A União Europeia proíbe a comemoração da derrota da Alemanha nazi

(SCF, in Resistir, 20/04/2025)


– Agora, atingiu-se um novo mínimo de degeneração. A UE está a proibir a homenagem aos que derrotaram o nazismo.


A União Europeia está a advertir os líderes europeus para não participarem no 80º aniversário do Dia da Vitória, em Moscovo, a 9 de maio.

.Aparentemente, a razão para tal proibição é que a Rússia está alegadamente a travar uma guerra contra a Ucrânia e a ameaçar o resto da Europa, segundo a UE. Esta é uma forma de ver a questão.

Outra forma de ver a questão é que o conflito na Ucrânia é uma guerra por procuração patrocinada pela UE e pela NATO para derrotar a Rússia, oito décadas depois de a Alemanha nazi não o ter conseguido. As elites europeias que passaram a dominar a definição de políticas partilham a mesma mentalidade fascista. Não admira, portanto, que se oponham a participar no evento do 80º aniversário em Moscovo, no próximo mês. Precisam de manchar esse acontecimento para encobrir a sua política desprezível.

O acontecimento que assinala a derrota da Alemanha nazi e do fascismo na Europa é uma data histórica extremamente importante para todo o mundo. Há oitenta anos, a 9 de maio de 1945, o Exército Vermelho soviético esmagou o regime nazi em Berlim, pondo assim fim à mais terrível guerra da história da humanidade.

Cerca de 27 milhões de cidadãos soviéticos – talvez mais – deram as suas vidas na luta épica para derrotar a Alemanha nazi e os seus aliados europeus fascistas, incluindo a França de Vichy, a Itália, a Hungria, a Finlândia e os Estados bálticos da Estónia, Letónia e Lituânia.

A Rússia tem a honra de libertar a Europa do mal do fascismo. Em comparação, os outros aliados antifascistas dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha perderam menos de 5% das baixas que os cidadãos soviéticos sofreram.

Este ano, muitos líderes internacionais vão assistir ao desfile do Dia da Vitória em Moscovo. Dentre eles estão Xi Jinping, da China, e Narendra Modi, da Índia.

Muitos outros, no entanto, não estarão em Moscovo, o que é lamentável. O Presidente americano Donald Trump e o Primeiro-Ministro britânico Keir Starmer deveriam estar presentes para prestar homenagem aos soldados e civis que sacrificaram as suas vidas. Deploravelmente, a política tóxica que envenenou as relações entre os Estados ocidentais e a Rússia tornou impossível essa participação.

O que é ainda mais chocante, porém, é a proibição explícita de os líderes europeus assistirem às celebrações em Moscovo.

Esta semana, Kaja Kallas, a Comissária dos Negócios Estrangeiros da União Europeia, emitiu um aviso de que quaisquer políticos que se deslocassem a Moscovo enfrentariam graves consequências. Kallas, que foi anteriormente primeira-ministra do pequeno Estado báltico da Estónia, foi nomeada no ano passado como a mais alta funcionária da UE em matéria de política externa.

Um dos que desafiam as ordens é o primeiro-ministro eslovaco Robert Fico. Fico repreendeu Kallas por se atrever a dizer-lhe, enquanto líder de uma nação soberana, onde deve e onde não deve ir. E acrescentou: “Irei a Moscovo prestar homenagem aos milhares de soldados do Exército Vermelho que morreram a libertar a Eslováquia” (ler abaixo a magnifica resposta do líder da Eslováquia).

Fico foi eleito com base numa plataforma que apela a relações amigáveis com a Rússia e ao fim da guerra por procuração da NATO na Ucrânia. Tem-se oposto sistematicamente ao envio de mais ajuda militar ao regime de Kiev. No ano passado, Fico sobreviveu a uma tentativa de assassinato em que foi baleado por um atirador motivado por políticas pró-Ucrânia.

As sanções impostas pela União Europeia aos políticos que participaram na comemoração do Dia da Vitória em Moscovo têm como alvo os países candidatos à adesão ao bloco de 27 membros. Kallas ameaçou que a sua candidatura poderia ser cancelada. Entre estes países contam-se a Albânia, o Montenegro, a Macedónia do Norte, a Bósnia-Herzegovina e a Sérvia, bem como a Moldávia e a Geórgia.

No entanto, o Presidente sérvio Aleksander Vučić afirmou que iria a Moscovo, apesar da intensa pressão de Bruxelas. “Estamos orgulhosos da nossa luta contra o fascismo, e essa foi a principal razão pela qual aceitei o convite”, disse Vučić. Falou, no entanto, da influência sinistra sobre o seu governo.

“Parece-me que o céu está prestes a cair sobre a minha cabeça, devido à pressão em torno da viagem a Moscovo”, disse o Presidente sérvio, que acrescentou que o seu país estava a ser desestabilizado por agitadores externos.

A controvérsia indecorosa sobre o desfile do Dia da Vitória em Moscovo serve para realçar as crescentes tendências maligna da UE.

Cada vez mais, a centralização do poder político do bloco está a tornar-se mais autoritária e hostil em relação à Rússia. Qualquer dissidência entre os membros da UE que questione o apoio do bloco à guerra por procuração na Ucrânia é impiedosamente suprimida com ameaças de sanções políticas e económicas.

A liderança da UE, sob o comando de autocratas russofóbicos como a Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e Kaja Kallas, está implicada na supressão de eleições na Roménia, na Moldávia e na Geórgia para impedir partidos que apelam ao fim da guerra na Ucrânia e a melhores relações com a Rússia.

A recente acusação duvidosa, em França, da política nacionalista Marine Le Pen, que tem criticado a guerra por procuração da NATO, é outro exemplo terrível da ação da UE para esmagar a dissidência.

É surpreendente a forma como a UE tem funcionado como um bloco fascista. As decisões políticas sobre o financiamento de um regime neonazi na Ucrânia para travar uma guerra por procuração contra a Rússia estão a ser tomadas por elites russofóbicas sem qualquer responsabilidade democrática.

Ironicamente, a União Europeia, que foi galardoada com o Prémio Nobel da Paz em 2012, transformou-se num eixo militarista em que a economia civil está a ser subordinada a um impulso desmedido para a guerra, alegadamente para fazer face à agressão russa.

Desde há vários anos, a UE tem caminhado para esta manifestação nefasta. O bloco é dirigido por pessoas como Von der Leyen, cujo pai, político alemão, tinha filiações nazis. Os Estados Bálticos que erguem monumentos a colaboradores nazis estão agora sobre-representados nos gabinetes de decisão política da UE.

É apropriado – embora abominável – que o bloco esteja hoje aliado a um regime neonazi em Kiev que homenageia fascistas ucranianos como Stepan Bandera e Roman Shukhevych e muitos outros que colaboraram com o Terceiro Reich no seu extermínio de milhões de pessoas há oito décadas.

Um marco vergonhoso foi a aprovação de uma resolução pelo Parlamento Europeu em 2019 que equiparava a União Soviética à Alemanha nazi por alegadamente ter iniciado a Segunda Guerra Mundial. A Rússia condenou esse revisionismo político.

Agora, foi atingido um novo mínimo de degeneração. A UE está a proibir a homenagem àqueles que derrotaram o nazismo.

Fonte aqui.


Ó Kallas, porque não te calas?!

(Resposta de Robert Fico à pindérica Kallas, in Twitter/X, 15/04/2025, Trad. Estátua)

Senhora. Kallas, gostaria de a informar que sou o legítimo Primeiro-ministro da Eslováquia – um país soberano. Ninguém me pode ditar para onde posso ou não viajar.

O aviso e ameaça da Senhora. Kallas são desrespeitosos e eu oponho-me veementemente a eles. A Alta Representante da União Europeia (UE) para os Negócios Estrangeiros, Kaja Kallas, está a alertar os líderes da UE contra a participação nas comemorações do Dia da Vitória em Moscovo, em maio. Afirma que tal participação não será considerada levianamente.

 Irei a Moscovo no dia 9 de maio. O aviso da Sra. Kallas é uma forma de chantagem ou um sinal de que serei punido ao retornar de Moscovo? Não sei. Mas sei que estamos em 2025 e não em 1939. O aviso da Sra. Kallas confirma que precisamos de um debate dentro da UE sobre a essência da democracia. Sobre o que aconteceu na Roménia e na França em conexão com as eleições presidenciais, sobre as “Maidans” organizadas pelo Ocidente na Geórgia e na Sérvia, e como o abuso do direito penal contra a oposição na Eslováquia foi ignorado.

Sra. Kallas, gostaria de a informar que sou o legítimo Primeiro-ministro da Eslováquia – um país soberano. Ninguém pode ditar-me para onde posso ou não viajar. Irei a Moscovo para prestar homenagem aos milhares de soldados do Exército Vermelho que morreram libertando a Eslováquia, bem como aos milhões de outras vítimas do terror nazi.

Assim como prestei homenagem às vítimas do desembarque na Normandia, ou às vítimas do Pacífico, ou como pretendo homenagear os pilotos da RAF. E permitam-me lembrar que sou um dos poucos na UE que fala consistentemente sobre a necessidade de paz na Ucrânia e não apoia a continuação desta guerra sem sentido.

As suas palavras, Sra. Kallas, são desrespeitosas e eu oponho-me a elas veementemente.

Do indigno do presente sobre a História

(Rui Pereira, in Facebook, 18/04/2025, Revisão da Estátua)

O embaixador russo na Alemanha, Sergey Nechayev (ao centro, de gravata vermelha), participou nesta semana de evento por ocasião dos 80 anos da Batalha das Colinas de Seelow, em que o Exército Vermelho e tropas polonesas enfrentaram os nazis.

Indignamente, o parlamento alemão excluiu a Rússia e a Bielorrússia das celebrações em Berlim da importantíssima efeméride do octogésimo aniversário da derrota do nazi-fascismo, a 9 de maio de 1945 (ver artigo sobre o tema aqui).

Já antes a Rússia fora, da mesma indigna forma, excluída da celebração do “Dia D” no norte de França. Nunca tive pulsões germanófobas. Do que pude ir aprendendo sobre o assunto, relacionei sempre a tragédia alemã da primeira metade do século muito mais com as recomposições imperiais do capitalismo do que com qualquer vocação “nazista” intrínseca ao povo alemão. Não creio, aliás, que existam vocações intrínsecas a qualquer povo – expressão já de si tão complexa (esta de “povo”) que não precisamos de complicá-la ainda mais.

Sobre o caso alemão, existe até uma literatura, chamar-lhe-ia situada entre a analítica e a expiação, virtualmente inabarcável sobre A Questão da Culpa acerca dos alemães e o nazismo, título seminal precisamente de uma dessas obras, da autoria de Karl Jaspers. Mas, poderíamos juntar-lhe a extensa e dorida investigação biográfica de Joachim Feist sobre Hitler ou, ainda, Nós, filhos de Eichmann: carta aberta a Klaus Eichmann, de Günther Anders, entre toda uma, como disse, inextinguível literatura de origem alemã – para não falar da de outras origens – sobre a questão da Alemanha e do nazismo.

O que cai nestas operações de imediatismo propagandístico feitas à custa do revisionismo histórico e da mentira ordinária, não é tanto o valor dos factos históricos, pois nada modificará o facto de os russos-soviéticos terem sido quem mais sangue entregou ao mundo para derrotar o nazismo (27 milhões de mortos – para os historiadores mais diletantes, no conforto ocidental e que nunca viram os seus povos metidos numa tragédia desta dimensão, tratar-se-á apenas de um detalhe negligenciável). O que cai, sim, e esse é o objetivo da operação, é a capacidade de pensar um mundo diferente não daquele que existiu, mas do que existe, em favor da redução dos possíveis do humano, ao existente inumano que marca a nossa experiência contemporânea do mundo.

O salariato propagandístico de governantes, académicos, agentes mediáticos e outros traficantes de irrealidades emerge daqui como um chico-espertismo perigosamente remunerador.

Que estamos, com exemplos destes, a ensinar às gerações presentes e futuras? Só um pensamento ausente é capaz de se ausentar desta questão. Porque se desabituou de pensar seja o que for com profundidade, ou mais banalmente porque troca o valor da dignidade pelos valores do estipêndio. Disto, em boa medida, terá sido o próprio nazismo feito.

Por mim tenciono celebrar os 80 anos do 9 de maio de 1945 mais até do que num gesto de homenagem àquele passado, enquanto um ato contra o cinismo deste presente.


Ucrânia, o campo de treino militar para a extrema-direita mundial

(Ricardo Cabral Fernandes, in Público, 21/06/2020)

(Podem perguntar porque publico um artigo de 2020. Porque, nessa altura, a comunicação social podia dizer a verdade sobre a Ucrânia, mostrá-la como o regime nazi e antro da extrema-direita que é, e hoje esconde tudo isso dos olhos dos cidadãos, para que o Governo possa continuar a mandar armas e milhões para Zelensky sem sofrer a censura dos portugueses. Portugueses que, talvez a maioria, ignoram a gente corrupta e sanguinária que andam a apoiar.

Muitos mesmo, sujeitos que tem sido a sucessivas lavagens ao cérebro, até julgam que os nazis estão na Rússia, quando um dos principais objetivos desta é “desnazificar” a Ucrânia. Que leiam o artigo e que, em consciência e honestamente, tirem as inerentes conclusões e fiquem a saber, sem sombra de dúvida, quem andam a apoiar.

Estátua de Sal, 05/03/2025)


A Ucrânia tornou-se para a extrema-direita o que a Síria foi para o Daesh. Militantes recebem treino, melhoram tácticas e técnicas e estabelecem redes internacionais, e depois regressam aos seus países. Milhares de estrangeiros combateram em milícias contra os separatistas pró-russos no Leste do país.


A Ucrânia é hoje um dos principais pólos de atracção para a extrema-direita internacional e quase quatro mil estrangeiros de mais 35 países já receberam treino e combateram nas fileiras de milícias na Guerra Civil Ucraniana. Uma delas, o Regimento Azov, transformou-se num alargado movimento, criou um Estado dentro do Estado ucraniano, estendeu tentáculos por toda a Europa e quer criar uma Legião Estrangeira ucraniana.

“Olho para a Ucrânia como o local onde a extrema-direita pode adquirir treino, capacidades militares e partilhar ideias. É, de muitas formas, para a extrema-direita o que o Daesh conseguiu na Síria”, disse ao PÚBLICO Jason Blazakis, investigador associado no Soufan Center e director do Centro sobre Terrorismo, Extremismo e Contraterrorismo, na Califórnia, Estados Unidos. “A Ucrânia é a porta das traseiras para a União Europeia no que à extrema-direita diz respeito, e a ameaça é muito grande. Os indivíduos recebem treino nos campos de batalha ucranianos e depois regressam aos seus países de origem”.

Uma situação que o relatório White Supremacy Extremism: The Transnational Rise of the Violent White Supremacist Movement, do Soufan Center e publicado em Setembro de 2019, classifica como preocupante. “Tal como os jihadistas usaram conflitos no Afeganistão, Tchetchénia, Balcãs, Iraque e Síria para melhorarem as tácticas, técnicas e procedimentos e solidificarem as suas redes internacionais, também os extremistas de direita estão a usar a Ucrânia como laboratório de campo de batalha”, lê-se no documento.

terrorista responsável pelo massacre em duas mesquitas de Christchurch, na Nova Zelândia, em Março de 2019, estava bem integrado na extrema-direita mundial e o colete balístico que envergou no atentado tinha o símbolo do sol negro, popularizado pelo Regimento Azov. No manifesto, intitulado A Grande Substituição, que escreveu para justificar o massacre, o terrorista disse ter visitado a Ucrânia. Não tardaram a surgir suspeitas de que terá estado com o Azov pouco depois de ter sido criado, em 2014, apesar de a milícia ter negado ter tido qualquer contacto com ele.

Meses depois do massacre que matou 50 muçulmanos, o manifesto foi traduzido para ucraniano por militantes neonazis de uma organização com ligações ao Azov, a Wotanjugend, noticiou o site de investigação Bellingcat. Milhares de cópias foram impressas e houve milicianos, cuja filiação se desconhece, que posaram para fotografias com exemplares nas mãos.

Jason Blazakis: “A Ucrânia é a porta das traseiras para a União Europeia no que à extrema-direita diz respeito, e a ameaça é muito grande” Pierre Crom/Getty Images

O massacre de Christchurch chamou a atenção para os riscos que a extrema-direita na Ucrânia representa para a Europa e EUA, seja por causa de possíveis atentados terroristas cometidos por pequenas células ou “lobos solitários” ou por, ao regressarem aos seus países, criarem ou fortalecerem as suas organizações de origem – as organizações terroristas neonazis The Base e Attomwaffen Division queriam e já têm ligações estabelecidas com o Azov, respectivamente, para receber treino. No Ocidente, o terrorismo de extrema-direita é hoje mais significativo do que o jihadista.

A realidade é ainda mais preocupante se se tiver em conta o número de combatentes estrangeiros identificados no mesmo relatório que já lutaram na guerra que opõe o Estado ucraniano aos separatistas pró-russos: um total de 17.241. Destes, 3879 estrangeiros, dos quais 879 de 36 países — Suécia, Estados Unidos, Israel, Itália, Dinamarca, Alemanha, França e até Portugal — estiveram nas fileiras de milícias que combatem do lado ucraniano. A maior fatia (3000) provém da Rússia, uma vez que o movimento neonazi russo se dividiu entre apoiar ou combater o que dizem ser o imperialismo da Rússia.

Voluntário da milícia Azov durante um acção de treino em Urzuf, arredores de Mariupol, em 2015 Marko Djurica/Reuters

E, no que a Portugal diz respeito, pelo menos um português combateu num dos batalhões do Corpo de Voluntários Ucranianos, da organização de extrema-direita Sector Direito. “Há dois anos [2018], descobri um cidadão português que participou em combates, por dois a três meses, nas fileiras do Corpo de Voluntários Ucranianos”, disse ao PÚBLICO o investigador que recolheu os dados do relatório, sem conseguir, no entanto, dar mais pormenores sobre a sua identidade.

Porém, a grande maioria de combatentes europeus de extrema-direita juntou-se aos separatistas pró-russos contra os militares e milicianos ucranianos (13.372, dos quais 1372 russos).

A estimativa de combatentes que já passaram pelas milícias ucranianas foi feita através de fontes abertas, ou seja, fotografias e comentários em fóruns e redes sociais, não se descartando a possibilidade de os números serem bem maiores, como ressalva o documento. Mas como se chegou a esta situação?

Azov nasce com a guerra

A extrema-direita ucraniana já tinha saído das margens da política quando a Revolução EuroMaidan, contra o Presidente ucraniano Viktor Ianukovich, tomou as ruas de Kiev em 2013. Ianukovich, aliado do Presidente russo, Vladimir Putin, foi deposto e, pouco depois, em Março de 2014, Moscovo anexou a Crimeia e apoiou os separatistas de Donetsk e Lugansk, dando início a uma guerra que ainda hoje se arrasta e que já causou mais de 13 mil mortos, entre os quais muitos civis, e milhares de deslocados.

Com o Exército ucraniano sem capacidade para combater os separatistas, o então recém-eleito Presidente ucraniano, Petro Poroshenko, apelou a voluntários que pegassem em armas contra a ameaça russa. Assim o fizeram, e em massa: foram formados entre 30 e 40 batalhões de voluntários para combater os separatistas.

Um dos homens por trás deste esforço foi o oligarca Ilhor Kolomoiski, um dos dois homens mais ricos da Ucrânia e a sombra do Governo de Poroshenko e, agora, do de Zelensky. Em 2014, rompeu com a discrição que o caracterizava e saiu em defesa da Ucrânia, dando entrevistas e financiando vários batalhões, entre os quais o Azov, o Dnipro 2, o Shakhtarsk e o Poltava. E, em Abril do mesmo ano, prometeu uma recompensa de dez mil dólares (nove mil euros) a quem capturasse um mercenário russo.

Ilhor Kolomoiski Valentyn Ogirenko/Reuters

Com o arrastar da guerra, Kolomoiski passou a usar os paramilitares que financia quase como exército privado, para obter dividendos políticos, entrando em choque com o actual Presidente ucraniano. “Os empresários precisam destes grupos como apoio físico, por ser muito mais fácil controlarem as suas estruturas empresariais. Os grupos de extrema-direita são parte deste mercado a favor dos grandes empresários”, disse ao PÚBLICO Viacheslav Likhachev, politólogo ucraniano especialista na extrema-direita do país.

Uma das pessoas que responderam ao apelo de Poroshenko e recebeu dinheiro do oligarca Kolomoiski foi Andrii Biletski, líder do antigo partido neonazi Patriotas da Ucrânia, com a criação do então Batalhão Azov a 5 de Maio de 2014 — transformou-se depois em regimento e está em vias de se tornar divisão, apesar de ainda não ter militares suficientes (10 mil). A proeminência de Bilitski foi tanta que chegou a ser deputado entre 2014 e 2019, primeiro como independente e depois pelo braço político do Azov, o Corpo Nacional.

Andriy Biletsky, ex-deputado e líder do partido de extrema-direita Corpo Nacional durante uma manifestação em Kiev contra a corrupção, em Março 2019 Sergei Chuzavkov/SOPA Images/LightRocket via Getty Images

Os milicianos, com pouco treino, foram para as linhas da frente e as baixas tornaram-se incomportáveis, ao enfrentarem separatistas bem treinados e apoiados por Moscovo. A unidade paramilitar foi então integrada por Poroshenko na Guarda Nacional ucraniana a 12 de Novembro de 2014, no que foi visto como tentativa de a manter sob controlo e meio para lhe fornecer armamento militar topo de gama, fornecido pelos Estados Unidos (em 2018, o Congresso aprovou uma lei a proibir que material militar chegasse ao Azov, sem se saber como é aplicada na prática), União Europeia (não-letal, como coletes balísticos) e Canadá. Até Israel permitiu a produção da sua arma padrão, a Tavor-21, em fábricas ucranianas, acabando por chegar às mãos dos neonazis — o Azov tinha no seu site, na parte dos apoios, o logótipo da empresa israelita que detém a patente da espingarda de assalto.

Hoje, o Azov dispõe de artilharia, blindados e infantaria, e até de campos de treino. O principal está localizado em Mariupol, no Sul da Ucrânia, na costa do mar de Azov, e lá são treinados os combatentes estrangeiros que respondem ao apelo para pegarem em armas em seu nome — a milícia fê-lo pouco depois de ser criada. Em 2015, os estrangeiros tinham um responsável que os seleccionava: Gaston Besson, mercenário francês que combateu no Camboja, Laos, Birmânia, Suriname e Croácia. Disse, na altura, que recebia centenas de contactos todos os dias.

FotoO mercenário francês Gaston Besson

O regimento evoluiu de simples unidade paramilitar para movimento em larga escala, ganhando espaço e legitimando-se junto da sociedade, por os seus combatentes serem apresentados como heróis que enfrentam o expansionismo russo. O Azov é uma grande organização de extrema-direita que se descreve como Movimento Azov e responde a um único líder: Andrii Biletski. O movimento inclui várias organizações: o Regimento Azov, o partido Corpo Nacional, o movimento de rua Milícia Nacional, a Irmandade dos Veteranos, etc.. E tem outras na sua órbita de influências, muitas das quais neonazis, como a WotanJugend.

Os paramilitares têm uma forte presença nas redes sociais, várias revistas e uma rádio e, sempre que um camarada de armas é morto em combate, organizam cerimónias com tochas e parada militar.

Infiltração no aparelho de Estado

O Movimento Azov infiltrou-se no Estado ucraniano e é hoje indissociável dele. Recebe milhares de euros em financiamento para programas de incentivo ao patriotismo direccionado à juventude (crianças com nove anos recebem treino militar, por exemplo), apoio político e militar. E essa infiltração é mesmo reconhecida pela secretária do Departamento Internacional do Corpo Nacional, Olena Semeniaka. “Em apenas quatro anos, o Movimento Azov tornou-se um pequeno Estado dentro do Estado”, escreveu a dirigente no Facebook a 29 de Outubro de 2018.

O ministro do Interior de Poroshenko e do actual Presidente é acusado de ser um dos responsáveis pela crescente influência neonazi no aparelho de Estado ucraniano. Arsen Avakov tem beneficiado da unidade paramilitar para defender os seus interesses — apresenta-se como indispensável para a controlar e fez recentemente uma aliança com o multimilionário Ilhor Kolomoisky, que tem tido fricções com Zelensky — e sai em defesa dos milicianos sempre que são alvo de críticas pelo seu cariz neonazi. Zelensky também o faz, ainda que mais timidamente, e chegou até a condecorar os paramilitares do Azov por actos de bravura na linha da frente, ao mesmo tempo que se reúne com as suas altas patentes.

Activistas do partido Corpo Nacional durante uma manifestação a que chamaram “Marcha dos Esquadrões Nacional”, em Março de 2019 Pavlo Conchar/SOPA Images/LightRocket via Getty Images

O Azov tem neste momento tanto poder que chega a rejeitar as ordens do chefe de Estado quando não concorda com elas, no que já é visto por analistas como uma ameaça ao próprio Estado ucraniano. No final de Outubro, o comandante supremo das Forças Armadas ordenou o recuo das tropas ucranianas de Zolote e de duas outras cidades para aumentar a distância entre as linhas da frente — eram de 30 metros, distância de arremesso de uma granada de mão — e evitar as constantes escaramuças e violações de cessar-fogo. O líder do Azov não gostou e ameaçou enviar dez mil voluntários para Zolote, para “defender as posições conquistadas com sangue”.

Publicamente desafiado, Zelensky foi à linha da frente para convencer os milicianos, mas acabou por os acusar de o considerarem um “tolo” e de lhe estarem a fazer um “ultimato”. Os milicianos mantiveram-se firmes e acabaram por ser desarmados por militares ucranianos e retirados da linha da frente, com a imprensa ucraniana a referir que se temia que a explosiva situação levasse ao derramamento de sangue.

Olena Semeniaka: “Em apenas quatro anos, o Movimento Azov tornou-se um pequeno Estado dentro do Estado”

Avakov teve um papel fundamental no desarmar da crise e, dentro do Governo, conquistou pontos, mostrando mais uma vez ser indispensável para a ordem interna. O seu poder depende daquilo a que a imprensa ucraniana diz ser um jogo duplo: apoiar as forças de segurança e militares e, ao mesmo tempo, os milicianos.

A 28 de Outubro de 2019, Avakov visitou o campo de treino da unidade em Mariopol para lhe mostrar apoio público e, dias antes, deixou claro que “a força especial Azov é uma unidade legal da Guarda Nacional ucraniana e os seus militares têm sido exemplares nas tarefas de combate desempenhadas na defesa da pátria”. “A campanha de informação sobre a alegada propagação de ideologia nazi entre os militares é uma tentativa deliberada para descredibilizar a unidade, principalmente entre os parceiros internacionais da Ucrânia, e provocar uma crise na relação com os nossos aliados”, continuou o ministro. Ao nível da comunicação visual, o Regimento Azov tem demonstrado recentemente um cuidado particular para não ser conotado politicamente.

Azov estende tentáculos à Europa

A anexação da Crimeia e o apoio ao separatismo no Leste da Ucrânia dividiu a extrema-direita europeia a favor de Moscovo. A maior parte dos grupos viu nas acções militares de Putin, promovidas por um dos seus mais próximos conselheiros e ideólogo de extrema-direita, Aleksandr Dugin, uma oposição ao atlanticismo ocidental, isto é, aos Estados Unidos, à NATO e à União Europeia. A francesa União Nacional e a italiana Liga continuaram a apoiar a Rússia – por seu lado, o Chega já assumiu no Parlamento a defesa da Ucrânia com um voto de condenação da agressão russa, e foi por isso elogiado pelo Movimento Azov.

Com a frente de batalha a ser-lhe desfavorável, a extrema-direita ucraniana viu-se isolada no palco internacional e o Azov não perdeu tempo a tentar inverter a situação, conseguindo-o com relativo sucesso. Em 2013, três militantes ucranianos de extrema-direita criaram a Misanthropic Division (MD), uma rede internacional neonazi, com o objectivo de estabelecer um Estado etnonacionalista no país da Europa de Leste. No entanto, a partir de 2015, por causa da guerra com a Rússia, a rede passou a promover a causa ucraniana e a recrutar combatentes internacionais para as fileiras do Azov — a MD ainda hoje se mantém activa, principalmente na Ucrânia.

Membros da Misanthropic Division

Por outro lado, o braço político do Azov, o Corpo Nacional (antes Corpo Cívico), montou uma campanha internacional de sensibilização sobre a ameaça russa e uma rede internacional cuja responsabilidade coube a Olena Semeniaka, seguidora de Dugin até à anexação da Crimeia e que viaja recorrentemente pela Europa participando em conferências — esteve em Portugal em 2018 a convite do Escudo Identitário, organização neofascista portuguesa inspirada no italiano CasaPound.

As acções de propaganda e o estreitar de ligações protagonizados por Semeniaka começaram na Europa Central e de Leste e, depois, foram alargados a países europeus mais distantes: Itália, Portugal, Noruega, Suécia e Reino Unido.

E, ao mesmo tempo, organizou eventos políticos na capital ucraniana: as conferências PanEuropa, em 2017 e 2018 em Kiev, e o projecto político Intermarium Support Group, um grupo de apoio fundado em 2016 por Biletskii que se baseia num conceito geopolítico alternativo ao atlanticismo e cujas raízes históricas vêm do pensamento do polaco Jósef Pilsudski, do período entre guerras mundiais. O conceito, apropriado pela extrema-direita, defende uma estratégia de segurança focada no “etnofuturismo” e visa integrar países do Báltico ao mar Negro numa aliança regional — foi a resposta do Azov ao sentimento de abandono da Ucrânia pelo Ocidente.

Voluntários da Batalhão Azov numa manifestação em Kiev Vladik Musienko/NurPhoto via Getty Images

O Azov convida para estas palestras teóricos da extrema-direita, entre os quais o norte-americano Greg Johnson (deportado da Noruega em Novembro de 2019, por elogiar o terrorista Anders Breivik, falhando um voo para Portugal, onde vinha assistir a uma conferência no Iscte-IUL sobre imigração e extrema-direita) e líderes políticos, focando-se, no caso do Intermarium, nos países que fariam parte da desejada aliança.

Esses contactos internacionais têm também como objectivo a formação de uma Legião Estrangeira Ucraniana. “Os voluntários estrangeiros começaram a juntar-se ao Batalhão Azov em 2014-2015. Assim, quando o Partido Corpo Nacional foi fundado, a orientação política sobre a criação de uma Legião Estrangeira Ucraniana – o nosso sonho em comum – foi inserida no nosso programa político”, lê-se numa publicação de Facebook do Intermarium Support Group em que anunciou que a IV conferência da organização, em Zagreb, na Croácia, “promete levar a cooperação a outro nível”.

O Regimento Azov já é membro honorário da organização de veteranos Francopan, que coopera com a Legião Estrangeira Francesa. “Para esta organização [o Azov], a cooperação sinergética comforças armadas estrangeiras não tem precedente”, continua a mesma publicação de 23 de Junho de 2019.

Artes marciais para recrutar

A violência sempre foi uma característica da extrema-direita e o militarismo e as artes marciais os escapes. Com o sucesso das artes marciais mistas (MMA), os seus militantes viram um novo terreno onde se podiam implantar, prosperar e, mais importante, recrutar. E, pelo meio, tecem ligações internacionais através de torneios em que participam lutadores dos Estados Unidos e Europa.

O Azov percebeu-o e agarrou essa oportunidade aliando-se a Denis Kapustin (conhecido por Denis Nikitin), um dos mais influentes militantes da extrema-direita europeia, cidadão russo-alemão e dono da marca desportiva White Rex. Nikitin dedicou-se em tempos a treinar militantes do britânico Acção Nacional, grupo neonazi banido pelas autoridades, e é o verdadeiro responsável pelo Reconquista Club, local onde o Azov organiza torneios em Kiev.

Denis Kapustin

“Se matarmos um imigrante por dia, são 365 imigrantes por ano. Mas dezenas de milhares chegarão de qualquer forma. Percebi que estamos a combater as consequências, não as causas. Agora combatemos pelas mentes; não nas ruas, mas nas redes sociais”, disse Nikitin ao The Guardian, em Abril de 2018.

Nikitin é o responsável por trazer lutadores dos EUA e da Europa para os torneios que organiza através de uma rede de ginásios em todo o continente europeu. Em França, organiza o Pride France desde 2013 em Paris, e o Day of Glory em Lyon, em parceria com o Blood and Honor, considerado grupo terrorista pela Europol. E desde 2015 que organiza o festival alemão Kampf der Nibelungen (entretanto banido pelas autoridades alemãs) e o grego Pro Patria, em parceria com antigos e actuais elementos do neonazi Aurora Dourada. Já em 2018 fundou o Shield and Sword, um festival de extrema-direita com um torneio de MMA.

As ligações de Nikitin estendem-se a todo o continente e chegam até aos russos do Fathers Frost Mode (FFM), que também organiza torneios de MMA — o Hammer of the Will, por exemplo. Nikitin e o líder do FFM, Max Savelev, são próximos — o segundo esteve em Portugal em 2018.

Mas há quem não tenha pudor em dizer que a Ucrânia pode ser uma base para os militantes de extrema-direita. No início de Maio, Bogdan Khodakovski, líder do grupo neonazi ucraniano Tradição e Ordem, próximo do Azov, apareceu num vídeo em directo no Instagram, em que Nikitin fez de tradutor, e disse que a “União Europeia tem de ser destruída”.

Membros do movimento paramilitar Azov numa manifestação em Mariupol, em 2015 Pierre Crom/Getty Images

“Estamos a apelar às forças na Europa: estamos prontos para vos dar uma base, um espaço seguro e avançar em conjunto com uma Cruzada contra Bruxelas, os liberais e os imigrantes”, disse Khodakovski, sublinhando “serem bem recebidos na Ucrânia para todo o tipo de treinos”. E vários foram os internautas que perguntaram “como posso fazer para treinar convosco na Ucrânia?”, tendo como resposta a sugestão de enviarem mensagens privadas.

Os dois líderes de extrema-direita anunciaram ainda no mesmo directo que a Tradição e Ordem vai abrir uma filial na Alemanha, para unir “eslavos e alemães” e “partilhar conhecimento teórico e prático”. Os contactos de MMA servem, assim, para estabelecer pontes e criar organizações com ligações à extrema-direita ucraniana, que lhes oferece treino militar. Transformado num grande movimento com enorme influência na Ucrânia, o Movimento Azov e seus aliados tornaram o país num farol para uma parte da extrema-direita.

Fonte aqui (Para que não venham dizer que a Estátua publica fake news).