Os “warmongers” e a guerra na Ucrânia 

(Armando Rosa, in MaisRibatejo.pt, 02/01/2023)

O que são os “warmongers” atuais?

Como introdução e esclarecimento prévio fica aqui o que eu penso poderem ser os três níveis de warmongers que, segundo a minha perspetiva, se têm revelado neste conflito e que passo a citar:

Nivel 1- Os verdadeiros puros e duros “warmongers” são aqueles que realmente alimentam esta guerra como o são todos os dirigentes ocidentais que têm contribuído para o incremento do conflito, onde também se incluem os governantes portugueses.

Nível 2 – A seguir, podemos considerar os ajudantes de “warmongers” onde se incluem todos os que comentam e informam na comunicação social, guiados pelas grandes multinacionais da informação e pelos serviços secretos, principalmente os do UK e EUA. Estes são os influenciadores da opinião pública e os principais responsáveis por manter as massas conectadas à narrativa oficial.

Nível 3 – Por fim vêm os “warmongers” de sofá e das redes sociais. Estes, embora não produzam qualquer efeito prático no desfecho da guerra, servem de megafone amplificador dos grandes momentos e das opiniões dos seus ídolos e mentores ideológicos. São úteis também para responder a inquéritos de opinião onde são mostradas as grandes maiorias a que pertencem, o que dá sempre jeito para apoio das decisões já previamente tomadas pelos verdadeiros “warmongers”.

Falemos, então e aleatoriamente de uns e de outros.

O que se passa atualmente na Ucrânia é, hora a hora, tema de análise feita por dezenas de comentadores: militares, académicos, politólogos, jornalistas, políticos e outras gentes com necessidades de subir nos escalões da opinião e que são a palha e o pão-de-ló com que se alimenta a nossa comunicação social, na sua totalidade, afiliada ao discurso oficial e único que, muitas das vezes, nos faz sair do sério, tal é a bajulice e a deturpação factual utilizadas.

Tudo está bem afinado e cantam no tom que lhes é mais fácil e também mais agradável aos ouvidos dos crentes e seguidores. Não têm o poder ou a influência dos reais “warmongers”, mas não deixam de lhes completar o serviço com a intoxicação e manipulação das verdades, das mentiras e das omissões convenientes para o efeito.

Estava tudo previsto desde o golpe de Maidan.

Os verdadeiros e reais “warmongers” da guerra na Ucrânia, aqueles que decidem do futuro e da história dos povos, têm uma história muito bem documentada desde 2014, ano do golpe de Maidan promovido pelos EUA. Foi aí, onde a principal “warmonger” da época, a secretária da defesa dos EUA, Victoria Nuland, se revelou especialmente ativa na preparação do golpe e muito contundente durante um telefonema com o seu embaixador na Ucrânia, Geofrey Pyat. No final da conversa descaiu-se com um mortífero e premonitório “Fuck EU”. [1].

Foram “warmongers” como Boris Johnson conluiado com o seu mentor Joe Biden, que logo depois do início da invasão e com promessas de apoio e vitória da Ucrânia, fizeram boicotar as reuniões em que a Rússia e Ucrânia se propunham negociar“O Porta voz do Kremlin, Dmitry Peskov, disse que Moscovo está a exigir que a Ucrânia acabe com a ação militar (iniciada em 2014, mude a sua constituição para garantir neutralidade, que reconheça a Crimeia como território russo e que reconheça as regiões separatistas de Donetsk e Lugansk como estados independentes.”[2]

Um acordo que permitisse a esses dois territórios russófonos tornarem-se autónomos, teria evitado milhares de mortes, bem como a destruição da Ucrânia, mas os “warmongers” sabiam bem o que queriam e não deram hipótese a negociações. Eles que não podem esticar muito a corda aos russos, vão aproveitando o tempo para alimentar os ucranianos da esperança de poderem, um dia, reconquistar os territórios ocupados, embora bem saibam que isso terá sempre a resistência militar russa até às últimas consequências.

A Rússia pode perder a guerra?

Estes belicistas de segundo nível, acham/dizem que a Rússia pode perder a guerra. Como têm pouca ou nenhuma informação para além da que lhes é impingida pelas multinacionais da comunicação e por serviços secretos afiliados e bem dirigidos (Inteligence Services…), escondem que os russos têm mais ogivas nucleares do que todos os países da Nato juntos e que é o único país que, com os misseis hipersónicos, pode atingir qualquer cidade do planeta em pouco mais de duas horas sem qualquer obstáculo ou defesa antiaérea. Mesmo alguns mais bem informados, à pala do que não podem provar e da instituição do medo (o perigo de a Rússia avançar sobre a Europa depois da Ucrânia) e que é uma mistificação barata das intenções e objetivos explícitos no início da invasão por Peskov, apoiam o prolongamento da guerra até à mais que previsível WW3. Não me admira este tipo de pensamento em oportunistas, situacionistas, superficiais e pro fachos que por aí peroram. Já me custa que pessoas com conhecimentos (?), algumas que se dizem de esquerda, embarquem na narrativa oficial e quase única de que isto começou em 24/02/22 e que só termina com a vitória militar de um dos lados.

E depois essa gente chama de putinistas e até comunistas (vejam a ignorância), a quem se insurge contra o prolongamento indeterminado destes massacres.

A maioria destes “warmongers” de segunda, apenas mostra a sua desonestidade intelectual e afiliação comprometida com quem lhes paga os serviços. Os onze princípios de manipulação ensinados por Goebbels são bem aplicados por esta gente e modelam a opinião pública à medida dos interesses dos poderes do momento.

Os interesses americanos e os imperialismos.

Os americanos já atingiram os seus principais objetivos com esta guerra, a saber: passaram a ser os principais fornecedores de gás à Europa, substituindo a Rússia; resolveram a crise interna da indústria de armamento e da sua economia e simultaneamente enfraqueceram a Rússia e a EU, retirando-lhes qualquer protagonismo concorrencial, tanto nas áreas económica ou da geopolítica.

Os “warmongers” no geral e os interesses americanos sempre estiveram de mãos dadas, para além das direitas liberais, com certa dita esquerda organizada em partidos, PS incluído. Do BE nem se fala. Depois daquela ovação de pé ao comediante, parece que a guerra não lhes diz nada. Nem a guerra nem a autodeterminação de povos massacrados (neste caso os povos eslavos do Donbass). A eles e a muita gente que assobia para o lado, não convém comprometerem-se com posições fora das grandes maiorias de opinião. “Há que conter o imperialismo russo” dizem eles. O outro imperialismo, aquele que detém 750 bases militares fora dos EUA em 80 países, esse há que apoiar e desculpar qualquer coisinha que façam pelo mundo fora, como por exemplo as intervenções no Iraque, Síria, Afeganistão, Jugoslávia, etc. Para não falarmos do que se passa na atual Palestina e do apoio total a Israel.

NATO hosts meeting of G7 Leaders
Official family portrait

Os “warmongers” que convidam o Zelensky para congressos e parlamentos são os mesmos que aceitaram passivamente e ainda justificam todas as ações terroristas e belicistas patrocinadas por países protegidos pela bandeira da NATO e subservientes aos EUA.

Os “warmongers” desmascarados!

Os belicistas ocidentais ficaram agora oficialmente desmascarados com a confirmação de Ângela Merkel sobre a má-fé com que os acordos de Minsk (2014/15) foram aprovados e seguidos pela Ucrânia e Ocidente [3]. Esses acordos que previam a paragem dos bombardeamentos ucranianos e da guerrilha separatista no Donbass, com a progressiva autodeterminação dos povos russófonos dessas regiões, não passou então de um embuste perpetrado para dar tempo à Ucrânia para ser armada e preparada para esta guerra. Guerra esta que, em 2019, foi desenhada e justificada pela Rand Corporation (task force de apoio à administração dos EUA) no documento agora público: “Extending Russia: Competing from Advantageous Ground”[4]  e que tem sido a “Bíblia” e o guião da estratégia americana no plano de enfraquecimento da Rússia.

Os “warmongers” que alimentam e organizam a guerra contra a Rússia na Ucrânia, nem escondem os objetivos com que iniciaram todo o processo desde 2014: o enfraquecimento russo e a eliminação de uma concorrência planetária, em termos estratégicos e comerciais, como tem sido dito pelos principais responsáveis americanos (Loyd Austin e Anthony Blinken). [5]

Os “warmongers” e os negócios.

Os “warmongers” negam tudo o que possa ser entendido como possibilidade de a Ucrânia não ter êxito sobre a Rússia. Para eles a guerra só deve terminar com a humilhação dos russos. Até lá o mundo ocidental, tal como é por eles visto, isto é, cerca de 20% dos países e da população do planeta, deve continuar a enterrar recursos e a provocar crises económicas e sociais na UE, ao mesmo tempo que vai resolvendo os problemas internos dos EUA.

Além de belicistas, estes manipuladores de consciências e instigadores de morticínios, são, simultaneamente, agentes de negócios a trabalhar para as grandes multinacionais. A destruição da Ucrânia é um filão de oportunidades proporcionado pela reconstrução e pelo reequipamento militar e tecnológico e isso já foi assegurado pela entrega de toda a gestão desses investimentos à Black Rock (EUA). Essa multinacional que é a maior empresa de investimentos e a maior gestora de ativos do mundo negociou com Zelensky a coordenação dos investimentos públicos e privados no pós guerra[6]. Por alguma razão os congressistas americanos (80% são multimilionários) aplaudiram freneticamente o comediante na sua recente visita a Washington. O futuro deles e da economia americana estão assegurados…

Censura, a principal arma dos “warmongers”.

Os que prepararam esta guerra (EUA/NATO/EU) sabem bem que só a conseguem justificar perante as massas e manter a sua continuidade com um forte controlo sobre a informação. Os “warmongers” (os de primeira e os de segunda) também sabem que a Ucrânia há muitos anos que não é uma democracia. É um estado empobrecido, de partido único, onde jornais da oposição e partidos políticos foram ilegalizados [7] e em que, recentemente, Zelensky assinou uma lei que deu ao seu governo poderes para restringir os media, bloquear sites e ordenar a censura pura e dura. [8]

Sabem, mas não podem divulgar, que muitos hotéis e blocos residenciais civis em Kiev e nas principais cidades ucranianas, estão ocupados por centenas ou até milhares de instrutores (?) e inspetores ocidentais[9] que apoiam e são imprescindíveis para manter o exército ucraniano ativo. Depois há quem se admire serem alvo de bombardeamentos russos. A NATO pode ainda não ter as botas na Ucrânia, mas já lá anda de pantufas desde 2014.

A racionalidade com base nos factos.

Em contraponto aos guerreiros das redes sociais e de chinelos (quase de certeza que muito poucos alguma vez calçaram botas da tropa…) que acreditam em tudo o que passa na comunicação social “mainstream”, há os que tentam colocar um pouco de racionalidade nas opiniões e na análise dos factos. Sou dos que anteveem um desastre para a humanidade, caso esta guerra não seja parada a tempo. Conhecendo o poderio bélico e a grandeza económica da Rússia, bem como o nível de apoios internacionais que tem (BRICS, África e Sul Global) e o passado e capacidade de sofrimento em guerras anteriores, é de extrema insensatez não atender aos avisos já amplamente expressos sobre as linhas vermelhas que o ocidente não pode ultrapassar.

Não é fácil nem isento de contrariedades reputacionais quando não se está alinhado com as narrativas oficiais que, por mais evidências que se apresentem e à falta de mais argumentos, vão dar invariavelmente aos dois bordões dos seus discursos: “Há um invasor e um invadido” e “Putin é um ditador e assassino”. Como se isso não fossem evidências conhecidas e também aplicáveis a outros conflitos mas com outros protagonistas. Evidências que em nada contribuem para discutir o início ou o fim da guerra, ou a sua compreensão, mas que são usadas pelos que concordam com a continuação da matança e a destruição de um país.

Os “warmongers” alimentam guerras, aproveitam-se das desgraças alheias e provocam milhares de mortos, pena é que, por causa deles, os nossos filhos e netos podem ter um futuro próximo bem negro. E não será por causa das alterações climáticas.


[1] https://www.youtube.com/watch?v=WV9J6sxCs5k

[2]:https://www.rand.org/content/dam/rand/pubs/research_reports/RR3000/RR3063/RAND_RR3063.pdf

[3] https://horadopovo.com.br/confissao-de-merkel-sobre-farsa-nos-acordos-de-minsk-e-assustadora-diz-lider-austriaco/

[4]: https://www.dn.pt/internacional/russia-apresenta-as-condicoes-para-parar-a-invasao-a-ucrania-14656801.html

[5] https://www.bbc.com/portuguese/internacional-61229275

[6] https://www.cnbc.com/2022/12/28/zelenskyy-blackrock-ceo-fink-agree-to-coordinate-ukraine-investment.html

[7] https://www.npr.org/2022/07/08/1110577439/zelenskyy-has-consolidated-ukraines-tv-outlets-and-dissolved-rival-political-par

[8] https://www.nytimes.com/2022/12/30/world/europe/zelensky-journalism-law-free-speech.html

[9] https://www.nbcnews.com/news/us-news/us-military-inspectors-ukraine-keep-track-weapons-equipment-rcna54891


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Só a pluralidade de informação pode prevenir a guerra

(Por Thierry Meyssan, in Rede Voltaire, 29/11/2022)

A percepção dos factos varia segundo os indivíduos. Aqui o mesmo símbolo é lido como « 6 » por um e como « 9 » pelo outro.

No mundo inteiro, observamos uma miríade de médias, mas sem nenhum pluralismo entre elas. Todos bebem das mesmas fontes que veiculam a mesma visão dos factos. Ora, todos sabemos que se os factos se passam de uma única forma, a maneira como os apreendemos é variada. Já na década de 80, a UNESCO havia posto em evidência o « imperialismo de informação »; essa maneira de impor uma única percepção e de negar todas as outras. Hoje, esta dominação manifesta-se com os News Checkers. O único meio de nos libertarmos deste sistema é, não o de criar novos média, mas novas agências de notícias.


Após a Segunda Guerra mundial, o Direito Internacional moderno foi estabelecido com a ideia de combater a « propaganda de guerra » (Resolução 110 da Assembleia Geral das Nações Unidas, de 3 de Novembro de 1947 [1] e Resolução 381 de 17 de Novembro de 1950 [2]). Rapidamente, os legisladores internacionais, quer dizer os Estados soberanos, acordaram que não se podia lutar contra a guerra senão velando pela « livre circulação das ideias » (Resolução 819 de 11 de Dezembro de 1954 [3]).

Ora, no decurso dos últimos anos, assistimos a um recuo extraordinário que nos priva do pensamento dos outros, nos expõe à propaganda de guerra e, por fim, nos precipita para um conflito mundial.

Este fenómeno começou com a censura privada nas redes sociais do Presidente em exercício dos Estados Unidos, depois continuou com a censura pública dos média (mídia-br) russos no Ocidente. Agora, o pensamento alheio já não é entendido como um instrumento de prevenção das guerras, mas como um veneno que nos ameaça.

Estados ocidentais dotam-se de instâncias encarregadas de « rectificar » as informações que eles dizem falsificadas (Fake News) [4]. A OTAN pensa na criação de uma unidade, baptizada Information Ramstein, encarregue de censurar já não mais as fontes de informação russas, mas as ideias russas no meio dos 30 Estados membros da Aliança Atlântica [5].

Trata-se de uma completa reviravolta de valores da Aliança Atlântica que foi baseada na continuação da Carta do Atlântico, a qual incorporava as « quatro liberdades » do Presidente Franklin Roosevelt. Sendo a liberdade de expressão a primeira delas.

Ora, antes da invenção da Internet, enquanto os Estados-Unidos e a União Soviética acabavam de garantir a « livre circulação de ideias » com os Acordos de Helsínquia, as Nações Unidas e sobretudo a sua agência na matéria, a UNESCO, inquietavam-se com um « imperialismo de informação ». A superioridade técnica dos Ocidentais permitia-lhes impor a sua visão dos factos nos países em vias de desenvolvimento.

Em 1976, durante a conferência de Nairóbi, a ONU levantou a questão do funcionamento dos média a respeito do « reforço da paz e da compreensão internacional, da promoção dos direitos do homem e da luta contra o racismo, o apartheid e a incitação à guerra ».

O antigo Ministro (Chanceler-br) dos Negócios Estrangeiros irlandês e vencedor do Prémio Nobel da Paz, Seán MacBride, criara uma comissão de 16 personalidades no seio da UNESCO. Ela incluía o Francês Hubert Beuve-Mery (fundador do Le Monde), o Colombiano Gabriel García Márquez (Prémio Nobel da Literatura) e o Canadiano Marshall McLuhan (teórico da comunicação). Os Estados Unidos estavam representados por Elie Abel, então reitor da escola de jornalismo da Universidade de Colúmbia, e a Rússia pelo director da agência Tass, Serguei Losev. Apenas a quinta e última parte do relatório (A comunicação do futuro) foi objecto de um debate geral. A comissão MacBride debateu o rascunho das outras partes, mas não pôde por em questão a sua redacção final. Fosse como fosse, o seu Relatório tornado público em 1978 parecia estabelecer um consenso.

Na realidade, ao sublinhar que os mesmos factos podem ser entendidos de forma diferente e ao elaborar sobre os meios dos média do Norte e os do Sul, ele abriu a caixa de Pandora. Concomitantemente, a UNESCO foi confrontada com a propaganda do regime sul-africano de apartheid e a de Israel, negacionista das culturas muçulmana e cristã. Por fim, os Estados Unidos e o Reino Unido encerraram o debate retirando-se da UNESCO. Sabemos hoje que o Império Britânico havia assegurado o seu domínio intelectual ao criar agências de notícias. O Information Research Department (IRD) foi encerrado por Whitehall (o Ministério dos Estrangeiros-ndT) precisamente antes da publicação do relatório MacBride [6]. Mas a guerra contra a Síria veio mostrar que tal dispositivo foi inteiramente reconstituído sob uma outra forma [7]. Os Ocidentais continuam a falsificar a informação logo na sua própria fonte.

Ao fim de quarenta anos, o panorama mediático transformou-se : apareceram televisões internacionais de informação contínua, sítios internet e redes sociais. Simultaneamente, assistimos a uma gigantesca concentração dos média nas mãos de um punhado de proprietários. No entanto, nenhum dos problemas listados em 1978 mudou. Pelo contrário, com o mundo unipolar eles pioraram.

A profissão jornalística consiste hoje em dia em redigir despachos de agências ou em contextualizar essas notícias para os média. As agências de notícias não têm fontes, são factuais, enquanto os média propõem comentários e análises referindo-se às agências de notícias. A contextualização requer muitos conhecimentos históricos, económicos, etc.. dos quais os actuais jornalistas são em grande parte desprovidos. O imediatismo nas rádios e nas televisões não lhes confere tempo para a leitura de livros e muito menos para a consulta de arquivos, salvo durante investigações de fundo. Assim, os comentários e as análises foram ficando consideravelmente empobrecidos.

A ideologia dominante no Ocidente, que tende a ser « global », tornou-se uma religião sem Deus. Só há dois campos: o do “Bem” e o dos “apóstatas”. A verdade é determinada por um consenso no seio das elites enquanto a população a rejeita. Toda a crítica é considerada blasfema. Já não há mais espaço para o debate e, portanto, para a democracia.

A imprensa alternativa tornou-se tanto mais pobre quanto ela se baseia nos mesmos dados que os média internacionais : os despachos das agências de notícias. Basta, com efeito, controlar a AFP, a AP e a Reuters para nos imporem uma visão dos factos. Pode-se condimentá-la segundo esta ou aquela tendência, republicana ou democrata, conservadora ou progressista, etc., mas acabará por dar sempre o mesmo prato.

Desde os atentados do 11-de-Setembro, os que contestam a versão oficial dos acontecimentos são qualificados de « conspiracionistas ». Desde a eleição de Donald Trump, os que contestam os dados das agências de notícias são acusados de deformar a realidade e de imaginar Fake News (notícias falsas-ndT). Os jornalistas, após se terem interdito de veicular o pensamento dos «conspiracionistas», quer dizer, dos dissidentes, tentam agora “corrigir” as Fake News com Check News.

Ora, no mesmo período, a crença nas versões dos grandes médias afundou. Nos Estados Unidos, o Instituto Gallup avalia a confiança na imprensa escrita desde 1973 e na imprensa audiovisual desde 1993. Assim, a dos jornais passou de 51% para 16% e a das rádios e das televisões passou de 46% para 11%. .

A única solução suporá que se multiplique as agências de notícias, quer dizer, as fontes de informação. Não que as tornemos inúmeras, mas antes diversas. Só então perceberemos que a forma como se relata um acontecimento determina a maneira como acabamos a pensar sobre ele.

Por exemplo, hoje em dia as três agências de notícias citadas acima apresentam o conflito na Ucrânia como uma « invasão russa ». Elas garantem que Moscovo não foi capaz de tomar Kiev e derrubar o Presidente Zelenky, mas que comete crimes de guerra todos os dias. É uma maneira de ver. Não temos os meios necessários para publicar despachos a todo o instante, no entanto editamos um boletim semanal idêntico [8]. O nosso critério é diferente. Baseamo-nos no «Direito Internacional» e não nas « regras » ocidentais. Descrevemos, pois, o mesmo conflito como a aplicação da Resolução 2202 do Conselho de Segurança e da « responsabilidade de proteger » as populações oprimidas desde 2014. Os acontecimentos são os mesmos, mas para alguns a forma como os relatam leva a pensar que os Russos estão errados, enquanto a nossa leva a pensar que a posição russa é legal. Verdadeiramente falando, há uma outra diferença : interpretamos os factos a longo prazo. Para nós e para o Conselho de Segurança, há uma guerra civil na Ucrânia desde há oito anos, a qual provocou 20. 000 mortos, e as três grandes agências fingem ignorá-la. Para nós os « nacionalistas integralistas » têm um longo historial criminoso, que custou a vida a 4 milhões dos seus concidadãos, e que as agências ocidentais também fingem ignorar [9].

Esta diferença pode ser aplicada a todos os assuntos. Por exemplo, as grandes agências de notícias explicam-nos que os Ocidentais lançaram sanções a fim de punir a Rússia por ter invadido a Ucrânia. Nós não lemos os acontecimentos dessa maneira. Mais uma vez, baseando-nos no « Direito Internacional » e não nas «regras» ocidentais, salientamos que as decisões dos Anglo-Saxónicos e da União Europeia violam a Carta das Nações Unidas. Não se trata de « sanções » uma vez que não houve julgamento, mas de armas de teor económico para fazer a guerra contra a Rússia, tal como no passado se sitiava castelos para matar à fome os que aí se tinham refugiado.

Cada diferença na interpretação dos acontecimentos provoca outra a propósito. Por exemplo, como tínhamos salientado que as pseudo-sanções ocidentais não tinham sido avalizadas pelo Conselho de Segurança, respondem-nos que isso é natural, uma vez que a Rússia dispõe de direito de veto no Conselho. O que é fingir esquecer por que é que a ONU foi organizada dessa maneira. O seu objectivo não é o de expressar o Bem, mas, sim evitar guerras. Foi precisamente o que permitiu ao Conselho adoptar a Resolução 2202 para resolver a guerra civil na Ucrânia. Ora, os Ocidentais, apesar do compromisso da Alemanha e da França (Acordos de Minsk-ndT), não a aplicaram, forçando a Rússia a intervir.

Poderíamos continuar esta dupla leitura até ao infinito. O importante é reter que a apresentação dos factos muda radicalmente a maneira como os entendemos. Para finalizar, convido-vos a fundar agências de notícias que descrevam os factos à sua maneira e não mais à dos nossos dirigentes. É desta forma e não glosando informações tendenciosas que recuperaremos a nossa lucidez.

Fonte aqui


[1] « Résolution 110 (II) de l’Assemblée générale des Nations Unies », Réseau Voltaire, 3 novembre 1947.

[2] « Résolution 381 (V) de l’Assemblée générale des Nations Unies », Réseau Voltaire, 17 novembre 1950.

[3] « Résolution 819 (IX) de l’Assemblée générale des Nations Unies », Réseau Voltaire, 14 décembre 1954.

[4] “O Ocidente renuncia à liberdade de expressão”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 10 de Novembro de 2022.

[5] «La OTAN prepara la creación de un “Ministerio de la Verdad”», Voltaire, Actualidad Internacional – N°16 – 25 de noviembre de 2022

[6] Britain’s secret propaganda war, Paul Lashmar e James Oliver, Sutton Publishing, 1998. documentos sobre as origem do IRD foram desclassificados : IRD. Origins and Establishment of the Foreign Office Information Research Department, 1946-48, Historians IRD, History Notes #9, August 1995.

[7] “A invenção do mito da «revolução síria» pelo Reino Unido”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 25 de Fevereiro de 2020.

[8Voltaire, actualité internationale é um boletim semanal publicado em seis línguas : alemão, inglês, espanhol, francês, italiano e neerlandês.

[9] “Quem são os nacionalistas integralistas ucranianos ?”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 17 de Novembro de 2022.


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A Liberdade do Herman

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 31/10/2022)

Escrevi sobre a genialidade de Herman José, (ver aqui), e referi um extraordinário sketch em que ele desmonta a farsa dos comentadores de televisão e da manipulação que está a ser produzida sobre a guerra da Ucrânia. Esses “nacos informativos” são atentados reais à liberdade dos cidadãos, na medida em que foi instaurada a censura e sobre duas formas, uma, direta, proibindo a informação de uma das partes envolvidas, e outra, mais perversa, através da imposição do pensamento único, do silêncio, da intimidação dos que não seguem a verdade oficial.

O texto provocou, felizmente, vários comentários, alguns deles sobre a curta lista de génios que eu estabeleci para mim, acrescentando outros, casos de Almada Negreiros, Paredes, Siza Vieira, Saramago, Eça. Tenho por todos os nomeados admiração, mas Herman é, para mim, diferente, não só porque ele abriu novos caminhos, deu novas expressões à arte de representar, mas fundamentalmente porque penetrou em camadas da sociedade mais resistentes à mudança, aos de muita baixa literacia, de pouca instrução escolar, aos integristas religiosos, tanto quanto no grupo dos mais privilegiados e convencidos. Ele rompeu a muralha construída ao longo de séculos de obscurantismo religioso, cultural, de violência política, de hierarquias sociais, de ideias feitas sobre a epopeia portuguesa. Ele, sozinho e com a sua equipa, foi o Monty Python da sociedade portuguesa, sendo certo que esta não é dotada do sentido de humor e de autocrítica da inglesa e os ingleses têm uma longa tradição de produção teatral que não se resume a Shakespeare.

Herman conseguiu com o seu génio e com o seu prestígio abrir uma fenda nas muralhas do conservadorismo de antigo regime em que Portugal vivia (e em parte vive) e abrir a sociedade à liberdade de questionar os tabus. Reveja-se o Herman Enciclopédia.

Essa subversão que Herman promoveu é hoje inaceitável pelos poderes instituídos. Essa subversão é e está a ser sufocada pela mediocridade acrítica e até quase pornográfica de programas do tipo Big Brother, de telenovelas de enredo de cordel e de muita bola, de informação formatada pelas agências de comunicação e pelos lóbis dos negócios e das corporações.

Dirão os crentes e adeptos do pensamento único: existe pluralidade de informação, pois em Portugal estão no ar três estações de TV, cada uma com vários canais e todos os portugueses podem escolher. É um sofisma primário. Como dizer que uma centopeia pelo facto de ter cem patas tem uma maior opção de escolha do que uma galinha, que só tem duas. Na realidade o que se verifica é que estamos caídos na velha expressão de democracia de Henry Ford quando lançou o Ford T: os clientes são livres de escolher a cor, desde que seja preto. Os mesmos fornecedores de doutrina, como os antigos caixeiros viajantes, circulam com a mesma mercadoria entre jornais, rádios e televisões.

Um pouco de história. A SIC, a primeira estação privada, começou a emitir em 1992, pertencia e pertence ao grupo Impresa, do milionário Francisco Balsemão, proprietário do Expresso, o semanário mais influente na sociedade portuguesa. O seu primeiro diretor foi Emídio Rangel, um jornalista da liberdade e da responsabilidade. A TVI começou em 1993, propriedade da Igreja Católica através da União das Misericórdias e de outros acionistas a ela ligados.

Os grandes momentos de Herman José na televisão, de pluralidade e crítica politica e social, decorreram até ao ano de 1997, na RTP, com a «Herman Enciclopédia». Pelo meio decorreu uma polémica de tentativa de imposição de censura a propósito de episódio sobre a Última Ceia, que Joaquim Furtado repeliu.

Talvez seja coincidência, mas em 1997 a Media Capital, do milionário Pais do Amaral, torna-se acionista de referência da TVI, que passara da Igreja para um grupo colombiano e mais tarde para a Prisa, o grupo espanhol que entra no capital. A TVI passa a ser uma estação populista — isto é, defensora de um regime de lucros e poderes oligárquicos nacionais e internacionais, sob a capa de uma grande liberalidade de costumes e de cultura de massas. O típico truque de colocar uma pin-up na capa e defender os lucros dos grandes grupos e a hierarquia de classes dos tabloides ingleses. Emídio Rangel saiu da SIC em 2001, em conflito com Balsemão, que queria transformar a estação num instrumento de domínio político com audiências populares através do pograma de intimidades Big Brother, que foi transformado em santo milagreiro da TVI.

Na atualidade, no novo espetro de aparente diversidade da oferta, as televisões venderam e vendem todas o mesmo produto ideológico — de que as longas temporadas de comentário político conservador a cargo de Marcelo Rebelo de Sousa e Marques Mendes, ou de Paulo Portas e a avassaladora presença do futebol são prova. A política reduzida aos golpes baixos, ao boato e à calhandrice e muita bola!

Desta “ordem unida”, e desta barreira contra a critica e a verdadeira pluralidade, escapava o programa Contra-Informação, um formato derivado dos Spitting Image da ITV britânica e no Guignols de l’info do Canal+ francês, mas que não resistiram à uniformização e ao respeitinho que é muito bonito do cavaquismo e terminou em 2010.

Herman foi deixado à sua sorte, isto é, os poderes empurraram-no subtilmente para as margens, negando os meios para os programas que ele poderia fazer e substituindo-os por “coisas” de baixo custo e baixa qualidade, até quase desaparecer, remetido ao circuito de festas e romarias pela província. A versão neoliberal da democracia não o tolera. Ao Herman José, os patrões das televisões preferem uns animadores esforçados que esbracejam e gritam em cima de palcos improvisados acompanhados por umas moças de carnes exuberantes.

Esta escolha das Tvs e dos seus espetadores não é a bem do povo, não é dar ao povo o que o povo quer ver e ouvir (quis ver e ouvir Herman), mas é sim um revelador da decadência da nossa exigência democrática, da aceitação passiva do apodrecimento cultural em que vivemos resignadamente. Revela que estamos como o burro da frase de velha sabedoria: comemos palha, basta que no-la saibam dar. E «eles» sabem! E sabem que programas como os de Herman lhes dificultavam a tarefa.


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