Seis condições inegociáveis apresentadas por académicos internacionais e ex-funcionários de 30 países para pôr fim à guerra dos EUA contra o Irão, face à ameaça de crimes de guerra por parte de Trump.
A consciência da humanidade resiste ao lema «tudo para nós, nada para os outros», o credo do império predatório erguido sobre os cadáveres das nações. A rapacidade e a insolência descaradas atingiram o seu apogeu, e as ameaças de Trump ilustram o espírito depravado de uma civilização em decadência. Não devemos ser testemunhas passivas, mas arquitectos activos de um novo mundo onde a arrogância desmorona e a justiça prevalece.
Um vasto grupo transnacional de vozes proeminentes — incluindo ex-funcionários da ONU, diplomatas de carreira aposentados, ex-ministros, académicos e intelectuais, figuras políticas e ex-parlamentares, profissionais militares e de segurança, artistas, advogados, bem como jornalistas, activistas e líderes antiguerra, de 30 países — divulgou uma carta aberta criticando duramente o papel global dos Estados Unidos e apelando a uma nova ordem internacional centrada na soberania e na resistência ao que descrevem como domínio ocidental.
O Irão não está a surpreender só na arte da guerra mas também no palco da comunicação e da ironia. Trump deve estar a espumar de raiva. Coitada da besta furiosa. É ver os dois vídeos abaixo.
Poder falso, músculos falsos, dentes falsos, latido falso, o melhor que já fez foram duas pontes e um parque na cidade. Agora sente-se no seu trono dourado e sinta vergonha, brincou com o fogo, agora observe a sua própria chama”, diz o refrão de uma das músicas.
Outros tópicos? A estratégia dos aliados de Trump de usar a guerra para manipular os mercados, o novo estatuto de superpotência geográfica do Irão e a fúria impotente de Trump nas redes sociais.
O que se passou este fim de semana em Islamabad não foram negociações: foi uma farsa. Uma farsa montada pelos EUA com desígnios que iremos perceber em breve, mas que, seguramente, passam pela necessidade de ganhar tempo.
O Irão cedo percebeu que não se tratava de negociações, mas acabou por aceitar estar presente para que não recaísse sobre si o ónus de as inviabilizar. Fez bem. Tal como é perfeito o seu comunicado final.
Tudo nesta guerra é um tremendo disparate americano, não israelita. Israel tem um plano genocida e expansionista para o Médio Oriente e esta fase – o aniquilamento do Irão – era essencial, sendo para isso necessária a intensa colaboração americana. E o momento histórico era único e tinha que ser aproveitado: dificilmente tornaria a ter um POTUS tão tosco e tão permeável às suas intenções.
Tudo na atuação israelita é racional, dentro do seu magno plano sionista. Quanto aos EUA, o único interesse que poderiam ter, nesta estúpida aventura, seria minar o terreno à China, mas esta foi seguramente a pior via para o conseguir. Do estrito ponto de vista pessoal de Trump, o único interesse visível seria desviar as atenções da pressão brutal em que se estava a tornar o caso Epstein, e isso pelo menos momentaneamente conseguiu. É a única racionalidade que se consegue descortinar na intervenção americana, mas ainda assim estúpida, pelo alto preço envolvido.
Trump foi enganado por Netanyahu, isso parece seguro, tal como parece seguro que não sabe como sair do atoleiro em que se meteu e em que meteu o seu país. A grande questão agora é saber como vai reagir o menos racional dos estadistas mundiais e o mais imprevisível de entre eles: uma fuga para a frente, ou uma saída pela esquerda baixa?
O estado de destruição a que levou o seu movimento MAGA, o perigo iminente de queda abrupta do Império, uma réstia de bom senso entre os seus mais próximos colaboradores (já todos um pouco fartos dele) talvez o levem a uma decisão mais ponderada do que aquilo que é costume. Se escalar a guerra, os perigos são enormes e tal colidirá com os interesses económicos do capitalismo mundial. Provavelmente, nesse caso, será destituído ou assassinado.
Israel, por seu lado, se for abandonado no meio da batalha, não poderá prosseguir com o seu plano, pelo menos para já e para os tempos mais próximos e Netanyahu terá que enfrentar a ira do seu povo e os casos em tribunal em que está mergulhado. A carreira dele terminará aqui. Quer Trump opte pela saída, quer seja impedido, os EUA nunca lhe permitirão (a Israel) o uso de armas nucleares, o que seria a tentação óbvia. O único risco de utilização de armas nucleares – que torna a situação absolutamente descontrolada e provavelmente final – é haver mais uma loucura de Trump, que não seja bloqueada pela sua entourage ou pelo próprio sistema. É possível, mas pouco provável.
Resta uma parte importante da equação: o que fará o Irão perante a derrota dos EUA? O apoio da China e da Rússia permitir-lhe-á continuar, mas esse apoio não é desinteressado e tem por detrás o interesse em desgastar os EUA, mas à custa do Irão. E o Irão sabe isso. Os seus dirigentes são hábeis e inteligentes.
Contudo, não é de descartar que tente aproveitar a situação para deixar Israel em estado lastimável e convocar uma aliança árabe (e não só) – que já se está a desenhar – para o ajudar.
No meio de tanta incerteza, algumas certezas há: os EUA não são o que eram e sairão daqui em pior estado; a China e a Rússia estão a ganhar com a situação e não a perder; Israel enfrenta uma situação delicadíssima, como nunca lhe tinha acontecido e que pode consistir numa ameaça existencial; o Irão ultrapassou todas as expetativas de capacidade militar; o movimento MAGA está destruído; Israel não é invencível; Netanyahu enganou Trump; o povo iraniano uniu-se em torno do regime; foram abertas fissuras na relação Israel-EUA.