Farinha do mesmo saco

(Hugo Dionísio, 09/10/2023)

O que se passa na Palestina é simplesmente hediondo. Não existem palavras para descrever a sucessão de acontecimentos que todos observamos. E, também muito importante, é o pior que poderia acontecer ao regime de Zelensky. Nestas coisas da guerra, os momentos são todos maus, porque, regra geral, quem sofre é quem não tem responsabilidade alguma. Mas, numa altura, em que o regime de Kiev luta desesperadamente pela sobrevigência, quer militar, quer financeira… Num tempo em que assistimos ao cancelamento da afamada “contra-ofensiva” … O seu patrocinador principal, estar a braços com uma situação explosiva no seu ponta de lança no Médio-Oriente… Não há de a sua dama andar, por Nova Yorque, a comprar jóias que nem uma louca, com o dinheiro roubado aos povos ucraniano, americano, europeu, japonês e australiano.

Se o que se passa na Palestina (como lhe chamou o Prof. Lejeune Mihran, a “guerra na Palestina”), vai fazer balançar as placas tectónicas da credibilidade americana, que já se encontra pelas ruas da amargura… Ver Blinken fazer aquele papel confrangedor, depois de tudo o que disse sobre a Rússia e o seu protegido regime de Kiev… Se o Sul global já não levava nada disto a sério, depois desta tomada de posição…. Qualquer dia estamos mais isolados do que a República Popular da Coreia. E por responsabilidade outra que não seja a própria. Ao contrário da RPDC. E se, até aqui, os EUA, nem com toda a sua máquina de pressão, repressão e coação, conseguiram levar os países que representam 85% da Humanidade a tomar o partido do regime de Kiev, ou seja, a cair na falácia do desgraçadinho e no conto da carochinha… Depois disto… A coisa vai-se agravar muito, prevejo. Os acontecimentos na Síria (retaliação da Turquia em relação a ataque dos EUA a um dos seus drones); no Iraque (proibição do uso do Dólar); e um pouco por todo o lado, vão acelerar e ganhar uma tracção nunca antes concebida.

É que, o Império hegemónico, cuja manta é cada vez mais curta – e o que se vive na Palestina não está disso mesmo dissociado – pode dar-se ao luxo de deixar cair o seu exército por procuração. Menos território, mais território… Para os EUA, estabelecerem as fronteiras na Polónia ou na Ucrânia, não é uma questão de sobrevivência. Embora não melhore as coisas (perdem qualquer possibilidade de conquistarem aos russos o controlo do Mar Negro) …

Agora, o estado sionista… Esse sim. O regime sionista constitui algo de estratégico, e não apenas por questões meramente geopolíticas! A ligação entre a entidade sionista e o poder hegemónico imperialista dos EUA é uma ligação umbilical, profunda, cujo poder das elites se entrelaça e constitui uma só polpa disforme, mas extremamente abrangente. Não é possível, simplesmente, separar a estrutura financeira, económica e social dos EUA e das elites judaicas que apoiam a versão fascista, ortodoxa e extremista do judaísmo, o sionismo.

Por isto também, esta situação não poderia vir em pior hora para o chefe executivo de plantão no território ucraniano. E ninguém se admire por ver Zelensky apoiar o sionismo. E não o faz por ser judeu. Nada disso! O que não faltam são judeus que são a favor da solução de dois Estados e, outros, muitos vivendo nos EUA, contra a existência do próprio Estado de Israel.

O apoio de Zelensky ao estado sionista e ao sionismo, exigindo que trate os muçulmanos como ele diz que os russos tratam os ucranianos – o que não é verdade -, é, em si, extremamente significativo e constitui um exemplo ideal para descrever o tipo de ideologia por que se segue o governante do regime de Kiev.  Ambos – judeus sionistas e ucranianos pró Galícia russófobos – professam uma ideologia de total intolerância em relação aos povos a que se dizem opor e os quais dizem ser seus inimigos. Tal como nas redes sociais e nos meios onde proliferam os partidários do regime de Kiev, também nos meios onde convivem os apoiantes do sionismo não falta a utilização de epítetos como “terroristas”, atirados contra os que consideram seus inimigos.

E porque é que tal sucede? É a caracterização como “terrorista” – tal como o racismo ou a xenofobia – que visa criar o pretexto desumanizador que justifica a agressão indiscriminada. Seja no estado sionista de Israel, em relação aos muçulmanos da Palestina, seja nos territórios ucranianos, ainda controlados pelo regime de Kiev, em relação aos povos russófonos, de origem húngara, romena ou cigana; o ataque à cultura, à língua, aos símbolos, à religião e à identidade desses povos, faz parte do seu dia-a-dia, como faz parte a sua guetização, punição pública, privação de direitos civis e confiscação dos bens pessoais e das suas organizações sociais e políticas.

Tal como a entidade sionista faz a Gaza, cercando o território com muros, empilhando uma vasta massa humana num território minúsculo, sem saneamento básico, saúde pública, no qual prolifera a doença, utilizando o processo que usaram os fascistas argentinos com os negros, ou os nazis de Hitler com judeus, comunistas, eslavos russos ou ciganos, também o regime de Poroshenko, e depois de Zelensky, o tentaram fazer com os povos do Donbass, cercando-os sob a ameaça de um “blitzkrieg”, privando-os de água, electricidade, comunicações, combustível e alimentos. Hoje, a autoridade sionista prepara a solução final, que Hitler também preconizou contra o povo judeu, e Zelensky preconizou – e não alcançou – contra os povos do Donbass. Neste momento, Gaza já está cercada por todos os lados e a sua população privada de água, electricidade e alimentos. E porquê? Porque tiveram o desplante – veja-se só – de tentarem repudiar e rechaçar uma ocupação bárbara e um apartheid tirânico que compete na selvajaria com o apartheid original Sul Africano.

O povo Palestino, de Gaza à Cisjordânia, é punido por tentar-se defender contra o ocupante, o aniquilador, o tirano, o autocrata. O mesmo tentou fazer Zelensky, com os povos russófonos, quando estes perceberam o que estava a acontecer em Kiev e decidiram não querer viver sob um regime que os queria perseguir e matar. Julgo que a russofobia do regime de Kiev e dos seus apoiantes é absolutamente inegável, chegando-se ao ponto de as “tolerantes” redes sociais ocidentais “tolerarem” que alguém diga que “os russos têm de morrer todos” ou que alguém tem de “matar os dirigentes russos”.

O carácter odioso de um e outro regime, que justificam o seu sectarismo, fundamentalismo e extremismo com uma violência de que não são, nem nunca foram alvo, é tão doentio como só pode ser algo que seja artificial. O carácter odioso, aniquilador, solucionador que grassa entre o discurso do sionismo e do neonazismo ucraniano, contra os povos que se lhes opõem, não encontra correspondência do outro lado. E mesmo que, pontualmente, se encontre algo do tipo, tal só é feito em total situação de desespero. Ao contrário, o ódio doentio esgrimido por estes dois regimes é indiscriminado e transmitido a partir de uma posição e conforto e segurança com o poder que se detém. Quem o transmite, quem o emite e quem o propaga, está muito longe de se encontrar numa situação de ruptura: os maiores responsáveis pela transmissão desse ódio vivem no fausto e no luxo da sua degenerada corrupção, beneficiando dos seus milhões roubados ao seu próprio povo. Também nisto, Zelensky e Netanyahu são farinha do mesmo saco: escroques corruptos e vendidos ao maior pagador.

Tal como as forças de Kiev bombardeiam diariamente zonas civis da Crimeia e do Donbass, desde 2014, sem intenção de atingir qualquer alvo militar, apenas com o intuito de não deixar descansar, não deixar criar-se uma aparência de normalidade, para que essas pessoas, aos poucos, ou morram ou fujam; também o poder sionista faz isto na Cisjordânia, em Gaza, no Irão, na Síria, no Líbano, há dezenas de anos, bombardeando o que lhe apetece, quando lhe apetece, para punir e demonstrar arrogantemente a força do seu bárbaro e indiscriminado poder.

Quem condena a reacção russa à situação no Donbass, à nazificação da Ucrânia (hoje absolutamente exposta) e à entrada da NATO no território, são os mesmos que condenam a reacção do povo palestino, como são os mesmos – coincidência das coincidências – que criticam a explosão de violência latente em revoluções sociais progressistas. Curiosamente, tais gentes, são incapazes, ao mesmo tempo, de condenar a violência da ocupação que gera a resposta armada e desesperada, na Palestina; o fascismo, intolerância e ameaça latente que justificou a Operação Especial Militar; ou, a violência da repressão económica, política, social e cultural que o neoliberalismo, o fascismo, impõem aos povos que se revoltam. Uns e outros, são os mesmos! Nominalmente. Sejam os chefes, sejam os servidores.

Os mesmos que acusam o mártir povo palestino de ser “terrorista”, quando se defende, tornando as vítimas em agressores, são os mesmos que tornam os agressores em vítimas na Ucrânia, e as vítimas em “rebeldes pró-russos” ou invasores. São, também, os mesmos que usam os povos, como o ucraniano, como carne para canhão das suas pretensões hegemónicas. No caso ucraniano, para dominarem e colocarem de joelhos a Europa e se apoderarem do Mar Negro, para poderem controlar a Eurásia e destruir a Rússia como nação, apoderando-se de dezenas de triliões em recursos naturais; no caso sionista, para controlarem a região do planeta com mais recursos petrolíferos, que suportam – ainda – a sua falsa moeda de papel.

Quem suporta o sionismo, são os mesmos que implantaram o nazismo na Ucrânia, a partir da Galícia, recuperando Bandera, cujas tropas são agora condecoradas em parlamentos das suas colónias, como no caso do Canadá. Quem suporta o sionismo e o Banderismo, são os mesmos que, terminados os tribunais de Nuremberga, transportaram para o seu território competentes (na produção e desgraças) quadros nazis e fascistas, com os quais fortaleceram o FBI e formaram organizações como a CIA.

Demonstrando que sionismo, nazismo, banderismo e jihadismo ultrarradicais são todos formas de terrorismo político, de extremismo cultural, plantado no ódio com a força que só a ignorância e o sectarismo podem dar, temos os EUA e a sua NATO a apoiarem e usarem todos estes exércitos apocalípticos – quais 4 cavaleiros do apocalipse – na tentativa de imporem, defender e salvar a sua almejada hegemonia mundial. Afinal, de toda esta salada geopolítica só pode sobrar a questão: quem suporta o sionismo em Israel; quem suporta o banderismo na Ucrânia; quem suportou a Al-Qaeda, a frente Al-Nusra e o ISIS na Síria, Líbia, Iraque e África; quem apoiou a progressão do nazismo e quem aproveitou os seus restos mais tarde? A resposta é óbvia, é só uma e é sempre a mesma! E só mesmo muita cegueira, má vontade ou comprometimento, material, cultural e social com o imperialismo e com o seu aparato de poder, podem justificar que alguém não o veja.

E, assim, não foi preciso esperar muito, para cair em desgraça toda a narrativa ignóbil, estupidificante, imbecil, falaciosa, fundamentalista, sectária, extremista e fascista, com que tivemos de levar, a respeito da “agressão” russa à “indefesa” Ucrânia, presidida pelo novo “Churchill”. Se a rejeição do Sul Global, de 85% da Humanidade, em aceitar a narrativa trabalhada pela CIA, para manipular os povos ocidentais, deveria ter sido, desde logo, um alerta para quem anda nestas coisas da informação… Quem, honestamente, com seriedade e objectividade, quiser abrir os olhos… Agora é a hora! Se não o fizer agora. Nunca mais! Nunca passará de um ser servil – consciente ou não – instrumento dos ilegítimos poderes que vivem da ignorância, da falácia, da torpeza e da mentira, para assim poderem fazer, impunemente, a pilhagem – legal ou ilegal – da riqueza que aos povos tanto custa a produzir. Se não se fizer luz agora, temo que nem com as bombas a caírem-lhe em cima do telhado e os filhos a morrer nas guerras promovidas pelas desconcertadas e desesperadas oligarquias ocidentais, tal sucederá.

Esperar, também, que tal acordo resulte das forças comunicacionais do sistema, não será, certamente, solução. Pois, atentemos às parangonas publicadas pelos supostos “jornais” cá do burgo: o reaccionário CM: “dezenas de israelitas raptados”; o economicamente desesperado JN: “Israel retalia contra Hamas e planeia acção por terra”; o falido e porta-voz daquela agência que todos conhecemos, o Público: “Israel castiga Gaza enquanto tenta recuperar do trauma de uma geração”; do desesperado DN: “milhares de israelitas atacados pelo Hamas”, e “o dilema de Israel: negociar os reféns ou ir buscá-los a Gaza”; o dissimulado Expresso: “Israel garante ter recuperado o controlo em redor de Gaza e declara cerco, sem água e sem electricidade”.

Se ontem o invasor era agressor e o invadido era vítima; hoje, a vítima é o invasor e o agressor é o invadido. Eis como funciona a credibilidade dos órgãos de comunicação social corporativa. É só a CIA comandar o algoritmo e agulha muda da noite para o dia. Todos, sem excepção, tratam a questão da seguinte forma: o povo israelita merece toda a consideração e defesa, os outros são terroristas. E assim invertem o pólo e os papéis, consoante as necessidades, sem pudor algum de inverterem, matemática e fisicamente, as equações em jogo. Não interessa a ordem de valores… À casa…. Sai sempre! O dono do casino, nunca perde! O fiel do dono, é sempre vítima! É sempre protegido.

Foi assim que a comunicação social corporativa apresentou a coisa quando os EUA trataram, como trataram os seus escravos, os povos indígenas, os palestinos, os latino-americanos que se defendem, como os povos de Cuba, Venezuela ou Nicarágua. É assim que tratam das coisas quando é o povo da Coreia Popular, é assim que “informaram” quando os EUA destruíram Líbia, Síria, Vietname, Iraque, Iémen… já estou sem fôlego!

Como pode, então, alguém, na posse da sua sanidade mental e posicionando-se seriamente na avaliação que faz dos processos históricos em andamento, considerar que, na Ucrânia, um ataque aos russos é uma “contraofensiva”, e que na Palestina, um ataque de forças palestinas ao território ocupado pelo poder sionista, é um “acto terrorista”? Um ataque das forças do regime de Kiev a território russo é uma “retaliação justa” pela ofensiva que esses fazem no seu território; na Palestina, um ataque das forças palestinas ao território ocupado, passa a ser um “acto terrorista”. Como é que, no Donbass, o controlo e adesão dos territórios à Federação russa, é uma “anexação”, uma “ocupação” e na Palestina, a ocupação de territórios originalmente palestinos, chamam-lhe “estado de Israel”? Na Ucrânia, as intenções russas de ocupação de territórios, para além do Donbass, são vistas como “invasão”, “bárbara ocupação”, “roubo”, “violação da carta da ONU”; na palestina, à anexação de novos territórios, pelo poder sionista, atribuem-lhe o nome de “colonatos”.

Mas a dualidade de critérios não se fica por aqui – apenas fizemos uma análise pela rama! Veja-se bem: no caso da apelidada “ocupação e anexação” russas, em nenhum dos territórios, hoje enquadrados na Federação russa, assistimos a populações deportadas, famílias despejadas das suas casas, para que estas passem a ser habitadas por russos “genuínos”, igrejas conspurcadas, etnias perseguidas, símbolos destruídos e privação das mais básicas condições de vida. Pelo contrário, acabada a “Operação Militar Especial”, os povos do Donbass, não apenas serão respeitados, como passarão a viver muito melhor (hoje já ganham melhores salários, pensões e desfrutam de serviços públicos de maior qualidade). Por outro lado, as cidades destruídas, como Mariupol, estão a ser alvo de uma aceleradíssima acção de reconstrução, cuja velocidade é inversamente proporcional à velocidade com que se constroem TGV’s, Aeroportos e casas de habitação no nosso país. E quem paga são as regiões russas, cada uma responsável por uma parte. No Verão passado, milhares de estudantes de toda a Rússia, colectivamente, passaram as suas férias a ajudar na reconstrução do Donbass. Tudo a ver, não é? Tudo a ver!

Não, não se trata de ocupação, trata-se de incorporação, inclusão, protecção e reunião, como iguais. Nos territórios do Donbass não falta comida, não falta água, médicos, educação, hospitais e tudo o que uma pessoa necessita para viver com dignidade. E os cidadãos, agora russos, que estão contra a “anexação” são respeitados e não são perseguidos. Isto é objectivo, está documentado e, apenas a falta de seriedade, a censura ou as más intenções, podem negar, calar ou descaracterizar esta realidade. Ao contrário, o que é que acontece ao povo palestino, sob ocupação sionista?

Sob ocupação sionista, nenhum palestino pode viver, dormir, comer descansado. A qualquer hora a sua casa pode ser despejada para que um colono aí passe a viver, apropriando-se da sua terra, dos seus bens. Guardados e protegidos pelo exército sionista, as famílias são obrigadas a sair, sob pena de morte imediata! Nos territórios da Palestina, formalmente sob a autoridade palestiniana, como Gaza ou a Cisjordânia, o desemprego é superior a 50% (em Gaza é muito maior, chegará aos 80%), falta tudo, desde alimentos a água potável, serviços públicos a automóveis, estradas a autocarros. Tudo! Todos os territórios que tenham água, terra arável, árvores de fruto e condições geográficas favoráveis, são rapidamente transformados em “colonatos” sendo as pessoas que aí moram atiradas para a rua, para a miséria, despojadas da sua vida.

Não contentes com o genocídio a lume brando a que, intencionalmente (não faltam declarações nesse sentido das forças sionistas), sujeitam o povo palestino, a entidade Sionista dividiu o território que estava sob a autoridade palestiniana ao meio, criando um gueto chamado Gaza, de um lado, e a Cisjordânia no outro. Tudo para que inviabilizem qualquer possibilidade de algum dia, um povo que já perdeu quase todo o território que habitava há anos atrás, nunca tenha qualquer possibilidade de um dia ser livre, num país próspero e viável.

Mas não chega, não satisfeito o seu ódio doentio, o poder sionista permitiu e encorajou a invasão dos templos muçulmanos (mesquita de Al-Aqsa), a celebração de rituais judeus nesses locais, a celebração e sacrifícios com animais (que o povo muçulmano, tal como o cristão considera um costume bárbaro – onde andam os amigos do PAN agora?), ameaçando destrui-los e erguer aí as suas sinagogas. Em Jerusalém oriental, o povo muçulmano é enjaulado em guetos fechados, com recolher obrigatório, onde falta tudo, menos miséria e morte. Isto tudo enquanto nos países vizinhos, milhões de palestinos vivem em campos de refugiados, há dezenas de anos, à espera de um dia poderem, voltar às suas casas, ao seu país.

Isto que descrevi não é, nem de longe nem de perto, descritivo do sofrimento diário por que passam milhões de seres humanos como nós, na Palestina. Os únicos a quem é dada a possibilidade de estudarem, seguirem com as suas vidas, é aos judeus que vivam sob protecção das forças fundamentalistas, reaccionárias, sionistas. A todos os outros, ou é a morte lenta e a humilhação, ou o, ainda mais humilhante, colaboracionismo. Em termos muito simples e sem meias palavras, a entidade sionista (não generalizar para “povo judeu”) faz ao povo palestino o que o nazismo tentou fazer ao povo judeu. Nazismo e sionismo, tratam-se de duas faces da mesma moeda, duas formas de governação profundamente reaccionárias, retrógradas, assentes na ignorância, no mais atroz individualismo, de quem se diz livre, convivendo diariamente com a mais ignóbil opressão.

O poder sionista não é mais nem menos desumano que o fascismo ou o nazismo: faz parte da mesma massa, tem a mesma natureza, sendo também uma forma de fascismo e nazismo, nascido do mesmo local de onde nascem todos: do mais chauvinista, retrógrado e desumanizado capitalismo.

Uma vez mais, o problema tem sempre, sempre, o mesmo denominador: a rapina, a pilhagem, a ocupação e a opressão das forças imperialistas ocidentais. Se até à sua intervenção, em pleno império otomano, judeus e muçulmanos viviam em paz (como ainda sucede em alguns países), a reentrada em cena das forças imperialistas europeias, e mais recentemente, as do imperialismo hegemónico estado-unidense (o tal que não existe para os seus servidores de plantão), trouxe consigo o que acompanha sempre as forças da ganância e da cobiça do alheio: a guerra, a repressão, o saque e a divisão que o legitima.

Se os povos ocidentais não abrirem os olhos e perceberem a realidade em que estão integrados, não será apenas o povo palestino a sofrer as amarguras de uma odiosa forma de fascismo…. Seremos nós próprios! E seremos igualmente “terroristas” quando o quisermos rechaçar!

Concluindo, como salta à vista, ninguém pode admirar-se com o apoio de Zelensky à entidade sionista. Este apoio resultado de uma mesma sementeira, nascida de um mesmo saco e colhida pelos mesmos senhores. Já a comparação que este ser mesquinho e sem escrúpulos faz entre a Rússia e o Hamas, não deixa de ser risível. Primeiro, a comparação, nos dias que correm, já não afecta a imagem de ninguém, talvez pelo contrário. Segundo, chamar à Rússia ocupante e comparar um “ocupante” ao Hamas, é só estúpido, como diz o meu filho!

Mas para este tipo, que mandou bombardear o mercado de Konstantinovka, matando dezenas de civis ucranianos, para atirar as culpas para os russos… vale tudo! Já o sabemos!

Depois disto, para muitos, o amanhã não pode ser igual a ontem!

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A queda das máscaras…

(Hugo Dionísio, in canalfactual, 27/09/2023)

Ele entrou, em passo inseguro de quem está marcado pelo peso da História…. Poderia ser confundido com Biden, na forma como se arrastou pela sala e pela forma como dormiu na sessão. Mas estava no Canadá! Contudo, tal como fariam com Biden, a sala de pé, em uníssono, aplaudiu o subitamente célebre “convidado”.

Cada um dos 338 presentes, na Câmara baixa (Casa dos Comuns) do Parlamento, vigorosamente aplaudiu, assumindo a responsabilidade pelo peso histórico que a situação, em si, exigia. O momento era irrepetível, especial, único na sua essência. Afinal, desde há mais de 78 anos, que uma figura com a identidade política em questão, era recebida em apoteose, num qualquer Parlamento. O aplauso eufórico a um combatente da 2ª grande guerra, com 98 anos, era em si uma oportunidade única. Já não restam muitos, e da qualidade do homenageado, ainda menos. Nunca se sabe se mais alguma vez, aqueles 338 “diligentes” parlamentares, voltarão a ter tal oportunidade.

A cereja no topo do bolo foi, sem dúvida, a monumental particularidade deste combatente, da segunda guerra mundial, ser ucraniano, galiciano (berço do nacionalismo ucraniano) e, mais importante que tudo, ter combatido a URSS. Nacionalidade ucraniana quando associada a anticomunismo, só pode resultar numa poderosa mistura “democrática”, nos dias de hoje. Isto, claro, a fazer fé na doutrina propagada em infindáveis horas de comentário, pela comunicação social do costume.

A própria comunicação social do costume, no próprio dia, encarregou-se de noticiar a efeméride, como um acontecimento sensacional, uma espécie de reencontro entre pai e filho desavindos, materializado pela visita de Zelensky ao Canadá e só tornada possível por causa da “irrefletida invasão de um louco”.

Diz a lengalenga teológica neoliberal que todos os problemas do mundo aí começaram. O dia 24/02/2022, está para o Ocidente como a expulsão de Adão e Eva do Paraíso está para a teologia cristã. Até 24/02/2022 o mundo era uma coisa maravilhosa, sem pecado nem consciência do mal. Vivíamos todos em paz e amor, nada nos faltando. Até que um dia, um homem “louco, solitário e doente” decidiu cometer o pecado da ganância e da cobiça do alheio… Nesse dia, o Paraíso acabou e começou a história humana… A história do bem contra o mal.

E tal é a impreparação para estas coisas do reino da maldade humana – mas apenas de alguns humanos – que: 158 deputados do Partido Liberal (a IL da terra); 119 do partido conservador (o Chega lá do burgo); 33 do partido do Quebeque (o PS local); 25 do partido democrata (o PSD lá da aldeia); 2 do partido Verde (o PAN lá do sítio) e 1 independente; todos e cada um aplaudiram, consciente ou inconscientemente, Yaroslav Hunka, um veterano, voluntário (portanto, consciente) da Primeira Divisão Ucraniana, conhecida como a Divisão Armada – SS Galicia ou a 14ª Divisão armada das SS. Nada mais, nada menos, sob comando direto das tropas nazis.

Tempos houve em que tal cartão de identidade provocaria, desde logo, a maior das repulsas. O simples facto de um fulano ser apresentado como combatente contra a URSS faria despertar os alarmes e, mesmo os mais envergonhados, retirar-se-iam de tal associação.

Mas, o facto desses tempos terem passado, não abona, não desculpa, não torna mais compreensível, a atuação dos parlamentares e governantes canadianos. Apenas torna tudo muito mais grave. O facto de tal suceder no “europeizado” Canadá, ajuda também a demonstrar a gravidade da situação atual no “Ocidente coletivo” e situação atual de elevado estado de decomposição dos valores morais, da memória histórica e da identidade coletiva, destes países que se auto designam por baluartes da liberdade no mundo. Como se a ignorância e a mais cobarde e oportunista das cumplicidades, pudessem conviver com a mais sã das liberdades.

Não poderia haver imagem mais arrebatadora, desconcertante e significativa da falta de seriedade e impreparação política, da hipocrisia doentia e do cego seguidismo, do que a imagem de um nazi a ser agraciado no parlamento canadiano. Eis onde escoa o branqueamento do nazismo e fascismo, sob o qual se ergue o chamado “nacionalismo ucraniano”, made in Galícia (território que até 1945 nunca tinha sido da Ucrânia da Rússia, que outra não havia). Tal branqueamento e cumplicidade, levados a cabo pelos apoiantes e agentes do sistema neoliberal EUA/NATO/EU, desaguam, de forma inexorável e trágica, na promoção da mais agressiva instituição de governação que o ser humano já conheceu: o fundamentalismo reacionário que o nazismo representa, estando presente, sob outras roupagens, em tantos e tantos episódios trágicos da História humana.

Com efeito, hoje, todos têm que dar razão a todos aqueles que chamavam “fascistas” aos que compactuavam, calavam ou branqueavam práticas fascistas ou reacionárias. Tantas vezes ouvimos dizer “para eles é tudo fascista”. Por mais radical que pudesse parecer, era o medo de quem sofreu, na pele, os efeitos nefastos do fascismo, que faziam com que os alarmes soassem quando surgia a mais ténue condescendência com o flagelo fascista, nazi e reacionário.

É que, não são, as elites que nos governam, hoje e ontem, que sofreram as amarguras do fascismo. Quem sofreu a violência e a miséria fascista e nazi, foram os povos trabalhadores e os seus representantes.

É a criança que tem de ir trabalhar, em vez de ir para a escola, quem sofre com o analfabetismo. O filho do industrial, do comerciante rico, esse vai para o colégio privado, para uma universidade no exterior, se não as houver no interior, ao seu gosto.

É o idoso doente que, esgotado de dor, por falta de cuidados de saúde, depois de uma vida de trabalho árduo, quem sofre por não haver hospitais públicos. O pai ou mãe do senhor empresário, do CEO ou do investidor acionista, esses vão para um qualquer hospital privado, ou, uma vez mais, para o exterior.

É o trabalhador, com um misero salário, quem vai morar em tendas, carros, nas barracas ou na rua, por não haver políticas públicas de habitação. O senhor investidor, chateia-se porque não sabe para que mansão há de ir pernoitar… Hoje, tudo isto está a voltar, assistindo-se a uma aceleração dos processos de acumulação capitalista à custa do empobrecimento da classe trabalhadora. Nem a mais reacionária extrema-direita, ou a mais condescendente das sociais-democracias, conseguem negar isto!

E volta porque deixou de ser crime, deixou de ser de mau tom, ser-se fascista, ser cúmplice do fascismo, branquear o fascismo, o nazismo. Hoje, os parlamentos ocidentais recebem, de Zelensky a representantes dos Azov, assumidamente fascistas, assumidamente xenófobos. Isto sucede porque no estágio histórico em que nos encontramos, os interesses económicos ocidentais sentem o chão a fugir-lhes e, com ele, o controlo hegemónico que pensavam manter sobre o mundo. Sem esse controlo hegemónico, vai-se a pilhagem do Sul Global; sem a pilhagem do Sul Global, sobra a pilhagem em casa. Eis a razão pela qual o neoliberalismo acelerou a exploração, porque é que os “Parlamentos” ocidentais estão cada vez mais carregados de direita radical e extrema-direita, emagrecendo a esquerda, mesmo a que falsamente se diz “moderada”; eis a razão pela qual as nossas condições de vida, todos os dias, se degradam; eis a razão porque o bolo Russo se tornou, uma vez mais, tão apetitoso, ao ponto de se voltar a fomentar a russofobia e, à boleia, e por ser o bolo de quem é, o fascismo e o nazismo.

É por tudo isso que é indesculpável, sob qualquer perspetiva, o comportamento do poder canadiano, do poder estado-unidense, do poder europeu. Todos saídos da mesma parideira capitalista, neoliberal, neoconservadora e reacionária. Se para mim é grave alguém, conscientemente, apoiar e homenagear um combatente nazi, ou uma sua iteração, como Zelensky; mais grave se torna fazê-lo, sem sequer o perceber! Ou, até, tendo medo de o perceber, não vá o tacho deixar de existir!

Quando ouço Anthony Rota pedir desculpa e, tornado bode expiatório, dizer que “tudo foi obra minha”; quando ouço Trudeau, uma figura de homem duplicado, de fatinho azul corporate neoliberal, dizer que “foi embaraçoso”; ou, representantes do partido liberal dizerem que “não se tinham apercebido”, limpando-se da responsabilidade política que têm… Apenas posso perguntar: Mas que gente é esta que nos governa? Que plástico deslavado e de má qualidade é este? Que seres são estes, sem espinha dorsal, sem memória histórica e identidade política? De que escola de lavagem cerebral, de que linha de montagem de drones, ou de que universidades da Ivy League, saíram?

Na sua irresponsabilidade, como sempre, não demoraram a declarar-se inocentes de tal feito, chegando ao ponto de, Trudeau, dizer que, o problema principal é “a propaganda russa feita a partir deste incidente”. Claro, o problema não é eles apoiarem nazis, o problema é os russos acusarem-nos disso… Porque isso é propaganda, certo? Eis ao que chega a desfaçatez! Dizer a verdade, passou a ser propaganda!

Também gravíssimo é hoje isto estar a ser discutido na praça pública, simplesmente, porque o poderosíssimo e riquíssimo lobbie sionista se manifestou e exigiu explicações. Não fossem os próprios donos disto tudo se sentirem ofendidos e… uma vez mais, a par de tantas outras, todos os dias, esta informação seria cancelada, apagada da memória coletiva e tratada como propaganda russa, sempre que alguém tivesse coragem de a denunciar. E não querendo eu apagar o sofrimento judeu às mãos do terror nazi (também não foram os únicos), é exemplo disto que refiro, o tratamento que é dado hoje, no Ocidente, à causa palestiniana e o total apagamento do sofrimento do povo palestiniano às mãos do terrorismo fascista sionista.

É, pois, muitíssimo triste que, alguém que se diga “democrata”, possa dizer que ouviu que se tratava de um ucraniano que combateu a URSS e não identifique logo, automaticamente, a possibilidade única de ele ser nazi; é ainda mais triste que tais pessoas sejam representantes “eleitos” de uma Nação. Tal circunstância demonstra a total impreparação desta gente para governar nem que seja a sua própria casa. É preciso ter um tal nível de desconhecimento histórico, aliado a uma ignorância extrema do modo de funcionamento da sociedade, que só o facto de assim serem os devia, desde logo, desqualificar para qualquer cargo público, quanto mais para se ser primeiro-ministro como Trudeau.

Mas esta situação também nos mostra o que é a comunicação social do costume, feita da mesma massa seguidista, acrítica e amorfa. Trata-se de um exército de drones a fazer lembrar os filmes de George Lucas. É impensável que, 78 anos depois de derrotado o nazi-fascismo, tenhamos chegado, pela via da lavagem cerebral, produzida nas melhores escolas, universidades e imprensa que o capitalismo pode comprar, a tal nível de ignorância, impreparação ou cumplicidade. Tão bons a cumprir e tão maus a pensar por si próprios. E depois… querem mandar no mundo inteiro! Não hão de eles apelidar de ditadores todos os que, muito justamente, não os deixam colocar-lhes a pata em cima!

Tudo isto leva-me a pensar sobre o que leem, que fontes consultam, quem ouvem e como se aconselham estes seres. Como podem ser todos tão iguais, não por um qualquer processo de osmose orgânica coletiva, mas através de um processo inverso, o do individualismo exacerbado, o qual, produzido nas mesmas fábricas, debita seres separados, mas sempre iguais.

A forma quase pueril como muitos são manipulados, não tomando contacto com as provas, mais do que retumbantes, de que os grupos neonazis integraram toda a estrutura de poder na Ucrânia; que foram estes grupos que fizeram Maidan; que foram os EUA quem os apoiou para os atirar contra a Rússia e produzir uma guerra por procuração, à custa do povo ucraniano e russo; que o ódio anti russo praticado não é salutar, é doentio; que os símbolos nazis são celebrados, na Ucrânia, por toda a parte; que Bandera era o líder de gente como Yaroslav Honka; que o banderismo é doutrina nacional na Ucrânia do regime de Kiev; que os símbolos nacionais eram os símbolos do neonazi Bandera; que o regime de Kiev e os países bálticos, dominados por partidos de extrema-direita, perseguem os povos de origem russa… Como é que, estando tudo isto provado, documentado e amplamente noticiado, nenhum destes drones, canadianos, europeus, ou portugueses, se questiona e o denuncia?!

Não é desculpa, também, esta informação ter deixado de circular na comunicação social do costume; não é desculpa esta informação ser apelidada de “propaganda russa ou de Putin”; não é desculpa que, quem a divulga, seja objeto de perseguição e cancelamento… Aos representantes de nações que se dizem “livres, democráticas e humanistas” teria de se exigir muito mais… Ao menos que tivessem pensamento crítico, perspetiva histórica e filosófica da vida. Mas nada… Nem um vislumbre. E quem a tem…. Tem medo de a assumir… O que também diz muito do ambiente em que vivemos e da luta de vida ou morte que se trava entre o bloco imperialista liderado pelos EUA e o Sul Global, liderado por Rússia, China, India, Irão, Brasil e África do Sul, entre outros. Uma luta entre um mundo governado por um, e um mundo multipolar, governado por todos!

Não é, de agora, que sinto que, quanto mais alto na hierarquia se senta um representante do establishment, mais medo ele tem de falar, mais genérico é o seu discurso e mais vazio de conteúdo se torna. Não é à toa que o discurso de Marcelo foi um buraco negro sugador de espaço vazio. Querer estar em cima de um muro sem ofender uns e querendo agradar  a outros…. É impossível.

Esse medo, esse alinhamento e a identificação entre os representantes diminutos, médios e intermédios, para com os seus superiores, sentados do outro lado do Atlântico (que por sua vez respondem a outros ainda maiores que circulam nos seus jatos e veleiros pelo mundo), já se tornou tão constatável, tão visível a olho nu e tão desprezível para quem tem um mínimo de pensamento crítico, que Scholz, na 78ª Assembleia Geral da ONU, teve de discursar para uma sala completamente vazia. Afinal, Biden já tinha falado… O que poderia dizer Scholz que Biden não tivesse já dito? O Sul Global não esperou nada dele, mas tão pouco os seus pares foram capazes de prever qualquer diferença… Conhecem-se de ginjeira e o roteiro é o mesmo! Nem uns, nem outros, estiveram presentes, sendo esse momento, uma imagem trágica do que se tornou a Alemanha, de hoje. Um país quebrado na sua alma, no seu orgulho, na sua identidade.

E é assim, que entre declarações de branqueamento do fascismo e do nazismo (compará-lo ao socialismo da URSS é branqueá-lo!), de diabolização da URSS e da Rússia, de desacoplamento da China porque nela não mandam (“desarriscar”, dizem) e de ver partidos como os “socialistas”, sociais democratas, os verdes, não apenas a compactuarem com a eliminação dos seus congéneres na Ucrânia, como ainda a receberem em loas o obreiro de tal tarefa… que me leva a dizer que, hoje, 78 anos após a derrota do nazi-fascismo, a Europa Ocidental (já para não falar dos EUA e do Canadá), voltou a demonstrar que o roteiro político que desagua no fascismo, na xenofobia, na intolerância e no ódio à diferença, está bem vivo e com saúde crescente.

Bastou que os EUA, especialistas em purgas anticomunistas, ao longo do século XX, e já neste século XXI, em profunda crise sistémica, olhassem para o mundo em reorganização e sentissem os seus pilares a abanar, para que tudo voltasse em força. O ponto de inflexão, na Europa, foi inequivocamente propagandeado! Sucedeu quando a própria UE, e a sua nunca eleita Comissão, bem como os “diligentes” representantes políticos dos “estados-membros”, se tornaram coniventes com uma superficial e contraditória comparação entre o nazi-fascismo e o comunismo na URSS.  

Apoiados numa pretensa ideia de que nos dois campos haveria repressão, então, passariam os dois a ser iguais. O que nunca disseram, é quem são os reprimidos de um e de outro. Enquanto no liberalismo, no fascismo e no nazismo (em graus crescentemente diferentes), o reprimido é pobre, que nunca deixa de o ser e é obrigado a ser analfabeto, a viver na rua ou a morrer precocemente doente; nos países socialistas, a acusada “repressão” repercutia-se sobre os mais ricos, simplesmente, porque passaram a ser obrigados a repartir a sua pornográfica riqueza, com quem nenhuma tinha. E as verdades têm de ser ditas, sendo por isso mesmo que temos de dizer que na URSS, por muitos erros que tivessem sido cometidos (e foram cometidos erros!), não existia desemprego, gente a viver nas ruas, fome, analfabetismo e falta de médicos. Tudo isto foi resolvido num espaço de 30 anos. Para se ter uma ideia, ainda hoje, no nosso “democrático” Portugal, é aos pobres que faltam médicos, não aos ricos.

Os países socialistas, goste-se ou não, deixaram para trás nações humanamente desenvolvidas, populações letradas, com qualificação e uma rede de infraestruturas de que ainda hoje gozam. A quem beneficiavam? Os pobres… à custa de quem? Dos mais ricos, através da justa redistribuição da riqueza e de uma racional gestão da existente. A verdade é esta e a verdade não tem ideologia, liberta por si mesma.

Comparar isto com o rasto de destruição, subdesenvolvimento e atraso que o fascismo e nazismo provocaram e o neoliberalismo traz de volta, não é ser sério! Quem se diz democrata e não conseguir distinguir estas duas formas de atuação, apesar dos erros e dos radicalismos próprios de sociedades em construção e nascidas de uma dor insuportável provocada pela violência extrema do passado (todos condenam a violência das revoluções, mas esses que a condenam, nunca condenam a violência dos regimes que as provocam), não é sério, não se pode dizer democrata e ainda menos dizer-se progressista, socialista ou o que for.

Acreditar que podemos construir um mundo mais justo, apoiado numa justa redistribuição da riqueza produzida (de outra forma não é possível) sem tocar nos interesses de quem fica com ela… Não é ingenuidade, é falta de seriedade! É demagogia, é mentira, é idealismo, totalmente divorciado da realidade!

E é esta confusão que colocou ao nível de agressor o país (a URSS) que mais sofreu para nos libertar da noite fascista, e punir o seu herdeiro principal, simplesmente porque tem nas suas fileiras um povo que se orgulha de tal feito… É razão para dizer que o General Zhukov tinha razão quando disse que “a Europa não nos perdoará por a termos livrado do fascismo”. Hoje, assistir a Paulo Portas, conservador, cristão e neoliberal, apelidar Putin de “comunista”, outro conservador, cristão, mas pela soberania do seu país, apenas porque insiste em não se submeter à ordem da desordem capitalista ocidental anglo-saxónica… Leva-me a afirmar que parte do caminho de volta já está feito, pois o fascismo e o nazismo vivem da mentira, da ignorância e da confusão…

Filhos do imperialismo e do capitalismo selvagem, o nazismo e o fascismo prosperam entre a demagogia, a mentira e o obscurantismo. Na Grécia, o povo votou…. Votou na extrem- direita… Agora tomem lá com uma proposta de retorno aos 6 dias de trabalho… O trabalhador, o pobre, trabalhará mais para assim o permanecer, enriquecendo ainda mais quem não trabalha, mas vive de quem o faz!

Seja como for, a máscara cai-lhes de vez! Já ninguém a pode colocar de volta!

Terão de se contentar com a tentativa de nos fechar os olhos a todos, para que não o vejamos!

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A CIA faz renascer o nazismo ucraniano

(Por Thierry Meyssan, in Rede Voltaire, 05/09/2023)

Proclamação da Ucrânia independente com os dignitários nazis. Por trás dos oradores, os três retratos expostos são os de Stepan Bandera, de Adolf Hitler e de Yevhen Konovalets.

Não é de espantar que a CIA estruture organizações contra a Rússia. O que é surpreendente, pelo contrário, é que ela não hesite em escolher nazis e nacionalistas integralistas para pretensamente defender a liberdade e a democracia.


No século XIX, os Impérios alemão e austro-húngaro projectavam destruir o seu rival, o Império russo. Para isso, os Ministérios dos Negócios Estrangeiros (Relações Exteriores-br) alemão e austro-húngaro lançaram uma operação secreta comum : a criação da Liga dos povos alógenos da Rússia (Liga der Fremdvölker Rußlands – LFR) [1].

Em 1943, o III° Reich criou o Bloco anti-bolchevique de nações (ABN) para desarticular a União Soviética. No fim da Segunda Guerra Mundial, o Reino Unido e os Estados Unidos recuperaram os nazis e seus colaboradores e patrocinaram o ABN [2]. No entanto, levando em conta os milhões de mortes pelas quais este era culpado, Frank Wisner, o número 2 da CIA, reescreveu a história do ABN. Ele mandou imprimir inúmeros livretos alegando que o ABN havia sido criado com a Libertação. Ele fingiu que os povos da Europa Central e do Báltico haviam, todos, colectivamente, lutado ao mesmo tempo contra os nazis e os soviéticos. Uma enorme mentira. Na realidade, muitas formações políticos da Europa Central tomaram partido pelos nazis contra os soviéticos, formando divisões SS e fornecendo a quase totalidade dos guardas dos campos de extermínio nazis.

John Loftus, o Procurador especial do Office of Special Investigations, unidade do secretariado norte-americano da Justiça, testemunhou que, em 1980, havia encontrado um pequeno povoado em Nova Jersey, South River, abrigando uma colónia de antigos SS Bielorussos. À entrada do povoado, um monumento aos mortos, ornado com símbolos SS, homenageava seus camaradas caídos em combate, enquanto à distância, um cemitério acolhia a tumba do Primeiro-Ministro nazi bielorusso, Radoslav Ostrovski [3].

Acredita-se muitas vezes que os Estados Unidos combateram os nazis e os julgaram em Nuremberga e em Tóquio. Mais isso é falso. Muito embora o Presidente Roosevelt fosse um liberal assumido, ele julgou possível recrutar traidores e colocá-los ao seu serviço. No entanto como morreu antes do fim do conflito, os criminosos de que se havia rodeado conseguiram chegar aos mais altos postos. Eles alteraram certos serviços a fim de atingir os seus objectivos. Foi o que se passou com a CIA.

Os esforços do Congresso, com a Comissão Church, que revelaram os crimes da CIA nos anos 50 e 60 não serviram para grande coisa. Todo esse mundo opaco mergulhou na clandestinidade, mas não interrompeu as suas actividades.

Os « nacionalistas integralistas » ucranianos de Dmytro Dontsov e os seus homens de mão, Stepan Bandera e Yaroslav Stetsko, seguiram este caminho. O primeiro, que fora já um agente secreto do Kaiser Guilherme II, depois do Führer Adolf Hitler, foi recuperado pela CIA, viveu no Canadá e morreu em 1973 em Nova Jersey, em South River, contrariamente ao que afirma o seu verbete na Wikipédia. Foi um dos piores assassinos em massa do Reich. Ele desapareceu da Ucrânia durante a guerra e tornou-se administrador do Instituto Reinard Heydrich em Praga. Foi um dos ideólogos da solução final para as questões cigana e judaica [4].

Chang Kai-Chek e Iaroslav Stetsko durante a fundação da Liga anti-comunista mundial.

Os seus homens de mão, Stepan Bandera e Yaroslav Stetsko, foram empregues pela CIA em Munique. Eles garantiram emissões em língua ucraniana para a Rádio Free Europa e organizaram operações de sabotagem na União Soviética. Stepan Bandera havia cometido inúmeros massacres e proclamou a independência da Ucrânia junto com os nazis. No entanto, também ele havia desaparecido da Ucrânia durante a guerra. Alegou ter sido aprisionado em «cativeiro honroso» num campo de extermínio. Isso é pouco provável, uma vez que reapareceu em 1944 e foi incumbido pelo Reich de governar a Ucrânia e combater os Soviéticos. É possível que ele tenha vivido na sede da administração dos campos, em Oranienbourg-Sachsenhausen, e aí tenha trabalhado no projecto nazi de extermínio das « raças » supostas de corromper os Arianos. Durante a Guerra Fria, cirandou pelo «mundo livre» e veio ao Canadá propor a Dmytro Dontsov que se tornasse chefe da sua organização [5].

O tempo passou e estes assassinos em massa morreram sem jamais terem tido de prestar contas. As suas organizações, a OUN e a ABN, deveriam também ter desaparecido. Mas nada disso se passou. A OUN reconstituiu-se por causa da guerra na Ucrânia. A ABN também. Dispõe agora até de um sítio Internet. Lá pode-se ler os folhetos da propaganda do pós-guerra segundo os quais a organização nunca existiu antes da queda do Reich. A ABN prolonga-se hoje com o « Free Nations PostRussia Forum » (Fórum das Nações Livres PostRussia- ndT), que será realizado, de 26 a 28 de Setembro, em Londres, Paris e possivelmente em Estrasburgo. O seu objectivo continua o mesmo : dividir a Federação da Rússia em 41 estados distintos. Não há a mínima dúvida possível sobre a filiação deste fórum : enquanto finge exprimir-se em nome dos povos da Rússia, não se contenta só em acusar Moscovo, mas atira-se também à China Popular, à Coreia do Norte e ao Irão. Nos seus documentos aborda também a questão da Venezuela, da Bielorrússia e da Síria. É claro, o ABN participou na criação e animação da Liga Mundial Anti-comunista [6], onde se reuniam a maior parte dos ditadores do planeta, agora candidamente denominada : Liga mundial para a liberdade e a democracia.

Este Fórum das nações livres do Post-Rússia foi criado pela CIA em reacção à intervenção militar russa na Ucrânia. Num ano e meio, já se reuniu 7 vezes, na Polónia, na República Checa, nos Estados Unidos, na Suécia e nos Parlamentos Europeu e Japonês. Simultaneamente, a CIA criou governos no exílio para a Bielorrússia e o Tartaristão, tal como tinha feito para o Iraque e para a Síria. Ninguém os reconheceu ainda, mas a União Europeia já os recebeu com deferência. Estes governos no exílio somam-se ao da Ichquéria (ou seja, Chechénia), o qual já é antigo.

O Fórum das nações livres do Post-Rússia imagina desmantelar a Federação da Rússia em 41 Estados independentes.

O dispositivo actual não está concebido para atingir o objectivo proclamado. Os Estados Unidos não têm intenção de desmembrar a Federação da Rússia, uma potência nuclear. A maior parte dos seus dirigentes tem consciência que um tal evento desestabilizaria completamente as relações internacionais e poderia desencadear uma Guerra nuclear. Não, trata-se mais de mobilizar para serviço dos Estados Unidos aquela gente que espera alcançar este improvável objectivo de desmembrar a Rússia.

Algumas personalidades políticas prestam-se a este jogo. É o caso da antiga Ministra polaca (polonesa-br) dos Negócios Estrangeiros, Anna Fotyga. Foi ela quem, em 2016, apresentou ao Parlamento Europeu uma resolução sobre as comunicações estratégicas da União Europeia. Ela idealizara um sistema de influência sobre o conjunto dos grandes média (mídia-br) da União que se revelou eficaz. Ou ainda, um deputado centrista francês, Frederick Petit. Já em 2014, os cabeças de cartaz do seu partido haviam ido à Praça Maidan, em Kiev, para se fazerem fotografar ao lado dos « nacionalistas integralistas ». Não falarei aqui do antigo deputado russo Ilya Ponomarev.

“Think-tanks” também, como a Fundação Jamestown. Ela foi fundada com a ajuda de William J. Casey, director da CIA, por ocasião da fuga de um transfuga de marca da URSS. Foi interditada na Rússia em 2020 (quer dizer, antes da guerra da Ucrânia), porque publicava já documentos sobre a fragmentação da Rússia. Por fim, o Hudson Institut, esse financiado por Taiwan graças à sua agência, a Liga Mundial para a Liberdade e a Democracia (antiga Liga Anti-comunista Mundial). Assim, ele pôde alojar uma sessão do Fórum das Nações Livres do Post-Rússia.

Fonte aqui.


[1]Liga der Fremdvölker Russlands 1916–1918. Ein Beitrag zu Deutschlands antirussischem Propagandakrieg unter den Fremdvölkern Russlands im Ersten Weltkrieg, Seppo Zetterberg, Akateeminen Kirjakauppa (1978).

[2MI6, Inside the Covert World of Her Majesty’s Secret Intelligence Service, Stephen Dorril, The Free Press (2000).

[3The Belarus Secret: The Nazi Connection in America, John Loftus, Albert Knopf (1982).

[4Ukrainian Nationalism in the Age of Extremes. An Intellectual Biography of Dmytro Dontsov, Trevor Erlacher, Harvard University Press (2021).

[5Stepan Bandera: The Life and Afterlife of a Ukrainian Nationalist: Facism, Genocide, and Cult, Grzegorz Rossoliński-Liebe, Ibidem Press (2015).

[6] «La Liga Anticomunista Mundial, internacional del crimen», por Thierry Meyssan , Red Voltaire , 20 de enero de 2005.


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