Zelensky não é nazi? Mas homenageia-os

(José Goulão, in AbrilAbril, 11/06/2025)

Fonte: Presidência da Ucrânia

Ao trasladar para solo ucraniano os restos mortais dos antigos terroristas nazis como símbolos da nacionalidade e da pátria, Zelensky não está apenas a dizer aos seus compatriotas que assim é a «liberdade ucraniana»; está a dizer que o preço a pagar por um «tampão» contra a Rússia é um ajuste de contas com a História.


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O acontecimento foi relatado com alguma discrição na comunicação/propaganda do regime oficial de «democracia liberal» implantado na União Europeia. O presidente ucraniano, legalmente fora de prazo, homenageou com pompas estatais a chegada a Kiev dos restos mortais do genocida nazi Andriy Melnik.

Pudor? Desconhecimento? Ou o reconhecimento da doutrina de que tudo é permitido ao chefe em funções da máquina nazi que se apoderou do Estado da Ucrânia na sequência do golpe norte-americano e europeu de 2014? Vale tudo, até a veneração de carrascos nazis e genocidas, em nome dos «os nossos interesses» e dos «nossos valores civilizacionais»?

«É extremamente simbólico que os nossos heróis ucranianos de hoje, que arrancaram a Ucrânia das mãos russas, fiquem ao lado dos ucranianos das gerações anteriores que também trabalharam para que a Ucrânia fosse o que é, que a Ucrânia fosse ela mesma, que a Ucrânia fosse livre», disse Volodymyr Zelensky perante a urna com os restos mortais de Melnyk, transportados desde o Luxemburgo, onde estiveram enterrados desde os anos sessenta.

Passando por cima do que «é hoje» a Ucrânia e de como é «a liberdade ucraniana», o maior significado das palavras de Zelensky, ao associar os «heróis» das «gerações anteriores» aos «heróis» de hoje, é o reconhecimento de que existe uma continuidade ideológica, política e militar entre os anos do colaboracionismo dos terroristas ucranianos com Hitler e o «nacionalismo» que assumiu o poder na sequência do chamado «golpe Maidan», em 2014.

Fonte: Presidência da Ucrânia

O chefe da Ucrânia Ocidental proferiu as palavras em honra de Andriy Melnyk no Cemitério Militar Nacional de Kiev, lugar para onde pretende continuar a levar tudo o que resta dos principais dirigentes das várias organizações nazi-fascistas ucranianas dos anos trinta e quarenta do século passado. É o caso da UPA (Exército Insurgente Ucraniano), e da Organização dos Nacionalistas Ucranianos, também na sua versão OUN-B. O B significa Bandera, a par de Melnyk, um dos chefes terroristas que estiveram integrados no aparelho de guerra do III Reich e procedeu como tal durante os tempos da ocupação nazi da Ucrânia Soviética. Dizendo de outra forma, dirigentes hitlerianos que participaram activamente nas chacinas de mais de 26 milhões de cidadãos soviéticos realizadas nesses anos, entre os quais muitos e muitos milhões de ucranianos na terra que garantiam estar a libertar.

Bandera, recorda-se, é o herói nacional ucraniano por excelência, na actualidade. O dia do seu nascimento é feriado nacional, tem grandiosos monumentos espalhados por todo o lado e o nome associado a alamedas, ruas, estádios, teatros, cinemas e tudo o que possa imaginar-se.

A essência de um regime

Zelensky não é nazi, o regime ucraniano é um exemplo de democracia, nada tem de ditatorial, nem de racista e xenófobo, dizem e repetem, até à exaustão, os dirigentes da União Europeia e respectivos Estados membros, ecoados pelo subserviente aparelho de comunicação social.

Parece que, através de tal insistência, tentam não só disfarçar a realidade como convencer-se a si próprios da verdade de tais negações. Subconscientemente, ou não, assumem um dos princípios sagrados da doutrina Goebbels, segundo o qual uma mentira repetida muitas vezes acaba por tornar-se verdade.

Realidades como a ilegalização de mais de uma dezena de partidos políticos, a censura oficial da literatura e da imprensa, a proibição do uso de línguas nacionais que não seja o ucraniano e a caça violenta aos cidadãos com o objectivo de os mandar para a frente de batalha não incomodam os dirigentes ocidentais. Mesmo que existam tais pecadilhos, vagamente reconhecidos e logo justificados de quando em quando, trata-se de medidas que visam preservar o principal: a tal «democracia liberal»; e manter entretido o papão russo, sempre invejoso do nosso paradisíaco modo de vida.

Ao trasladar para solo ucraniano os restos mortais dos antigos terroristas nazis como símbolos da nacionalidade e da pátria, Zelensky não está apenas a dizer aos seus compatriotas que a Ucrânia é isto e que assim é a «liberdade ucraniana»; está a dizer a toda a União Europeia e aos Estados Unidos – e ao «mundo ocidental», em suma – que o preço a pagar por um «tampão» contra a Rússia é um ajuste de contas com a História que prossiga no caminho da restauração dos objectivos essenciais do nazifascismo.

Na prática, os dirigentes europeus assumem essa realidade. Ou por estarem dispostos a continuar a pagar esse preço, sem medir as consequências; ou por convicção de que a «democracia liberal» pode conviver em paz com o nazifascismo, mesmo que o risco seja diluir-se nele. No fundo, nada mais do que proporcionar as condições políticas necessárias para que o regime económico neoliberal, tão globalista quanto possível, se expresse com toda a sua vitalidade.

O que Zelensky, na sua impunidade, diz aos protectores é que a restauração do passado e a sua transição para o presente traduz a verdadeira essência ucraniana. Uma situação que, com variantes associadas a questões de oportunidade e ao desenvolvimento das circunstâncias, pode estar a viver-se em vários outros países do Leste europeu, já membros da União Europeia, onde o nazifascismo ressurge também como uma espécie de afirmação da identidade nacional «perdida» com o «domínio soviético». Países onde pilares do nazifascismo como o racismo, a xenofobia, o nacionalismo assente em elucubrações esotéricas e guetos religiosos voltam a ser fortes e essenciais, para gáudio do expansionismo e do enraizamento neoliberal.

Melnyk e os desencontros da História

Andriy Melnik, agora honrado por Zelensky e o Estado ucraniano, foi o chefe da OUN desde 1938 até à sua morte, nos anos sessenta. A organização sofreu uma dissidência provocada por Stepan Bandera, relacionada mais com os egos do que por questões estratégicas no combate hitleriano contra a União Soviética e o papel dos chamados «nacionalistas ucranianos».

A OUN e a dissidente OUN-B, juntamente com a UPA, como uma espécie de braço armado, foram as entidades responsáveis por grandes massacres das populações das regiões da Volínia e da Galícia Oriental,  desagregadas da Polónia e integradas na Ucrânia Soviética depois do acordo de vida efémera entre Hitler e Stalin.
Neste quadro, e com apoio de Hitler, Melnyk e Bandera tentaram fazer valer o seu conceito de Ucrânia como «um Estado varrido de judeus, polacos e russos». O que equivale a dizer: que se faça uma limpeza étnica.

Se bem o disseram, mais eficazmente o fizeram, através dos massacres de dezenas de milhares de não-ucranianos, ou mesmo de ucranianos integrados em famílias polacas, nos primeiros anos da década de quarenta, à sombra ou com ajuda directa das tropas de Hitler.

Numa carta dirigida a Joachim Ribbentrop, ministro dos Negócios Estrangeiros de Hitler, Melnyk apresentou, em Julho de 1940, as credenciais da OUN: uma organização «ideologicamente semelhante a movimentos semelhantes na Europa, especialmente o nacional-socialismo na Alemanha e o fascismo em Itália». Nessa missiva, de facto dirigida a Hitler, Melnyk solicitou ainda «que nos seja permitido marchar lado a lado com as legiões da Europa e com a nossa libertadora, a Wehrmacht alemã». Nada por esconder.

A resposta do Reich foi afirmativa. A OUN formou o Batalhão da Bucovina da Abwehr, a espionagem militar nazi, e o processo de constituição foi dirigido pelo próprio Wilhelm Canaris, que chefiou esse departamento entre 1935 e 1944.

O novo batalhão e a UPA dedicaram-se a liquidar mais de cem mil pessoas na Volínia e na Galícia Oriental, sobretudo polacos, arménios, judeus, russos, checos, georgianos, ucranianos contaminados «com sangue polaco». O carniceiro e «herói nacional ucraniano» Dmytro Klyachciwsky, comandante da UPA na Volínia, decretou, em 1944, «a liquidação física geral de toda a população polaca». A chacina incidiu sobre as vítimas mais vulneráveis, mulheres e crianças, como acontece sempre nestes casos, vide nos campos de refugiados palestinianos de Sabra e Chatila, em Beirute, 1982, e em Gaza, há quase 80 anos.

A OUN de Melnyk distinguiu-se igualmente pela sua violência brutal contra o movimento de revolta em Varsóvia, em 1944. A veneração de Volodymyr Zelensky pelos responsáveis destes actos, assumida em nome do actual Estado ucraniano como herdeiro ideológico, social e militar de tais práticas genocidas, tem passado em claro perante a esmagadora maioria dos dirigentes da União Europeia e dos governos dos Estados membros.

Fonte: Presidência da Ucrânia

A Polónia, porém, guarda recordações doridas desses tempo. Não chegando ainda ao limite de retirar o apoio ao regime ucraniano na guerra contra a Rússia, os dirigentes polacos, pelo menos os que não se integram na elite europeísta de Donald Tusk, têm feito saber a Kiev que estas homenagens aos terroristas violam linhas vermelhas definidas pelo Estado polaco. O processo ainda está em desenvolvimento e Zelensky parece atiçá-lo em crescendo, como quem tenta isolar Varsóvia no contexto europeu.

A Polónia considera oficialmente as acções da OUN, ao lado das forças hitlerianas, contra as populações da Volínia e da Galícia Oriental, como «comportamentos de genocídio». Qualificação que corresponde, ponto por ponto, à definição de genocídio estabelecida pelas Nações Unidas.

Não se nota, dentro das classes políticas ocidentais da «democracia liberal», qualquer incómodo perante as sucessivas homenagens de Zelensky a reconhecidos genocidas. Não temos de nos surpreender, porque a mesma complacência existe em relação ao criminoso de guerra Benjamin Netanyahu, sem que nada aconteça. 

O presidente da Polónia, Karol Nawrocki, escapa a esse unanimismo cúmplice, por razões óbvias. Depois da cerimónia de veneração a Andriy Melnik, encabeçada pelo presidente da Ucrânia, determinou que seja retirada a condecoração polaca «Ordem da Águia Branca» a Zelensky. Na realidade, embora a decisão seja natural, mas corajosa no âmbito europeu, o que surpreende é a anterior atribuição de tão elevada condecoração polaca a um defensor de exterminadores do povo polaco.

Zelensky não é nazi, defendem os dirigentes europeus, de Von der Leyen a Costa, de Montenegro a Macron, Merz, Starmer a Kallas. E a comunicação social oficial vai atrás, lançando anátemas contra as posições responsáveis de quem se limita a constatar a definição da Ucrânia actual como herdeira dos heróis terroristas aliados, colaboradores e cúmplices do regime hitleriano.

Zelensky não é nazi? Mas é público que os venera. Nestas circunstâncias, ser ou não ser deixa de ser uma questão. Entretanto, em todo o continente europeu, a besta cresce, cresce, cresce…

Fonte aqui.

A União Europeia proíbe a comemoração da derrota da Alemanha nazi

(SCF, in Resistir, 20/04/2025)


– Agora, atingiu-se um novo mínimo de degeneração. A UE está a proibir a homenagem aos que derrotaram o nazismo.


A União Europeia está a advertir os líderes europeus para não participarem no 80º aniversário do Dia da Vitória, em Moscovo, a 9 de maio.

.Aparentemente, a razão para tal proibição é que a Rússia está alegadamente a travar uma guerra contra a Ucrânia e a ameaçar o resto da Europa, segundo a UE. Esta é uma forma de ver a questão.

Outra forma de ver a questão é que o conflito na Ucrânia é uma guerra por procuração patrocinada pela UE e pela NATO para derrotar a Rússia, oito décadas depois de a Alemanha nazi não o ter conseguido. As elites europeias que passaram a dominar a definição de políticas partilham a mesma mentalidade fascista. Não admira, portanto, que se oponham a participar no evento do 80º aniversário em Moscovo, no próximo mês. Precisam de manchar esse acontecimento para encobrir a sua política desprezível.

O acontecimento que assinala a derrota da Alemanha nazi e do fascismo na Europa é uma data histórica extremamente importante para todo o mundo. Há oitenta anos, a 9 de maio de 1945, o Exército Vermelho soviético esmagou o regime nazi em Berlim, pondo assim fim à mais terrível guerra da história da humanidade.

Cerca de 27 milhões de cidadãos soviéticos – talvez mais – deram as suas vidas na luta épica para derrotar a Alemanha nazi e os seus aliados europeus fascistas, incluindo a França de Vichy, a Itália, a Hungria, a Finlândia e os Estados bálticos da Estónia, Letónia e Lituânia.

A Rússia tem a honra de libertar a Europa do mal do fascismo. Em comparação, os outros aliados antifascistas dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha perderam menos de 5% das baixas que os cidadãos soviéticos sofreram.

Este ano, muitos líderes internacionais vão assistir ao desfile do Dia da Vitória em Moscovo. Dentre eles estão Xi Jinping, da China, e Narendra Modi, da Índia.

Muitos outros, no entanto, não estarão em Moscovo, o que é lamentável. O Presidente americano Donald Trump e o Primeiro-Ministro britânico Keir Starmer deveriam estar presentes para prestar homenagem aos soldados e civis que sacrificaram as suas vidas. Deploravelmente, a política tóxica que envenenou as relações entre os Estados ocidentais e a Rússia tornou impossível essa participação.

O que é ainda mais chocante, porém, é a proibição explícita de os líderes europeus assistirem às celebrações em Moscovo.

Esta semana, Kaja Kallas, a Comissária dos Negócios Estrangeiros da União Europeia, emitiu um aviso de que quaisquer políticos que se deslocassem a Moscovo enfrentariam graves consequências. Kallas, que foi anteriormente primeira-ministra do pequeno Estado báltico da Estónia, foi nomeada no ano passado como a mais alta funcionária da UE em matéria de política externa.

Um dos que desafiam as ordens é o primeiro-ministro eslovaco Robert Fico. Fico repreendeu Kallas por se atrever a dizer-lhe, enquanto líder de uma nação soberana, onde deve e onde não deve ir. E acrescentou: “Irei a Moscovo prestar homenagem aos milhares de soldados do Exército Vermelho que morreram a libertar a Eslováquia” (ler abaixo a magnifica resposta do líder da Eslováquia).

Fico foi eleito com base numa plataforma que apela a relações amigáveis com a Rússia e ao fim da guerra por procuração da NATO na Ucrânia. Tem-se oposto sistematicamente ao envio de mais ajuda militar ao regime de Kiev. No ano passado, Fico sobreviveu a uma tentativa de assassinato em que foi baleado por um atirador motivado por políticas pró-Ucrânia.

As sanções impostas pela União Europeia aos políticos que participaram na comemoração do Dia da Vitória em Moscovo têm como alvo os países candidatos à adesão ao bloco de 27 membros. Kallas ameaçou que a sua candidatura poderia ser cancelada. Entre estes países contam-se a Albânia, o Montenegro, a Macedónia do Norte, a Bósnia-Herzegovina e a Sérvia, bem como a Moldávia e a Geórgia.

No entanto, o Presidente sérvio Aleksander Vučić afirmou que iria a Moscovo, apesar da intensa pressão de Bruxelas. “Estamos orgulhosos da nossa luta contra o fascismo, e essa foi a principal razão pela qual aceitei o convite”, disse Vučić. Falou, no entanto, da influência sinistra sobre o seu governo.

“Parece-me que o céu está prestes a cair sobre a minha cabeça, devido à pressão em torno da viagem a Moscovo”, disse o Presidente sérvio, que acrescentou que o seu país estava a ser desestabilizado por agitadores externos.

A controvérsia indecorosa sobre o desfile do Dia da Vitória em Moscovo serve para realçar as crescentes tendências maligna da UE.

Cada vez mais, a centralização do poder político do bloco está a tornar-se mais autoritária e hostil em relação à Rússia. Qualquer dissidência entre os membros da UE que questione o apoio do bloco à guerra por procuração na Ucrânia é impiedosamente suprimida com ameaças de sanções políticas e económicas.

A liderança da UE, sob o comando de autocratas russofóbicos como a Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e Kaja Kallas, está implicada na supressão de eleições na Roménia, na Moldávia e na Geórgia para impedir partidos que apelam ao fim da guerra na Ucrânia e a melhores relações com a Rússia.

A recente acusação duvidosa, em França, da política nacionalista Marine Le Pen, que tem criticado a guerra por procuração da NATO, é outro exemplo terrível da ação da UE para esmagar a dissidência.

É surpreendente a forma como a UE tem funcionado como um bloco fascista. As decisões políticas sobre o financiamento de um regime neonazi na Ucrânia para travar uma guerra por procuração contra a Rússia estão a ser tomadas por elites russofóbicas sem qualquer responsabilidade democrática.

Ironicamente, a União Europeia, que foi galardoada com o Prémio Nobel da Paz em 2012, transformou-se num eixo militarista em que a economia civil está a ser subordinada a um impulso desmedido para a guerra, alegadamente para fazer face à agressão russa.

Desde há vários anos, a UE tem caminhado para esta manifestação nefasta. O bloco é dirigido por pessoas como Von der Leyen, cujo pai, político alemão, tinha filiações nazis. Os Estados Bálticos que erguem monumentos a colaboradores nazis estão agora sobre-representados nos gabinetes de decisão política da UE.

É apropriado – embora abominável – que o bloco esteja hoje aliado a um regime neonazi em Kiev que homenageia fascistas ucranianos como Stepan Bandera e Roman Shukhevych e muitos outros que colaboraram com o Terceiro Reich no seu extermínio de milhões de pessoas há oito décadas.

Um marco vergonhoso foi a aprovação de uma resolução pelo Parlamento Europeu em 2019 que equiparava a União Soviética à Alemanha nazi por alegadamente ter iniciado a Segunda Guerra Mundial. A Rússia condenou esse revisionismo político.

Agora, foi atingido um novo mínimo de degeneração. A UE está a proibir a homenagem àqueles que derrotaram o nazismo.

Fonte aqui.


Ó Kallas, porque não te calas?!

(Resposta de Robert Fico à pindérica Kallas, in Twitter/X, 15/04/2025, Trad. Estátua)

Senhora. Kallas, gostaria de a informar que sou o legítimo Primeiro-ministro da Eslováquia – um país soberano. Ninguém me pode ditar para onde posso ou não viajar.

O aviso e ameaça da Senhora. Kallas são desrespeitosos e eu oponho-me veementemente a eles. A Alta Representante da União Europeia (UE) para os Negócios Estrangeiros, Kaja Kallas, está a alertar os líderes da UE contra a participação nas comemorações do Dia da Vitória em Moscovo, em maio. Afirma que tal participação não será considerada levianamente.

 Irei a Moscovo no dia 9 de maio. O aviso da Sra. Kallas é uma forma de chantagem ou um sinal de que serei punido ao retornar de Moscovo? Não sei. Mas sei que estamos em 2025 e não em 1939. O aviso da Sra. Kallas confirma que precisamos de um debate dentro da UE sobre a essência da democracia. Sobre o que aconteceu na Roménia e na França em conexão com as eleições presidenciais, sobre as “Maidans” organizadas pelo Ocidente na Geórgia e na Sérvia, e como o abuso do direito penal contra a oposição na Eslováquia foi ignorado.

Sra. Kallas, gostaria de a informar que sou o legítimo Primeiro-ministro da Eslováquia – um país soberano. Ninguém pode ditar-me para onde posso ou não viajar. Irei a Moscovo para prestar homenagem aos milhares de soldados do Exército Vermelho que morreram libertando a Eslováquia, bem como aos milhões de outras vítimas do terror nazi.

Assim como prestei homenagem às vítimas do desembarque na Normandia, ou às vítimas do Pacífico, ou como pretendo homenagear os pilotos da RAF. E permitam-me lembrar que sou um dos poucos na UE que fala consistentemente sobre a necessidade de paz na Ucrânia e não apoia a continuação desta guerra sem sentido.

As suas palavras, Sra. Kallas, são desrespeitosas e eu oponho-me a elas veementemente.

Do indigno do presente sobre a História

(Rui Pereira, in Facebook, 18/04/2025, Revisão da Estátua)

O embaixador russo na Alemanha, Sergey Nechayev (ao centro, de gravata vermelha), participou nesta semana de evento por ocasião dos 80 anos da Batalha das Colinas de Seelow, em que o Exército Vermelho e tropas polonesas enfrentaram os nazis.

Indignamente, o parlamento alemão excluiu a Rússia e a Bielorrússia das celebrações em Berlim da importantíssima efeméride do octogésimo aniversário da derrota do nazi-fascismo, a 9 de maio de 1945 (ver artigo sobre o tema aqui).

Já antes a Rússia fora, da mesma indigna forma, excluída da celebração do “Dia D” no norte de França. Nunca tive pulsões germanófobas. Do que pude ir aprendendo sobre o assunto, relacionei sempre a tragédia alemã da primeira metade do século muito mais com as recomposições imperiais do capitalismo do que com qualquer vocação “nazista” intrínseca ao povo alemão. Não creio, aliás, que existam vocações intrínsecas a qualquer povo – expressão já de si tão complexa (esta de “povo”) que não precisamos de complicá-la ainda mais.

Sobre o caso alemão, existe até uma literatura, chamar-lhe-ia situada entre a analítica e a expiação, virtualmente inabarcável sobre A Questão da Culpa acerca dos alemães e o nazismo, título seminal precisamente de uma dessas obras, da autoria de Karl Jaspers. Mas, poderíamos juntar-lhe a extensa e dorida investigação biográfica de Joachim Feist sobre Hitler ou, ainda, Nós, filhos de Eichmann: carta aberta a Klaus Eichmann, de Günther Anders, entre toda uma, como disse, inextinguível literatura de origem alemã – para não falar da de outras origens – sobre a questão da Alemanha e do nazismo.

O que cai nestas operações de imediatismo propagandístico feitas à custa do revisionismo histórico e da mentira ordinária, não é tanto o valor dos factos históricos, pois nada modificará o facto de os russos-soviéticos terem sido quem mais sangue entregou ao mundo para derrotar o nazismo (27 milhões de mortos – para os historiadores mais diletantes, no conforto ocidental e que nunca viram os seus povos metidos numa tragédia desta dimensão, tratar-se-á apenas de um detalhe negligenciável). O que cai, sim, e esse é o objetivo da operação, é a capacidade de pensar um mundo diferente não daquele que existiu, mas do que existe, em favor da redução dos possíveis do humano, ao existente inumano que marca a nossa experiência contemporânea do mundo.

O salariato propagandístico de governantes, académicos, agentes mediáticos e outros traficantes de irrealidades emerge daqui como um chico-espertismo perigosamente remunerador.

Que estamos, com exemplos destes, a ensinar às gerações presentes e futuras? Só um pensamento ausente é capaz de se ausentar desta questão. Porque se desabituou de pensar seja o que for com profundidade, ou mais banalmente porque troca o valor da dignidade pelos valores do estipêndio. Disto, em boa medida, terá sido o próprio nazismo feito.

Por mim tenciono celebrar os 80 anos do 9 de maio de 1945 mais até do que num gesto de homenagem àquele passado, enquanto um ato contra o cinismo deste presente.