A miséria do jornalismo ocidental

(José Goulão, in AbrilAbril, 08/02/2024)

A máquina mediática ocidental, que controla os circuitos e conteúdos informativos transnacionais graças aos seus poderes económico-financeiros e tecnológicos, trabalha com métodos coloniais, mistura ostensivamente informação com propaganda.


O jornalismo está debaixo de fogo. Nas situações de guerra, mas também nos ambientes e nas sociedades que se ufanam de ter entre os princípios básicos do seu funcionamento a liberdade de opinião, de informar e ser informado.

É inevitável: a degradação da actividade jornalística, do comportamento das estruturas dominantes no jornalismo e do exercício da própria profissão está associada à transformação da democracia numa coisa puramente formal e não representativa da vontade popular a que resolveu chamar-se «democracia liberal».

Se a democracia liberal vive da asfixia do debate, do confinamento da opinião, da repressão do espírito crítico e da obstrução do esclarecimento, o jornalismo dominante reflecte estes desvios ao funcionamento livre da sociedade. De «quarto poder», entendendo-se por isto um papel de contraponto e de independência em relação à gestão dos três outros poderes, o jornalismo transformou-se num instrumento não apenas útil, mas também indispensável para as estratégias abusivas de governação. 

A resultante do jornalismo que se pratica entre nós, entendendo-se por isso o chamado «mundo ocidental», é uma caricatura degradante da liberdade de opinião e informação, paira como um meio tóxico sobre os cidadãos – a maioria dos quais não dão por isso porque confiam nela quase sempre sem espírito crítico, porque acreditam nas mentiras em que a realidade vai sendo embrulhada, porque os próprios meios de comunicação dominantes neles inocularam o vírus do alheamento, o espírito de rebanho. 

No resto do mundo a situação não será diferente, mas nesses espaços não se afirma com tanto afinco e com ênfase arrogante o apego às liberdades fundamentais. Se o «mundo ocidental» se olha como exemplo, então as práticas que exerce para que se cumpra essa superioridade civilizacional contrariam e negam o discurso oficial. A máquina mediática ocidental, que controla os circuitos e conteúdos informativos transnacionais graças aos seus poderes económico-financeiros e tecnológicos, trabalha com métodos coloniais, mistura ostensivamente informação com propaganda, perdeu os escrúpulos perante a mentira, transformou-se num aparelho global de guerra, militarismo, expansionismo e dominação ao serviço das oligarquias de espectro global.

A tragédia dos jornalistas

Os jornalistas, ou pelo menos a resultante do seu trabalho que mais influencia as sociedades, não estão inocentes no processo que conduziu a este panorama degradante.

Seria muito injusto associar esta realidade traumática aos jovens que sofrem com as dificuldades de acesso à profissão e que, uma vez em funções, se deparam com um clima de autoritarismo, controlo e instrumentalização aos quais é difícil resistir em situações de precariedade e de insegurança. As cadeias patronais de comando, infelizmente asseguradas por jornalistas que assim se dão bem nas suas carreiras, trituram sem piedade as jovens e os jovens jornalistas que não se encaixem rapidamente no sistema de informação à la carte no qual a realidade é um simples acidente e, mesmo assim, só no caso de coincidir com os interesses dos proprietários desses meios. Não é por acaso que sendo a democracia adjectivada como «liberal», a informação que se pratica é de índole «corporativa», oligárquica.

Nas últimas semanas temos vindo a assistir a uma série de explosões em meios de comunicação social provocadas por entidades patronais, em alguns dos casos com os rostos encapuzados em fundos financeiros de casino, guiadas pelo vício da especulação, que jogam com os direitos e a vida dos jornalistas como peças das suas manobras gananciosas ou como solução para supostas crises.

Os jornalistas, assim tratados como gado, lutam pelos seus direitos, mas dificilmente alguém os ouve porque os poderes, tanto o executivo como o legislativo, são meros cúmplices das trafulhices patronais. Podem fazer sonoras afirmações de preocupação com a situação dos profissionais, mas não mexerão uma palha em sua defesa porque a classe política e o corporativismo mediático são absolutamente simbióticos, muito mais num período em que, no caso de Portugal, se encavalitam dois actos eleitorais.

O grande pecado dos jornalistas, sobretudo desde o advento do neoliberalismo, foi o de quase terem deixado morrer, na prática, as suas associações profissionais, de não apostarem na solidariedade e na união de uma classe tão cobiçada pelos poderes – que não perdem uma oportunidade para fazer funcionar as suas estratégias de divisão, de chantagem e de exploração do oportunismo sabujo.

Num quadro de quase total inserção dos meios de comunicação social no sector privado da economia, ou seja, nas estruturas florescendo com a ditadura do mercado, os jornalistas não cuidaram das suas estruturas representativas, principalmente aquelas que poderiam responder de imediato a situações arbitrárias e abusivas como os conselhos e comissões de redacção ou quaisquer outras formas de associação e de afirmação profissional que as leis lhes facultam. Extinguiram-se as formas de organização de base e, com esse fenómeno, estiolaram igualmente as leis que as regulam, hoje alvos fáceis dos poderes patronais, contando com a já citada cumplicidade da classe política, isto é, os «arcos da governação». Na superestrutura bipolar, pública e privada, que controla o funcionamento e os conteúdos dos meios de comunicação, uma mão lava a outra; no plano jornalístico, a passividade, o conformismo e a transformação gradual dos jornalistas em ilhas isoladas e indefesas aceleram o extermínio de uma profissão nobre.

Mesmo quando lutam, os jornalistas mal conseguem fazer-se ouvir. Ao longo dos tempos de implantação e expansão do neoliberalismo conformaram-se com um sistema maquiavélico que os foi manipulando, modelando, usando e dividindo, ao mesmo tempo que se via livre, uma após outra, das vozes incómodas, inconformadas e com opiniões próprias.

A ausência de solidariedade da generalidade dos jornalistas e das estruturas representativas da profissão para com essas vozes marginalizadas, a indiferença perante as purgas a que estão submetidos os camaradas que não se encaixam no sistema de produção da opinião única, acabarão sempre por repercutir-se negativamente na classe jornalística como um todo, tornada cada vez mais vulnerável e indefesa perante as arbitrariedades, os caprichos e os interesses de máfias patronais com as mãos livres.

Jornalistas oportunistas, carreiristas, colaboracionistas e com mentalidade de capatazes sempre houve – situações que são comuns a todas as profissões. E as estruturas jornalísticas devem ter a coragem de fazer-lhes frente em vez de se conformarem, dia-após-dia, com os seus comportamentos, mesmo que ajam com as costas muito quentes. Os jornalistas têm leis do seu lado, que se sobrepõem, se invocadas, a quaisquer sistemas de organização e comportamentos internos que não as cumpram. O medo e a inércia induzem faltas de respeito e alimentam as pulsões patronais para violar as leis.

Percebem-se de maneira elementar as razões pelas quais praticamente todos os meios de comunicação que «informam» o mundo estão em mãos de oligarquias transnacionais. É uma inerência da «democracia liberal», assim como a «democracia liberal» é uma inerência da máquina global de mistificação. São simbioses intrínsecas e essenciais do neoliberalismo, o fascismo económico de ambições globalistas para o qual os jornalistas são meras ferramentas úteis e prontas a deitar fora se não funcionarem a contento ou forem meros empecilhos, por exemplo invocando as leis e ousando trabalhar com a independência própria da profissão.

Armadilha «de referência»

As chamadas publicações «de referência» são uma armadilha, sobretudo na formação da opinião pública, um instrumento essencial e «elegante» das estruturas de poder e patronais. São propriedade de grandes grupos oligárquicos pretendendo convencer-nos de que dão inteira liberdade aos profissionais da comunicação, mesmo que, pontualmente ou não, a actividade destes lese os seus interesses – já se ouviram histórias da carochinha bem mais credíveis. Ao mesmo tempo, os jornalistas por eles contratados fazem de conta (ou chegam a acreditar) que têm inteira liberdade, ao mesmo tempo que as classes políticas e patronais os vão envolvendo em auras de credibilidade, qualidade profissional e sapiência.

Cria-se e alimenta-se uma elite, uma aristocracia jornalística sofrendo de complexo de superioridade sobre os companheiros de profissão que não foram dotados com os seus skills (dotes, em linguagem da plebe), ou então que ousam ter opiniões diferentes da versão única, recorram a fontes plurais ou tenham até o desplante de criticá-la. Os jornalistas «de referência», os iluminados conhecedores da política e dos jogos de poder, dos quais são íntimos e até actores, têm a União Europeia e a NATO na conta de infalíveis e inatacáveis, enfim são também eles pilares da «democracia liberal». Pisam as alcatifas dos poderes, bebem do fino, no caso de se esmerarem na conquista de boas referências podem até ser contemplados com uma cadeirinha num qualquer conclave de Bilderberg, entre a nata conspirativa mundial. Porque têm atributos próprios da aristocracia, são jornalistas que não hesitam em atacar e difamar, nas suas prosas e dissertações, companheiros de profissão que se mantêm fiéis aos princípios da deontologia e teimam em ser independentes.

O jornalismo foi minado pelo «jornalismo de referência», instrumento do poder neoliberal globalista. O estado desprestigiado e desprestigiante a que o jornalismo chegou tem igualmente que ver, sem dúvida, com o papel divisionista e segregacionista representado por essa suposta elite, pelo seu desempenho na formatação da opinião única e na perseguição a quem não a segue, na descredibilização do jornalismo guiado pela deontologia e pela colagem letal aos poderes políticos e das oligarquias patronais.

O extermínio dos jornalistas

O extermínio físico dos jornalistas é um passo qualitativo extremo que os poderes considerados «democráticos» e aliados carnais dos centros da democracia liberal não hesitam agora em dar.

Em cento e alguns dias, Israel assassinou em Gaza mais de cem jornalistas, o maior massacre, que prossegue, de profissionais da comunicação alguma vez registado em conflitos da história moderna. Ao governo sionista de Israel tudo serve de argumento e pretexto para assassinar jornalistas e também as suas famílias.

Wahel Dahdouh, jornalista palestiniano chefe da delegação de Gaza da estação televisiva Al Jazeera, com sede no Catar, perdeu a mulher, três filhos e um neto às mãos de soldados israelitas. Um dos filhos era igualmente jornalista e foi abatido na região de Rafah, no sul do território junto à fronteira com o Egipto, em zona que as tropas sionistas prometeram livre de acções militares.

Shireen Abu Akleh, jornalista com dupla nacionalidade palestiniana e norte-americana, igualmente ao serviço da Al Jazeera, foi fuzilada intencionalmente, há meses, por um soldado sionista na Cisjordânia ocupada. De Washington não chegou qualquer acção efectiva de repúdio.

Gonzalo Lira, jornalista chileno e norte-americano que expôs corajosamente – obviamente contra as correntes jornalísticas manipuladas pelo colonialismo – as atrocidades cometidas pelo regime nazi-banderista de Kiev na região do Donbass, morreu recentemente na sequência da ausência de cuidados médicos quando esteve sob tortura na prisão às ordens de Volodymyr Zelenski, um democrata liberal acima de qualquer suspeita. O silêncio norte-americano perante o caso diz tudo.

A Julian Assange, vivendo a agonia da ameaça de prisão perpétua ou liquidação nas masmorras norte-americanas, parece não haver «justiça ocidental» que lhe valha depois de ter fundado o website WikiLeaks e nele ter exposto e comprovado as cruas realidades sobre a conspiração e o terrorismo como instrumentos do sistema imperial e da sua vocação «civilizacional».

Nunca existiu um ataque tão cerrado contra a vida de cidadãos que desempenham trabalhos jornalísticos como actualmente. «Os nossos coletes de imprensa, em vez de serem símbolos universais de protecção, tornaram-se alvos das miras israelitas, ao ponto de os nossos colegas em Gaza dizerem que usar coletes os torna inseguros», denuncia o Sindicato dos Jornalistas Palestinianos.

Caem sucessivamente por terra todas as normas de respeito por civis em situações de guerra, atropelando a Declaração Universal dos Direitos Humanos que, no seu artigo 19.º, determina que «todo o indivíduo tem o direito à liberdade de opinião e expressão, o que implica o direito a não ser inquietado pelas suas opiniões e de procurar, receber e difundir, sem consideração de fronteiras, informações e ideias através de qualquer meio de expressão».

Tal como as leis que, Estado após Estado, deveriam assegurar direitos aos jornalistas, também esta declaração universal é agora letra morta.

A reacção de organizações e associações nacionais e internacionais de jornalistas está longe de corresponder à magnitude da catástrofe sob os seus olhos; não vai além de «lamentos», expressões de solidariedade vazias de conteúdo e sem equivalência prática susceptível, em contexto profissional, de ter repercussões constrangedoras para os responsáveis pela violência contra os jornalistas e o jornalismo.

As organizações de jornalistas europeus demonstram, na generalidade das suas reacções perante a violência contra a profissão, uma tendência para o alinhamento com as posições governamentais e da União Europeia em relação, por exemplo, aos conflitos na Ucrânia e na Palestina. Pedem tanto a Israel como ao Hamas que «poupem civis», como se tudo tivesse apenas que ver com o 7 de Outubro e os ataques aos direitos dos palestinianos não se arrastem há mais de 75 anos. Este equilíbrio virtual entre algozes e vítimas é próprio de governos cúmplices dos autores dos massacres e deixa pelas ruas da amargura a independência e a coragem que devem guiar os jornalistas.

Gideon Levy, um destemido jornalista israelita do diário Haaretz, que não tem vida fácil em função do seu profissionalismo desassombrado, escreveu há dias: «11500 crianças mortas em Gaza. O horror nesta escala não tem qualquer justificação». E desafiou os seus leitores, desassossegando-os: «dão-se conta da extensão desta monstruosidade?» Gideon Levy confronta assim os carrascos de milhares de inocentes indefesos bem no coração dos seus domínios. O jornalismo e os cidadãos do chamado mundo ocidental só teriam a ganhar se este exemplo não correspondesse a um caso fortuito.

Quanto à Ucrânia, estamos perante um pouco mais do mesmo. As associações ocidentais que dizem representar os jornalistas lamentam, com propriedade, os profissionais que são vítimas directas da invasão russa; mas são bem menos, ou mesmo nada, enfáticas perante a violência muitas vezes assassina contra jornalistas praticada pelo regime nazi-banderista de Kiev, atingindo tanto os que, internamente, procuram desmascarar a repressão contra as vozes discordantes como os que são vítimas das agressões banderistas contra as populações do Donbass. Este equilíbrio desequilibrado, uma réplica das conhecidas posições de dois pesos e duas medidas assumidas pelos governos e pelas estruturas da União Europeia, desprestigiam os jornalistas e transformam-nos em alvos ainda mais fáceis e manobráveis das estruturas de poder. Numa frase curta: os jornalistas ocidentais não se dão ao respeito e sofrem as consequências. Em última análise, aviltam a profissão, tratam a deontologia como as mafias patronais encaram as leis e deixam os cidadãos indefesos e à mercê de um sistema triturador, inimigo do esclarecimento e da pluralidade de ideias, alienante e mesmo estupidificante.

Quando chega a hora de os poderes patronais, por esta ou aquela razão sem fundamento, ajustarem contas com profissionais da informação, só porque sim, como agora acontece através da Europa graças a uma crise auto-infligida, é óbvio que não levam em consideração os serviços prestados, nem sequer o zelo subserviente dos lambe-botas. Então os jornalistas descobrem que estão sozinhos, sem poderem contar seriamente com as organizações que dizem representá-los, quantas vezes emaranhadas no acessório, nem com o apego das classes políticas ao cumprimento das leis porque, na verdade, quem faz a lei que conta são os poderes oligárquicos, os padrinhos de redes mafiosas globalistas.

Aos jornalistas continua a restar apenas um caminho para exercer verdadeiramente a profissão: o da independência e o da procura da verdade através de todos os meios que estão ao seu alcance. É a via mais dura, exige coragem, empenho, risco e a abdicação de comodismos e mordomias que corrompem e, em boa verdade, são estranhas ao exercício da profissão; mas é a via mais digna, a que compensa, a prazo, e a que transforma o jornalismo num quase inexplicável fascínio para os que o praticam com dedicação e respeito inegociável pelo direito de todos a uma informação fundamentada e rigorosa. Esse é também o caminho para que a maioria dos cidadãos, usufruindo do autêntico direito a ser informados, sejam mais livres, mobilizados e esclarecidos. Tudo aquilo que os patrões mediáticos e a classe política «liberal» não toleram.


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Global Media: o cemitério está cheio de má e promíscua imprensa (e ainda bem!)

(Pedro Almeida Vieira, in Página Um, 07/01/2024)


Sendo eu de ‘esquerda’, aquilo que mais me irrita e faz sair do sério é quando alguém, supostamente de ‘esquerda’, se mete a culpar a ‘direita’ de algo que nada tem a ver com ideologias. Percebe-se a estratégia – criar uma clivagem, identificar um suposto inimigo ideológico, para que haja uma decisão política favorável –, mas isso é passar um atestado de indigência e sobretudo retirar a responsabilidade aos verdadeiros culpados. E não permitir uma reflexão e discussão sérias.

Hoje, a jornalista e antiga directora-adjunta do Público Ana Sá Lopes veio defender a nacionalização da Global Media. Veio tratar de fazer a ‘cama’ para deitar os desejos de políticos – e.g., Marcelo Rebelo de Sousa, Rui Moreira, Carlos Moedas e Pedro Adão e Silva – em se meter dinheiro dos contribuintes (porque não há ouvintes e leitores suficientes) para assim simplesmente se salvarem empregos de jornalistas que, durante anos, contribuíram para a degradação do seu ‘produto jornalístico’ a ponto de hoje ser já um ‘produto comercial’ sem interesse nem préstimo.

Ao contrário daquilo que defende Ana Sá Lopes – que funciona aqui como ’porta-voz’, porque sei que o seu ponto de vista é comungado pela generalidade da corporativa classe jornalística –, não vivemos “um momento totalmente crítico na imprensa”. De facto, vivemos sim um momento de clarificação.

Por exemplo, um jornal como o Diário de Notícias – por mais que simpatizemos com a sua vetusta idade (foi fundado em 1864) – não pode sobreviver se atrai apenas 1.500 pessoas para comprarem a sua edição diária contando com uma equipa de três dezenas de jornalistas e sucessivas direcções editoriais (e conselhos de redacção) permeáveis a interesses políticos e mercantis.

Veja-se, aliás, que na Global Media chegámos a ter directores editoriais do Diário de Notícias (Rosália Amorim), Jornal de Notícias (Inês Cardoso) e TSF (Domingos de Andrade) no Conselho de Administração nos tempos de Marco Galinha. A promiscuidade e cumplicidade começa aqui, quando jornalistas passam de ‘geradores de notícias’ credíveis – para que, trazendo público haja interesse externo em anunciar – para gestores comerciais a vender banha da cobra, ainda por cima usando estratégias capciosas para fazer com que marketing seja perceptível como notícias baseadas em interesse editorial.

Aliás, a hipocrisia de supostas virgens inocentes do jornalismo, que se comportaram como autênticas megeras nos anos mais recentes, ficou bem patente na audição desta semana de Domingos de Andrade na Assembleia da República. 

Com a carteira profissional de jornalista activa, Domingos de Andrade assumiu durantes várias anos funções de responsável editorial de diversos órgão de comunicação social da Global Media (DN, JN e TSF), ao mesmo tempo que era administrador da holding – sendo o braço direito executivo de Marco Galinha até ao ano passado –, e era também, de acordo com o Portal da Transparência dos Media, gerente da TSF – Rádio Jornal Lisboa, da TSF – Cooperativa Rádio Jornal do Algarve, da Difusão de Ideias – Sociedade de Radiodifusão, da Pense Positivo – Radiodifusão e ainda vogal do conselho de administração executivo da Rádio Notícias – Produções e Publicidade.

Domingos de Andrade foi um jornalista meigamente multado pela Comissão da Carteira Profissional de Jornalista (CCPJ) em Janeiro do ano passado por ter andado a assinar contratos comerciais com empresas que financiavam os periódicos da Global Media, e agora vem dizer que “não estamos apenas a assistir ao fim de marcas, estamos a assistir à destruição reputacional de marcas e redacções”? Está a fazer auto-crítica ou está a fazer lavagem de imagem?

Que eu saiba, “a destruição reputacional de marcas e redacções” sucede quando se fica a saber, através de um despacho do Ministério Público, que “Eduardo Vítor Rodrigues, na qualidade de autarca, solicitou a Domingos Portela de Andrade, vogal do Conselho de Administração do Grupo Global Media, que os meios de comunicação pertencentes a tal Grupo, nomeadamente o Jornal de Notícias e TSF, elaborassem notícias e cobrissem conferências promovendo a atuação da Câmara de Vila Nova de Gaia e do seu presidente”. É o jornalismo de Domingos de Andrade que queremos que o Estado financie? É a credibiliade de Domingos de Andrade que deve ser atendida quando falamos do fracasso da Global Media? 

Quando vejo, por exemplo, pessoas como Rosália Amorim, ex-directora do Diário de Notícias, manifestar “tristeza” pela situação da Global Media, sabendo como funcionavam as parcerias comerciais naquele diário, estamos não apenas perante hipocrisia; há uma desfaçatez terrível. Como pode uma “marca” ter alguma reputação se o próprio Conselho de Redacção da TSF se opôs à nomeação de Rosália Amorim – levantando “legítimas dúvidas quanto à sua real capacidade de manutenção de uma política editorial independente” – e ela mesmo assim aceitou o cargo?

De facto, vivemos um momento de clarificação.

Jornalismo mercantilista, sem qualidade, com personagens munidos de carteira profissional de jornalistas mas de ética mais do que questionável, permeáveis ao poder político e ao poder económico, que enganam os leitores e ouvintes através de contratos de prestação de serviços que resultam em supostas notícias, entrevistas e eventos independentes – esse jornalismo não pode sobreviver.

As empresas que o praticam, não podem sobreviver. Não podem ser ajudadas pelo Estado. Além de tudo, é imoral.

A ‘morte’ de projectos jornalísticos baseados na falta de ética é mesmo bem-vinda – é mesmo essencial, não apenas para que o crime não compense, não apenas para evitar o uso imoral de impostos dos contribuintes para insuflar e alimentar procedimentos errados e nefastos para uma sociedade, mas sobretudo por ser necessário dar espaço a projectos credíveis e sem vícios, que provem que os leitores, perante a credibilidade, valorizam economicamente o jornalismo.

Mais do que nunca, a pluralidade e diversidade da comunicação social, essencial como alicerce da defesa da democracia – que em Portugal está podre, em parte pelas promiscuidades sustentadas por jornalistas (sobretudo directores editoriais, os tais que vão defender no próximo Congresso dos Jornalistas formas de financiamento) com o poder político e económico – baseia-se na credibilidade de projectos, e não na sua história.

Quando o Jornal de Notícias e o Diário de Notícias nasceram, nos idos do século XIX, existiam largas dezenas de periódicos, alguns com largos anos, como o Açoriano Oriental, que ainda hoje se mantém a caminhar para os 200 anos. Todos viram nascer outros, muitos, quase todos foram ‘morrendo’, e sendo substituídos por outros, alguns tiveram várias vidas até sucumbirem, independentemente de terem sido, em tempos, instituições de prestígio, como os casos de O Século, o Comércio do Porto, a Capital, o Diário Popular ou o Diário de Lisboa.

Os ‘cemitérios da imprensa’ estão cheios de jornais que nasceram cheios de esperança, alguns se mostraram pujantes, mas por ‘causas naturais’, que incluíram sempre inadaptação ao mercado ou a erros próprios, claudicaram. Mas a sua ‘morte’ nunca significou a morte do jornalismo. Pelo contrário: na imprensa, a morte de um jornal permite o nascimento de outros (ainda) sem vícios.

Os jornais (ou as rádios, ou as televisões) morrem, mas o jornalismo não morre se extirparmos a tempo o mau jornalismo. Se se persiste na manutenção de um mau produto, artificializando a sua sobrevivência, ainda mais com dinheiros público, salvam-se a prazo (a curto prazo) empregos, mas traça-se uma ameaça para a credibilidade de todo o jornalismo, nega-se a possibilidade de nascerem outros projectos mais sérios, mais credíveis… e mais economicamente viáveis.

Por isso, para mim – e sem prejuízo de ser apoiante de um modelo de apoio social pelo Estado aos desempregados de empresas falidas, incluindo as do sector dos media –, nada mais saudável e natural do que a morte de (maus) órgãos de comunicação social, até porque, ao fim e ao cabo, são apenas títulos – que, aliás, anos mais tarde podem ser recuperados para novos projectos editoriais sérios.

[o próprio PÁGINA UM foi um título inicialmente fundado em 1976 por Isabel do Carmo e Carlos Antunes, de ideologia de extrema-esquerda de apoio a Otelo Saraiva de Carvalho; tornou-se mais tarde, entre 1995 e 1997, um boletim informativo da Associação Académica da Universidade do Minho, e antes de se tornar este jornal digital independente, tomou o nome de um programa da católica Rádio Renascença… ou seja, nomes leva-os o tempo, e simplesmente, no caso do PÁGINA UM, o aproveitámos por estar disponível]

Quando Fernando Alves, um histórico jornalista de rádio e fundador da TSF, afirma hoje no Público que “o departamento comercial comeu a cabeça de todas as redacções que conheço”, não se refere apenas àquela rádio da Global Media nem a outros órgãos de comunicação social deste grupo. Falará, mesmo que não queira englobar, de praticamente todos os grupos de media que, à conta de uma crise (que é muito de credibilidade), querem fazer-nos crer que os problemas são de hoje e que se salvam com a prostituição do jornalismo (através de parcerias comerciais) ou com dinheiros públicos.

O problema da Global Media – e também da Trust in News, que lhe vai seguir, em breve, as pisadas – não é de hoje. Uma empesa que desde 2017 soma prejuízos consecutivos, que já ultrapassavam os 42 milhões de euros em 2022, que tinha uma dívida ao Estado de 10 milhões no final desse ano (sem que o regulador soubesse), e que via os seus activos imobiliários serem ‘chupados’ pelos accionistas, não pode vir agora carpir pela salvação com dinheiros públicos como se lhe tivesse sucedido um terramoto imprevisível. E o mesmo se diz em relação aois actuais e antigos responsáveis editoriais e jornalistas.

E também não se mostra admissível que a Entidade Reguladora para a Comunicação Social tenha uma atitude de irresponsável passividade a ponto de defender, como fez há cerca de dois meses em resposta a perguntas do PÁGINA UM, que não tem capacidade para sequer pedir e analisar os relatórios e contas da Global Media. 

O fraco papel do regulador, mais a sua plataforma de Transparência dos Media, para evitar entrada de empresas e pessoas com interesses suspeitos, seria anedótico se não fosse grave. Foi o PÁGINA UM – e não o regulador – que detectou no ano passado falsas declarações de diversas empresas de media, incluindo ocultação de dívidas ao Estado (Global Media e Trust in News), de falência técnica (empresa do Tal & Qual) e de dependência financeira (empresa do Polígrafo).

Na verdade, tem sido o PÁGINA UM que, com as suas denúncias e já com uma seccção própria (pela relevância num sistema democrático), mais tem revelado as promiscuidades entre jornalismo e empresas (públicas e privadas, e até Goveno, o que, aliás, tem merecido a devida reacção corporativista dos visados, razão pela qual a generalidade dos órgãos de comunicação social mainstream ignora as nossas investigações, e os ‘órgãos reguladores’ (ERC, CCPJ e Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas) se mostram tão favoráveis a atender os nossos críticos.

Por tudo isto, e regressando ao início, se vamos para “pactos de regime”, como defende Ana Sá Lopes, para salvar empregos de más empresas jornalistas, fazendo com que passem a ser controladas pelo Estado, não vejo como isso pode ser bom para a democracia – diria antes: será péssimo para o jornalismo e para a democracia. Nacionalizar empresas de media, ou entregá-las a empresas do regime, é o ‘sonho húmido’ de quem está no poder. Não nos bastou as tentativas de Sócrates de controlar a TVI e como foram nomeados alguns directores da Lusa e da Global Media nos tempos do seu Governo?

Por tudo isto, são uma ofensa as palavras de Ana Sá Lopes – que é apenas um peão com o objectivo de colocar uma clivagem ideológica num problema meramente empresarial e de ética jornalística – a defender que quem contestar uma salvífica entrada de capitais públicos (dinheiro dos contribuintes) especificamente na Global Media é alguém de ‘direita’ a qualificar o Estado como um “diabo”, que é “mau, horrível, [que] come criancinhas ao lanche e por aí fora”, como escreve no seu artigo de opinião no Público de hoje.

Estou saturado deste tipo de paleio, sobretudo por jornalistas, sobre um assunto que exige debate sério, e sem estar contaminado por pessoas que compactuam ou compactuaram com um ‘modelo de negócio’ da imprensa que descredibilizou o jornalismo português nos últimos anos.

Melhor regulação – não necessariamente mais (acho que a ERC dedicou mais horas de trabalho a analisar queixas contra o PÁGINA UM do que a analisar a crescente e evidente degradação da Global Media) –; maior participação e independência dos jornalistas nas redacções; outra seriedade na anedótica Comissão da Carteira Profissional de Jornalista (que deixa impune claríssimas incompatibilidades e promiscuidades); e um debate sério sobre a definição de critérios apolíticos (sem intervenção conjuntural dos Governos ou da Assembleia da República) para o financiamento público dos media (por constituírem um bem público, na concepção económica do termo), são temas fundamentais para definir o futuro da imprensa escrita (em papel e online), radiofónica, televisiva e multimédia.

Mas esse debate deve ser feito à margem do que está a suceder com a Global Media, que antecipa o caso similar da Trust in News, dona da Visão. Aliás, por mim, seria saudável e até útil que se discutisse o futuro da imprensa em Portugal depois da concretização da queda destes dois grupos à força das leis do mercado, da oferta e da procura e da boa gestão da res publica (dinheiros públicos), porquanto assim a análise da sua ‘morte’ constituiria ensinamentos para não se cometerem os mesmos erros e nos vermos livres de pessoas que conspurcam a nobre profissão de jornalista.

Fonte aqui.


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Conversa com Andrei Martyanov (Especialista em assuntos militares russos)

(Alexandre Guerreiro, in YOUTUBE, 20/04/2023)

Entrevistas deste tipo não passam nas nossas televisões. É a censura e a prossecução do pensamento único. Querem saber para onde caminha a guerra na Ucrânia, tanto quanto é possível saber o futuro? Ouçam Andrei Martyanov. Ele é um verdadeiro especialista em guerra e em geopolítica. O vídeo está legendado em português, ainda que as legendas em inglês sejam as que aparecem no início. Podem ir às definições e mudam-nas para português.

Estátua de Sal, 25/04/2023



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