Pax israelensis

(Manuel Loff, in Público, 11/06/2025)

Inagem gerada por IA

Desde há muito que Israel se tem revelado o modelo de sociedade no qual se revê a ultradireita neofascista do mundo.


Em fevereiro, foi o Procurador-Geral do Tribunal Penal Internacional (TPI), Karim Khan. Agora, os EUA impuseram sanções contra quatro juízas do TPI que abriram investigações sobre crimes de guerra e/ou contra a Humanidade praticados pelos EUA no Afeganistão e por Israel na Palestina. Todas mulheres, duas delas africanas (cidadãs do Benim e do Uganda), uma peruana, outra eslovena. Nesta linguagem descarada que a ultradireita tem, o TPI é acusado de “politização e de abuso de poder” (Le Monde, 6.6.2025). O objetivo é intimidar todo o pessoal do TPI e bloquear as investigações em curso.

Dir-se-á que relação de Trump com o direito internacional é a mesma que tem com a justiça do seu próprio país. Depois de Biden e os seus antecessores terem aceite todas as violações possíveis do direito internacional que Israel pratica desde 2023 (aliás, desde 1948), Trump associou-se ativamente ao ataque descabelado que Israel tem feito à ONU, sem precedentes na história da organização: insultos ao Secretário-Geral e aos responsáveis de todas as agências da ONU, intimidação direta de todos relatores especiais dos Direitos Humanos (a começar por Francesca Albanese), interdição de uma agência da ONU (a UNRWA) com 75 anos de atividade incessante na Palestina, acusada diretamente de “terrorismo”, e, sobretudo, o assassinato de centenas de profissionais e funcionários da ONU. Sem precedentes.

No quadro daquilo que no Ocidente se quis descrever como a “reação” ao 7 de outubro, Israel já fez praticamente de tudo na Palestina: assassinou deliberadamente população civil de um território ilegalmente ocupado, um terço dos quais crianças, a uma escala que não deixa dúvidas sobre a intenção de genocídio; forçou a deslocação em massa da população, e várias vezes, o próprio exército ocupante deteve e deportou milhares de palestinianos; matou centenas, milhares, de médicos, enfermeiros, jornalistas, pessoal de ONGs; destruiu praticamente todos os edifícios, especialmente hospitais e escolas, reduzindo Gaza a ruínas e tendas improvisadas. Como mais de 30 relatores especiais da ONU para os direitos humanos denunciaram há um mês, “a comida e a água foram cortadas durante meses, induzindo a fome, a desidratação e a doença, o que fará com que mais mortes se tornem a realidade quotidiana para muitos, especialmente para os mais vulneráveis.”

O que se vive em Gaza não é imaginável para nenhum de nós. E, contudo, a impunidade permanece, comprovando à saciedade que, afinal, a aplicação do direito decorre apenas da força. E quem a tem, hoje ainda, são os EUA, um estado que os tratados assinados por Portugal classificam como “aliado”.

Desde há muito que Israel se tem revelado o modelo de sociedade no qual se revê a ultradireita neofascista do mundo. Supremacia de uma etnia (os judeus), cuja identidade nacional se construiu no próprio processo de colonização e não antes; regime de apartheid e de securitização militar impostos à etnia autóctone (os palestinianos) cujo território se ocupou; uma engenharia social feita da fusão de militarismo social, investimento tecnológico sem precedentes no controlo e vigilância totalitários; uma ideologia de orgulho nacionalista, religioso e colonialista de uma etnia que se descreve a si própria como resgatando um território da barbárie e protegendo o “Ocidente” do “inimigo”; a visão paranoica de um mundo que inveja e odeia “o povo eleito”. A semelhança com o fascismo histórico de há um século é evidente.

Se, antes de Trump, a repugnante impunidade da ocupação israelita vinha acompanhada da encenação de um plano original de dois Estados que nunca saiu do papel, com Trump e Netanyahu do que se trata é da concretização final de limpeza étnica e genocídio. Exatamente o que Hitler quis fazer: uma Nova Ordem europeia construída pela morte, pelo extermínio.

A nova ordem que se quer construir hoje com o rearmamento e a tese de que estamos, por todo o lado, em guerra, tem os contornos da Pax israelensis. E é também por isso que nunca como hoje foi tão importante criar um movimento popular e universal pela paz e pela democracia antifascista. Como em 1945.

O autor é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico

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Portugal entre a guerra e a urna

(Por Alberto Carvalho, in Facebook, 16/05/2025, Revisão da Estátua)


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Há momentos em que a história muda de tom sem mudar de tema.

O regresso de Trump à presidência dos EUA, a ausência estratégica de Putin em Istambul e a persistência quase solitária de Zelensky em palco mostram que a guerra já não se faz só de tiros – faz-se de tempos, gestos e simbologias.

Num Ocidente onde o ruído vale mais do que a razão, é fundamental saber reconhecer quem pensa – e quem apenas reage.

2. Putin sabe que a guerra, como a política, é uma arte de paciência. Ao recusar Istambul, não recusa a paz – recusa a pressa. Manda emissários de segunda linha para medir o pulso, mas mantém-se ausente como quem diz: “Nada de essencial acontecerá sem mim.” A sua estratégia é clara: esperar pelo enfraquecimento ocidental. E nisso, conta com o aliado que acaba de regressar à Casa Branca.

3. Trump não voltou para gerir – voltou para dominar. O seu estilo é personalista, imprevisível e brutalmente eficaz em dividir. Ao insinuar que só ele e Putin podem resolver a guerra, diz ao mundo que os sistemas coletivos falharam – e que resta confiar nos homens fortes. É o regresso da diplomacia do espetáculo, da política como encenação – e da geopolítica como negócio.

O que se perde? A ideia de bem comum. O que se ganha? Um mundo à mercê de impulsos.

4. Zelensky resiste com palavras, porque sabe que o silêncio é agora mais perigoso que o fogo. Vai a Istambul, fala em fóruns internacionais, apela a uma Europa que já não sabe se quer ouvir. Ele não representa apenas a Ucrânia – representa o último elo entre a convicção e a desilusão, entre o ideal europeu e a sua erosão interna. Se for abandonado, não cairá só Kiev – cairá a ilusão de que os princípios ainda mandam no mundo.

5. Putin joga com o tempo. Trump com a encenação. Zelensky com o desgaste. E os europeus? Os europeus oscilam – entre o medo e a amnésia. A tentação de um acordo “possível” cresce. Mas há paz que, sendo assinada, soa a capitulação. E há soluções que, sendo convenientes, só adiam a próxima tragédia.

6. E enquanto tudo isto acontece, Portugal vota no domingo. Num tempo em que o ruído político é global, importa lembrar que o voto não é um grito – é uma escolha. E que a lucidez exige mais do que indignação.

Há partidos que prometem ruturas – mas sem planos. Outros, que encenam coragem – mas sem coerência.

E há quem, com todos os erros, tenha sustentado o país em crises internacionais, financeiras e sociais – e evite agora cair no canto fácil do populismo? Mesmo entre dúvidas e críticas, mantém o rumo da estabilidade e da solidariedade social, com um Estado forte que Portugal tanto necessita? Não se trata de fanatismos. Trata-se de responsabilidade. De perceber que há alturas em que o centro não é cobardia – é resistência. Que o populismo não precisa de tanques – basta-lhe o desânimo. E que, num mundo a braços com a erosão das democracias liberais, votar com a cabeça fria pode ser o último ato de cidadania lúcida.

No domingo, como em Kiev, como em Bruxelas, como em Washington, joga-se mais do que parece. Joga-se o futuro – e a forma como ainda queremos enfrentá-lo.

Dicionário da propaganda ocidental

(Zé Oliveira Vidal, in Estátua de Sal, 23/04/2025, revisão da Estátua)

Imagem gerada por Inteligência Artificial

(Este artigo resulta de um comentário a um texto que publicámos sobre a guerra na Ucrânia do Major-General Carlos Branco (ver aqui). Pela sua acutilância e pedagogia sobre o reconhecimento das narrativas mediáticas da propaganda ocidental, resolvi dar-lhe destaque.

Estátua de Sal, 24/04/2025)


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Tudo, TUDO o que passa nos mainstream média ocidentais é DESINFORMAÇÃO USAmericana! TUDO!

Se vês/ouves a CNN, estás a ver/ouvir o que os porcos imperialistas em Washington querem. A mesmíssima coisa para a FOX News e companhia.

Da Rússia, a “propaganda” que vem são FACTOS. A parte central da propaganda USAmericana na Europa e Portugal passa por chamar “propaganda russa” aos factos e até mesmo às opiniões neutrais ou equidistantes.

Noutros países da Europa, debate-se a NATO, a União Europeia e o Euro. Debate-se a vassalagem aos EUA e o apoio aos nazis ucranianos e a tolerância para com os genocidas israelitas/sionistas. Em Portugal não. Porquê? Porque, ao contrário da MENTIRA da CNN, Portugal é, isso sim, um dos maiores vitimizados pela presença de propaganda USAmericana!

Poderia separar a propaganda da BBC/Mi6, daquela outra da Mossad/Israel, ou da Euronews/UE, mas, nos dias que correm, não vale a pena. É tudo do mesmo saco: avençados e agentes ao serviço de Washington.

Queres saber como isto funciona? Lê sobre os escândalos da USAID, NED, e companhia. A forma como eles corrompem “jornalistas” e políticos por toda a Europa.

Obviamente, terás de ler sobre isto em meios de comunicação fora do Ocidente, ou muito alternativas dentro do Ocidente, como é o caso do jornalismo de investigação do Greyzone, ou do blog de geopolítica MoonOfAlabama, ou o excelente Consortium News, ou o grande exemplo de real jornalismo da Wikileaks, ou de gente independente como a Caitlin Johnstone.

Se vês o que quer que seja na CNN/FOX, ou BBC, Euronews, ou RTP/SIC/TVI/Now/CMTV, e se não percebeste ainda que são antros de corrupção e fakenews, que debitam propaganda e manipulação 24 horas por dia, então não percebeste nada do que se está a passar no mundo e, em particular, em Portugal.

A mesma coisa em relação aos meios escritos, como o Expresso/Público, o Der Spegel, The Guardian, El País, etc, e obviamente o Washington Post, The Economist, New York Times, etc.

Aqui tenho de falar finalmente do texto do Carlos Branco: se se baseia no que o New York Times publicou, então baseia-se na mentira.

Obviamente os EUA são quem planeou durante décadas esta guerra proxy contra a Rússia, obviamente os EUA estão envolvidos em TUDO, desde o financiamento a nazis para fazerem o golpe Maidan, até à invasão de Kursk.

Se o New York Times agora publica isso, é porque a Casa Branco assim ordenou. A atual administração quer fazer de conta que está “de fora” de uma guerra proxy que o próprio Trump ajudou a preparar no seu primeiro mandato, em total prolongamento com a agressão imperial seguida por Obama e Biden. Não houve HIMARS a bombardear em Kursk? Houve! Logo aqui se deteta a mentira do New York Times.

Mas para saberes o que eu sei, precisas de ir aos OSINT (Open Source Intelligence) – fontes abertas de inteligência -, que diariamente falam de FACTOS sobre as linhas da frente. Recomendo o Defense Politics Asia, o Southfront (censurado na EUroditadura), o Geroman (a conta Telegram dele compila mapas de várias fontes credíveis, e tem imagens/vídeos com geolocalização), e ainda o WarMonitor (um site do Líbano que fala sobretudo da agressão/genocídio que o ocidente/sionismo comete na Palestina e arredores.

No caso da TV, como a RT está censurada pela EUroditadura, já só sobram os canais CGTN (China) e TeleSUR (Venezuela) para te poderes informar sobre a realidade. E mesmo aqui tens de ter atenção à propaganda de cada um. TODOS fazem propaganda. Mas isso não significa que os outros façam como o Ocidente onde a mentira é descarada e a toda a hora!

E eis uma lista de pistas simples para identificar quem é quem:

  • Se diz “NATO defensiva” ou “agressão Russa”, então é um canal de propaganda ocidental. Obviamente, factualmente, a NATO é ofensiva, criminosa, e a Rússia está a intervir justificadamente contra quem golpeou a Ucrânia e violou a paz de Minsk.
  • Se chama “guerra Israel – Hamas”, então é propaganda ocidental. São três mentiras em três palavras. Não é guerra, é GENOCÍDIO. Não é só de Israel (nem é de todos os israelitas), mas sim de sionistas sanguinários ocidentais, e em particular da extrema-direita racista israelita (Netanyahu e companhia são comparáveis a nazis). E não é contra o Hamas, mas sim contra todo o povo palestiniano, acima de tudo mulheres e crianças indefesas.
  • Se glorifica Zelensky, então é propaganda ocidental. Zelensky é um vassalo corrupto dos EUA, e é de facto um ditador no regime UcraNazi. Só merece condenação, não merece um pingo sequer de tolerância. É contra a paz, persegue a oposição, acha normal glorificar o nazismo, proibiu eleições, ataca crentes ortodoxos, etc.
  • Se critica a Venezuela, é propaganda ocidental. A Venezuela é uma democracia soberana anti-imperialista. Só merece a nossa admiração e apoio.
  • Se apoia a União Europeia e as suas instituições de opressão, então é propaganda ocidental. A UE é, de facto, uma ditadura que nos roubou a soberania. Hoje violamos a nossa Constituição e fazemos censura de canais de notícias, por ordem da UE. Recebemos ordens de NÃO-eleitos, como a Leyen e a Kallas, que são obviamente agentes dos EUA com a missão de nos colocar a pagar mais para garantir o lucro da Lockeed Martin, Raytheon, Boeing, etc. Quando estas corruptas ameaçam quem celebrar o Dia da Vitoria a 9 de maio, mas apoiam descaradamente quem glorifica nazis, e repetem toda a propaganda da CIA/Pentágono, então está tudo dito sobre a natureza da UE.
  • Se promovem Hollywood/Netflix, e seus palhaços/atores, então é propaganda ocidental. Não há arte nem cultura nenhuma nestes meios. Só há propaganda dos EUA e Israel. A “Mulher Maravilha” é uma agente da Mossad apoiante de genocídio. A Marvel coloca a NATO ao lado dos Avengers. Filmes atrás de filmes colocam os russos como os mauzões, e chamam “heróis” aos porcos imperialistas dos EUA/NATO que foram invadir tantos países e assassinar milhões de humanos (no Iraque, no Afeganistão, na Líbia, etc.).
  • Se falam de cantores dos EUA como “os melhores”, mas não têm espaço para falar sequer de artistas portugueses ou de outras partes do mundo, então é propaganda ocidental. Quantas vezes tu ouviste nas “notícias” na TV falar da Madonna ou da Taylor Swift? Agora compara com as vezes que tais “noticiários” falaram dos portugueses Killimanjaro ou Eu.Clides ou Kleft ou Romeros ou Inês Marques Lucas, etc.. Do melhor que se faz em Portugal nos respectivos géneros, e com ZERO tempo de antena nos “noticiários”.

Abre os olhos!

A Rússia, a China, o Irão, a Venezuela, a Geórgia, a África do Sul, a Argélia, a Bolívia, Cuba, Sérvia e Srpska, até o Hezbollah do Líbano e os Houthis do Iémen, estão do lado certo da História e da Humanidade. Que mal é que algum destes povos te fez a ti ou à Europa? Nenhum! Que mal é que esta gente faz ao mundo? Nenhum!

Nós, em Portugal, é que somos uma mera província sem qualquer independência nem acesso à verdade, num império dos EUA que é terrorista, antidemocrático, fascista, colaborador de nazis, e GENOCIDA.

Os soldados russos estão na sua fronteira e no seu território histórico a salvar gente que é vítima do nazismo ucraniano e do imperialismo ocidental.

Mas os nossos soldados andam a invadir o Kosovo (Sérvia), o Iraque, o Afeganistão, etc., onde quer que o imperador em Washington nos mande invadir.

A Rússia na Crimeia (onde só vivem russos) é “ilegal” e “agressão”, mas nós a exterminar meio milhão de palestinianos ou um milhão de iraquianos ou a colocar a al-Qaeda no poder na Síria é só “democracia e liberdade”.

E todos os que, como eu, já abriram os olhos e contrariam as mentiras do império GENOCIDA ocidental, dizem eles que somos todos “propagandistas do Putin”…

Queres saber como é que a Alemanha foi convencida nos anos 30? Foi assim. Manipulação em massa. Um povo inteiro a acreditar numa narrativa completamente separada da realidade. E a demonização/cancelamento de quem se opõe à narrativa do regime.

Tu, em 2025, ainda andares a acreditar na estrumeira que passa na CNN, é o equivalente a um alemão, em 1945, a andar a acreditar naquilo que a máquina de propaganda de Hitler dizia.

És uma vítima! Não tem mal nenhum abrires os olhos e admitires que foste enganado. Mal será, para todos nós, se a maioria continuar de olhos fechados e a negar a realidade.