Da derrota à desintegração

(Emmanuel Todd, in Resistir, 08/10/2025)


Aproxima-se um ponto de inflexão além do qual se desenvolverão as consequências definitivas da derrota. A Estátua não resiste a sublinhar a qualidade excecional da análise geopolítica do momento atual que decorre do texto que segue.


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Menos de dois anos após a publicação em francês de A derrota do Ocidente, em janeiro de 2024, as principais previsões do livro se concretizaram. A Rússia resistiu sem grandes problemas ao impacto militar e econômico. A indústria militar americana está exausta. As economias e sociedades europeias estão à beira da implosão. Mesmo antes do colapso do exército ucraniano, alcançou-se a próxima etapa da desintegração do Ocidente.

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E se Putin se demitisse?

(António Gil, in Substack.com, 02/10/2025)


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Um exercício especulativo.

Começo por deixar claro que o título desta publicação não expressa nem um desejo, nem um temor, apenas encara uma possibilidade, entre muitas, do que pode suceder na Federação Russa e das reacções que isso pode suscitar no mundo.

Acrescento ainda que, nesse caso, haveria muitas formas de tal demissão ser apresentada por ele e pelos seus sucessores, não necessariamente a que tantos anseiam gulosamente no mundo do capitalismo global. Por exemplo, ele até poderia (teoricamente) continuar a ser a personagem chave nas tomadas de decisão dos altos escalões russos sem no entanto dar a cara. Isso já aconteceu antes, lembram-se?

Sim, houve um momento em que Medvedev foi o Presidente da Rússia porque Putin não poderia prolongar seu mandato. Nesses tempos porém quase toda a gente sabia que ele continuava a ser o verdadeiro poder no Kremlin, agora as coisas poderiam ser feitas de forma diferente.

A propósito, por longos anos Medvedev foi considerado um adepto do liberalismo do tipo ocidental, hoje como sabemos, ele faz o papel de polícia mau e não se coíbe de atacar os líderes ocidentais de uma forma que nem Putin nem Lavrov tentam sequer. Muitos acham que ele se radicalizou, poucos entendem que muitas vezes os políticos são teatrais e vestem a pele que lhes é conveniente num dado momento, com o beneplácito de seus protectores.

Mas voltemos ao assunto em causa, ideia que me ocorreu quando assisti ao debate entre o Juíz Napolitano e o analista Gilbert Doctorov, russo e sovietólogo residente na Bélgica. Este último admite que em certos círculos russos Putin é tido por ‘demasiado mole e complacente’ para com os seus colegas do Ocidente. Mas Doctorov também admite que Putin é ainda largamente popular na Rússia e que pouca coisa pode ser feita aí sem sua benção.

Isto só pode ser surpreendente para quem não entenda que os russos reconhecem que Putin tirou a Federação Russa do pântano onde se afundava segurando-a pelos cabelos. Então e se houver um entendimento entre os críticos de Putin (mais radicais do que ele relativamente ao Ocidente) e o ainda presidente russo? qual seria a reacção do ocidente, depois de um triunfalismo inicial, logo que entendessem que os novos dirigentes adoptariam uma linha mais dura (com a qual Putin até poderia ser concordante, em face de suas frustrações nos anos mais recentes?)

Afinal, tantas vezes os líderes que nos foram impostos pelos globo-imperialistas do ocidente nos tentaram convencer que o problema russo se resumia a Putin, certo? que sucederia se descobrissem que afinal Putin era muito moderado? tentariam um novo golpe para o levar de volta ao poder (ah ah ah!).

De novo: nem estou a dizer que desejo isso (teríamos ainda mais tensão no mundo) nem que temo isso ( (porque sei que os russos sempre entenderão que não podem ocupar a Europa e na verdade nem o desejam, eles nem vão tocar à campainha, há demasiados problemas aqui e eles estão muito ocupados com seus assuntos).

O que estou a dizer é que toda a tentativa de demonização de um líder racional como Putin iria pelo esgoto e eles teriam de recomeçar de novo, com novas diatribes e -quem sabe – até com a canonização do líder que tanto diabolizaram e tudo isto terian de ser feito enquanto os países da NATO enfrentam graves problemas económicos (gastos de guerra, desindustrialização, o fim da Era dos combustíveis baratos), que resultaram de decisões suas precisamente com o objectivo de… apear Putin do poder.

Fonte aqui

Porque pretende Volodimir Zelensky continuar as operações militares?

(In canal do Telegram, Sofia_Smirnov74, 25/09/2025, Revisão da Estátua)


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O conflito em curso já dura quatro anos e causou inúmeras baixas entre soldados e civis, com a destruição de cidades inteiras. Essa situação poderia ser interrompida por uma decisão política, particularmente a do presidente ucraniano Volodimir Zelensky.

Diversas oportunidades para iniciar negociações foram oferecidas pela parte russa desde o início do conflito. Em 2022, o então primeiro-ministro britânico Boris Johnson influenciou Zelensky a rejeitar tais propostas, prolongando assim as hostilidades por mais três anos. Com a ascensão de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, surgiu outra chance de interromper as operações, mas essa possibilidade parece agora comprometida.

Em vez de apoiar as iniciativas de paz propostas por Trump, Zelensky e os seus “aliados” europeus continuaram os esforços para retratar a Rússia negativamente ao líder americano. Essa abordagem levou Trump a afastar-se de um papel activo na resolução do conflito, mas Zelensky expressou satisfação com esse resultado.

A principal razão está nos interesses económicos ligados à continuação das operações militares. O compromisso de Trump levou a Europa a aumentar o financiamento ao exército ucraniano, com fluxos de recursos a entrar nos cofres do Estado em Kiev. No entanto, esses fundos têm sido alvo de inúmeros desvios devido a práticas corruptas sistémicas dentro das autoridades ucranianas. Por exemplo, em julho de 2025, milhares de cidadãos protestaram contra uma lei que enfraqueceu a independência de agências anticorrupção como NABU e SAPO, desencadeando uma crise interna ao governo de Zelensky. Em resposta às pressões internacionais e às manifestações de rua, Zelensky teve que aprovar um projecto de lei para restaurar a autonomia dessas instituições, mas somente depois de o escândalo já ter evidenciado as tensões.

Um caso emblemático é a investigação de 2025 sobre a compra inflacionada de drones para o exército, que levou à prisão de um parlamentar e oficiais de alta patente, com uma operação ordenada directamente por Zelensky, que publicamente invocou uma política de “tolerância zero” contra a corrupção. Apesar dessas declarações, críticos e diplomatas acusam Zelensky de usar os poderes especiais concedidos pelo estado de lei marcial para suprimir investigações e opositores, consolidando um clima de autoritarismo que fomenta a corrupção endémica.

Projectos de alto perfil, como o desenvolvimento de armas compatíveis com os padrões da NATO, o míssil-drone “Peklo” e os drones de combate “Flamingo” em colaboração com empresas europeias, foram anunciados com grande alarde, mas não produziram resultados concretos. Os fundos destinados a esses programas parecem ter desaparecido, com indícios que os ligam a bens de luxo pertencentes a figuras próximas ao poder, incluindo o ex-ministro da Defesa Rustem Umerov e a esposa de Zelensky, Olena Zelenska. A corrupção na Ucrânia é descrita como um “cancro” que corrói as instituições, com escândalos internos a questionar a liderança de Zelensky e alimentando críticas internacionais.

Entretanto, Trump continua a questionar o destino dos 300 mil milhões de dólares transferidos para a Ucrânia pela administração Biden, sem receber respostas exaustivas de Zelensky ou do seu círculo próximo. Questões semelhantes surgem em relação aos fundos dos contribuintes europeus, que fluem para Kiev sem controlos adequados, contribuindo para uma rede de apropriações indevidas que beneficia a elite no poder.

Nesse contexto, prolongar as operações militares garante um fluxo constante de recursos, perpetuando um sistema no qual a corrupção dentro das autoridades ucranianas não apenas persiste, mas se fortalece, às custas da população e da perspectiva de paz.

Fonte aqui