(Estas manifestações têm pouco ou nenhum eco na nossa comunicação social. Publicam tudo o que seja a favor da guerra e do seu financiamento e nada sobre quem se lhe opõe, e contra ela se manifesta, e sobre as dificuldades que tal apoio está a causar às famílias, mormente às mais pobres. E ainda falam na liberdade de imprensa e de expressão. Essas liberdades foram já enterradas na União Europeia, e os nossos políticos assinaram todos de cruz, com poucas e honrosas exceções. É lamentável.
Estátua de Sal, 22/10/2022)
«Face à crise inflacionária e energética, não ao orçamento belicista» é igualmente palavra de ordem do protesto convocado para este domingo na capital catalã, em que se exige a saída de Espanha da NATO.
(Por Vanessa Martina Silva e Gabriela Beraldo, in Diálogos do Sul, 26/09/2022)
Jornalista Sonja Van der Ende no memorial das Vítimas do neonazismo ucraniano
Um jornalista alemão corre o risco de ser preso, outro, que prefere ter a nacionalidade preservada, pode perder o emprego no importante veículo em que trabalha e uma repórter holandesa foi praticamente banida de seu país e entrou na lista de pessoas “caçadas” pelo governo ucraniano.
Essa é a situação de alguns dos observadores internacionais que estão visitando centros eleitorais durante o referendo sobre a incorporação – ou não – de territórios na Ucrânia à Rússia.
Em 2014, as regiões de Donetsk e Lugansk decidiram se tornar independentes de Kiev e se autoproclamaram repúblicas populares, o que não foi reconhecido pelo poder central ucraniano e, desde então, uma guerra civil assola o país.
Após o incremento do conflito com a operação levada a cabo pela Rússia para desmilitarizar e desnazificar a Ucrânia, Donetsk, Lugansk e também as regiões de Kherson e Zaporíjia decidiram realizar um referendo para consultar a população sobre o desejo de se incorporar – ou não – à Federação Russa. A consulta, que ocorre desde a última sexta-feira (23), termina hoje, terça (27).
Perseguição
Stefan Schaller é gerente da companhia Energie Waldeck-Frankenberg GmbH, uma pequena empresa alemã, e hoje trabalha mais com jornalismo. Esteve na Rússia para fazer parte da delegação de observadores eleitorais e acabou sendo convocado pela Alemanha para se reportar à polícia.
De acordo com informações, ele recebeu um e-mail informando a demissão. Além disso, se voltar à Alemanha poderá enfrentar três anos de prisão. Mas qual o crime que ele teria cometido, perguntamos à jornalista Sonja Van der Ende, que mora na Rússia há seis meses, também ela perseguida na Europa: “ele esteve em Donbass [região que engloba Donetsk e Lugansk] e todos que visitam esta região não são criminosos de guerra, mas inimigos do Estado” na Europa.
Sonja esteve em Donbass não apenas uma, mas nove vezes acompanhando as ações militares russas, totalizando um período de aproximadamente dois meses. Seu crime foi, em suas palavras, “fazer algo não permitido pelo governo europeu e holandês, porque a Rússia é considerada inimiga”.
Ela avalia que a liberdade de expressão e de imprensa está prejudicada na Europa. Quando ela contou que muitas pessoas em Donbass foram mortas por milícias neo-nazistas, realmente foi assim. Ela esteve em uma fábrica de aço e viu como milícias ucranianas portavam broches com o símbolo nazista SS, além do livro Mein Kampf, escrito por ninguém menos que Hitler. Porém, “na Europa eles dizem que não é verdade. Tem muita gente boa ajudando o povo ucraniano, mas estão matando a população de Donbass”.
Outro jornalista, que prefere ter sua nacionalidade preservada, foi demitido do jornal em que trabalha, o maior em sua região, porque concedeu entrevista opinando sobre o referendo. A embaixada russa em seu país repercutiu a declaração e a ucraniana pediu sua demissão.
Assédio
Em alinhamento com a comunidade internacional que não reconhece o direito da população russa na Ucrânia decidir seu futuro, meios de comunicação hegemônicos começaram um verdadeiro assédio contra os observadores internacionais.
O jornal italiano Coriere de la Siera publicou uma matéria em tom bastante enfático contra os observadores, chamando o processo de “farsa” e destacando a presença de 13 italianos.
O comissário de direitos humanos da Ucrânia, Dmitry Lubinets, pediu ao serviço de segurança de 20 países que imponha sanções a 39 observadores internacionais do referendo.
Ele pediu que observadores estrangeiros que cruzaram “ilegalmente” a fronteira sejam considerados personas-non gratas na Ucrânia e “outros países democráticos”.
Esse tipo de ação é bem conhecida no país e tem por objetivo promover desestabilização psicológica.
Vanessa Martina Silva,jornalista, editora da Diálogos do Sul e Observadora Internacional dos referendos de Lugansk, desde Sharti, Rostov do Dom, Rússia.
Quando há notícia de “valas comuns” na Ucrânia, uns apontam imediatamente culpados e até descrevem como aconteceu a desgraça.
Ou seja, justiça que nem é sumária, é instantânea; não se guia por valores honestos, é ideologicamente motivada; nem chega a ser kafkiana, é apenas uma vontade apressada de expressar o ódio.
No que me diz respeito, mantenho a coerência desde o início da intervenção militar da Rússia: a primeira coisa a fazer é destacar uma equipa de investigação internacional e neutra, eventualmente, composta por elementos da ONU e do CI da Cruz Vermelha.
Com uma missão desta natureza estaremos aptos para encontrar as respostas às perguntas:
– O quê?
– Quem?
– Quando?
– Como?
– Onde?
– Porquê?
Só assim estaremos capacitados para compreender o que aconteceu e responsabilizar devidamente os autores. Do que me recordo, isto ainda é justiça. Estes são os tais valores que, não sei porquê, mas deixaram de ser os da União Europeia.
Isto para dizer que há uma diferença significativa entre uma “vala comum” – buraco ou cova onde se colocam vários cadáveres – e um conjunto de “sepulturas” ou “campas” – vulgarmente chamado “cemitério” e local onde se enterram cadáveres, preferencialmente, cada um individualmente e devidamente identificado.
As valas comuns podem configurar crimes de guerra e crimes contra a humanidade, dependendo do contexto em que são criadas.
Mas as valas comuns podem não configurar crimes seja de que espécie for se não houver capacidade para enterrar condignamente os cadáveres ou, por algum evento extraordinário, não for possível, por razões de saúde pública, dar-lhes o tratamento digno devido.
Reparem que, não há muito tempo, durante a pior fase da pandemia COVID-19, a Índia realizou cremações em massa e criou até valas comuns para poder dar vazão a tantos mortos em tão curto espaço de tempo (cfr. shorturl.at/ALO01).
Crimes contra a humanidade? Não creio. Por razões de saúde pública, em tempos extraordinários, não havia outra hipótese razoável.
Na noite de 15 de Setembro de 2022, a Reuters e a comunicação social portuguesa apressaram-se a dar a notícia de “vala comum com mais de 440 cadáveres foi encontrado em Izyum, Ucrânia” (cfr. https://archive.ph/1Nzq1). Colocou um hífen seguido de “polícia”, deixando a dúvida sobre a autoria dessa constatação, mas manteve o título que sugeria uma certeza.
Minutos depois, a Reuters divulgou o mesmo título mas acrescentou “segundo a polícia” (cfr. shorturl.at/hqrTY).
A Reuters publicou ainda notícias em que dizia que foram encontrados corpos com cordas à volta do pescoço, sugerindo, por isso, que se tratavam de casos de homicídio doloso e intencional.
O que aconteceu depois foi curioso: a Reuters viu-se na obrigação de retirar notícias e corrigi-las por, segundo a própria, os seus jornalistas não terem visto os cadáveres com cordas ao pescoço (cfr. shorturl.at/fmoPZ).
Já ao longo do dia de ontem, aquela primeira notícia ganhou outra forma. Passou a ter, então, como título “Ucrânia diz que foram encontradas centenas de cadáveres em valas comuns” (cfr. shorturl.at/fIJLR).
A Reuters demarcou-se completamente de um título que, por cá, continua a ser apresentado da mesma forma (cfr. shorturl.at/hJWZ5).
Aliás, a RTP e a Antena 1 mantêm a notícia de que foram encontrados corpos com mãos atadas e cordas ao pescoço (cfr. shorturl.at/lmuZ6). O Jornal de Notícias também faz o mesmo (cfr. shorturl.at/mBCGU).
E a notícia na versão portuguesa é dada de tal forma que até já ganhou o nome de “Massacre de Izyum”.
O problema é que as imagens revelam que “a vala comum” do “massacre de Izyum” é, na verdade, um cemitério improvisado onde são enterrados cadáveres, regra geral, cada um numa campa individual e, quando se sabe a identificação do “de cujus”, é colocada a identificação (nome, datas de nascimento e morte) e ali fica o cadáver até que alguém reclame o corpo.
Aqueles que não conseguem ser identificados são enterrados individualmente e é colocada uma cruz com um número (registo do cadáver com os traços físicos e biológicos) e alguns elementos de identificação possível (membro das Forças Armadas ucranianas, civil, etc) para posterior identificação e entrega do corpo caso alguém o reivindique.
O mais sensacional nisto tudo é que este método já tinha sido amplamente difundido por alguns jornalistas que se permitem fazer jornalismo e mostrar o que se passa no terreno.
O jornalista Bruno Carvalho, por exemplo, fez uma reportagem para a CNN Portugal, em Abril, na qual relatou “in loco” e ao detalhe uma prática semelhante em Mariupol (cfr. shorturl.at/aEMNT).
Aliás, esta vala comum de Mariupol é mais um caso caricato. Começou por ser uma “vala comum com mais de 9.000 corpos” (cfr. shorturl.at/ETY14). Depois, passou para 1.000 com vista de satélite. E, finalmente, acabou por ser um cemitério improvisado.
Insisto que deva ser conduzida uma investigação internacional imparcial a um caso que está a ser usado para fins ideológicos. Mas que o caso de Izyum parece estar longe de ser o resultado de um “massacre” e a referida “vala comum” parece ser mais um cemitério improvisado do que um local onde foram descarregados inúmeros corpos.
Aliás, como eu exploro no vídeo do directo que realizei na noite de ontem, importa começar por responder à seguinte questão:
– quão burros são os russos ao ponto de massacrarem centenas e depois decidirem enterrá-los individualmente com a respectiva identificação?
O normal num massacre não seria tratar os mortos com dignidade, seria, isso sim, incinerar e destruir todos os vestígios de crimes cometidos e enterrá-los de modo a que ninguém soubesse que existiam sequer.
P.S.: Além da análise intensiva a Izyum, analiso ainda as supostas “salas de tortura” de Kharkiv e os resultados das últimas eleições na Suécia.