A justificação da opressão

(Hugo Dionísio, 31/10/2023)

Porque é que alguém, por se sentir tão zangado com a política, admite que se justifica tornar-se fascista, racista e reaccionário; mas esse mesmo alguém, que adere à cultura do ódio e da demagogia, não percebe que, alguém que tudo perde, até a sua dignidade e a esperança, por se encontrar do outro lado do mundo, tem direito e enveredar pela resposta violenta! Como se justifica tão desproporcional e contraditória consideração?

500 anos de imperialismo, pilhagem, exploração desenfreada e escravatura deixam marcas indeléveis no carácter das populações, nas suas crenças, moral e costumes. Não era possível, de qualquer modo, sucessivas gerações estarem sujeitas a toda uma ideologia justificadora do expansionismo, mercantilismo e imperialismo e, no final, permanecerem com as suas almas intocadas pelos valores – ou falta deles – que motivaram tal ideologia apropriadora.

Daí que, a exposição à ideologia expansionista do capitalismo ocidental na sua fase imperialista, resulte num misto de crenças – quando não crendices – próprias de uma sociedade em transição para uma identidade mais conforme com os valores que diz promover.

Uma das características que mais define o actual estado de espírito de uma parte importante – quiçá maioritária – das populações ocidentais, dominadas pela ideologia anglo-saxónica, a que se convencionou apelidar “liberal”, consiste na incapacidade total para compreender o lugar do outro, nomeadamente daquele que se encontra do outro lado de uma barricada ideológica, comunicacionalmente uma semiótica criada pelos poderes de facto para dividir.

Não admira que tal suceda. Afinal, já em tenra idade, os poderes capitalistas emergentes foram tão rápidos a apropriar para si o ideário religioso que justificava a evangelização. Quem nunca leu, nos livros de História, as justificações dadas pelos Estados que, saídos do feudalismo, já se encontravam numa fase de expansionismo das suas respectivas burguesias. Era por demais evidente o espírito de cruzada que justificava, em grande parte, a decisão de conquistar de Ceuta. É claro que, dizem-nos historiadores como António Sérgio e o próprio materialismo histórico, que a razão fundamental foi a económica. Contudo, não podendo, simplesmente, dizer-se ao povo que “vamos a Ceuta para tomarmos o que é do outro”, até porque roubar era feio e pecado, havia que desumanizar o inimigo e, à data, qual o melhor pretexto que o religioso? “Inimigos da verdadeira fé”, “infiéis”, “hereges”, tudo serviu para justificar o processo de expansão.

Quando já não se tratavam dos sarracenos, mas de povos pagãos, como sucedeu em África ou nas Américas, nada que fosse mais simples: “evangelizar” ou “salvar as almas” constituíram os mais comuns pretextos em matéria de propaganda. À medida que avançava o Renascimento, o iluminismo e se aproximava a era mercantil e, com ela, o surgimento de uma certa sofisticação ocidental, cultural e tecnológica, resultante do imenso capital apropriado à força, o pretexto religioso foi sendo abandonado em prol de motivações mais consentâneas com os novos tempos.

Neste quadro assistimos ao surgimento dos pretextos civilizatórios, chamando “selvagens” a todos os que se visava explorar. Já em África, os alemães diziam para si próprios que estavam ali para “civilizar” os negros. O mesmo disseram os portugueses, holandeses, belgas e outros. Todos queram as imensas riquezas africanas ou americanas, mas o objectivo mesmo era o de “civilizar”. Tratava-se de um imenso ímpeto “altruísta”, mas que resultou sempre em tráfico negreiro, genocídio, subdesenvolvimento e guerra com fartura. Neste quadro, nenhum Império foi tão longe como o britânico.

Este imenso altruísmo vivia muito do racismo. O racismo e o supremacismo branco, que foi sendo utilizado para desumanizar os inimigos e tornar aceitáveis as violências contra eles praticadas. Não nos admiremos, pois, que, após quase 8 séculos de tentativas frustradas de conquistar a Rússia, por parte dos impérios ocidentais – que acontecem ao ritmo de 1 a 2 vezes por século -, o que não falte para aí seja russofobia e racismo anti eslavo. Os próprios nazis ucranianos, hoje tão brindados no Ocidente, são os primeiros a dizer que têm estudos que “confirmam que os ucranianos têm sangue europeu e os russos não”. Sintomático.

A esta crescente russofobia não serão alheias as declarações de Pistorius, o Ministro Alemão da Defesa. Alemão que é como quem diz, que sabemos bem a quem ele responde de facto. E o que diz Pistorius? Disse: «temos de nos habituar novamente à ideia de que o perigo de guerra pode estar a pairar na Europa. E isso significa: temos de nos tornar aptos para a guerra. Temos de estar aptos para a defesa. E posicionar a Bundeswehr e a sociedade para isso», disse esta corajosa salsicha ao programa da pública ZDF «Berlin direkt». Que morram os filhos dos outros!

Este tipo de tiradas já vem, como cereja no topo do bolo, de uma preparação ideológica mais típica do imperialismo estado-unidense do que de qualquer outro. Afinal, todo o desmoronamento para o precipício a que hoje assistimos, acontece no quadro de uma substituição do ímpeto justificador “civilizatório” dos séculos XVIII, XIX e inícios do XX, pelo ímpeto “democrático” ou “humanista”, ao abrigo do qual se justificam guerras, sanções, embargos e todo o tipo de agressões, porque “eles são uma autocracia”, “uma ditadura” ou “violam direitos humanos”. Como se, alguma vez, fosse aceitável fazer o mal, em nome do bem.

No caso do Médio Oriente, assistimos a uma escalada no mesmo tipo de ideologia: o “eles são terroristas”, ou seja, já no quadro de uma lógica securitária. Seja o religioso, o civilizatório, o humanista ou o securitário, todos estes pretextos visam o mesmo tipo de objectivo: desumanizar quem se ataca, para que se torne aceitável fazê-lo. E o facto é que funciona.

E funciona tão bem que o cidadão europeu e americano, em geral, surge tão moralmente condicionado e tão cognitivamente desarmado, por séculos de propaganda desumanizadora (95% dos filmes de Hollywood representam os árabes como terroristas, bandidos, ignorantes ou desorganizados)  e estigmatizadora dos povos que se querem dominar, que deixa de possuir qualquer defesa contra estes processos, sendo facilmente presa de justificações falaciosas e sem fundamento material, moral, democrático, civilizacional ou religioso.

Este bloqueio emocional que horas a fio de TV produzem no carácter de um indivíduo que não o impeça, produz uma total incapacidade destas pessoas se colocarem no lugar das vítimas. Veja-se só esta contradição: uma parte crescente da população ocidental acha justificável votar na extrema-direita reaccionária, fascista, racista, apenas porque se sentem zangados com o estado das coisas. Incapazes de perceber – em função da muralha cognitiva que construíram – de onde vem o ta “estado das coisas”, justificam a adesão a ideologias extremistas, ao ódio, à ignorância e também à violência porque “nada muda”, “os políticos são todos corruptos”, “cada vez isto está pior”. 

Mas são estes mesmos, que justificam o seu comportamento incivilizado com as “dificuldades”, os que mais atacam a adesão do povo de Gaza a organizações mais ou menos apologistas da acção violenta. Quer dizer, um tipo chega sem dinheiro ao final do mês, mas não passa fome nem vive na rua, acha que tem direito a estar tão zangado que pode tornar-se fascista, racista e reaccionário; mas um árabe que perde a sua casa, a sua família, a sua liberdade, a sua pátria e a sua dignidade, todos os dias, várias vezes ao longo de mais de 75 anos, já não tem direito de optar por soluções mais extremas e violentas!

É preciso ter uma incapacidade para a fraternidade, para a compaixão, para a compreensão e para a solidariedade, capaz de destruir todos os laços sociais. Eis porque razão também as sociedades ocidentais se estão a desagregar, vítimas deste individualismo narcisista atroz. Fechados nas suas bolhas, acham tudo aceitável, se não os afectar; quando são afectados, tudo passa a ser aceitável. Eis também, porque razão consideram que um qualquer direito de defesa justifica tão elevado nível de atrocidade e tão desproporcionada resposta.

Não admira que andem atrás de políticos que dizem que acabam com os subsídios, que muitos deles recebem, com os serviços públicos que usufruem, ou com os direitos laborais que lhes permitem gozar férias e feriados. Para tudo olham como sendo distante e apenas afectando os outros.

Mas não, e a prova é, uma vez mais, o que se passa aqui. A mesma “democracia” que diz que um país é democrata, mas que pode, mesmo assim, descarregar o equivalente a duas bombas de Hiroxima em cima de um campo de concentração com 40 km de cumprimento por 10 de largura, é a mesma “democracia” que assiste a uma administração – Biden – deslocar a maior mobilização militar para o Médio Oriente desde 2003, o ano da infame – e, porém, “aceitável – invasão do Iraque. E tal mobilização que indicia intenções que vão muito para além da simples “defesa” do Estado sionista, para que “se defenda” até tudo matar, denunciando perspectivas belicistas que podem resultar na terceira guerra mundial e, tudo isto, sem qualquer respaldo parlamentar. Tal como nos vassalos europeus quando, por ordem de uma burocracia europeia não eleita, os respectivos governos aceitaram intrometer-se numa cruzada contra a Rússia sem qualquer discussão ou escrutínio na casa da democracia, que é o Parlamento.

O mesmo “estado de direito” que dizem ser Israel – que convive com dezenas de anos de ocupações violentas, extorsão e prisões arbitrárias de todos os que se opõem permitindo o mais evidente abuso de direito, e que transforma a legitima defesa (defesa de quê?) num direito a exterminar -, é o mesmo “estado de direito” que, já no Ocidente, permite que a burocracia de Bruxelas censure a informação em Portugal e que empresas americanas de comunicação (redes sociais) nos persigam a liberdade de opinião com as suas “regras da comunidade”.

É que, se pensam que o que se faz aos outros não tem influência em nós… vejam bem a História, porque o que permitimos aos outros, é o que permitimos a nós próprios, quando a justificação aparecer. E por isso é que, cada vez mais, se comprova a verdade universal a que Che Guevara aludia: enquanto não formos todos livres, ninguém é livre!

Porque podemos sempre ser alvos da mesma opressão que hoje justificamos contra os outros!

Inscreva-se no telegram: https://t.me/canalfactual

Inscreva-se em MultipolarTv: https://www.youtube.com/@canalmultipolartv/streams

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

Dores de crescimento

(Hugo Dionísio, 24/10/2023)

O nível de encenação a que assistimos, na cobertura que os órgãos de comunicação dominantes fazem dos factos da guerra, só é comparável com a brutalidade do aparato de censura, cancelamento e doutrinação, colocados em vigor, num muito pequeno espaço de tempo.

Se, no primeiro caso, as “técnicas” desenvolvidas na cobertura mediática do conflito na Ucrânia representaram um exemplo deplorável, tão condenável quanto seguido, da construção de uma narrativa, cujo carácter sensacional convive com a distância em relação à realidade; no segundo caso da guerra de Israel, a eficácia e vastidão do sistema de censura colocado em prática, representam todo um novo nível de intervenção das classes dominantes, conseguindo, em dias, o que, no conflito ucraniano, demorou meses a atingir O que nos dizem estas diferenças?

A primeira coisa que me vem à cabeça é “descuido”; a outra é “desespero”. Imagens como aquelas a que temos assistido, com o monstro adormecido, Biden, a fazer referência a imagens que nunca viu, sabendo que se trata de notícias falsas (como no caso das criancinhas ou do hospital); imagens e áudios fabricados para fazer parecer que aconteceu o que não teve lugar; jornalistas a atirarem-se para o chão, fingindo estarem a proteger-se de bombas enquanto transeuntes circulam ao seu lado com toda a calma; jornalistas assassinados, vítimas enquanto “danos colaterais” por estarem a fazer o seu trabalho… Tudo aponta para o descontrolo, o desespero e a tomada de medidas contingentes que visam conter a enchente.

Neste momento é muito claro, até pela proposta que o monstro adormecido,Biden, faz ao Congresso, que os EUA se encontram envolvidos por uma profusão de fogos, por si ateados, não sabendo para que lado soprar com mais força. O pacote de mais de 100 mil milhões de dólares, incorpora dinheiro para a Ucrânia, a maior fatia, para Israel, para Taiwan e para combater a influência chinesa no domínio da comunicação, ou seja, mais e mais fake-news, uigures e trabalhos forçados sobre a China. O problema é que, qual saco de gatos, cada republicano que abre a boca, seja Lindsey Graham, seja Mitch Mcconnel, todos têm conceções diferentes sobre onde e como atacar o Eixo do Mal. Aliás, esta terminologia, criada por G. W. Bush em 2002, continua em voga, cristalizando-se no tal país que, segundo a propaganda liberal, não tem medo da mudança! Ah! Pois não!

A verdade é que, todas estas reacções, umas brutalmente desastradas, outras violentamente desesperadas, denunciam uma realidade factual que não escapa a um sem número, cada vez maior, de pessoas. É que a fractura social provocada pela situação no Médio Oriente, nas sociedades ocidentais, é de uma profundidade proporcional à desigualdade de forças dos interesses em confronto, tanto cá, como lá.

Se no caso da guerra, a que opõe a NATO à Rússia, passada na Ucrânia, cujo povo é usado como exército, as fracturas sociais, causadas pelos interesses em confronto, se demoraram a sentir e apenas se fizeram notar quando o cinto começou a não ter buracos para tanto emagrecimento, quando o carro começou a ficar na garagem e quando ligar o aquecimento se tornou um luxo; já no caso do conflito em curso no Médio Oriente, as ondas de choque e o antagonismo social, não passam ao lado de ninguém, envolvendo toda uma massa humana consolidada pela história de 75 anos de ocupação, opressão e apartheid (se contarmos apenas a partir de 1948 ao invés de o fazermos a partir da declaração de Balfour e do mandato britânico).

Diga-se, em abono da verdade, que, no caso português, nem numa situação, nem noutra, as fracturas estão suficientemente expostas para que coloquem em causa a coesão social; o que já não é o caso de países como a França, a Inglaterra ou a Alemanha. Nesses casos, em especial dos continentais, os seus governantes, em face de uma contestação social que já não é de hoje, consideraram, simplesmente, que o sistema não comporta o nível de protesto que se fez antever. A solução, muito típica de sistemas que dizem uma coisa e fazem o seu oposto, foi a mesma de sempre, proibir, proibir, proibir. E assim, perante o desespero causado pela sensação de descontrolo, rapidamente se volta à sociedade proibitiva que se dizia ultrapassada.

Mas, mesmo no nosso “brando” Portugal, nunca a causa palestiniana levou tanta gente a uma manifestação como a última realizada no Martim Moniz, na qual a representação jovem era muito considerável. Ao contrário, já a concentração pró-israelita apenas logrou levar à rua umas meras dezenas de manifestantes. Já se sabe que a direita, nestas coisas da rua, tem de lhe doer mesmo muito no bolso para que deixem o conforto das suas coberturas e moradias, limitando-se, normalmente, à utilização do imenso e socialmente desproporcionado poder que tem na comunicação social – cuja propriedade detém – e nas redes sociais, cujos bolsos profundos e recheados fazem maravilhas na compra de publicidade que aumenta, tão artificial como exponencialmente, as visualizações, sugestões, likes e demais variáveis algorítmicas.

O seu imenso poder económico também faz milagres quando se trata de cancelar e promover a censura, perseguição e estigmatização de quem promove os interesses contrários. Quando de cancelamento se trata – novo termo para a velhinha censura -, nem as maiores estruturas propagandísticas sobrevivem. A prová-lo está o sucedido com Paddy Cosgrove, co-fundador do enorme sucesso de marketing sociopolítico, a WebSummit. Um evento que propagandeava o novo e pós-industrial “Admirável Novo Mundo Digital”, não parece ser capaz de resistir às ondas de choque que se fazem sentir na decorrência do sucedido no dia 07/10/2023. Digo, apenas 07/10/2023, porque, para os interesses dominantes, todos os olhares se resumem a esse fatídico, mas muito previsível, momento. O momento que suscitou a corrida descuidada e desesperada a que assistimos agora. O momento análogo ao famoso “a guerra começou em 24/02/2022”.

O CEO da WeSummit terá mesmo acreditado que, por lhe terem concedido a tolerância para convidar um Noam Chomsky, em 2022, ou um Snowden em 2019, que o mundo digital das plataformas de Silicon Valley seria realmente livre? Será que ele não tinha percebido, entre muita fanfarra e glamour que, aqui e ali, os pesos pesados do capital tecnológico apenas permitiam umas figuras da “esquerda” liberal identitária, porque era preciso dourar a pílula e criar a ideia que, no Admirável Novo Mundo Digital, haveria espaço para todos? Paddy Cosgrave terá programado muitos algoritmos, ou talvez seja também propaganda, mas deveria ter lido o “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley. Teria entendido que a maior capacidade tecnológica nas mãos erradas, produz um mundo errado. Um mundo errado, comandado por uma elite desesperada e descuidada é capaz de produzir efeitos realmente imprevisíveis.

O que não foi nada imprevista foi a reação de Silicon Valley às declarações de Paddy Cosgrave. É verdade que o único crime que Paddy Cosgrave cometeu foi o de pensar e opinar sobre o que considerava justo. Mas, no “Admirável Mundo Novo Digital”, todos tomam “soma” para não sentirem as contradições que o mundo contém. Nesse contexto, a droga que Huxley inventou para que as suas personagens não tivessem emoções, é substituída, por doses intermináveis de cancelamento, fake-news e muita, mas mesmo muita estupidez, em doses directamente proporcionais ao poder mediático que as grandes oligarquias financeiras têm sobre os meios de comunicação. Quando alguém a não toma, vê o que não deve, e, tal como no livro de Huxley, o poder não lho perdoa!

E foi assim que Paddy Cosgrave percebeu – e todos nós também – que, a ligação entre o poder hegemónico dos EUA e a existência do estado de Israel com as características arbitrárias, autoritárias e intolerantes, que se lhe conhecem, não é fonte de acaso, sendo, antes, uma relação umbilical, simbiótica, vital. Com este poder, tudo fia mais fino. O espaço para qualquer questionamento, no âmbito mediático, principalmente em eventos de grande abrangência, é próximo do zero. A forma urgente como se comportaram a META (Facebook, Instagram e Whatsapp), Alphabet (Youtube, Google), Amazon, Intel (microchips), Siemens, e outros pilares do Admirável Novo Mundo Digital, demonstra que, os termos “desespero” e “descuido” cabem muito bem na caracterização. Tomar a acção que tomaram, relativamente à organização em causa, não pode deixar de alimentar as ondas de choque que estas visariam, precisamente, evitar.

O que eu daria para saber agora o que vai na cabeça de um Carlos Moedas, uma figura paradigmática de um moçoilo bem-comportado do mundo digital (até o confundo com o Medina, tal a similaridade do perfil). “Livremente” obediente aos poderes de facto que nos governam, não pode vir defender a WebSummit; mas precisaria de a defender para defender a sua imagem e a imagem da Lisboa que diz querer mudar (e como a tem mudado… para pior, o que era difícil). Como sairá Moedas deste imbróglio sem ofender os seus patrocinadores?

O facto é que, se as semelhanças existem, mais ao nível do modus operandi, as diferenças para o caso ucraniano são absolutamente decisivas, por mais que Mariana Mortágua comparasse Israel à Ucrânia, ou o HAMAS à Rússia. Se, no caso ucraniano, ainda houve espaço para algum dissenso, aqui e ali, na comunicação social e, principalmente, nas redes sociais – isto apesar da censura dos canais de massas do “inimigo” -, no caso do reino dos sábios do Sião, não há possibilidade de dissenso possível. É o “estão comigo, ou contra mim”, mas em esteróides.

A diferença entre a situação ucraniana e a israelita é tão abissal que, quando se trata de defender os interesses do sionismo em Israel, a Ucrânia, com que há dois anos levamos 24/7, 365 dias por ano e 60 segundos por minuto, é apagada do mapa! Portanto, não foi apenas na WebSummit que se fizeram sentir as diferenças fundamentais, sistémicas, entre o “apoio” a Kiev e o apoio ao estado de Israel, mesmo na sua versão sionista mais radical. Essa diferença nota-se no unanimismo do congresso americano, no silêncio da União Europeia e no comportamento regrado de todos os burocratas políticos do arco do poder, de todos os países da UE. Aliás, deixem-me que pergunte: ainda existe a União Europeia? Onde anda Úrsula Von Der Liar?

A reacção dos poderes de facto, a qualquer enunciado que coloque em causa estes interesses, é tão violenta, tão brutal e decisiva, que visa afastar, desde logo, qualquer veleidade em emitir o mínimo vociferar que destoe do normal ruminar. A agressividade demonstrada pelos monopólios do digital, dos embaixadores dos EUA (seguramente) e (reconhecidamente) dos diplomatas de Israel, relativamente ao CEO (isto de se ser CEO tem as suas implicações em matéria de mordaça) do WebSummit, é mesmo para deixar qualquer um petrificado e em sentido. Não há melhor mordaça para esta gente do que o medo da perda do acesso às migalhas, a que muitos também chamam “sucesso” e outros “meritocracia”.

Se, mesmo na Ucrânia dominada por Kiev, os jornalistas ocidentais só começaram a ver o seu acesso ao terreno em causa, a partir do momento em que se percebeu que a teoria da vitória era, isso mesmo, uma teoria; em Israel, os jornalistas são simplesmente impedidos de entrar nos locais do conflito, e muito menos em Gaza.

Daí que, nos telejornais do fact-checking e do polígrafo, se multipliquem as peças sobre os reféns, sobre o dia 07/10 e sobre os reféns, e sobre o dia 07/10, e mais uma vez sobre os reféns e sobre o dia 07/10.

Mas na Ucrânia, o poder hegemónico dos EUA sentia-se ainda, no controlo. É claro que já sentia a pressão da urgência, mas, mesmo assim, ainda podemos detectar um vislumbre de estratégia, embora tudo fosse muito marcado pelos tacticismos, alguns deles muito amadores. Mas hoje, no tempo que corre, não há nenhum indício que nos dê a certeza definitiva de que o poder hegemónico se sente no controlo. E não sou eu apenas quem o diz, são os diversos poderes que o pressentem. Que mensagem passa Mahmoud Abbas quando rejeitou a reunião com Biden? E que mensagem passa o Ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão quando não recebe as chamadas de Blinken? E que mensagem passam as autoridades dos EUA quando, ao invés de ameaçarem, como era costume, se resumem ao silêncio? Penso que dois porta-aviões e 2000 marines são resposta suficiente para o que esta gente deve estar a sentir, em face de tão enorme impotência!

Em Gaza, no que à imprensa diz respeito, só lá estão os jornalistas que lá estavam e que ainda não foram assassinados pelo… É melhor não escrever, pois não quero que cancelem o que escrevo. Mas vocês sabem bem a que poder me refiro. E é nesta fase que eu me lembro do que escreveu o filósofo José Gil no jornal o Público. Diz José Gil que, o que faz com que Israel conte com a simpatia da maior parte das pessoas é o facto de o Hamas tratar de forma tirânica, o povo palestino de Gaza, e, ao invés, Israel ser governado por um poder democrático.

Coisas da construção da opinião colectiva à parte, mas que não deveriam escapar a um filósofo; dizer que um estado que impõe um apartheid sobre um povo, sobre os árabes que habitam o seu território; um estado que prende e julga crianças, o qual detém anos a fio, sem acusação e sem processo crime; que há mais de um século ocupa e despeja de suas casa os árabes que vivem na Palestina… É um poder democrático… É razão para dizer, se a democracia não garante um tratamento mais humanista do que as piores ditaduras, estamos perdidos.

E novamente voltamos ao descuido e ao desespero. José Gil, como um equilibrista na corda bamba, também diz que outra razão pela qual as pessoas tomam o partido de Israel está no facto de o Hamas ser conotado com o mal. Ora, eu cá para mim não sei, mas pelo que vejo, quase metade da população judaica de Israel não está nada de acordo com José Gil. A quantas manifestações temos de assistir com gente a chamar ao Bibi corrupto, ditador e terrorista? Também não gostam do HAMAS? Claro que não! E quantos palestinos gostam de Bibi? Não valerão o mesmo, ontologicamente, as opiniões de uns e outros?

E não saberá José Gil que, se o Hamas é mau, que tal “maldade”, para além de se tratar de uma categoria eminentemente moral, a mesma não resultará, ao invés, da exploração de um atroz sofrimento causado pela frustração, pela desesperança e pela perpétua humilhação a que aquele povo é submetido? Não estudou ele, José Gil, como a miséria, a desesperança e o medo moldaram e cimentaram o fascismo que se alimenta desse horror? Como pode uma pessoa que se diz “filósofo” passar ao lado dos efeitos que tal sofrimento tem na consciência individual e colectiva de um povo? E por fim, como pode José Gil passar ao lado da influência que os poderes de facto têm, através do controlo dos meios de comunicação, na construção das opiniões? Será que José Gil vive num vácuo?

O que me parece é que, como filósofo, José Gil sabe melhor do que ninguém quais os poderes que estão em causa, e, como tal, tendo que viver “dentro”, porque “fora” não dá, pressentindo o desespero com que os mesmos tratam qualquer vislumbre de dissensão, o que faz o filósofo é recorrer à racionalização. Fosse pela ciência e José Gil saberia que a liberdade não existe no vácuo e não prospera em sociedades marcadas pela violência, pela opressão e pelo medo. Daí que as piores ditaduras fomentem o medo, para depois fazerem prosperar a alienação. Daí que 1984 de Orwell assente na ideia de guerra eterna e os EUA de hoje tenham medo da sua própria sombra, dividindo o receio entre Big Foot, Aliens e Ovnis, Chineses, Russos, Cartéis mexicanos, latinos, gangues de negros e outras obras “satânicas”.

Por outro lado, dizer que a opressão em Gaza é resultado do Hamas, como faz José Gil, é esquecer que Gaza está cercada por muros, várias centenas de postos de controlo e o seu povo não é livre de entrar, sair, comprar, vender, emitir e transmitir as suas escolhas. Já para não dizer que, a posição de José Gil esquece as causas da própria origem do Hamas. Acusar o Hamas de negar a liberdade ao povo que governa é o mesmo que acusar os leitores de José Gil, como eu, de serem os responsáveis pela falta de liberdade que certamente sentiu ao escrever a sua análise. Lamentável.

O que José Gil pressentiu foi que a fractura social é tão profunda, a linha divisória é tão marcada, que se tornou um tormento escrever qualquer coisa que não a tivesse em conta. E tentando, acabou por ela marcado, dividido e, como tudo o que é dividido, é incongruente.

O que José Gil sabe, como todos nós, é que o desespero leva às mais imprevisíveis e inesperadas consequências. Com medo delas, optam todos por fazer o que fazem tão bem quaisquer figuras de “sucesso” quando se trata opinarem sobre assuntos sérios e fracturantes como a desproporcionalidade abissal entre a força israelita e a fraqueza palestina: dizer disparates, generalidades, ou não dizer mesmo nada!

Numa altura em o funcionário dos Rothchild, Emmanuel Macron, optou pelo disparate, e veio propor uma solução “à Síria”, para ocupar o norte de Gaza e aceder ao gás natural que aí abunda, tal como usaram o esquema “combate ao ISIS” para ocupar um terço do território sírio, devemos questionar-nos sobre quão grande é o desespero que os leva a tentar uma solução que pode fazer despoletar um conflito de larga escala. Uma segunda iteração síria em território palestino, já não apanhando ninguém de surpresa, soa a uma coisa absolutamente desesperada.

Sendo aterrador, este desespero também resulta do crescimento: do crescimento das alternativas de desenvolvimento; do surgimento de novas alternativas de luta; da construção de um novo mundo que rejeita a entrega de toda a hegemonia a um qualquer povo que se considere privilegiado ou eleito.

Nesse sentido, e com todos os perigos que caracterizam a situação, o desespero denunciado não mais resulta que das dores de crescimento de uma resistência que vai ganhando forma, tracção e momento. Sem o dizerem, todos os sabem!

Acompanhem também:

MultipolarTv em https://www.youtube.com/@canalmultipolartv

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

Farinha do mesmo saco

(Hugo Dionísio, 09/10/2023)

O que se passa na Palestina é simplesmente hediondo. Não existem palavras para descrever a sucessão de acontecimentos que todos observamos. E, também muito importante, é o pior que poderia acontecer ao regime de Zelensky. Nestas coisas da guerra, os momentos são todos maus, porque, regra geral, quem sofre é quem não tem responsabilidade alguma. Mas, numa altura, em que o regime de Kiev luta desesperadamente pela sobrevigência, quer militar, quer financeira… Num tempo em que assistimos ao cancelamento da afamada “contra-ofensiva” … O seu patrocinador principal, estar a braços com uma situação explosiva no seu ponta de lança no Médio-Oriente… Não há de a sua dama andar, por Nova Yorque, a comprar jóias que nem uma louca, com o dinheiro roubado aos povos ucraniano, americano, europeu, japonês e australiano.

Se o que se passa na Palestina (como lhe chamou o Prof. Lejeune Mihran, a “guerra na Palestina”), vai fazer balançar as placas tectónicas da credibilidade americana, que já se encontra pelas ruas da amargura… Ver Blinken fazer aquele papel confrangedor, depois de tudo o que disse sobre a Rússia e o seu protegido regime de Kiev… Se o Sul global já não levava nada disto a sério, depois desta tomada de posição…. Qualquer dia estamos mais isolados do que a República Popular da Coreia. E por responsabilidade outra que não seja a própria. Ao contrário da RPDC. E se, até aqui, os EUA, nem com toda a sua máquina de pressão, repressão e coação, conseguiram levar os países que representam 85% da Humanidade a tomar o partido do regime de Kiev, ou seja, a cair na falácia do desgraçadinho e no conto da carochinha… Depois disto… A coisa vai-se agravar muito, prevejo. Os acontecimentos na Síria (retaliação da Turquia em relação a ataque dos EUA a um dos seus drones); no Iraque (proibição do uso do Dólar); e um pouco por todo o lado, vão acelerar e ganhar uma tracção nunca antes concebida.

É que, o Império hegemónico, cuja manta é cada vez mais curta – e o que se vive na Palestina não está disso mesmo dissociado – pode dar-se ao luxo de deixar cair o seu exército por procuração. Menos território, mais território… Para os EUA, estabelecerem as fronteiras na Polónia ou na Ucrânia, não é uma questão de sobrevivência. Embora não melhore as coisas (perdem qualquer possibilidade de conquistarem aos russos o controlo do Mar Negro) …

Agora, o estado sionista… Esse sim. O regime sionista constitui algo de estratégico, e não apenas por questões meramente geopolíticas! A ligação entre a entidade sionista e o poder hegemónico imperialista dos EUA é uma ligação umbilical, profunda, cujo poder das elites se entrelaça e constitui uma só polpa disforme, mas extremamente abrangente. Não é possível, simplesmente, separar a estrutura financeira, económica e social dos EUA e das elites judaicas que apoiam a versão fascista, ortodoxa e extremista do judaísmo, o sionismo.

Por isto também, esta situação não poderia vir em pior hora para o chefe executivo de plantão no território ucraniano. E ninguém se admire por ver Zelensky apoiar o sionismo. E não o faz por ser judeu. Nada disso! O que não faltam são judeus que são a favor da solução de dois Estados e, outros, muitos vivendo nos EUA, contra a existência do próprio Estado de Israel.

O apoio de Zelensky ao estado sionista e ao sionismo, exigindo que trate os muçulmanos como ele diz que os russos tratam os ucranianos – o que não é verdade -, é, em si, extremamente significativo e constitui um exemplo ideal para descrever o tipo de ideologia por que se segue o governante do regime de Kiev.  Ambos – judeus sionistas e ucranianos pró Galícia russófobos – professam uma ideologia de total intolerância em relação aos povos a que se dizem opor e os quais dizem ser seus inimigos. Tal como nas redes sociais e nos meios onde proliferam os partidários do regime de Kiev, também nos meios onde convivem os apoiantes do sionismo não falta a utilização de epítetos como “terroristas”, atirados contra os que consideram seus inimigos.

E porque é que tal sucede? É a caracterização como “terrorista” – tal como o racismo ou a xenofobia – que visa criar o pretexto desumanizador que justifica a agressão indiscriminada. Seja no estado sionista de Israel, em relação aos muçulmanos da Palestina, seja nos territórios ucranianos, ainda controlados pelo regime de Kiev, em relação aos povos russófonos, de origem húngara, romena ou cigana; o ataque à cultura, à língua, aos símbolos, à religião e à identidade desses povos, faz parte do seu dia-a-dia, como faz parte a sua guetização, punição pública, privação de direitos civis e confiscação dos bens pessoais e das suas organizações sociais e políticas.

Tal como a entidade sionista faz a Gaza, cercando o território com muros, empilhando uma vasta massa humana num território minúsculo, sem saneamento básico, saúde pública, no qual prolifera a doença, utilizando o processo que usaram os fascistas argentinos com os negros, ou os nazis de Hitler com judeus, comunistas, eslavos russos ou ciganos, também o regime de Poroshenko, e depois de Zelensky, o tentaram fazer com os povos do Donbass, cercando-os sob a ameaça de um “blitzkrieg”, privando-os de água, electricidade, comunicações, combustível e alimentos. Hoje, a autoridade sionista prepara a solução final, que Hitler também preconizou contra o povo judeu, e Zelensky preconizou – e não alcançou – contra os povos do Donbass. Neste momento, Gaza já está cercada por todos os lados e a sua população privada de água, electricidade e alimentos. E porquê? Porque tiveram o desplante – veja-se só – de tentarem repudiar e rechaçar uma ocupação bárbara e um apartheid tirânico que compete na selvajaria com o apartheid original Sul Africano.

O povo Palestino, de Gaza à Cisjordânia, é punido por tentar-se defender contra o ocupante, o aniquilador, o tirano, o autocrata. O mesmo tentou fazer Zelensky, com os povos russófonos, quando estes perceberam o que estava a acontecer em Kiev e decidiram não querer viver sob um regime que os queria perseguir e matar. Julgo que a russofobia do regime de Kiev e dos seus apoiantes é absolutamente inegável, chegando-se ao ponto de as “tolerantes” redes sociais ocidentais “tolerarem” que alguém diga que “os russos têm de morrer todos” ou que alguém tem de “matar os dirigentes russos”.

O carácter odioso de um e outro regime, que justificam o seu sectarismo, fundamentalismo e extremismo com uma violência de que não são, nem nunca foram alvo, é tão doentio como só pode ser algo que seja artificial. O carácter odioso, aniquilador, solucionador que grassa entre o discurso do sionismo e do neonazismo ucraniano, contra os povos que se lhes opõem, não encontra correspondência do outro lado. E mesmo que, pontualmente, se encontre algo do tipo, tal só é feito em total situação de desespero. Ao contrário, o ódio doentio esgrimido por estes dois regimes é indiscriminado e transmitido a partir de uma posição e conforto e segurança com o poder que se detém. Quem o transmite, quem o emite e quem o propaga, está muito longe de se encontrar numa situação de ruptura: os maiores responsáveis pela transmissão desse ódio vivem no fausto e no luxo da sua degenerada corrupção, beneficiando dos seus milhões roubados ao seu próprio povo. Também nisto, Zelensky e Netanyahu são farinha do mesmo saco: escroques corruptos e vendidos ao maior pagador.

Tal como as forças de Kiev bombardeiam diariamente zonas civis da Crimeia e do Donbass, desde 2014, sem intenção de atingir qualquer alvo militar, apenas com o intuito de não deixar descansar, não deixar criar-se uma aparência de normalidade, para que essas pessoas, aos poucos, ou morram ou fujam; também o poder sionista faz isto na Cisjordânia, em Gaza, no Irão, na Síria, no Líbano, há dezenas de anos, bombardeando o que lhe apetece, quando lhe apetece, para punir e demonstrar arrogantemente a força do seu bárbaro e indiscriminado poder.

Quem condena a reacção russa à situação no Donbass, à nazificação da Ucrânia (hoje absolutamente exposta) e à entrada da NATO no território, são os mesmos que condenam a reacção do povo palestino, como são os mesmos – coincidência das coincidências – que criticam a explosão de violência latente em revoluções sociais progressistas. Curiosamente, tais gentes, são incapazes, ao mesmo tempo, de condenar a violência da ocupação que gera a resposta armada e desesperada, na Palestina; o fascismo, intolerância e ameaça latente que justificou a Operação Especial Militar; ou, a violência da repressão económica, política, social e cultural que o neoliberalismo, o fascismo, impõem aos povos que se revoltam. Uns e outros, são os mesmos! Nominalmente. Sejam os chefes, sejam os servidores.

Os mesmos que acusam o mártir povo palestino de ser “terrorista”, quando se defende, tornando as vítimas em agressores, são os mesmos que tornam os agressores em vítimas na Ucrânia, e as vítimas em “rebeldes pró-russos” ou invasores. São, também, os mesmos que usam os povos, como o ucraniano, como carne para canhão das suas pretensões hegemónicas. No caso ucraniano, para dominarem e colocarem de joelhos a Europa e se apoderarem do Mar Negro, para poderem controlar a Eurásia e destruir a Rússia como nação, apoderando-se de dezenas de triliões em recursos naturais; no caso sionista, para controlarem a região do planeta com mais recursos petrolíferos, que suportam – ainda – a sua falsa moeda de papel.

Quem suporta o sionismo, são os mesmos que implantaram o nazismo na Ucrânia, a partir da Galícia, recuperando Bandera, cujas tropas são agora condecoradas em parlamentos das suas colónias, como no caso do Canadá. Quem suporta o sionismo e o Banderismo, são os mesmos que, terminados os tribunais de Nuremberga, transportaram para o seu território competentes (na produção e desgraças) quadros nazis e fascistas, com os quais fortaleceram o FBI e formaram organizações como a CIA.

Demonstrando que sionismo, nazismo, banderismo e jihadismo ultrarradicais são todos formas de terrorismo político, de extremismo cultural, plantado no ódio com a força que só a ignorância e o sectarismo podem dar, temos os EUA e a sua NATO a apoiarem e usarem todos estes exércitos apocalípticos – quais 4 cavaleiros do apocalipse – na tentativa de imporem, defender e salvar a sua almejada hegemonia mundial. Afinal, de toda esta salada geopolítica só pode sobrar a questão: quem suporta o sionismo em Israel; quem suporta o banderismo na Ucrânia; quem suportou a Al-Qaeda, a frente Al-Nusra e o ISIS na Síria, Líbia, Iraque e África; quem apoiou a progressão do nazismo e quem aproveitou os seus restos mais tarde? A resposta é óbvia, é só uma e é sempre a mesma! E só mesmo muita cegueira, má vontade ou comprometimento, material, cultural e social com o imperialismo e com o seu aparato de poder, podem justificar que alguém não o veja.

E, assim, não foi preciso esperar muito, para cair em desgraça toda a narrativa ignóbil, estupidificante, imbecil, falaciosa, fundamentalista, sectária, extremista e fascista, com que tivemos de levar, a respeito da “agressão” russa à “indefesa” Ucrânia, presidida pelo novo “Churchill”. Se a rejeição do Sul Global, de 85% da Humanidade, em aceitar a narrativa trabalhada pela CIA, para manipular os povos ocidentais, deveria ter sido, desde logo, um alerta para quem anda nestas coisas da informação… Quem, honestamente, com seriedade e objectividade, quiser abrir os olhos… Agora é a hora! Se não o fizer agora. Nunca mais! Nunca passará de um ser servil – consciente ou não – instrumento dos ilegítimos poderes que vivem da ignorância, da falácia, da torpeza e da mentira, para assim poderem fazer, impunemente, a pilhagem – legal ou ilegal – da riqueza que aos povos tanto custa a produzir. Se não se fizer luz agora, temo que nem com as bombas a caírem-lhe em cima do telhado e os filhos a morrer nas guerras promovidas pelas desconcertadas e desesperadas oligarquias ocidentais, tal sucederá.

Esperar, também, que tal acordo resulte das forças comunicacionais do sistema, não será, certamente, solução. Pois, atentemos às parangonas publicadas pelos supostos “jornais” cá do burgo: o reaccionário CM: “dezenas de israelitas raptados”; o economicamente desesperado JN: “Israel retalia contra Hamas e planeia acção por terra”; o falido e porta-voz daquela agência que todos conhecemos, o Público: “Israel castiga Gaza enquanto tenta recuperar do trauma de uma geração”; do desesperado DN: “milhares de israelitas atacados pelo Hamas”, e “o dilema de Israel: negociar os reféns ou ir buscá-los a Gaza”; o dissimulado Expresso: “Israel garante ter recuperado o controlo em redor de Gaza e declara cerco, sem água e sem electricidade”.

Se ontem o invasor era agressor e o invadido era vítima; hoje, a vítima é o invasor e o agressor é o invadido. Eis como funciona a credibilidade dos órgãos de comunicação social corporativa. É só a CIA comandar o algoritmo e agulha muda da noite para o dia. Todos, sem excepção, tratam a questão da seguinte forma: o povo israelita merece toda a consideração e defesa, os outros são terroristas. E assim invertem o pólo e os papéis, consoante as necessidades, sem pudor algum de inverterem, matemática e fisicamente, as equações em jogo. Não interessa a ordem de valores… À casa…. Sai sempre! O dono do casino, nunca perde! O fiel do dono, é sempre vítima! É sempre protegido.

Foi assim que a comunicação social corporativa apresentou a coisa quando os EUA trataram, como trataram os seus escravos, os povos indígenas, os palestinos, os latino-americanos que se defendem, como os povos de Cuba, Venezuela ou Nicarágua. É assim que tratam das coisas quando é o povo da Coreia Popular, é assim que “informaram” quando os EUA destruíram Líbia, Síria, Vietname, Iraque, Iémen… já estou sem fôlego!

Como pode, então, alguém, na posse da sua sanidade mental e posicionando-se seriamente na avaliação que faz dos processos históricos em andamento, considerar que, na Ucrânia, um ataque aos russos é uma “contraofensiva”, e que na Palestina, um ataque de forças palestinas ao território ocupado pelo poder sionista, é um “acto terrorista”? Um ataque das forças do regime de Kiev a território russo é uma “retaliação justa” pela ofensiva que esses fazem no seu território; na Palestina, um ataque das forças palestinas ao território ocupado, passa a ser um “acto terrorista”. Como é que, no Donbass, o controlo e adesão dos territórios à Federação russa, é uma “anexação”, uma “ocupação” e na Palestina, a ocupação de territórios originalmente palestinos, chamam-lhe “estado de Israel”? Na Ucrânia, as intenções russas de ocupação de territórios, para além do Donbass, são vistas como “invasão”, “bárbara ocupação”, “roubo”, “violação da carta da ONU”; na palestina, à anexação de novos territórios, pelo poder sionista, atribuem-lhe o nome de “colonatos”.

Mas a dualidade de critérios não se fica por aqui – apenas fizemos uma análise pela rama! Veja-se bem: no caso da apelidada “ocupação e anexação” russas, em nenhum dos territórios, hoje enquadrados na Federação russa, assistimos a populações deportadas, famílias despejadas das suas casas, para que estas passem a ser habitadas por russos “genuínos”, igrejas conspurcadas, etnias perseguidas, símbolos destruídos e privação das mais básicas condições de vida. Pelo contrário, acabada a “Operação Militar Especial”, os povos do Donbass, não apenas serão respeitados, como passarão a viver muito melhor (hoje já ganham melhores salários, pensões e desfrutam de serviços públicos de maior qualidade). Por outro lado, as cidades destruídas, como Mariupol, estão a ser alvo de uma aceleradíssima acção de reconstrução, cuja velocidade é inversamente proporcional à velocidade com que se constroem TGV’s, Aeroportos e casas de habitação no nosso país. E quem paga são as regiões russas, cada uma responsável por uma parte. No Verão passado, milhares de estudantes de toda a Rússia, colectivamente, passaram as suas férias a ajudar na reconstrução do Donbass. Tudo a ver, não é? Tudo a ver!

Não, não se trata de ocupação, trata-se de incorporação, inclusão, protecção e reunião, como iguais. Nos territórios do Donbass não falta comida, não falta água, médicos, educação, hospitais e tudo o que uma pessoa necessita para viver com dignidade. E os cidadãos, agora russos, que estão contra a “anexação” são respeitados e não são perseguidos. Isto é objectivo, está documentado e, apenas a falta de seriedade, a censura ou as más intenções, podem negar, calar ou descaracterizar esta realidade. Ao contrário, o que é que acontece ao povo palestino, sob ocupação sionista?

Sob ocupação sionista, nenhum palestino pode viver, dormir, comer descansado. A qualquer hora a sua casa pode ser despejada para que um colono aí passe a viver, apropriando-se da sua terra, dos seus bens. Guardados e protegidos pelo exército sionista, as famílias são obrigadas a sair, sob pena de morte imediata! Nos territórios da Palestina, formalmente sob a autoridade palestiniana, como Gaza ou a Cisjordânia, o desemprego é superior a 50% (em Gaza é muito maior, chegará aos 80%), falta tudo, desde alimentos a água potável, serviços públicos a automóveis, estradas a autocarros. Tudo! Todos os territórios que tenham água, terra arável, árvores de fruto e condições geográficas favoráveis, são rapidamente transformados em “colonatos” sendo as pessoas que aí moram atiradas para a rua, para a miséria, despojadas da sua vida.

Não contentes com o genocídio a lume brando a que, intencionalmente (não faltam declarações nesse sentido das forças sionistas), sujeitam o povo palestino, a entidade Sionista dividiu o território que estava sob a autoridade palestiniana ao meio, criando um gueto chamado Gaza, de um lado, e a Cisjordânia no outro. Tudo para que inviabilizem qualquer possibilidade de algum dia, um povo que já perdeu quase todo o território que habitava há anos atrás, nunca tenha qualquer possibilidade de um dia ser livre, num país próspero e viável.

Mas não chega, não satisfeito o seu ódio doentio, o poder sionista permitiu e encorajou a invasão dos templos muçulmanos (mesquita de Al-Aqsa), a celebração de rituais judeus nesses locais, a celebração e sacrifícios com animais (que o povo muçulmano, tal como o cristão considera um costume bárbaro – onde andam os amigos do PAN agora?), ameaçando destrui-los e erguer aí as suas sinagogas. Em Jerusalém oriental, o povo muçulmano é enjaulado em guetos fechados, com recolher obrigatório, onde falta tudo, menos miséria e morte. Isto tudo enquanto nos países vizinhos, milhões de palestinos vivem em campos de refugiados, há dezenas de anos, à espera de um dia poderem, voltar às suas casas, ao seu país.

Isto que descrevi não é, nem de longe nem de perto, descritivo do sofrimento diário por que passam milhões de seres humanos como nós, na Palestina. Os únicos a quem é dada a possibilidade de estudarem, seguirem com as suas vidas, é aos judeus que vivam sob protecção das forças fundamentalistas, reaccionárias, sionistas. A todos os outros, ou é a morte lenta e a humilhação, ou o, ainda mais humilhante, colaboracionismo. Em termos muito simples e sem meias palavras, a entidade sionista (não generalizar para “povo judeu”) faz ao povo palestino o que o nazismo tentou fazer ao povo judeu. Nazismo e sionismo, tratam-se de duas faces da mesma moeda, duas formas de governação profundamente reaccionárias, retrógradas, assentes na ignorância, no mais atroz individualismo, de quem se diz livre, convivendo diariamente com a mais ignóbil opressão.

O poder sionista não é mais nem menos desumano que o fascismo ou o nazismo: faz parte da mesma massa, tem a mesma natureza, sendo também uma forma de fascismo e nazismo, nascido do mesmo local de onde nascem todos: do mais chauvinista, retrógrado e desumanizado capitalismo.

Uma vez mais, o problema tem sempre, sempre, o mesmo denominador: a rapina, a pilhagem, a ocupação e a opressão das forças imperialistas ocidentais. Se até à sua intervenção, em pleno império otomano, judeus e muçulmanos viviam em paz (como ainda sucede em alguns países), a reentrada em cena das forças imperialistas europeias, e mais recentemente, as do imperialismo hegemónico estado-unidense (o tal que não existe para os seus servidores de plantão), trouxe consigo o que acompanha sempre as forças da ganância e da cobiça do alheio: a guerra, a repressão, o saque e a divisão que o legitima.

Se os povos ocidentais não abrirem os olhos e perceberem a realidade em que estão integrados, não será apenas o povo palestino a sofrer as amarguras de uma odiosa forma de fascismo…. Seremos nós próprios! E seremos igualmente “terroristas” quando o quisermos rechaçar!

Concluindo, como salta à vista, ninguém pode admirar-se com o apoio de Zelensky à entidade sionista. Este apoio resultado de uma mesma sementeira, nascida de um mesmo saco e colhida pelos mesmos senhores. Já a comparação que este ser mesquinho e sem escrúpulos faz entre a Rússia e o Hamas, não deixa de ser risível. Primeiro, a comparação, nos dias que correm, já não afecta a imagem de ninguém, talvez pelo contrário. Segundo, chamar à Rússia ocupante e comparar um “ocupante” ao Hamas, é só estúpido, como diz o meu filho!

Mas para este tipo, que mandou bombardear o mercado de Konstantinovka, matando dezenas de civis ucranianos, para atirar as culpas para os russos… vale tudo! Já o sabemos!

Depois disto, para muitos, o amanhã não pode ser igual a ontem!

Blogue:

https://canalfactual.wordpress.com/

Telegram:

https://t.me/canalfactual

Junte-se ao Canal no Youtube: Multipolar TV

https://www.youtube.com/@canalmultipolar

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.