fazer gestos de gratidão a Taiwan e está a pôr em risco o principal mercado de exportação do país. Nesta aventura, está a ultrapassar Bolsonaro, que tentou a mesma política de choque com Pequim.

Milei, por outro lado, ainda está à espera de uma recompensa financeira de Wall Street por tanta submissão ao Departamento de Estado. Não tem em conta que a China já fez várias advertências à Argentina. Exige o reembolso dos empréstimos swap e anunciou que poderá substituir a compra de soja e de carne por fornecedores do Brasil, da Austrália ou do Uruguai. Tal como aconteceu com o Conicet, a Arsat, as universidades públicas e a YPF (empresa pública de petróleo argentina), Milei pode destruir num só mês uma relação comercial com a China construída ao longo de várias décadas.

Rebellion: Será que se trata de uma mera cedência aos Estados Unidos ou de uma nova estratégia global para a extrema-direita?

Claudio Katz: São as duas coisas. Milei tem uma grande afinidade com Netanyahu, porque são as duas figuras centrais da nova viragem internacional da extrema-direita. Com as suas práticas atrozes, favorecem a passagem da retórica à ação.

O massacre em Gaza ordenado por Netanyahu e a destruição da economia argentina promovida por Milei diferem da gestão convencional de Bolsonaro ou do primeiro Trump e estão na linha de Orban e Meloni. As duas figuras reacionárias do momento apoiam ações draconianas para reorganizar a geopolítica, seguindo a contraofensiva imperial lançada pelos Estados Unidos para recuperar posições no mundo.

No Médio Oriente, trata-se de incendiar a relação da China com a Arábia Saudita e os consequentes progressos na desdolarização da economia mundial. Na América Latina, significa retomar a restauração conservadora com maior virulência para abafar a frágil emergência de um novo ciclo progressista. Milei faz parte da estratégia de Trump para um novo mandato a partir da Casa Branca.

Rebellion: Esta linha de ação aproxima Milei do fascismo?

Claudio Katz: Não é a palavra certa para descrever o seu projeto. Milei pretende introduzir uma reforma laboral na Argentina para precarizar o emprego e consolidar um modelo neoliberal semelhante ao desenvolvido no Chile, Peru e Colômbia. Para atingir este objetivo, precisa de alterar a relação de forças, vergando os sindicatos, os movimentos sociais e as organizações democráticas. Trata-se de um objetivo thatcheriano, baseado no desmantelamento das poderosas organizações populares do país. Procura resolver um conflito social emblemático a favor das classes dominantes, como aconteceu com a greve dos mineiros ingleses em 1984.

Milei está rodeado de grupos fascistas, mas o seu projeto não é fascista. Não tem a intenção imediata de forjar um regime tirânico, com o recurso ao terror contra as organizações populares. Este modelo reacionário surge geralmente em tempos de perigo revolucionário. De momento, o libertário procura subjugar os trabalhadores com o apoio da classe dominante e dos meios de comunicação social.

Os poderosos perdoam-lhe tudo para que ele possa concretizar o seu ajustamento Não dizem nada sobre os erros de um dirigente que gasta dinheiro público a renovar a sua casa para acolher os seus cães, que perde o seu tempo em debates delirantes nas redes sociais com contas falsas ou que processa o condutor que atropelou um cão.

Os proprietários da Argentina olham para o outro lado, à espera que o seu plano de guerra contra o povo funcione. Comercialmente, há muito em jogo em detrimento da maioria da população. A demolição das pensões e a venda do Fundo de Garantia, por exemplo, reabrem a possibilidade de reintroduzir a vigarice dos AFJP (o fundo de pensões do Estado). O restabelecimento do imposto sobre o rendimento para os mais ricos financia o branqueamento de capitais e o novo perdão para os grandes evasores fiscais.

Rebellion: Mas será que não gera oposição com a sua gestão errática e imprevisível?

Claudio Katz: Sim, é verdade. Todos os dias intervém com uma certa improvisação, reagindo caoticamente às contrariedades que encontra. Ficou muito afetado pelo êxito da greve e, com a sua fúria habitual, demitiu funcionários públicos e ministros. O seu grande projeto é a remodelação regressiva do país, através do Decreto de Necessidade e Emergência e da Lei Omnibus (uma lei que teve a sua primeira aprovação, com artigos como a privatização de bens do Estado e a restrição dos direitos dos manifestantes). Trata-se de duas iniciativas inconstitucionais que visam levar a cabo uma gigantesca pilhagem.

Mas ele encontra a mesma limitação que obrigou Bolsonaro em 2019 a negociar as suas medidas com muitos legisladores ou governadores, concedendo benefícios em troca de votos. Nessas negociações, metade de seu projeto já foi podado, e ele conseguiria aprová-lo em geral, mas cortando completamente iniciativas específicas. Ele conta com o apoio do PRO (Partido Republicano), da UCR (Partido Social Democrata) e da Coligação Federal para conseguir realizar o ataque aos direitos populares, mas esse apoio não se estende à gestão dos negócios. Há uma diferença entre o objetivo comum de destruir os sindicatos e os movimentos sociais e a questão de saber quem beneficia com as privatizações e a desregulamentação.

As empresas que disputam esta fatia do bolo têm porta-vozes diferentes no Congresso. É por isso que a direita convencional está a tentar limitar os poderes delegados ao Executivo. Dá carta-branca para reprimir os protestos sociais, mas procura apropriar-se de uma parte da reforma fiscal em curso. O libertário não conseguiu fazer passar estes conflitos no Parlamento e a sua autoridade política foi enfraquecida por uma série interminável de negociações com a direita conciliadora. Se conseguir chegar a um acordo na Câmara dos Deputados, terá ainda de passar pelo Senado, enquanto os tribunais já estão a emitir decisões que limitam a sua ação.

Rebellion: O que é que Milei vai fazer se estes obstáculos persistirem?

Claudio Katz: Tudo indica que está a planear uma aventura referendária. Pode ser agora ou um pouco mais tarde. Está a pensar em convocar um referendo com o pretexto de que o Congresso não o deixa governar. Assim, retomaria a campanha contra a “casta” em que baseou o seu sucesso eleitoral. Para ele, este recurso é o pontapé de saída para o regime político autoritário que pretende construir. A reforma eleitoral – já rejeitada pelo Congresso – apoiou este modelo ao definir a atividade eleitoral e ao privatizar a política, fragmentando o mapa eleitoral em numerosos círculos eleitorais.

O principal problema do Milei é a falta de uma base política própria. É aí que reside a grande diferença entre Milei, Bolsonaro, Trump ou Kast. Milei não tem esse apoio e até agora não foi capaz de o criar. Não conseguiu criar um movimento reacionário anti greve, nem repetir as marchas de direita da era Macri ou as manifestações regressivas da pandemia contra o progressismo.

Está também a considerar a opção repressiva que Bullrich menciona todos os dias, com multas multimilionárias aos sindicatos, restrições ao direito de reunião e provocações contra manifestantes. A presença da polícia nas ruas intensifica-se e Milei procura um pretexto para autorizar a intervenção das forças armadas na segurança interna. Nesta ótica, purgou o alto comando e colocou à sua frente um homem com ligações estreitas ao Pentágono. Mas, mesmo neste domínio, não obteve resultados.

 O grande teste é o protocolo contra as barragens policiais para impedir manifestações, que tem sido ultrapassado vezes sem conta até à data. O fiasco da polícia que prendeu aleatoriamente manifestantes em frente ao Congresso confirma este fracasso. Penso que, neste domínio, a disputa com o protesto popular ativo e corajoso vai continuar.

Rebellion: A situação económica não será igualmente decisiva?

Claudio Katz: Sem dúvida. Milei procura baixar os salários e empobrecer a maioria da população, a fim de estabilizar a moeda reduzindo a inflação através de uma recessão induzida. Cortando as despesas públicas, contraindo o consumo interno e fazendo cair o nível de atividade, espera conseguir controlar a inflação e acabar com a espiral inflacionista Isto já aconteceu várias vezes no passado.

É o ajustamento ortodoxo em curso, que tende a gerar uma queda do PIB superior à registada no ano passado. Milei aposta na organização da frente monetária com a chegada de dólares provenientes da colheita recorde, das exportações de hidrocarbonetos e da redução das importações. O seu objetivo é recriar, com a aprovação do FMI, uma situação semelhante à dos anos 90, com Menem. Neste contexto, forjará a sua base política de direita.

Rebellion: E será esta repetição viável?

Claudio Katz: Não sabemos, mas lembremos que Menem conseguiu sobreviver ao desastre inflacionista desde o seu início e por muito tempo e Milei está apenas a começar a seguir essa trajetória. O Riojano podia contar com o justicialismo, os governadores e a burocracia sindical. O seu emulador não tem esse apoio e, para continuar na corrida, terá de passar pelo teste imediato de um trimestre tumultuoso. Se tiver de voltar a desvalorizar em março ou abril, enfrentará uma crise grave.

A perspetiva de uma nova grande desvalorização do peso já é visível na escalada dos preços, neutralizando os efeitos da Mega desvalorização de dezembro. Além disso, o círculo vicioso da recessão, que faz baixar as receitas e aumenta o défice orçamental, é bem visível, anulando todos os efeitos dos cortes decididos pelo Governo.

Estas incoerências intensificam os conflitos entre os três grandes sectores capitalistas do país. Milei e o seu ministro da Economia Caputo representam o capital financeiro e estão a levar a economia à falência para garantir o pagamento aos credores. Exploram o povo, mas se este confisco não for suficiente, estão dispostos a exigir pagamentos aos outros dois grupos de poder. Um sector é a agroindústria, que beneficiou muito com a desvalorização, mas que agora resiste a contribuir para a retenção na fonte exigida pelo governo. O outro segmento de industriais está de acordo com a reforma laboral prometida por Milei, mas é afetado pela abertura do comércio e pela redução das vantagens fiscais nas províncias.

Rebellion: Então, que cenários estão na calha?

Claudio Katz: As alternativas dependem do resultado da agressão contra o povo. Todos os antecessores de Milei conseguiram impor a sua agenda durante algum tempo, sem nunca conseguirem remodelar a economia neoliberal ou estabilizar um governo de direita. A diferença entre Videla, Menem e Macri foi a duração em que conseguiram preservar os seus modelos.

A última experiência foi a mais curta, e esta brevidade poderá repetir-se se a atual batalha popular for tão bem sucedida como a reforma das pensões de 2017. Milei espera evitar esta frustração aumentando a parada com a opção da dolarização, e os grupos de poder estão a observar atentamente a sua gestão, avaliando se continuam a apoiá-lo ou se estão a preparar uma substituição com o tandem Villaroel-Macri (antigo presidente de direita de 2015 a 2019). Tudo dependerá do resultado da batalha social que está a ser travada nas ruas, e o que acontecer com a lei omnibus dará a primeira indicação deste confronto.

Rebellion: Notou alguma mudança na resistência popular?

Claudio Katz: A dimensão e a diversidade da manifestação da CGT (Confederação Geral do Trabalho) indicam que existe uma certa consciência da intensidade da luta em curso. Muitos participantes nesta manifestação sublinharam que “ainda agora começou” e outros apelaram a que a luta continue até Milei ser derrotado. Em alguns bairros, as assembleias e as panelas reapareceram com uma certa reminiscência de 2001, e um elemento-chave foi o encerramento de uma ação pública com um discurso de uma mãe da Praça de maio. Esta centralidade dos direitos humanos será decisiva na batalha atual.

Também considero interessante a abertura da direção da CGT, que se reuniu com deputados da FIT (Frente de Esquerda e dos Trabalhadores) e convidou para a tribuna a maioria dos organizadores da Manifestação. Não querem repetir a rejeição da sua cumplicidade passada, a sua inação durante a era Macri ou a sua cegueira perante a erupção de movimentos sociais.

Seja como for, a continuidade de um plano de luta continua em suspenso, pois é evidente que a greve não é suficiente para travar Milei. Nas manifestações, os trabalhadores são convidados a unirem-se contra aqueles que não estão satisfeitos com esta convergência. Esta instrução exprime uma vontade profunda de redobrar a luta, com a organização sindical à cabeça de uma frente que derrotará a austeridade.

Também considero significativa a radicalização que começa a fazer-se sentir entre os sectores que esperam ocupar as ruas até à queda do governo. O cineasta Aristarain tornou isso explícito. Por último, gostaria de aprofundar o significado da palavra de ordem “A Pátria não se vende”, adotada por muitos dos participantes na manifestação. Nesta reivindicação, a Pátria é a Arsat (uma empresa pública de satélites), o Conicet (uma organização dedicada à promoção da ciência) e os salários. É uma forma de desafiar o neoliberalismo, sublinhando que “não estou à venda”, porque “não sou uma mercadoria”. O significado subjacente é uma variante do patriotismo progressista.

Rebellion: Em suma, parece que estamos a regressar na Argentina às crises e aos seus desenvolvimentos vertiginosos

Claudio Katz: Sim, tudo se acelera de novo e começa a desenrolar-se em pleno verão. A impressão inicial de uma trégua até março-abril dissipou-se, porque a audácia com que Milei está a agir é evidente. Esta é a sua principal caraterística e o resto é secundário. O facto de improvisar ou de ter um plano é secundário, comparado com o seu comportamento reacionário determinado, muito semelhante ao de Thatcher, Fujimori ou Ieltsin. Os poderosos estão a apoiá-lo para esta posição e o povo deve responder com a mesma determinação. A moeda foi lançada ao ar, e ganhará quem mostrar maior determinação.

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O cancro não se cura com votos ou palavras bonitas

(Carlos Marques, in Estátua de Sal, 29/03/2024, revisão da Estátua)


(Este texto resulta de um comentário a um artigo que publicámos de Miguel Sousa Tavares ver aqui, mormente a critica ao seguinte excerto:

“Esta nossa doentia tendência para dar sempre mais voz e mais importância a quem mais berra ou desfila pelas ruas a cantar o hino tem como contrapartida o esquecimento de todos os outros. E os outros são os 80% que não votaram no Chega ou os 50% que pagam IRS. Só num país desnorteado é que a prioridade são aqueles e não estes.”

Pelo seu incisivo sentido de contraditório – o qual prezo e ao qual dou palco – e pelo seu carácter de quase manifesto, resolvi dar-lhe o destaque que, penso, merece.

Estátua de Sal, 29/03/2024)


De todo o texto do Miguel Sousa Tavares, na realidade só esta citação importa: “E os outros são os 80% que não votaram no Chega ou os 50% que pagam IRS”.

O Ventura pode ser o demagogo, mas a corja como Miguel Sousa Tavares e Francisco Mendes da Silva, é que é o verdadeiro fascismo que trouxe o país a este ponto.

Com que então, os que não pagam IRS não valem a pena… Devem ser desprezados por terem salários e pensões miseráveis, decorrentes de um regime político, (NeoLiberalismo e USAtlantismo, EUropeísmo e Globalismo), e de um sistema económico, (€uro, ataques aos trabalhadores, recusa em distribuir riqueza, Estado fraco para com os fortes, etc), que é profundamente fascista e que é exatamente o que o MST e o FMS defendem…

Esta citação do MST diz-me tudo o que preciso de saber dele e dos do “centro moderado” e da “democracia liberal”. Eles, do PS até ao CDS, passando por PSD e IL, e incluindo os mais EUrofanáticos e fans da NATO no Livre e PAN, e agora também em parte do BE, é que são o cancro. O Ventura é apenas uma metástase.

E, enquanto não perceberem isto, o Ventura e os Venturas por esse Ocidente fora vão continuar a crescer como cogumelos. Até ao dia em que se volta à ditadura de facto, com o fascismo de botas cardadas. E isto é inevitável, pois como se vê no texto do MST, as elites não têm capacidade mental nem predisposição social para perceber.

Agora a culpa é de quem vota no Ventura… Quem não vota nos amigos do MST e do FMS é ignorante… E há que escolher entre ser livremente miserável ou abdicar da liberdade para sair da miséria, como se não houvesse mais nada pelo meio… É insultuosa a “lógica” do MST e companhia. Mas eles precisam desta “lógica” para evitar a realidade.

Vamos a ela:

1) O offshore da Madeira continua aberto, e os ricos têm todos os esquemas e mais alguns à disposição, legalizados, para poderem fugir aos impostos, mas os que votam no Ventura é que são maus…

2) em Portugal fecham urgências por falta de pessoal, por falta de r€sp€ito pelos profissionais, mas quem não paga IRS (por ter salário ou pensão miserável) é que é mau…

3) Portugal atacou direitos laborais e destruiu a contratação coletiva e o sindicalismo, tudo isto matou qualquer hipótese de se poder subir o poder de compra dos salários, mas quem desespera e vota em protesto é que é ignorante…

4) Portugal é um dos maiores prejudicados da ditadura neoliberal do €uro e isso condena o país a uma morte lenta, mas ai, ai, aí: os populismos é que são a causa do problema…

5) Tudo quanto é público é cada vez mais gerido na “lógica” privada (RTP, Lusa, CGD, TAP) ou já foi privatizado a privatizado a estrangeiros que não querem saber do país, (ANA, Galp, EDP, REN, CTT, PT, Cimpor), privando-nos de qualquer rumo ou sector estratégico. A seguir, vão vender o que falta da Escola Pública, do SNS, e das pensões, mas as pessoas a quem é dito pela propaganda que isto é certo e não há alternativa, por mais que sintam os efeitos nefastos, é que são o problema…

6) Os portugueses ou ficam em Portugal na miséria e a ver todos os dias a desigualdade, ou emigram, ou ficam a ver as suas famílias partidas quando seus filhos emigram. No país sobram trabalhos mal pagos, quase escravatura, que são aproveitados por imigrantes a quem o nosso país não diz nada. As elites acham muito bem, pois isto é para eles apenas um número bonito na folha de excel de pagamentos das suas empresas. Acham que os humanos devem andar de país em país a adaptar-se às necessidades da elite económica. E depois, quando esse povinho f*dido decide votar zangado, o povinho é que é chamado de ignorante pelos amigos da elite que são os únicos com voz na imprensa mainstream

7) No ano de 2023, o poder de compra do salário médio só subiu na China, na Rússia, e no México. E só não subiu em Cuba, Venezuela, Irão, e outros, devido às sanções ILEGAIS que acabam por ser mais eficazes contra países mais pequenos ou com limitações de recursos. É bom não esquecer também como o FMI esmaga países, como Egipto, ou destrói totalmente países como o Haiti.

A elite ocidental está a fazer guerra contra a Rússia, está a preparar outra contra a China, e um grupo de senadores em Washington já ameaçou invadir o México. E, claro, as sanções ILEGAIS são para manter. E o FMI é o Nosso Senhor Jesus Cristo da economia Mundial…

8) Após anos e anos de austeridade e “contas certas” (cortar onde o povo precisa, para satisfazer as metas das elites), agora esbanja-se na guerra como se não houvesse amanhã, ora para apoiar nazis em Kiev, ora genocidas em Telavive, fora todas as outras poucas vergonhas, como bombardear o Iémen – como se navegar no Mar Vermelho para levar armas aos sionistas genocidas fosse um direito divino do povo “superior” do Ocidente…

Mas o povinho, se está zangado, miserável, e se protesta na rua, é porque lhe falta chá… É porque é demasiado ignorante para perceber o genial plano (globalismo belicista) da elite, e não entende a perfeição do regime político (ditadura da burguesia ocidental) em que vive.

Pois, meu caro MST e companhia, se há problema por estes lados, é exatamente por ainda só existirem 20% de votos antissistema. Deviam ser mais! E não deviam ser só votos, deviam ser paus, pedras, cocktails molotov, bombas, forcas e guilhotinas!

É para mim insultuoso que perante tanto fascismo da elite, belicismo, colaboração com nazis e sionistas genocidas, perante um sistema económico de roubo e ameaça aos não-ocidentais, e de desigualdade pornográfica contra os próprios povos ocidentais, ainda não tenha havido nenhuma bomba em Bruxelas, Frankfurt, Washington, Wall Street, Davos, Doha, Langley, Pentágono, em Westminster, na City e um pouco por todos os países vassalos, nas filiais do império a que, os ainda cegos, chamam “parlamentos nacionais”, mas onde já nada se decide e onde já nenhum povo se representa.

Estão à espera de quê? Que o senil octogenário Genocide Joe dê início à ÚLTIMA guerra mundial, e que imbecis como Macron, Kaja Kallas, Duda, Meloni, etc, peguem nos tais “miseráveis” que não pagam IRS e nos mobilizem a todos à força para morrer numa trincheira às portas de um país não-ocidental? Estão à espera que os EUA cumpram a promessa (como fizeram no Nord Stream) de destruir Taiwan só para impedir que a China destrone os EUA na liderança do mercado dos chips?

Querem mesmo empobrecer, ainda mais, em nome da “liberdade” de um multibilionário fazer passeios espaciais de 10 minutos?

Querem esperar pela finalização do GENOCÍDIO da Palestina e pela ativação da guerra na Sérvia só para que a NATO possa, respetivamente , ter uma enorme base militar na Mesopotâmia e anexar o Kosovo?

Querem continuar a ser “bons alunos” que aceitam o autoritarismo e a censura impostos por não-eleitos na EUropa?

Querem esperar para ver os vossos filhos a viver em barracas, em nome da “liberdade” das elites acumularem propriedade e especularem com casas de habitação vazias, e no final ainda terem de ouvir os mete-nojo, como o MST, a dizer que o problema são os vossos filhos, que são preguiçosos demais para terem 2000€/mês para pagar de renda?

P”TA QUE PARIU ISTO TUDO! Se não perceberam que é para aqui que vamos, e que os Venturas são apenas uma consequência, e não a causa do problema, então não perceberam nada!

O 25 de Abril está morto, após facadas sucessivas. E nem houve um único dia de luto pelos Capitães de Abril que nos deram a verdadeira Liberdade. Mas o Parlamento português obedeceu aos não eleitos da UE/NATO, para declarar luto por um racista, fascista, criminoso, chamado Navalny…

Nos bálticos já se vai ao ponto de destruir estátuas dos soldados soviéticos que derrotaram o nazismo, de proibir a celebração do Dia Da Vitória a 9 de Maio, de prender idosos veteranos que vão colocar flores nesses locais nesse dia, ameaçaram prender qualquer russo que se atrevesse a votar (o Francisco Mendes da Silva e companhia defenderam o mesmo para os catalães…), permitem marchas que glorificam as milícias nacionalistas e fascistas que colaboraram com Hitler, apoiam os seus equivalentes no Ucranazistão e, a Kaja Kallas, já faz declarações a preparar o povo para “não ter medo das armas nucleares” e que “ser a favor da paz é suicídio”… E, no final disto tudo, as elites globalistas NeoLib e NeoCon, com os MST e os FMS incluídos – e até os Daniel Oliveira -, ainda se atrevem a chamar-lhe “democracia”…

Meus senhores, a ditadura fascista de Salazar ajudou Hitler da forma mais tímida possível, sendo neutral (em vez de respeitar a aliança mais antiga do Mundo e ir em auxílio do Reino Unido). Mas a atual ditadura fascista de Portugal tem ainda menos decência, e viola a sua neutralidade inscrita na Constituição de forma a ajudar diretamente os nazis na Ucrânia e os imperialistas genocidas dos EUA em qualquer parte do globo!

A Alemanha está a enviar armas para o genocídio de um povo semita (os palestinianos), e os sionistas de Israel vão ao ponto de mandar a polícia do regime de opressão racial/étnica/religiosa (apartheid) espancar até os Judeus ortodoxos que se manifestam pela paz e recusam ser mobilizados. Por menos que isto, a NATO destruiu a Líbia inteira. Portanto o que é que os países da NATO mereciam agora que lhes fizessem?

Nós, no Ocidente (em graus diferentes em cada país) estamos, de facto, inseridos num Império genocida, cuja política externa é de belicismo, e a política interna é de fascismo económico disfarçado de “liberdade individual” ou de “democracia” liberal.

No plano interno, a desigualdade será cada vez mais pornográfica: os países vassalos serão cada vez menos soberanos e cada vez mais esmagados. No plano externo, continuam as forever wars para lucro dos oligarcas do Military Industrial Complex, as sanções ilegais para provocar miséria e fome nos países que se atrevem a dizer não ao Tio Sam e, numa destas agressões ocidentais contra a maior potência nuclear do mundo, o Ocidente gastas biliões dos seus recursos para ajudar meia dúzia de nazis a executar os planos de meia dúzia de pançudos em Washington.

Nesta conjuntura, os Venturas não passam de uma insignificante metástase. O próprio regime político e a sociedade dominada pela elite globalista (da “democracia” liberal) é que é o cancro. E o cancro não se cura com votos ou palavras bonitas. Cura-se com quimioterapia. O paciente só sobrevive se MATAR todas as células cancerígenas! E, como é óbvio, qualquer metástase morre também durante esse tratamento. Ninguém sobrevive tolerando o cancro. Não é um amigo com quem possamos chegar a entendimento. Temos mesmo de o matar!

No dia em que Julien Assange for libertado, e em que Bruno Amaral de Carvalho for diretor da RTP ou da LUSA (e a LUSA deixar de ser mero repetidor da AP/Reuters/etc); no dia em que Edward Snowden puder voltar vivo e livre aos EUA, e que, gente como Leyen, Stoltenberg, Nuland, estiverem em prisão perpétua, em que a NATO for desmantelada, e em que a Palestina deixar de estar ocupada; no dia em que os embaixadores russos forem convidados de honra no 9 de Maio na Europa inteira, e em que Pequim seja a primeira visita oficial de um Presidente português; no dia em que o Brasil, um país árabe e um país africano, tiverem assento permanente no Conselho de Segurança da ONU (ou do que vier a substituir a ONU…); no dia em que a maioria dos trabalhadores esteja sindicalizada, e que a comunicação social volte a falar a verdade (e as atuais PRESStitutas despedidas e condenadas por colaboração tal como se fez em Nuremberga); no dia em que cada país tenha a sua moeda e o dólar não seja moeda de reserva, e que a prioridade de todos os Bancos Centrais seja o pleno emprego e o fim da pobreza, então nesse dia saberemos que a quimioterapia funcionou.

Uns sonham com o dia em que todos tenham casa, educação, saúde, e possam ir de transporte público a todo o lado, possam viver em paz, ninguém passe fome, e a preocupação com o dinheiro no final do mês seja coisa do passado.

Outros sonham com a continuação deste longo dia em que só um grupo restrito pode viver no luxo, em que o Império domina pela guerra e genocídio, em que se chama ignorante ou preguiçoso a quem passa dificuldades, e onde tanto os demagogos como as elites (de formas diferentes) se aproveitam dos miseráveis.

Não há lugar para estes dois tipos de pessoas neste planeta. Ou o paciente mata o cancro, ou o cancro mata ambos e de caminho ainda destrói o planeta.

Exemplo prático: ou alguém dá um tiro em Netanyahu e mais meia dúzia de tiros no grupo central do sionismo (em Israel, na Europa, e nos EUA), ou milhões de humanos continuarão a sofrer.

As leis do chamado “estado de direito” não se aplicam aqui. A proibição de matar só se aplica em tempos de normalidade. E os demónios genocidas não merecem, não podem, ser tratados com as leis dos humanos. Aliás, foram eles próprios (os sionistas cristãos USAmericanos) a dizer que uma resolução de cessar-fogo aprovada no Conselho de Segurança da ONU “não é” vinculativa, Isto é, eles próprios admitem que nenhuma Lei do Mundo se lhes aplica. Portanto, estamos à espera de quê? Quimioterapia! Já!


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