Ó Gomes Ferreira, arranja outra táctica

.(Por Estátua de Sal, 21/10/2016)

gomes-FERREIRA

José Gomes Ferreira

O Passos dizia que vinha aí o diabo. Uma das hipóteses era que ele entrasse pelo Ártico, via Canadá, trazido no trenó da DBRS, a tal agência de rating que dá à dívida pública portuguesa a notação de  “investimento”, permitindo assim que o BCE a vá comprando.

Hoje mesmo, soubemos que não veio e que, até Abril, não vai entrar pelo Norte. A DBRS, manteve a notação da dívida portuguesa no nível de “estável”, como era esperado, o que só pode ser positivo para o país, pelo menos no curto-prazo.

Chamado a comentar o evento na SICN, o Gomes Ferreira, lá foi dizendo que é uma boa notícia, um pouco a contragosto, digo eu.
Mas o mais inédito foi a sua crítica à agência de rating. Que não dá “ponto sem nó”, que nada é “de borla”, que é “pró-cíclica”, que não faz boas avaliações, etc.

Ou seja, a DBRS seria boa se tivesse cortado o rating da República. Como não o fez, é porque é parcial, e porque falseia a realidade e age dessa forma porque tem ganhos económicos com isso.

O GF parece um marciano. Então não é dessa forma que todas as ditas agências agem?! Acha o GF que as notas das agências tem alguma coisa a ver com os “fundamentais” das empresas e dos países? Se acha eu só lhe posso chamar tolo e manipulador. Antes da crise de 2008 o Lehman Brotters tinha uma nota de +AAA dado por todas as agências de rating e foi o que se viu: faliu e estava mais que falido há muito tempo.

Portanto, não querendo sublinhar a vitória do país, logo do Governo de Costa, GF optou por descredibilizar a DBRS e a nota que dá à dívida portuguesa.

Só me resta dar um conselho: Ó GF muda de táctica. Já ninguém te leva a sério. Se tiveres dificuldade telefona ao Jorge Jesus para te dar a táctica discursiva que deves usar e quais os reforços a comprar em Janeiro para seres mais credível.

E se não confias no JJ telefona ao Diabo. Ele, apesar de não aparecer, costuma atender as chamadas a tipos como tu, com vocação para a aldrabice, que me parece ser uma qualidade que te vai muito bem com o tom de pele.

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O cherne pescado em nome de Deus

(Estátua de Sal, 08/07/2016)

Barroso-Cherne-caricature

“Sou um banqueiro a fazer o trabalho de Deus”. A afirmação foi proferida por Lloyd Blankfein, Presidente (CEO) do Goldman Sachs, e retrata a forma como o presidente do maior banco de investimento do mundo vê a sua missão. O Goldman, para muitos, uma espécie de governo sombra do capitalismo financeiro na era da globalização, serve-se da referência ao Divino e à materialização deste em religião – como sempre os poderosos fizeram ao longo da História -, para obter todo o tipo de poderes e bens terrenos pouco ou nada espirituais. Mas, Blankfein, esclareceu ainda melhor o seu pensamento sobre o que é o trabalho de Deus. Disse o personagem que a luta atual consiste numa guerrilha que se desenrola entre o capitalismo e o estado social dos regimes democráticos e que em nome de Deus, a vitória do capital sobre o social deve ser esmagadora e absoluta.

Para a execução da sua missão, apesar de divina, não confiam lá muito em milagres, mas muito mais nos homens que saem dos seus quadros para ocupar cargos de poder nos Governos e nas instituições supranacionais um pouco por todo o mundo, ou na transumância inversa, pautada pelo ingresso de ex-políticos na sua elite de dirigentes e de consultores. (1)

Em Portugal temos exemplos vários: Carlos Moedas veio do Goldman para o Governo e daí para a Comissão Europeia; António Borges, vice-presidente do Goldman, para consultor de Passos Coelho nas grandes privatizações; José Luís Arnaut dos círculos do poder dos Governos do PSD para o Goldman.

Mas, a cereja no topo do bolo, é a notícia de hoje que dá conta que Durão Barroso, também ele, vai ser consultor e presidente não executivo do Goldman. Eu diria que, se em tempos a Durão ficou colado o epíteto de O cherne, talvez fosse melhor mudar o apodo para A pescada, porque tal como a pescada, Durão antes de ser do Goldman hoje, já o era certamente enquanto presidia à Comissão Europeia.

E depois estranhamos a Comissão Europeia ser como é, tomar decisões que minam a coesão europeia, atacar países, discriminar países, não se percebendo a razão por que o faz, admitindo muitos de nós, ingenuamente, que ainda existe um projeto europeu que vale a pena defender e prosseguir e que tais decisões são incompreensíveis à luz dessa defesa.

Pois bem, sendo a Comissão Europeia e as restantes instituições minadas por dentro por estes submarinos infiltrados, como Durão, Moedas e outros, só há uma grelha de leitura possível para os objetivos que ela irá prosseguir a longo prazo, e que decorre dos fins últimos do Goldman e afins: obter a vitória total e absoluta do capitalismo financeiro global sobre o estado social dos regimes democráticos como enunciou, sem qualquer pudor, Blankfein. Usando tal algoritmo de leitura, tudo se torna de imediato percetível.

É também nesse quadro mais amplo que se deve descodificar a novela das sanções a Portugal, novela para a qual Barroso também contribuiu recentemente dizendo que as ditas sanções “dependem do que o Governo disser e fizer”. Uma ameaça velada em forma de aviso que, deve ser levada a sério, pois é feita seguramente em nome de Deus, e com as divindades não se brinca. E a razão é simples: as políticas implementadas e defendidas pelo atual Governo só podem desagradar ao Goldman e afins porque interrompem  a destruição do estado social, e colocam o enfoque na redistribuição do rendimento em detrimento do suposto aumento da competitividade através da degradação salarial e da flexibilização do mercado de trabalho. Nada que seja coincidente com o que deve ser o trabalho de Deus.

Mas, o mais curioso é uma passagem do comunicado do Goldman saudando a contratação de Barroso: “A sua perspetiva, capacidade de avaliação e aconselhamento irão acrescentar muito valor ao conselho de administração da Goldman Sachs International, à Goldman Sachs, aos seus acionistas e trabalhadores”. Não tenho qualquer dúvida sobre isso. Mas, o que é o valor, como se cria e como é distribuído na atual fase do capitalismo? Deixo algumas reflexões para esse complexo debate:

  • O modelo de concorrência, o mantra do mercado, que os economistas continuam a estudar e as universidades a ensinar, e que nunca existiu no seu estado puro em qualquer realidade social ao longo da História, ainda assim permite aos economistas produzir algumas toscas explicações do funcionamento das economias, senão a nível macroeconómico, pelo menos a nível microeconómico.
  • O modelo da concorrência pressupõe, entre outras exigências a existência da perfeita transparência do mercado, o mesmo é dizer que todos os intervenientes no mercado têm, em simultâneo, o mesmo nível de informação sobre os preços e as quantidades. Claro que, tal nunca ocorreu, porque sempre houve agentes a saber mais que todos os outros, a deter informação privilegiada, estando numa posição dominante. Este problema de informação assimétrica, há muito conhecido dos economistas, levou inclusive os poderes regulatórios dos mercados a tipificar o chamado crime de inside trading, penalizando e criminalizando os agentes faltosos.
  • Pois bem, o valor, que o comunicado do Goldman refere em relação às vantagens da contratação de Barroso, vem exatamente daí já que esta contratação materializa um crime de inside trading a céu aberto, às claras, e sem subterfúgios. Barroso irá levar para o Goldman, não só os contactos às pessoas certas dos lugares certos, mas toda a informação privilegiada sobre as economias da União Europeia, dossiers de privatizações, grandes empresas, financiamentos, projetos de investimento, etc.
  • Ou seja, a ideia de que o capitalismo funciona com base no mercado e na concorrência, e que dessa forma se obtém um equilíbrio ótimo na utilização de recursos, apesar de há muito ter sido questionada ao nível teórico, fica no atual momento, com a vulgarização desta transumância de informadores para as grandes corporações definitivamente posta em causa.
  • Mais interessante ainda: são os maiores defensores dos mercados livres, no que toca aos bens públicos e ao fator trabalho, os mais ativos destruidores dos mercados quando recorrem a estas contratações e expedientes que distorcem toda a concorrência a seu favor. São todos a favor dos mercados mas no fundo todos lutam tenazmente por ser monopolistas.
  • Na atual fase do capitalismo, pautada pela globalização e pela crescente importância da distribuição das mercadorias e da negociação dos fatores de produção através de redes de informação cada vez mais globais e instantâneas, o valor tende a concentrar-se cada vez mais na mão daqueles que conseguem o controlo em antecipação da informação, mormente da que não é pública, em detrimento daqueles que o produzem, sejam trabalhadores sejam produtores.
  • Assim sendo, e não ocorrendo uma reversão deste estado de coisas, a tendência para a queda do investimento em atividades produtivas da economia real, em benefício das atividades financeiras e especulativas irá continuar, originando uma situação que só poderá ser de decadência do próprio sistema, o que de alguma forma já está a verificar-se.

Mais que criticar as opções individuais dos Barrosos deste mundo – censuráveis certamente no plano da ética e da probidade -, convirá, contudo, refletir sobre as condições atuais de funcionamento das economias e dos regimes políticos, que permitem que eles sejam úteis aos que os compram ou alugam, sem que existam quadros legais e sancionatórios que tal impeçam.

Em nome de Deus, ao longo da História, sempre se cometeram as maiores barbaridades. E como a História se repete, esta é mais uma.

Estátua de Sal, 08/07/2016

  1. Ver o link abaixo sobre o Goldman, a sua forma de atuar e os serventuários que foi contratando nos vários cantos do mundo.
  2. http://economico.sapo.pt/noticias/afinal-o-goldman-sachs-manda-no-mundo_129681.html

 

O que Schäuble fez é inadmissível

(Nicolau Santos, in Expresso, 02/07/2016)

nicolau

O ministro alemão das Finanças estava numa conferência e a ser confrontado com perguntas sobre a solidez do Deutsche Bank quando resolveu dizer que o preocupava muito mais a situação de Portugal. “Schäuble diz que Portugal pediu um novo programa e vai tê-lo”, sentenciava a agência Bloomberg às 15h07 do dia 9 de junho, informação corroborada pela Reuters pouco depois. Estupefação geral até Schäuble esclarecer que Portugal não pediu nenhum resgate, mas que “está a cometer um erro grave se não cumprir os compromissos assumidos”. Mas de que fala Schäuble? O Governo português disse alguma vez que não ia cumprir os compromissos europeus? E se sim, onde e quando?

Pois bem. Algumas horas depois sabia-se que a filial norte-americana do Deutsche Bank chumbava, pelo segundo ano consecutivo, os testes do stresse levados a cabo pela Reserva Federal por ter encontrado “falhas significativas” no que respeita aos aspetos “qualitativos” de retorno de capital aos acionistas, baseados em pressupostos que “não são razoáveis nem apropriados”. E o FMI fazia sair um relatório considerando o Deutsche Bank como a instituição que apresenta maiores riscos para o sistema financeiro a nível global, seguido do HSBC e do Crédit Suisse. No ano passado, o Deutsche registou prejuízos recorde de €6,8 mil milhões, está a braços com múltiplos processos na justiça devido a acusações de manipulação das taxas Libor e Euribor e há sérias dúvidas dos analistas sobre a sua capacidade para pagar 1,75 mil milhões de obrigações convertíveis (CoCos) que emitiu em anos anteriores.

O ministro alemão das Finanças atirou a porcaria para o quintal do vizinho para evitar falar da que tem no seu e para criar dificuldades adicionais ao Governo português

Ou seja, Schäuble atirou a porcaria para o quintal do vizinho para evitar falar da que tem no seu. Mas é mais do que isso. O ministro alemão suporta muito mal os que não pensam como ele. Foi ele que impôs a Alexis Tsipras a resignação de Yanis Varoufakis, foi ele que admitiu a possibilidade de a Grécia sair do euro, foi ele que obrigou o Governo de Tsipras a ajoelhar e a aceitar uma nova dose cavalar de austeridade. E é ele que não suporta que o Governo português esteja a seguir uma orientação económica que não está conforme aos ditames do Eurogrupo, que são a concretização prática do seu pensamento.

Por isso, Schäuble não se equivocou nem está com Alzheimer. Disse o que disse de propósito, para desviar atenções do Deutsche e para pressionar o Governo português, de que não gosta e cuja política económica contradiz aquilo em que acredita, criando-lhe dificuldades adicionais que levem à sua demissão.

O que Schäuble fez foi feio, porco e mau, ainda por cima poucos dias depois do ‘Brexit’ e quando mercados e investidores passam por uma fase de enorme instabilidade e insegurança. Conheço poucas palavras de alemão, mas há uma que envio a Schäuble — embora não a escreva porque este é um jornal bem-educado.


O MAAT, a EDP e Portugal

Nenhuma empresa representa um país, mas há empresas que são um exemplo de excelência e de responsabilidade social num país. A EDP é seguramente uma das grandes empresas nacionais onde se alia uma enorme competência técnica e uma estratégia corajosa e inovadora a uma alargada responsabilidade social. A EDP apoia projetos de inclusão social (27 em 2016) e de saúde (12) — o programa EDP Solidária existe desde 2004 e já tocou a vida de mais de 500 mil pessoas em situação vulnerável —, bem como a atividade e a criação artística, devolvendo assim à sociedade parte do muito que a sociedade lhe dá. Agora dá à capital, a partir de 29 de junho, o MAAT — Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia, dirigido por Pedro Gadanho, que promete ser um polo de atração nacional e internacional. Se o Porto mudou com a Casa de Serralves, Lisboa vai mudar com o MAAT.


A economia está a afocinhar

O economia está a afocinhar. Não é possível iludir o que tem vindo a ser confirmado por todas as previsões. A penúltima, da OCDE, apontava para 1,2%; a última, da Comissão Europeia, para 1%. É quase metade dos 1,8% previstos pelo Governo. Parte do problema está nas exportações: menos 45% para Angola, menos 35% para o Brasil, quebras significativas para a China…; parte na falta de investimento e parte no abrandamento do consumo. E aqui ainda não se incluem os efeitos que o ‘Brexit’ terá sobre a economia europeia e, por tabela, sobre nós (exportações para o Reino Unido, turismo britânico no Algarve). I.e., mesmo a ideia de que a economia vai crescer mais na segunda metade do ano está em causa. Não adianta, pois, António Costa e Mário Centeno taparem o sol com a peneira. Há que reconhecer o óbvio e corrigir o quadro macroeconómico. A credibilidade nunca fez mal a ninguém.

A dor feliz de Botton e Relvas

Julga que não me doeu? Ah, pois doeu. Mas tinha de ser”. As palavras são de Filipe de Botton após ser conhecido que o fundo norte-americano Carlyle vai entrar no capital da Logoplaste, a terceira maior companhia transformadora de plástico rígido da Europa e uma das dez maiores do mundo. Não é seguramente fácil ‘dar’ metade de uma empresa fundada pelo pai, Marcel de Botton, com base num conceito revolucionário de gestão e depois fortemente desenvolvida por Filipe e Alexandre Relvas. Nem tudo foram rosas, contudo, e o mercado brasileiro revelou-se padrasto (mais uma vez) para uma companhia portuguesa. Agora, para continuar a expansão nos EUA e em novos mercados europeus, a Logoplaste precisava de capital. Isso implicava ceder grande parte do capital da companhia. Dói, seguramente. Mas é o caminho certo para as empresas que querem crescer e ter sucesso no século XXI.


Entro na minha fortaleza

tranco a porta com ligeireza

defendo-me com destreza

do mundo

que não entendo

da gente

que não compreendo

Aí no meu castelo

castelo de cristal

sem grades

nem seguranças de metal

eu me fecho

desligo ligeiro

do mundo inteiro

No meu castelo

castelo de cristal

sem grades

nem seguranças de metal

eu vivo só

eu vivo sozinha

o meu sonho de exílio

O meu sonho de rainha


(Maria Teresa Ramos, ‘Meu sonho de rainha’, in “Na estação errada”, DG Edições, agosto de 2011. Declaração de interesses: a autora do poema é a mãe do responsável desta página.)