(Jacinto Furtado, in NoticiasOnline, 01/11/2026)

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Em 12 de Outubro de 1972, no anfiteatro do ISCEF, em Lisboa, os estudantes descobriram um bufo da polícia política no meio da reunião.
A PIDE mandou dois esbirros, um deles, António Gomes da Rocha esvaziou o revólver. Ribeiro Santos, estudante de Direito, morreu no Hospital de Santa Maria. O infiltrado não matou ninguém; matou quem veio atrás dele. O processo foi arquivado em Outubro de 1973.
Cinquenta e quatro anos depois, na madrugada de domingo, nos Aliados, no Porto, quatro polícias à paisana foram descobertos no meio de gente que protestava pelo direito a uma casa. Um deles sacou a pistola e apontou-a aos manifestantes. Há vídeo.
Ninguém morreu. Ainda bem. A cena de abertura é a mesma, e nós conhecemos o resto do filme.
A PSP confirmou, claro, porque negar o que toda a gente filmou seria pior. Por isso fez melhor, baptizou a coisa. “Uso passivo da arma de fogo.” Passivo! Eu gostava de ver o senhor porta-voz do lado de cá do cano, a explicar a passividade a quem lá estava.
A versão oficial diz que três dos quatro foram agredidos e o quarto defendeu-se. Faz sentido que um polícia espancado tenha medo. Agredir agentes é crime e quem o fez, se o fez, deve responder em tribunal, com prova. O que é estranho é que a única testemunha apresentada seja o próprio Estado.
Esbirro não é uma farda. É um comportamento, o de quem usa o poder do Estado para meter medo a quem o contesta. Se me provarem a legítima defesa, retiro a palavra ao agente. Ao que o mandou para lá, ao que o cobre e ao que o aplaude, mantenho-a inteira.
A Constituição da República, no artigo 45.º, garante o direito de nos reunirmos “pacificamente e sem armas”, sem pedir licença a ninguém. Só se esqueceu de avisar os que andam à paisana. Quem tinha a arma, na madrugada de domingo, não era a malta da acampada.
E o artigo 272.º diz que as medidas de polícia não podem ir além do estritamente necessário. Cães, escudos e bastões contra um cordão humano de gente sentada ao lado de tendas: eu quero ver quem lê aquilo como “estritamente necessário” e consegue olhar-se ao espelho.
O ministro Luís Neves diz que a PSP tem autonomia, que não houve instruções políticas e que tem “total confiança” nela. Sobre a pistola, disse que não tinha informação e que o uso de armas “tem de ser justificado”. Confiança total em quem ainda não sabe o que fez. Bela coisa.
Só há duas hipóteses. Ou o ministro mandou, e então mentiu. Ou não mandou, e então não manda. Qualquer das duas exige que rolem cabeças. Ainda não vi nenhuma a rolar.
Entretanto, a malta fez as contas. No Porto, 38 feridos, três graves, segundo a organização. Nas duas cidades, cerca de cem, treze deles polícias. Treze detidos, já libertados. Um repórter da CMTV agredido à bastonada, a trabalhar. Houve tinta na Câmara e, diz a PSP, objectos arremessados; quem os atirou que responda, caso a caso, com prova. Mas a “pequena franja” do ministro rende uma centena de feridos, e a tinta lava-se com água.
Ainda a propósito do repórter agredido, não esqueçamos que a PSP tentou proibir que os órgãos de comunicação social utilizassem drones para obter imagens aéreas. Teriam medo do que podia ser filmado e transmitido?
Um país que manda cães e bastões contra quem acampa porque não consegue pagar uma casa não tem política de habitação. Tem Corpo de Intervenção.
O ministro garante que o cargo está “permanentemente à disposição” do primeiro-ministro. Disposição não lhe falta; mostra-a todos os dias, para tudo menos para se ir embora.
Provocação deliberada? Não o posso provar e não o escrevo como facto. Mas a dúvida nasceu no dia em que se meteu polícia sem farda e sem identificação no meio de quem protestava, e só quem a criou a pode desfazer. Quem se cala quando lhe perguntam o que andavam lá a fazer quatro homens com bastões extensíveis e pistolas diz tudo o que há para dizer.
A oposição não é toda igual, e convém dizê-lo. O Livre pediu a demissão do ministro e vai queixar-se ao Comissário dos Direitos Humanos do Conselho da Europa e ao Alto Comissário da ONU. É o único pedido que faz sentido, e quem o fez merece que se lhe reconheça. Que a queixa tenha de ir a Estrasburgo e a Nova Iorque diz muito do que falta cá dentro.
O PS achou a força “inaceitável numa democracia”. Palavra dura, pedido mole: quer o ministro no Parlamento e o Sistema de Segurança Interna convocado. O PCP quer um debate urgente e fala em “repressão”. O BE chama “ilegal” à carga. Tudo certo, e tudo a mesma coisa, pedir esclarecimentos é o que faz quem já perdeu a rua, e quem governa conta com isso.
Do outro lado, o CDS defendeu a polícia e achou que o problema é o PS, “refém do radicalismo”. Há quem veja uma pistola apontada a cidadãos e só consiga ver o adversário. O Chega, sempre pronto a exigir mão pesada, achou tempo para chamar “arruaceiros” a alguns manifestantes e para criticar a falta de empatia do Governo. Empatia! Com cães e bastões em cima, a empatia é o menor dos problemas.
O Presidente da República falou com o primeiro-ministro e pediu esclarecimentos à Provedora de Justiça. Muito bem. Não consta que a pistola tenha ouvido a conversa.
Isto não é um caso de polícia. É um ensaio. Cada madrugada em que a rua é limpa à bastonada sem que ninguém pague por isso, o atropelo seguinte fica mais barato. Hoje são tendas de gente sem casa. Amanhã é a greve, depois a vigília, depois o jornalista que filma o que não devia. Os direitos, liberdades e garantias não se perdem num dia. Gastam-se, como as solas, e só se dá por isso quando se pisa o chão.
Por isso exijo o que qualquer cidadão pode exigir. A demissão do ministro. Um inquérito independente ao agente da pistola, com conclusões públicas. O nome de quem ordenou aquela operação à paisana. E o fim de polícias sem farda e sem identificação no meio de manifestações pacíficas. Quem tem medo de tudo isto é porque tem alguma coisa a esconder.
Não lhe chamo ditadura. Ainda. A palavra guarda-se para quando já for tarde para a usar. Mas conheço o guião: primeiro é a arma que é “passiva”, depois o protesto que é “franja”, depois o inquérito que nunca chega, e quando damos por ela já ninguém pergunta quem mandou os homens à paisana.
O processo do homem que matou Ribeiro Santos foi arquivado em Outubro de 1973. Convém não dar ideias.
Fonte aqui