O que une um governante, uns banqueiros e uns bispos?

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 10/04/2026)


O que há então de comum entre um governante, uns banqueiros e uns bispos, para lá de todas as boas acções e toda a recta conduta de que todos dão provas, cada um em seu sítio? O dinheiro, o amor ao dinheiro. Eis o que os une.


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Tivemos, durante o Estado Novo, uma diplomacia que, à falta de melhor e pretendendo defender a justiça de um colonialismo aberrante, há muito já denunciado e descartado pela História, se dizia “orgulhosamente só”. Mas não era orgulhosamente e sim vergonhosamente, mantendo três guerras coloniais em África e uma ditadura na pátria. Tivemos depois, entre o saloio e o arrogante-subserviente, o episódio em que o primeiro-ministro Durão Barroso ofereceu a Base das Lajes e o nosso comprometimento para que um refractário à guerra do Vietname, George W. Bush, pudesse limpar o seu cadastro e declarar-se “um Presidente em guerra” — uma guerra, levada ao Iraque, ilegítima, à revelia da ONU e com pretextos inventados e provas falsificadas, que Durão Barroso declarou autênticas. Mas talvez na era contemporânea, nunca a nossa diplomacia tenha descido tão baixo como agora, em que as Lajes servem de tapete voador sobre o qual nos curvamos à passagem dos aviões e drones do louco perigoso que governa os Estados Unidos e que levou ao Irão uma guerra sem sombra de legitimidade e até de estratégia política e militar, e, por arrasto, ao mundo inteiro. Hoje, graças à diplomacia de Luís Montenegro e Paulo Rangel, tenho vergonha de ser português e só me consolo um pouco pensando que quem só faz o que sabe não é inteiramente responsável por toda a ignorância que carrega.

Porém, não se trata apenas de política ou de diplomacia. Trata-se também da segurança nacional. Colocando Portugal na primeira linha de apoio à linha da frente desta demência trumpiana-israelita, o Governo coloca-nos também na posição de alvo legítimo e natural de represálias iranianas. É possível que o preclaro presidente do Governo Regional dos Açores ainda não tenha visto o assunto a esta luz e por isso declara não ter opinião sobre a legitimidade desta guerra e do apoio que lhes estamos a dar, preferindo, diz ele, confiar na justeza da decisão do Governo da República e do seu próprio partido. O homem ouve o desvairado narciso americano dizer que vai varrer uma civilização milenar numa noite, levando-a de volta à Idade da Pedra (pelo método Hiroxima-Nagasáqui, supõe-se), e não tem opinião sobre o assunto. Mas quando interrogado sobre se o nosso “aliado” americano não deveria ao menos pagar uns tostões, ou uns peanuts, pela utilização das Lajes, aí já José Manuel Bolieiro tem opinião própria e pronta. Sim, declara ele, atendendo à importância que agora se voltou a confirmar da Base das Lajes para as guerras dos Estados Unidos deste lado do mar, seria justo que, tal como sucedeu no passado, eles pagassem alguma coisa… aos Açores. Ou seja, entendamo-lo: princípios, ele não tem nem o incomodam; mas uma esmolinha nunca fez mal a ninguém.

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2 Em 2025, os três maiores bancos portugueses, a Caixa, o BCP/Millennium e o Novo Banco, por circunstâncias diferentes, registaram a maior margem de lucro em toda a Zona Euro. Juntos, e alavancados nas taxas de juro do BCE, tiveram uma média de 15,37% de lucro, de tal maneira os deixando eufóricos que decidiram distribuir dividendos exorbitantes pelos seus accionistas, oferecendo-se ainda para lhes recomprar, com ganhos imensos, acções dos próprios bancos. O Novo Banco, sustentado durante anos com as injecções de dinheiro público a título de “capital contingente”, e após ter-se desembaraçado a mata-cavalos e estranhamente do imenso património herdado do Grupo BES, vai ainda mais longe na euforia, propondo-se reservar já 500 milhões para oferecer ao futuro dono do banco, os franceses do BPCE, que assim começam a facturar antes mesmo de entrar. Mas se tudo isto voltar a dar para o torto (longe vá o agoiro!) adivinhem a que porta irão eles bater para pedir ajuda? Sim, aos mesmo contribuintes e depositantes, que, à falta de alternativa, vêm as suas poupanças depositadas a render pouco mais que zero, enquanto ouvem os banqueiros gabarem-se de ter conseguido “lucros históricos”. Felizmente, nem tudo são más notícias: somos um país pobre mas com bancos ricos — ciclicamente ricos, num país eternamente em apertos.

3 A Comissão Independente para o Estudo de Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica Portuguesa — (só o nome já diz muito sobre a ignomínia de que se tratava) — começou por apurar 4815 crianças abusadas em escolas católicas, seminários, residências paroquiais ou até nos confessionários, em Portugal e ao longo dos anos. Esse número, que se supõe ser apenas uma pequena parte da realidade vivida, desceu primeiro, e após exaustivas e traumáticas inquirições às vítimas que tiveram a coragem de se apresentar, para 512 pedidos de indemnização “validados”; depois para 95 “aprovados”; e finalmente, e após repetição da devassa inquisitória sobre as vítimas, para 57 a indemnizar. Cinquenta e sete casos que a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) aceitou indemnizar por anos de abusos silenciosos e — (reconheceu-o a Comissão Independente) — deliberadamente encobertos e silenciados pela hierarquia católica ao longo dos anos: 57! E assim, com esta ligeireza sobre os ombros, a CEP estabeleceu como valores indemnizatórios a pagar quantias entre os 9000 e os 45.000 euros, tudo desembocando num esforço de indulgência plenária a si própria que no total monta a 1,6 milhões: uma gota de água na imensa riqueza de que dispõe a Igreja Católica Portuguesa e uma redução “significativa” sobre os valores propostos pela Comissão Independente. E com isto, comunicou a CEP, os bispos portugueses “expressam o compromisso que sempre assumiram” de honrar as suas responsabilidades, “colocando as vítimas no centro das nossas prioridades”. Deveras? Será mesmo isso em que eles acreditam e que julgam que nós acreditamos?

Numa conclusão misericordiosa, posso pensar que os nossos bispos não entenderam bem o que estava em causa e a dimensão do pântano que foram chamados a drenar. Só isso poderá explicar, benevolamente, todos os inúmeros esforços para minimizar o assunto, desmotivar as vítimas, desvalorizar e desconsiderar as queixas, ignorar as recomendações da Comissão nomeada e, de um modo geral, tentar passar a mensagem de que nada do que tinha acontecido fora excessivamente grave, frequente e sabido, conforme logo se apressou a declarar o bispo do Porto, quase brincando com a situação. Já tínhamos visto isto com o caso do infame padre Frederico, da Madeira, pedófilo e assassino, cujo julgamento foi comparado pelo bispo do Funchal ao “martírio de Cristo”. Mas precisamente porque já tínhamos visto isso e porque em toda a Cristandade, e sob o impulso intransigente do Papa Francisco, se sucediam as revelações dos escândalos ocultados durante décadas e a responsabilização da hierarquia envolvida, por acção ou por omissão, houve quem acreditasse que a Igreja Portuguesa, embora chegando tarde, estaria à altura das exigências. Puro engano: foi tudo o contrário aquilo que aconteceu. Mas ao pensarem que assim fecham o caso à luz da justiça humana (porque na divina, se existir, não terão perdão), os nossos bispos mostraram que preservam mais os criminosos do que as vítimas, o dinheiro do que a justiça, o esquecimento do que a dignidade. E pior: assim decidindo, passam a mensagem de que tudo o que de sinistro aconteceu foi feito com o seu conhecimento, talvez mesmo com o seu consentimento, mas seguramente com a sua conivência. Porém, se a pedofilia já é, sem mais, um crime difícil de perdoar, em que uma vítima inocente é arrastada e marcada para a vida pelas perversões sexuais do seu algoz, pior ainda é imaginar que estes crimes foram cometidos sobre crianças indefesas, cuja guarda e educação tinha sido confiada aos criminosos pelas famílias ou pela sociedade.

Eu sei que é injusto tomar a parte pelo todo e que, dentro desta Igreja, existem milhares de exemplos anónimos de sacerdócio dedicado aos outros e ao bem comum. Mas precisamente porque o nosso episcopado pareceu tão pouco interessado em apurar o que verdadeiramente se passou e reparar o que foi feito, não sabemos que parte do todo esteve envolvida. E essa é a injustiça final: manchar a imagem dos bons achando que assim se protege a imagem de todos, incluindo os que não mereciam protecção alguma.

4 O que há então de comum entre um governante, uns banqueiros e uns bispos, para lá de todas as boas acções e toda a recta conduta de que todos dão provas, cada um em seu sítio? O dinheiro, o amor ao dinheiro. Eis o que os une.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

Netanyahu é um fantoche de Trump?

(Por E&R, in La Cause du peuple, 09/04/2026, Trad. Estátua)


Os israelitas estão furiosos: não foram consultados por Trump e pela sua equipa (pode-se presumir que o traidor Kushner os avisou) sobre a trégua de duas semanas negociada entre os iranianos e os americanos, através dos paquistaneses.


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Netanyahu quer destruir tudo; quer mesmo arrastar o Irão de volta à Idade da Pedra, enquanto Trump quer controlar o petróleo vendido aos chineses. O primeiro é um assassino, o segundo é um capitalista. Por vezes os seus caminhos cruzam-se, outras vezes separam-se. Netanyahu e o seu gangue de genocidas tentarão, portanto, tudo para sabotar uma paz que, é certo, é frágil. Daí os bombardeamentos maciços no Sul do Líbano sob o pretexto de visar combatentes do Hezbollah, que Israel nos vinha dizendo há dois anos que tinham sido erradicados. Mentira sobre a mentira…

O Hezbollah ainda existe obviamente; teve tempo para se esconder — como os iranianos com os seus mísseis balísticos e instalações nucleares — porque ninguém confia na entidade sionista, que não é mais do que mentiras sobre mentiras e massacres sobre massacres. E depois surpreendemo-nos que as coisas acabem mal para os pobres judeus que, na realidade, são os escudos humanos da sua oligarquia! Isto já aconteceu várias vezes na história, e os judeus polacos dos shtetls na URSS e na Polónia, entre 1939 e 1945, podem atestá-lo: foram claramente sacrificados no altar da criação do Estado de Israel em 1947.

Hoje, os judeus, que se dizem perseguidos em todo o lado, encontraram finalmente um refúgio, mas curiosamente, perseguem todos os seus vizinhos, assassinam-nos, queimam-nos vivos e continuam a organizar ataques falsamente antissemitas em todo o mundo para manter a narrativa de vitimização.

Mas tal já não engana mais ninguém; estamos a chegar ao fim de uma era. Até o NYT, uma publicação assumidamente israelo-americana (a versão esquerdista do complexo militar-industrial dos EUA), não consegue deixar de afirmar que Trump foi enganado pelos israelitas. A fonte francesa é Christophe Ginisty, autor de um livro sobre Trump, apresentado como um fantoche do Estado profundo, cuja parte visível é a equipa de conselheiros do presidente, aqueles que preparam os seus famosos relatórios.

“O New York Times acaba de publicar o relato mais condenatório sobre Trump desde o início da guerra. E é uma bomba. Jonathan Swan e Maggie Haberman, dois jornalistas da Casa Branca, revelam como Trump tomou a decisão de entrar em guerra contra o Irão. O que descrevem é exatamente o que analiso em *O Fantoche da Casa Branca*. Aqui estão os factos.

Netanyahu vendeu um sonho. A 11 de Fevereiro, na Sala de Situação, o Primeiro-Ministro israelita apresentou um cenário em quatro actos: matar o Líder Supremo, destruir o exército iraniano, desencadear uma revolução popular e instalar um novo regime. Chegou a mostrar uma montagem de vídeo com os “futuros líderes” do Irão. Trump respondeu: “Parece-me bem”. Numa única frase, selou o destino da região.

No dia seguinte, a CIA disse que tudo não passava de conversa de circunstância. As partes 3 e 4 do discurso de Netanyahu — a revolução popular e a mudança de regime — foram descartadas como uma “farsa” pelo próprio Ratcliffe. Rubio traduziu: “Por outras palavras, é tudo balela.” O general Caine acrescentou: “Este é o procedimento padrão de Israel. Exageram na propaganda e os seus planos nem sempre são bem elaborados”. Trump ouviu. E mesmo assim disse que sim.

Vance viu tudo. O vice-presidente foi o único na sala a opor-se abertamente, alertando que a guerra poderia “destruir a coligação política de Trump”, que o estreito de Ormuz era o verdadeiro ponto vulnerável e que ninguém poderia prever uma retaliação iraniana quando a sobrevivência de um regime estivesse em causa. Ele disse: “Sabes, acho que isso é uma má ideia.” Mas se quiser fazer isso, eu apoiá-lo-ei.” Isto não é coragem política. Isto é deferência.

Susie Wiles observava. A chefe de gabinete, que tinha as suas preocupações, sentiu que “não era da sua conta” comentar uma decisão militar perante outras pessoas. Ela “incentivou os assessores a partilharem as suas opiniões”. Ela permaneceu em silêncio. O General Caine nunca disse que não. Expôs os riscos: stocks de munições cada vez mais reduzidos, o Estreito de Ormuz e a ausência de um caminho claro para a vitória. Depois disse: “Se vocês ordenarem a operação, os militares irão executá-la.”

Trump, por sua vez, “só ouviu o que queria ouvir.” E Trump assinou a bordo do Air Force One, 22 minutos antes do prazo estabelecido pelo seu próprio general: “Operação Fúria Épica está aprovada. Sem abortos.”Boa sorte.” É assim que se vai para a guerra no século XXI. Não com uma deliberação solene. Não com uma votação no Congresso. Não com uma estratégia de saída. Com uma apresentação de diapositivos de Netanyahu, um “parece-me bem” e um bilhete enviado de um avião.

Em “O Fantoche da Casa Branca”, escrevo que os verdadeiros decisores são aqueles que preparam as apresentações a que Trump assiste. Netanyahu compreendeu isso melhor do que ninguém. Encenou um espetáculo visual de uma hora na Sala de Situação, com o Mossad como pano de fundo, vídeos de “futuros líderes” e a promessa de uma vitória rápida e decisiva. E Trump disse que sim. Enquanto Vance, Rubio, Wiles e Caine assistiam.”

Isto levanta uma nova questão, uma vez que Trump, sempre a raposa astuta, não podia desconhecer que o plano israelita de mudar o regime em 72 horas (e porque não em 10 minutos com a ameaça de um ataque nuclear?) era instável. O facto de o NYT ter revelado o processo pode fazer parte de um plano maior para culpar os israelitas pelo fracasso da operação, uma fuga de informação orquestrada por este presidente que não se importa de parecer tolo. Daí a imagem do coelho gigante na varanda, que o ridicularizou — deliberadamente! — em todo o mundo. Há sempre um vício maior, precisamente quando se pensa que o desvendou.

O verdadeiro resultado desta guerra?

Um Irão enfraquecido, forçado a arrastar-se até à mesa das negociações em Islamabad, mas com uma carta na manga: o Estreito de Ormuz e o bloqueio de um quarto do tráfego mundial de petróleo. Os estados do Golfo, esgotados e abandonados pelos Estados Unidos; e um Israel a lamber as suas feridas, escondendo-as. Aí, insistem em apenas 3 mortos e 5 feridos na Guerra dos Quarenta Dias. Na realidade, o país sofreu terrivelmente. A Jeune Nation enviou-nos um artigo da Al-Manar que resume o balanço oficial desta segunda guerra Irão-Israel: o custo económico desta farsa de país, por si só, é exorbitante.

Economicamente, o Yediot Aharonot estimou o custo da guerra em aproximadamente 65 mil milhões de shekels [18 mil milhões de euros, nota do editor], um valor preliminar que não inclui todas as perdas económicas indirectas, como a queda do crescimento ou o declínio do investimento. Este custo divide-se em mais de 50 mil milhões de shekels em custos militares diretos e aproximadamente 10 mil milhões de shekels em custos civis diretos, além de mais milhares de milhões em perdas indiretas não contabilizadas em crescimento, investimento e produção. […]

Em relação aos danos materiais, o quadro alarga-se com novos dados revelados pelo jornal Ma’ariv, que noticiou a destruição ou degradação de mais de 5.000 edifícios em Israel desde 28 de Fevereiro, reflectindo a extensão da destruição que afeta as infraestruturas e as zonas residenciais. Para ilustrar a dimensão desta destruição, o Yediot Aharonot referiu que o Irão lançou aproximadamente 670 mísseis e 765 drones contra Israel desde o início da guerra.

Conclusão: Graças a Trump, ou por causa dele, o Israel de Netanyahu está a tornar-se cada vez mais inviável e inabitável. Este não é o momento para promover a Aliá, e, no entanto, os judeus franceses continuam, sob a pressão amigável do seu rabino, a imigrar para Israel, como se costuma dizer, para escapar ao antissemitismo que acreditam ser galopante em França, particularmente o da França Insubmissa (LFI). Pessoalmente, se tivéssemos de escolher entre Rima Hassan e um míssil Shahab, não hesitaríamos durante três horas: escolheríamos Rima.

Fonte aqui

A barbárie rende-se estrategicamente. A civilização vence – por enquanto

(Pepe Escobar, in Resistir, 09/04/2026)


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Isto sempre teve a ver com civilização.

“Uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais voltar”. A história registará isto com um olhar tão impiedoso como o do Sol. Um espantoso selo bárbaro, cortesia do Presidente dos Estados Unidos, através de uma publicação nas redes sociais.

Em suma, esta era uma “civilização” de mau gosto que deu ao mundo o Big Mac, ameaçando aniquilar uma civilização antiga que deu ao mundo a álgebra; influenciou a arte, a ciência e a governação de formas sem paralelo; produziu estrelas desde Ciro, o Grande, a Avicena, de Omar Khayyam ao poeta supremo Jalaladdin Rumi; desenvolveu jardins sublimes, tapetes, maravilhas arquitetónicas e estruturas filosóficas e éticas

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