A mais estúpida de todas as guerras

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 19/06/2026)


Agora, resta a Trump tentar que o Irão aceite regressar aos termos do acordo negociado com a Administração Obama e que ele classificou como “o pior acordo alguma vez assinado na história dos Estados Unidos”.


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Sempre me pareceu inverosímil que o assassínio do arquiduque Francisco Fernando, herdeiro do Império Austro-Húngaro, por um anarquista sérvio, em Sarajevo, tivesse sido motivo suficiente para o desencadear de uma guerra generalizada na Europa, que durou quatro anos e deixou caídas dez milhões de vítimas. E também me pareceu difícil de acreditar que durante a maior parte desses quatro anos, de 1914 a 1918, a estratégia militar de ambos os lados em confronto tenha consistido quase exclusivamente numa guerra de trincheiras contra trincheiras, esporadicamente interrompida com cargas de infantaria dizimadas pelos canhões do inimigo: a “carne para canhão”, que passou à história como a mais estúpida estratégia militar de todos os tempos, ao serviço da mais estúpida guerra de sempre.

Com sorte, e com a capacidade de conter as provocações israelitas, a guerra que Donald Trump levou ao Irão e ao Médio Oriente terá durado apenas quatro meses. Mas quatro meses em que a estupidez de quem manda no mundo atingiu um grau de perfeição que ultrapassa os dirigentes políticos da I Guerra Mundial. Todos os objectivos que o ignorante Presidente dos Estados Unidos visava com a guerra que o parceiro israelita o convenceu a desencadear, sem mandato internacio­nal e até sem conhecimento prévio dos aliados, a quem depois acusou de não o ajudarem (com a “honrosa” excepção portuguesa), saíram frustrados e as suas razões agravadas. Claro que todos preferíamos ter visto derrubado um dos regimes mais repressivos do planeta e ver os seus ayatollahs despojados de uma arma nuclear que dizem iminente. Mas há mais regimes religiosamente fanáticos, como o de Israel, e já quase o dos próprios Estados Unidos — e há mais países que já dispõem da bomba e inspiram tudo menos confiança, como a Coreia do Norte, o Paquistão ou o próprio Israel — hoje, mas já de há uns tempos, a maior ameaça à paz no mundo. Trump falhou rotundamente qualquer desses dois objectivos e, de caminho, ao não ter inacreditavelmente previsto que o Irão responderia à agressão israelo-americana com o fecho do estreito de Ormuz à navegação, viu o fornecimento de petróleo às economias diminuir 20% da noite para o dia, mergulhando o mundo inteiro numa crise sem pára-quedas — ele, o grande defensor da economia baseada no petróleo. É preciso ser um lambe-botas consagrado, como o secretário-geral da NATO, o infeliz Mark Rutte, para louvar Trump pelo desfecho da desventura iraniana. Quatro meses de humilhação militar, de desprestígio político e de uma lição de geopolítica aprendida à custa de nós todos desembocaram naquela patética declaração de que, firmado um memorando de entendimento com o Irão para posteriores e incertas negociações de paz, tinha “ordenado a reabertura ao tráfego do estreito de Ormuz”, como se houvesse por aí alguma alma penada que ignorasse que o estreito só abriu quando o Irão o consentiu. Agora resta-lhe tentar que o Irão aceite regressar aos termos do acordo negociado com a Administração Obama, a Europa, a China e a Rússia, e que ele classificou como “o pior acordo alguma vez assinado na história dos Estados Unidos”. Se conseguir fazer regredir a situação ao ponto em que estava antes da guerra, reclamará vitória — depois de ter gasto na aventura 120 mil milhões de dólares dos contribuintes americanos e uns tri­liões de danos incalculáveis causados às economias de todos. Mas, se o conseguir, terá ainda de segurar a fúria destruidora de Israel e os seus planos para erguer a toda a sua volta o “Grande Israel” — que, não vale a pena iludirmo-nos, não é só o sonho do Governo criminoso de Netanyahu e do seu bando, ou a satisfação dos interesses pessoais do PM israelita, mas também, e desgraçadamente, a vontade largamente maioritária da população de um país que já foi governado por gente com a estatura de uma Golda Meir ou de um Shimon Peres e que hoje é defensor do genocídio de Gaza, do terrorismo dos colonos judeus na Cisjordânia, da ocupação do Líbano, da Síria e, se possível ou julgado necessário, da Jordânia e do Irão.

A mais estúpida de todas as guerras
Ilustração Hugo Pinto

2 A verdade, porém, é que, para já, todos suspiramos de alívio com a “pax trumpiana”. Frágil, incerta, tardia, é pelo menos uma esperança. Já na Ucrânia, cuja guerra já ultrapassou em tempo a I Guerra Mundial, tal como esta, nada de novo na frente de batalha. Exaustos, massacrados, sem vitória militar à vista, ambos os lados gritam por alguém que os vá ajudar a pôr fim àquilo. Com Donald Trump desinteressado do assunto, concentrado noutras frentes e tendo deixado para os europeus os custos do apoio militar à Ucrânia, esta seria então a hora de a Europa tentar mediar um esforço de paz, depois de se ter queixado que a falhada mediação de Trump a deixou de fora, há uns meses. Mas qual quê? Como se não houvesse nem urgência nem novidades, a Europa prossegue na sua política de sempre: armas e dinheiro para a Ucrânia ganhar a guerra (!) e sanções para a Rússia. Todos contentes, acabam de aprovar o 21º pacote de sanções a Moscovo, cujo principal efeito é o de impedir os europeus de comprar petróleo a 50 dólares a Putin e fazê-lo a 90 dólares a Trump — fora o gás, que preventivamente se tratou de impedir que chegasse à Europa dinamitando os gasodutos russos. Simultaneamente, e tomando como pretexto o sobrevoo de dois drones supostamente russos sobre a Roménia e a Letónia, até já o chefe da Luftwaffe se oferece para dizimar os russos em combate aéreo. Que recordações felizes, que regresso à história! Que estratégia vencedora e oportuna!

3 Não tenho nenhuma posição de princípio relativamente a privatizações. Sou a favor quando o Estado não responde às necessidades das pessoas, como seria de esperar e aparentemente a privatização de um serviço ou de uma empresa pública ou a abertura à concorrência entre público e privado aparece como melhor solução. Sou contra quando estão em causa funções de soberania ou bens e serviços alienáveis pelo Estado, como a água, as praias, etc. Mas sou contra também quando se torna evidente que a principal razão de uma privatização é a satisfação de interesses particulares, e não a melhor prestação do serviço público. Entre todas as privatizações a que já assistimos nos últimos 50 anos, nenhuma me pareceu mais desnecessária e mais prejudicial ao interesse público do que a da ANA — Aeroportos de Portugal. Tratava-se de uma empresa pública que tinha o monopólio da exploração de um serviço essencial: a exploração do espaço aéreo e da entrada por via aérea em território nacional de um número de estrangeiros que é o dobro da população residente. Era um grande negócio, e com ele o Estado ganhava dinheiro tranquilamente. Mas, a troco de um preço que ao fim de oito anos já estava amortizado pelos lucros, esse grande negócio foi oferecido à francesa Vinci, com experiência incipiente no sector. E a Vinci revelou aquilo que era de prever: uma absoluta incapacidade ou desinteresse em prestar um serviço aceitável para os passageiros, a par de uma insaciável voracidade pelo lucro, bem patente nas 24 actualizações de taxas que já levou a cabo no aeroporto de Lisboa e que, nos Açores, levou mesmo ao abandono da Easyjet, indisponível para pagar os preços exigidos pelos franceses. A própria IATA veio recentemente dizer que a Vinci estava apenas centrada nos lucros, sem realizar investimentos correspondentes. E a AirHelp, uma organização votada aos direitos dos passageiros, deu à Vinci a honrosa medalha de ter visto o aeroporto de Lisboa classificado em 274º lugar entre 277 aeroportos analisados no mundo inteiro — uma classificação perfeitamente adequada àquilo que cada passageiro do Aeroporto Humberto Delgado pode constatar quando o frequenta. E é esta empresa, a que um Governo do PSD deu a concessão da exploração de dez aeroportos em Portugal, que outro Governo do PSD confia agora para que ela leve a cabo a construção do futuro aeroporto de Lisboa sem custos para os contribuintes. Esperem sentados ou não percam mais tempo a alimentar ilusões.

4 E agora vamos para umas semanas de genuíno “patriotismo”: bandeirinhas nacio­nais nas janelas das casas ou dos carros, camisola da Selecção vestida, mão no peito a escutar o hino e inevitáveis vénias, que nunca serão de mais, a Cristiano Ronaldo. Com isto nos consolamos.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

Ucrânia, Europa e Segurança Global

(Sergey Lavrov in Resistir, 20/06/2026)


O presente artigo estava inicialmente previsto para ser publicado no Politico-Europe, com sede em Bruxelas. No entanto, devido a uma decisão de última hora da equipa editorial daquele media, a publicação foi cancelada.


Numa reunião realizada em Londres a 7 de junho de 2026, os líderes do Reino Unido, da França e da Alemanha, bem como Vladimir Zelensky, estabeleceram cinco condições prévias para que a Rússia assegure uma “paz justa e duradoura” na Ucrânia. A Europa unida apresenta agora esta lista de exigências como base para o diálogo com Moscovo.

Contexto

Mais de duas décadas de negociações com a Europa, enquanto parte do Ocidente coletivo, levam a uma única conclusão:   envolver a Rússia no diálogo serviu de cortina de fumo diplomática para a expansão geopolítica das instituições ocidentais, sobretudo da NATO e da União Europeia, para leste, até às fronteiras da Rússia.

A cumplicidade da Europa no agravamento da crise ucraniana é inegável. Juntamente com os Estados Unidos, os países europeus orquestraram a Revolução Laranja em Kiev, em 2004. Para criar uma cabeça de ponte antirussa na Ucrânia, passaram anos a subornar políticos e partidos inteiros, a reescrever a história e os programas curriculares, a cultivar e a alimentar o nacionalismo ucraniano, e não pouparam esforços para afastar a Ucrânia da Rússia.

Em 2013, a União Europeia rejeitou categoricamente a nossa proposta de compromisso sobre o acordo de associação — um acordo que Bruxelas há muito vinha a pressionar Viktor Yanukovich a assinar. Vale a pena recordar:   foi oferecida à Ucrânia uma abertura unilateral do mercado, sem compromissos recíprocos — condições que se teriam revelado incompatíveis com a permanência de Kiev na zona de comércio livre da CEI. Quando Viktor Yanukovich solicitou um adiamento, os europeus incitaram motins de rua que rapidamente se transformaram num golpe de Estado em Kiev, em fevereiro de 2014.

A Alemanha, a França e a Polónia revelaram-se então igualmente traiçoeiras. Tendo garantido que o acordo alcançado entre a oposição e Viktor Yanukovich seria honrado, lavaram as mãos do assunto no instante em que essa mesma oposição, fruto da sua própria obra, assumiu o poder. “A democracia”, disseram com indiferença, “dá voltas inesperadas”.

A Europa passou, a partir daí, a dar o seu apoio às novas autoridades. Em Odessa, a 2 de maio de 2014, o facto de dezenas de apoiantes inocentes de laços mais estreitos com a Rússia terem sido queimados vivos não suscitou uma única palavra de condenação por parte das capitais europeias.

Na qualidade de co-garantes dos Acordos de Minsk de 2015, a França e a Alemanha encorajaram efetivamente o regime ucraniano a sabotar os seus próprios compromissos. Como Angela Merkel e François Hollande admitiram mais tarde — depois de a operação militar especial já ter começado —, a implementação por parte de Kiev dos Acordos de Minsk, aprovados por unanimidade pelo Conselho de Segurança da ONU, nunca foi verdadeiramente pretendida. O objetivo, admitiram, era meramente ganhar tempo: reforçar as Forças Armadas da Ucrânia e inundá-las com armamento ocidental.

A Rússia, por seu lado, explorou todas as vias diplomáticas para atenuar a crise de segurança na Europa. No entanto, em janeiro de 2022, os Estados Unidos e a OTAN rejeitaram a proposta da Rússia de garantias de segurança mútuas juridicamente vinculativas. Os membros europeus da OTAN apoiaram ativamente essa rejeição.

Na sequência do lançamento da operação militar especial, a Europa unida deu o seu apoio aos esforços do primeiro-ministro britânico para sabotar as negociações de Istambul entre a Rússia e a Ucrânia. O apelo de Boris Johnson a Kiev – “não assinem nada, limitem-se a lutar” – fechou a porta à diplomacia genuína num futuro previsível.

Situação atual

Então, o que levou os líderes europeus a mudar repentinamente a sua retórica e a começar a falar de negociações, e o que pretendem alcançar com estas declarações? Por exemplo, a chefe da diplomacia da UE, Kaja Kallas, afirmou:   o objetivo de qualquer diálogo com a Rússia é ditar os termos da Europa. Estes incluem:   o pagamento de “reparações” à Ucrânia; a retirada das tropas da Transnístria e do Cáucaso do Sul; a abolição da lei dos “agentes estrangeiros”; e a aceitação de limites rígidos quanto ao tamanho das Forças Armadas da Federação Russa. Na sua perspetiva, “não pode haver uma paz justa e duradoura sem que a Rússia seja responsabilizada”. Durante a sessão do Conselho de Segurança da ONU, em 19 de maio de 2026, um representante da UE deixou a questão bem clara:   “apoiar militarmente a Ucrânia não contradiz a busca da paz, mas serve antes como um pré-requisito fundamental para quaisquer negociações credíveis e de boa-fé”.

O plano da Europa consiste em dialogar com a Rússia, ao mesmo tempo que avança com uma campanha de guerra jurídica orquestrada através do Conselho da Europa. No seio desta organização outrora respeitada, está a ser montada toda uma infraestrutura com o objetivo expresso de “responsabilizar a Rússia”:   um Registo de Danos, uma Comissão de Reclamações e um Tribunal Especial.

A União Europeia também deu sinal verde à detenção de navios mercantes em alto mar. Já ocorreram vários incidentes no Báltico e no Atlântico. Ao mesmo tempo, o Ocidente desvia cuidadosamente o olhar dos atos terroristas de sabotagem perpetrados pelas Forças Armadas da Ucrânia nos mares Negro e Mediterrâneo.

O verdadeiro objetivo dos líderes europeus, portanto, não é negociar com a Rússia. É reforçar o regime de Zelensky e preservá-lo como plataforma de lançamento para um confronto contínuo contra a Rússia. Com isto em mente, os líderes europeus estão a esforçar-se por garantir um cessar-fogo o mais rapidamente possível e por uma única razão: impedir o colapso das Forças Armadas da Ucrânia no campo de batalha. O plano consiste em “congelar” o conflito sem abordar as suas causas profundas e, em seguida, destacar rapidamente contingentes militares da “coligação dos dispostos” anglo-francesa para o território ucraniano.

É do conhecimento geral que as elites europeias investiram o seu “capital político” no confronto com a Rússia, injetando centenas de milhares de milhões de dólares para sustentar o regime de Kiev e para aumentar os orçamentos militares dos Estados-Membros da UE e da NATO. A Europa pretende agora alcançar a “prontidão de defesa” contra a Rússia até 2030. Até lá, pretendem ganhar tempo por todos os meios disponíveis. Numa observação surpreendentemente franca em abril deste ano, o chefe do Estado-Maior da Bélgica foi direto ao ponto:   “Ainda temos alguns anos. Graças à coragem e ao sangue dos ucranianos, que nos estão a proporcionar esse tempo”.

A Europa unida continua a sonhar com a expansão. Pretende absorver a Ucrânia e a Moldávia, ao mesmo tempo que atrai a Arménia para a sua esfera de influência. A NATO já se expandiu para leste, incorporando a Finlândia e a Suécia. Quanto à Ucrânia, é cada vez mais vista como o “punho de ataque” de uma futura força militar europeia, independente dos Estados Unidos e da NATO.

Riscos para a segurança global

Esta situação representa sérias ameaças à segurança global. Um confronto direto entre a NATO e a Rússia poderia rapidamente degenerar numa troca de ataques nucleares, com consequências catastróficas.

Sob a bandeira da “autonomia estratégica”, a Europa está a assistir a um reforço significativo das suas capacidades militares, incluindo na esfera nuclear. A intenção de Paris de alargar o seu “guarda-chuva nuclear” a vários Estados-Membros da UE e da NATO é motivo de profunda preocupação. Isto não contribuirá em nada para reforçar a segurança da própria França nem dos destinatários da sua chamada proteção.

Apesar de tudo isto, a classe política e militar europeia continua a atribuir planos agressivos à Rússia — planos que, segundo afirmam, vão muito além da Ucrânia. O Presidente russo afirmou em numerosas ocasiões que tudo isto não passa de disparates, provocações e desinformação, tudo com o único objetivo de obter fundos orçamentais para a luta contra a Rússia. Este não é, de modo algum, o clima propício a um diálogo substantivo.

A posição da Rússia

No que diz respeito às negociações, Vladimir Putin reiterou no Fórum Económico Internacional de São Petersburgo que a Rússia não se opõe a contactos com nenhuma das partes. Consideramos, no entanto, que a Europa é uma parte empenhada na derrota da Rússia — uma postura que os próprios europeus assumem abertamente. O diálogo com a Europa, portanto, não pode ser conduzido como se esta fosse um observador imparcial e independente.

A Rússia preferiria alcançar os objetivos da operação militar especial através da diplomacia. Isso requer garantir de forma fiável a segurança ao longo das fronteiras ocidentais da Rússia e assegurar o respeito e a dignidade dos nossos cidadãos e compatriotas, incluindo o direito de falar a sua língua materna, o russo, e de praticar a fé cristã ortodoxa. Uma maior expansão militar, política e económica por parte do Ocidente é inaceitável:   contraria os imperativos de um mundo multipolar.

Os líderes europeus devem reconhecer que o modelo de segurança regional construído na Europa ao longo de décadas, desde a adoção da Ata Final de Helsínquia em 1975, foi destruído pelas suas próprias mãos. E nunca mais será restaurado. Temos agora de avançar no sentido de criar uma arquitetura de segurança à escala do continente, aberta a todos os países da Eurásia e que reflita a realidade multipolar atual.

O princípio da segurança igual e indivisível, pisoteado pelos euro-atlantistas, pode ser incorporado numa nova arquitetura euro-asiática. Quando chegar o momento certo, também a Europa poderá juntar-se a este grande esforço.

O ponto-chave é que um diálogo significativo requer a restauração da confiança, abalada pelas ações antirrussas do Ocidente — e da Europa como parte integrante deste — na era pós-Guerra Fria. A confiança só pode ser recuperada através de medidas concretas que demonstrem um compromisso sincero em deixar de utilizar a diplomacia como pretexto para ambições expansionistas. A confiança não pode ser restaurada, nem o diálogo retomado, através de ultimatos como o que foi lançado à Rússia em Londres, a 7 de junho de 2026.

P.S.: É digno de nota que o ultimato de Londres tenha sido inequivocamente reafirmado pelos embaixadores da Grã-Bretanha, França e Alemanha na reunião realizada no Ministério dos Negócios Estrangeiros russo a 11 de junho de 2026 — uma reunião que eles haviam solicitado com muita insistência. Esse foi o único objetivo da sua visita ao Ministério.

Fonte aqui.

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Como as elites da Europa perderam o controlo em relação à Rússia

(Por Brian McDonald, in Substack.com, 01/06/2026, Trad. Estátua)


O Ocidente venceu a Guerra Fria oferecendo uma vida melhor, não policiando o pensamento. Os colunistas e membros dos think tanks parecem determinados a esquecer essa lição.


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Na semana passada, O Guardian deu-nos um curioso vislumbre do declínio acelerado  do pensamento político na Europa Ocidental. O ensaio de Timothy Garton Ash, “Como Derrotar Putin”, apresentado três dias depois como uma “Visão do Conselho”  pelo grupo de lobby financiado pela UE, ECFR, começa, como costuma acontecer, com a premissa sensata de que o bloco precisa de uma estratégia séria para a Rússia, mas termina num ponto muito mais sombrio, com uma receita para salvar a democracia tornando-a menos democrática.

Tudo isso faz parte da doença contemporânea recorrente em que o autor deseja que a UE se torne mais autoritária para derrotar os autoritários. Podemos chamar a isso “Von der Leyenismo”, enraizado naquela peculiar corrente de pensamento da Europa Ocidental que acredita que nem tudo associado à Alemanha da década de 1930 era ruim, e que havia mais do que alguns aspetos positivos. Um velho truque, disfarçado de bom senso, que insiste que devemos policiar a liberdade de expressão para a defender, algo muito semelhante a copular para manter a virgindade. Tudo construído sobre a crença de que a dissidência deve ser tratada como traição, desde que o dissidente use o vocabulário errado e venha do lado errado do espectro político.

A frase “eliminar os nossos próprios nacionalistas” é a grande pista aqui, e expõe a verdadeira agenda. Se significasse derrotá-los nas eleições, atendendo às preocupações dos eleitores, seria justo, porque é assim que a política deveria funcionar. Mas todos sabemos que o novo arsenal envolve guerra jurídica, censura, vigilância, exclusão de plataformas digitais, pressão financeira, interferência de serviços de inteligência, campanhas nos média e a incessante insinuação de que qualquer partido fora do centro aprovado por Bruxelas está, de alguma forma, carregando uma boneca matrioska recheada de dinheiro do Kremlin.

Para que o plano tenha sucesso, a democracia liberal terá que ser substituída por uma nova forma de “democracia administrada”, desta vez com a marca ocidental. Basicamente, o Surkovismo russo dos anos 2000 remodelado, com alfaiataria melhor, cotas de género, menos cigarros, menos rap, mais diversidade, bandeiras do arco-íris, pronomes e uma vida noturna bem mais sem graça.

A tragédia é que o autor quase se lembra da verdadeira lição da Guerra Fria do século XX, mas depois passa por ela a toda velocidade, como se fosse um potro de viseiras correndo nas 14h40 em Sandown. O Ocidente sobreviveu à União Soviética porque oferecia uma vida melhor, e não porque conseguia policiar o pensamento com mais eficiência. Até mesmo os filhos de Khrushchev e Estaline emigraram para os Estados Unidos, mas o clã Kennedy e os Roosevelt não fugiram para o leste, nostálgicos da vida comunitária de Leningrado.

O Ocidente ostentava instituições mais livres, padrões de vida mais elevados, debates mais abertos, mais espaço para o indivíduo e uma sensação mais profunda de que o amanhã poderia ser moldado por ti, em vez de algo imposto por um comitê de homens grisalhos que se tratavam por “camaradas” e tinham o estranho hábito de se beijarem na boca.

A juventude aprisionada do bloco oriental não olhava para o outro lado da Cortina de Ferro com inveja dos comunicados da NATO; o que eles invejavam eram supermercados, liberdade de viajar, universidades, discos de jazz, calças jeans, carros melhores, livros sem censura, Michael Jackson e a possibilidade de viver sem um pequeno censor alojado permanentemente no crânio.

Foi isso que tornou o Ocidente atraente, mas agora observe o programa oferecido pela classe liberal de articulistas. Envolve uma UE permanentemente securizada, isolada da energia e das matérias-primas russas baratas e comprometida com o rearmamento, com sanções, tensão industrial, queda do padrão de vida e doutrinação moral interminável. Será que Ash realmente acredita que isso se tornará o grande polo de atração do século XXI? E com base em quê? Será com base em eletricidade cara, desindustrialização, alto desemprego juvenil, desigualdade crescente, crises migratórias e uma classe política que chama os eleitores de perigosos quando reclamam?

A Alemanha é o exemplo mais óbvio de alerta porque, durante décadas, o seu modelo de sucesso baseou-se em energia barata, manufatura avançada, infraestruturas sólidas, uma sociedade coesa e acesso tanto a mercados desenvolvidos quanto a mercados em desenvolvimento.

Desde 2021, esse modelo tem sido abalado, com fábricas sob pressão, custos de energia em alta, o país absorvendo cada vez mais migrantes (muitas vezes de utilidade questionável para a sociedade em geral) e a antiga segurança industrial a tornar-se cada vez mais frágil, ao mesmo tempo que até a rede ferroviária se está a deteriorar. No entanto, em vez de questionar se os membros da UE podem realmente prosperar, permanentemente separados do maior país da Europa, os estrategas do continente buscam mais uma lição.

O que eles não conseguem entender é que a UE não pode censurar e moralizar para se tornar atraente, nem pode construir unidade fingindo desonestamente que o populismo é uma infeção exclusivamente estrangeira. Os figurões da UE preferem a mentira de que os eleitores foram hipnotizados por Moscovo porque não conseguem processar a verdade, que é a de que cada vez mais pessoas não acreditam que a classe política atual (ou seja, eles próprios) seja capaz de governar. E embora chamar aos seus oponentes agentes, enganados, racistas, “pró-russos” ou extremistas seja mais fácil do que lhes responder, também é suicídio político.

Agora, nada disso significa que a Europa Ocidental deva ser fraca e que os seus diversos países não devam, obviamente, defender-se. Eles devem ter exércitos funcionais, fronteiras que tenham significado, indústrias substanciais, identidades claras e líderes capazes de dialogar com Washington, Moscovo, Pequim e Kiev sem parecerem estagiários num painel de um think tank.

Mas uma União Europeia séria também entenderia geografia e aceitaria que a Rússia não é um fenómeno climático passageiro, mas sim o maior país da Europa, uma potência nuclear, uma importante fonte de recursos naturais e um facto permanente no continente.

Tentar excluir a Rússia do projeto europeu enquanto se inclui todos os outros ex-estados soviéticos sempre foi uma forma absurda de pensamento ilusório, e isso também teve implicações estruturais para a própria Rússia.

Se a UE tivesse agido de forma diferente, poderia ter esperado que a geração Putin passasse – geração essa que está compreensivelmente ressentida com o colapso soviético e a humilhação da década de 1990. Então, poderia ter lidado com uma liderança mais internacional e liberal, que nem sequer se lembrasse da URSS, e que certamente viria a seguir.

Nunca devemos esquecer que, apenas um mês antes dos primeiros protestos do Maidan em Kiev, Alexei Navalny ficou em segundo lugar nas eleições para prefeito de Moscovo, mas depois que a UE e os EUA apoiaram incondicionalmente o derrube do governo eleito da Ucrânia, as elites russas concluíram, quer queiramos quer não, que o compromisso do Ocidente com a democracia e as regras não passava de uma farsa.

Isto não é um apelo para que a UE se renda a Moscovo, mas sim uma sugestão para que construa uma arquitetura de segurança europeia que inclua tanto a Rússia como a Ucrânia, porque não se pode construir uma ordem estável fingindo que uma delas pode simplesmente desaparecer.

Se a UE continuar a empobrecer, a tornar-se mais censória, menos livre e mais receosa dos seus próprios eleitores, continuará a trilhar o caminho para a ruína.


Fonte aqui