O novo delírio ursulino: Quando a União Europeia sonha controlar as mentes dos adolescentes

(In Fórum da Escolha, in Facebook, 13/05/2026, Revisão da Estátua)


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A avaliar pelo que diz Ursula von der Leyen, Bruxelas embarcou numa cruzada moral contra os pecados digitais: o TikTok e a sua “rolagem infinita”, o Meta acusado de ignorar as restrições de idade, o X sob vigilância por conteúdo ilegal relacionado com a exploração sexual de menores. A narrativa é nobre, quase bíblica: salvar as crianças das tentações algorítmicas. Bruxelas como o cavaleiro branco do bem comum, armado não com uma espada, mas com regulamentos que somam centenas de páginas.

Só que, na Europa, toda a cruzada digital acaba por levantar uma questão incómoda: onde termina a proteção e onde começa o controlo?

Pois, por detrás da retórica paternalista, reside uma ambição muito maior: conter plataformas que se tornaram demasiado poderosas para serem ignoradas, demasiado influentes para serem deixadas sem controlo. Desde a adoção da Lei dos Serviços Digitais (DSA) em 2022, a UE concedeu-se um poder sem precedentes: exigir auditorias, impor obrigações de moderação, solicitar dados sobre algoritmos e aplicar multas até 6% da receita global de uma plataforma em caso de violação. Oficialmente: para proteger os cidadãos. Extra-oficialmente? Muitos vêem tudo isso como uma tentativa de recuperar algum controlo político sobre espaços onde a narrativa oficial da Comissão Europeia já não reina incontestada.

Bruxelas alega estar a agir em nome dos menores. A DSA impõe, de facto, proteções reforçadas para as crianças, limita a publicidade direcionada e visa mecanismos considerados aditivos. A Comissão Europeia abriu processos contra o TikTok, Meta e X relativamente a várias questões de conformidade. Os factos são claros. Mas os resultados, no entanto, continuam mais modestos.

Porque há um pormenor tragicamente irónico nesta batalha: quanto mais Bruxelas aperta o cerco, mais as plataformas se transformam. Os jovens migram, contornam as restrições e divertem-se noutros locais. Telegram ontem, Discord hoje, uma nova aplicação amanhã. A história da internet assemelha-se a uma perseguição interminável, onde o regulador avança com um manual administrativo enquanto o algoritmo corre a passos largos, impulsionado por milhares de milhões.

O aspecto mais revelador continua a ser o paradoxo europeu: uma União que denuncia os monopólios digitais americanos, mas que depende deles para o seu debate público, as suas notícias, a sua economia criativa e até a sua comunicação política. Ursula von der Leyen critica as redes sociais… nas próprias redes sociais.

No fundo, Bruxelas talvez não esteja a travar uma guerra contra o TikTok ou o X. Está a travar uma guerra contra uma realidade mais perturbadora: a de um mundo onde o poder narrativo já não pertence exclusivamente aos governos, aos grandes meios de comunicação ou às instituições. E para uma tecnocracia habituada a falar de cima para baixo, este é provavelmente o algoritmo mais insuportável de todos.

(Por B.Partisans)

Fonte aqui.

A liturgia da obediência

(João Ferreira, in Facebook, 07/05/2026, Revisão da Estátua)

Ao centro o Presidente do Parlamento da Ucrânia recebido na Assembleia da República. O currículo antidemocrático – mesmo fascizante – do cavalheiro pode ser consultado aqui.

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Há momentos em que o silêncio pesa menos do que o aplauso. E o que se viu na Assembleia da República foi precisamente isso: o peso insuportável da submissão travestida de virtude.

O presidente do parlamento ucraniano foi recebido de pé, ovacionado como herói, símbolo de uma causa que nos é vendida como sagrada, intocável, moralmente pura. E eu pergunto: herói de quê? De que memória? De que verdade?

Perdoem-me, mas eu não aplaudo. Eu sinto vergonha. Vergonha de ver quase todo o espectro político português alinhado numa coreografia servil, incapaz de questionar, incapaz de pensar para além do guião imposto por Bruxelas, Washington e pela máquina mediática ocidental.

E ironicamente, no meio desta cegueira coletiva, foi o Partido Comunista Português — partido cuja visão ideológica rejeito frontalmente — o único a manter-se sentado. O único a recusar participar nesta liturgia da propaganda. E isso diz muito. Diz demasiado. Quando um partido que sempre combati politicamente demonstra mais independência de pensamento do que quase toda a restante classe política, algo está profundamente errado.

Vivemos numa época em que a ignorância já não é acidente: é método. Repetir slogans substituiu pensar. E qualquer tentativa de contextualizar o conflito ucraniano é imediatamente catalogada como traição, heresia ou cumplicidade. Fala-se de democracia, mas cala-se a complexidade. Fala-se de liberdade, mas censura-se o contraditório. Fala-se de paz, enquanto se financia guerra.

E o mais grotesco é assistir a tantos, embriagados por propaganda, a chamar “comunista” à Rússia atual, revelando um analfabetismo político quase ofensivo. Confundem categorias. Confundem história. Confundem realidade. Porque foram treinados para reagir, não para compreender.

A propaganda moderna não inventa necessariamente mentiras. Seleciona verdades. Mutila contextos. Fabrica moralidade conveniente. É uma técnica antiga, apenas equipada com ferramentas novas.

E enquanto esta encenação se desenrola, Portugal afunda-se. Salários indignos. Habitação impossível. Serviço Nacional de Saúde em rutura. Jovens a emigrar. Reformados a sobreviver. Mas há sempre dinheiro para guerras externas. Há sempre urgência para conflitos alheios. Há sempre entusiasmo para causas importadas. E para os portugueses? Sacrifício. Resignação. Silêncio.

Chamam solidariedade ao envio de milhares de milhões para alimentar um conflito sem fim, mas esquecem-se da solidariedade básica para com o próprio povo.

Aplaudem longe. Ignoram perto. Aplaudem símbolos. Abandonam pessoas. Perdoem-me, mas eu não consigo alinhar nesta encenação coletiva. Não aplaudo porque pensar ainda não é crime. Não aplaudo porque a consciência pesa mais do que a conveniência. Não aplaudo porque a dignidade começa precisamente onde termina a obediência cega.

E hoje, olhando para aquele hemiciclo de pé, não vi coragem. Vi conformismo. E isso envergonha-me. Mas esta crise não é apenas moral. É também política.

E é precisamente aqui que se revela outra tragédia nacional: Portugal não tem uma força política equivalente ao Vox, não tem uma figura como Matteo Salvini, não tem uma força como a Alternative für Deutschland, nem sequer uma tradição de pensamento estratégico e soberano como a de Charles de Gaulle. Não existe em Portugal uma direita conservadora sólida. Intelectualmente preparada. Culturalmente consciente. Geopoliticamente lúcida.

Existe apenas um agrupamento político em torno de um líder, tratado por muitos como a grande esperança nacional, mas que, olhando friamente, continua mais próximo de um movimento de contestação do que de um verdadeiro partido. Porque um partido exige doutrina. Exige estrutura. Exige coerência.

E o que ali vejo é uma contradição permanente: à direita nos costumes, à esquerda na economia. Uma fórmula politicamente explosiva. Intelectualmente inconsistente. Na prática, estatismo económico revestido de retórica identitária. E isso não é uma direita estruturada. É improviso político.

Na geopolítica, a confusão é ainda mais evidente. Prefere-se ouvir ativistas e comentadores como Irineu Teixeira, alinhados com narrativas emocionais, em detrimento de análises estratégicas e militares de homens como Agostinho Costa, cuja leitura do conflito — concorde-se ou não — revelou, ao longo destes últimos anos, uma consistência que muitos dos seus opositores nunca conseguiram acompanhar. E isso é revelador. Porque uma direita séria escolhe a análise sobre a agitação. Escolhe a estratégia sobre a histeria. Escolhe a realidade sobre a propaganda.

Quanto ao líder desse agrupamento, reconheço-lhe uma utilidade política inegável. Na oposição, muitas vezes acerta no diagnóstico. Em muito do que denuncia, concordo. Mas a política mede-se no poder, não no protesto. E é precisamente aí que nasce a minha desconfiança.

Porque demasiadas vezes vi, dentro desse mesmo espaço político, a distância brutal entre o discurso e a prática. E quem conhece por dentro aprende depressa uma verdade simples: há quem combata o sistema apenas até ter oportunidade de o administrar.

Portugal não precisa de salvadores. Precisa de uma direita consciente. Séria. Coerente. Estruturada. E isso continua, infelizmente, por nascer.

E há algo que é preciso ser dito com clareza: não culpem a direita pela queda da Europa. A direita soberanista e conservadora não governa a Europa. Não controla a União Europeia. Não define o rumo da Comissão Europeia. Não molda o pensamento dominante em Bruxelas.

A responsabilidade pelo estado atual da Europa pertence a quem a governa há décadas. Aos arquitetos deste modelo. Aos sacerdotes deste dogma. Aos administradores deste declínio.

E o mais trágico é que muitos ainda não perceberam que a Europa — leia-se, a União Europeia — entrou numa trajetória de isolamento estratégico, declínio económico e irrelevância geopolítica. Como no Titanic: continuam a tocar música e a dançar, mesmo com a água já pelos pés.

E esse paralelismo é brutalmente exato. Porque, no início deste século, muitos acreditaram que o mundo caminhava para a consolidação definitiva de uma ordem unipolar, assente na hegemonia absoluta dos Estados Unidos e na expansão do seu modelo político, económico e militar. Parecia o encerramento da História. Um centro de poder. Uma narrativa dominante. Um modelo universal imposto como inevitável.

Mas a História raramente respeita guiões. A Rússia travou esse avanço estratégico. A China venceu no campo onde verdadeiramente se decide o poder duradouro: economia, indústria, tecnologia e planeamento estratégico. A Índia emergiu como potência civilizacional e económica. E o chamado Sul Global despertou para uma realidade simples: o mundo não precisa de um único centro de gravidade. Hoje estamos a viver as dores de parto dessa transformação histórica. A passagem de um mundo unipolar para um mundo multipolar. O fim progressivo da hegemonia absoluta norte-americana.

E é precisamente aqui que a União Europeia revela toda a sua fragilidade estratégica. Sem autonomia política real. Sem independência energética. Sem soberania militar efetiva. Sem visão própria. Bruxelas continua presa a uma lógica atlântica que já não corresponde à realidade emergente do século XXI. Aposta num paradigma em desgaste, enquanto o centro de gravidade mundial se desloca para Oriente e para Sul.

Enquanto insistimos em discursos moralistas, superioridade civilizacional e arrogância burocrática, outros avançam. A China avança. A Rússia reorganiza-se. A Índia afirma-se.

E a Europa? Debate regulamentos. Produz burocracia. Consome propaganda. E continua a olhar para o mundo com a arrogância colonial expressa por Josep Borrell, quando afirmou que “A Europa é um jardim e o resto do mundo é selva”.

Essa frase não foi apenas infeliz. Foi reveladora. Reveladora de uma mentalidade que ainda não percebeu que o mundo mudou. Mudou o eixo do poder. Mudou a economia. Mudou a ordem internacional.

E quem paga esse erro? Os povos europeus. Com inflação. Com energia cara. Com perda industrial. Com estagnação económica. Com perda de competitividade.

E, no entanto, grande parte dos media prefere maquilhar as consequências, anestesiar a opinião pública e proteger a narrativa dominante. Porque admitir o erro seria reconhecer que a Europa entrou numa guerra económica, estratégica e civilizacional para a qual não estava preparada. E pior: devido a escolhas que nem sequer servem necessariamente os interesses dos povos europeus.

Este sonambulismo estratégico, esta cegueira voluntária, esta embriaguez ideológica da Europa, vai sair-nos cara. Muito caro. Porque a História não espera por civilizações adormecidas. E quem insiste em dormir enquanto o mundo muda, acaba inevitavelmente por acordar derrotado.

Fonte aqui.

A tragédia europeia

(Por Joaquim Ventura Leite, in Facebook, 10/09/2025, Revisão da Estátua)


O Projeto Europeu: Destruído em menos de duas décadas por uma sofisticada, mas incompetente e desastrosa coligação política de liberais, socialistas e verdes, a que as restantes forças políticas europeias se submeteram sem oposição convicta ou simplesmente medo face a um vazio ideológico total. 

A Europa está presentemente mergulhada numa paranoia destrutiva, em consequência da sua posição em relação à invasão russa da Ucrânia. Para o público europeu, a narrativa que sustenta ou justifica esta paranoia é a da inevitabilidade de uma guerra com a Rússia, o que exigirá uma despesa maciça na defesa, que obviamente levará a mais concentração de poder político em Bruxelas, e maior destruição da economia e das condições de vida dos europeus. O argumento infantil e perigoso mais recente de Ursula von der Leyen  para justificar esta nova narrativa é o de que a economia russa está a “florescer” (booming!)  por  se ter transformado numa economia de guerra. Agora ela já não diz que a economia russa está em “fanicos” (in tatters, como disse em 2022 ao Parlamento), mas que está a florescer! É uma afirmação que mostra a sua total incompetência e infantilidade num cargo como o que desempenha, não por qualquer mérito seu anterior mas, exclusivamente,  por conveniência de uma coligação política conhecida: liberais, socialistas e verdes. Esta é a coligação que a história registará como a que destruiu o projeto europeu.

Mas vamos à paranoia. A minha tese resulta de um texto longo e ainda não editado para publicação. Contudo, hoje adianto as conclusões absolutamente convictas a que cheguei, apoiadas em factos e não em percepções ou  agendas políticas.

1 – A paranoia europeia nada tem a ver com qualquer hipótese de invasão russa da Europa ocidental.

    Vamos a factos. Em 1968, através de forças do chamado Pacto de Varsóvia, uma resposta da Rússia e dos seus países satélites à NATO, a URSS ocupou a Checoslováquia para pôr termo ao que ficou conhecida como a Primavera de Praga.

    Naquela altura havia dezenas de milhares de soldados soviéticos e tanques em Berlim Oriental. Ocupar Berlim Ocidental era um passo minúsculo para a URSS. A  URSS tinha do seu lado todos os países de leste. E, todavia, a invasão da Checoslováquia não gerou nenhuma histeria e paranoia sobre uma iminente invasão da Europa Ocidental. E vivia-se em plena Guerra Fria. Houve manifestações de indignação  pelo Ocidente, mas ninguém pensou que se estava a caminho de uma invasão generalizada da Europa Ocidental. Porquê então agora essa paranoia?

    Os russos querem progresso, e não mais guerras. Sofreram brutalmente não apenas durante a Segunda Guerra Mundial, mas igualmente porque  depois dela foram submetidos a  restrições severas nas suas condições de vida para que a URSS pudesse manter a sua máquina militar de dissuasão, o Pacto de Varsóvia,  e pudesse ainda apoiar movimentos e guerras contra o Ocidente pelo mundo fora.

    Eu visitei e conheci uma parte dessa URSS e senti essas dificuldades materiais dos soviéticos. O que hoje desejam é poder desfrutar dos seus recursos e viverem bem como no Ocidente. Nada de guerras. Mas, há o Putin, dizem as elites e os seus funcionários! Putin tem a ambição de recuperar o território da antiga URSS. Até hoje, tal como as inúmeras doenças imputadas a Putin, não existem documentos ou intervenções políticas de Putin formulando esse objetivo estratégico. Nem a altos funcionários russos. É, pois, uma conveniente fabricação ocidental, associada ao medo histórico da URSS!

    Na realidade, quem tem medo de quem é o oposto. A Rússia é que tem medo das falsas promessas do Ocidente sobre a não expansão da NATO para Leste. E a Ucrânia é uma questão vital para a Rússia desde que a NATO manifestou vontade de a integrar. Porquê a importância especial da Ucrânia? Porque este foi o corredor das anteriores invasões da Rússia e da URRS, respetivamente por Napoleão e  Hitler. Portanto, se alguém teme alguém, é a Rússia, e ela tem antecedentes históricos suficientes para isso.

    Então, sendo assim, como se explica a paranoia europeia? Haverá outra explicação para ela? Sim, há. E são apenas  desgraças!  

    2 – Expectativas frustradas

    No início do conflito, a expectativa era clara: a Rússia entraria em colapso militar, a economia ficaria destruída sob o peso das sanções e Moscovo ficaria isolada no plano internacional. A Ucrânia, apoiada pelo Ocidente, resistiria heroicamente e, em poucos meses, o equilíbrio europeu voltaria a assentar-se sobre a vitória da ordem liberal.

    Esse ambiente de confiança manifestou-se em várias declarações públicas. Emmanuel Macron chegou a advertir que “o Ocidente deveria evitar uma humilhação de Putin” na solução do conflito. A frase é reveladora: pressupunha que a vitória ocidental estava assegurada e que a única preocupação era gerir a derrota russa de forma a não criar instabilidade.

    Boris Johnson foi ainda mais explícito. Contou ter dito a Putin, por telefone, que a invasão da Ucrânia era um “grave erro de cálculo político”. Mais do que isso, em março/abril de 2022 deslocou-se a Kiev para transmitir a Vlodymyr Zelensky uma mensagem inequívoca: se aceitasse um acordo de paz nos termos então em discussão, o Ocidente retiraria o seu apoio; mas se optasse por continuar a lutar, teria garantido financiamento, armas e logística para alcançar uma vitória total sobre a Rússia. O episódio mostra como a confiança na derrota russa era tamanha que até uma solução negociada foi rejeitada em nome da expectativa de vitória plena.

    Mas não só. Também Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, refletiu esse otimismo inconsciente ao afirmar no Parlamento Europeu que as sanções tinham deixado a indústria russa “de rastos” (in tatters). Foi mais longe, chegando a dizer que Moscovo, sem acesso a semicondutores, estava já a retirar chips de frigoríficos e máquinas de lavar loiça para os colocar em mísseis — uma imagem quase caricatural, que procurava desvalorizar a indústria militar russa e reforçar a narrativa de colapso. Noutra ocasião, sublinhou que a Rússia estaria condenada a paralisar a sua produção petrolífera por falta de válvulas fabricadas no Ocidente.

    Hoje, essas declarações soam infantis e superficiais, porque a realidade mostra ser o oposto: a Rússia não só manteve a sua indústria militar como aumentou a produção; não só não paralisou a exploração energética como reforçou exportações para mercados alternativos.

    Este conjunto de declarações — Macron, Johnson e Ursula — mostra com clareza o clima que dominava as elites ocidentais em 2022: uma confiança arrogante, baseada em avaliações ilusórias da realidade russa. Essa confiança e arrogância propaga-se à sociedade. Aos restantes políticos nacionais, ao comentariado televisivo. E quando essas expectativas não se confirmaram, a desilusão abriu espaço para a angústia da humilhação, que ajuda a alimentar a paranoia que hoje marca a política europeia. Mas não foi apenas a humilhação política sentida hoje pelas elites arrogantes! Algo mais, e também profundo,  frustra ou mesmo assusta esta Europa dominada pelos liberais, socialistas e verdes.

    3 – O simbolismo perturbador da Rússia

    O impacto não é apenas militar ou económico. Moscovo projeta-se como um “Estado-civilização” que recupera símbolos de soberania, religião, família, cultura e identidade conservadora, em contraste aberto com as recentes agendas consideradas “progressistas” da Europa. A Rússia não oferece, nesta altura, um modelo exportável como a URSS pretendeu depois da Segunda Guerra Mundial, mas a sua mera resiliência representa um desafio ao universalismo liberal.

    Para as elites ocidentais, este simbolismo é particularmente perturbador. Uma Rússia que se afirma culturalmente no oposto duma Europa arrogantemente auto promovida como “progressista”,  e que, ao mesmo tempo, não colapsa sob sanções, é percebida como uma ameaça civilizacional — não tanto pela sua força objetiva, mas pelo que revela das fragilidades internas do Ocidente.

    4 – Um mundo em mudança para a multipolaridade.

    A Rússia não colapsou apenas por causa da resiliência da sua economia, do seu renovado poder militar e dum estado politicamente forte e com capacidade estratégica. A Rússia contou com uma mudança estrutural no Mundo, e essa mudança apoia-se também na nova Rússia renascida do colapso da URSS. O pano de fundo onde isto acontece é a transição da ordem global unipolar para uma ordem multipolar. E o que isso trouxe foi que o chamado Sul Global se recusou a alinhar automaticamente com a estratégia ocidental no isolamento da Rússia. Pelo contrário, a Rússia reassumiu um papel internacional crescente em diversas zonas críticas do Mundo como África e Médio Oriente.

    O pesadelo ocidental e europeu não assenta apenas na humilhação pelas expectativas falhadas assentes numa postura arrogante e ridícula, ou no medo das elites perante o conservadorismo perturbador da Rússia. É também a constatação de que, enquanto o Ocidente se entregava a uma deriva destrutiva sob o céu liberal,  o resto do Mundo estava em mudança por uma autonomia e por um progresso não ditado e decidido pelo Ocidente. Perceber. de repente,  que o Ocidente já não dita sozinho as regras, e que os centros de decisão se diversificam, é algo que se tornou insuportável para um Ocidente arrogante.

    5 – Consequências desastrosas irrecuperáveis

    As elites políticas europeias percebem com horror que as consequências do erro estratégico cometido com a guerra na Ucrânia não são apenas catastróficas. São irrecuperáveis.

    E os povos europeus irão reagir a isso ao longo dos próximos tempos, virando as costas à coligação que destruiu um Projeto Europeu muito promissor, que colocaria a Europa como um protagonista central na geopolítica internacional. Hoje a Europa corre o risco de se tornar uma região periférica do Mundo em desenvolvimento. Sem credibilidade e mergulhada em problemas da sua própria génese, a saber:

    A – Uma política energética que está a destruir a economia europeia em nome da salvação do planeta.

    Poucos exemplos ilustram melhor esta arrogância transformada em fraqueza do que o dossier energético. Durante décadas, a Europa construiu a sua competitividade industrial sobre o gás barato vindo da Rússia. Essa dependência era criticada pelos EUA, mas vista como inevitável em Berlim e Bruxelas.

    Com a guerra, tudo mudou. O Nord Stream foi posto fora de serviço, os fluxos de gás russo caíram a pique e a Europa virou-se para o gás natural liquefeito americano — mais caro, mais instável e logisticamente mais difícil. O que era uma vantagem estratégica transformou-se em vulnerabilidade.

    O episódio mais simbólico ocorreu há dias: a Rússia e a China assinaram um memorando para a construção de um novo gasoduto gigante a partir da península de Yamal. O detalhe relevante é que esse gás tinha sido originalmente pensado para abastecer a Europa. Agora seguirá para a China, reforçando o crescimento do maior rival sistémico da União Europeia.

    É um pesadelo pensar na competitividade da Europa sem energia barata e disponível. O peso dos verdes destruiu esse quadro, e agora um outro quadro de desenvolvimento difícil de desenhar é necessário. Mas com liberais, socialistas e verdes essa correção é difícil nesta altura.

    B – Uma politica migratória que está a destruir os alicerces da sociedade europeia em nome não se sabe de quê, talvez de um complexo de culpa, tudo muito defendido pelos liberais, socialistas e verdes.

    C – Uma aventura irresponsável na guerra da Ucrânia, em vez de se ter batido pela paz, reconhecendo as razões de segurança da Rússia.

    Estes foram os desastres que a coligação liberal, socialista e verde, causou à Europa, e que não podem agora ser rapidamente corrigidos, muito menos pelas mesmas forças políticas. O desespero pela desorientação política na UE não podia ser maior do que o atual.

    6 – Uma complicação inesperada

    Num Ocidente que se apresentava monolítico, as fissuras dentro do bloco estão a começar a aparecer.

    A narrativa da unidade ocidental é hoje uma fachada, que esconde fissuras cada vez mais profundas. Os EUA seguem uma agenda de reindustrialização e protecionismo que choca com os interesses exportadores da Europa. Dentro da União Europeia, o Leste diverge do Oeste, o Norte do Sul, e as tensões políticas internas acumulam-se e irão intensificar-se à medida que as crises internas não puderem ser resolvidas pela própria UE.

    O Ocidente já não é o bloco monolítico da Guerra Fria nem o espaço unipolar dos anos 1990. Hoje, enfrenta divisões transatlânticas e internas que o fragilizam ainda mais perante a Rússia e a China.

    Conclusão: A coligação liberal/socialista/verde está perdida e desorientada. A narrativa da guerra contra a Rússia e o aumento do autoritarismo seguem-se de forma óbvia.

    E agora um fecho com chave de chumbo! Quem são os principais coveiros do Projeto Europeu? Emanuel Macron e Olaf Scholz.

    A sua ação política só trouxe fracassos ao Projeto Europeu e aos respetivos países que foram e são centrais para o rumo europeu. 

    Emmanuel Macron: está atascado até ao pescoço na gestão da França. Falhou em,  praticamente, tudo o que a França precisava. A sua aceitação pública não vai além dos 25%. Agora está com uma crise de governo, com dificuldades de aprovar um orçamento que tenta travar a situação financeira deficitária do Estado.

    Tenta manter algum protagonismo internacional à custa da Ucrânia, afirmando volta e meia que a França vai enviar tropas para a Ucrânia, mas acabando por se encolher, uma vez que não tem capacidade militar para ajudar a Ucrânia a defender-se. Começou por dizer que a guerra na Ucrânia não era entre a Rússia e a Ucrânia, mas entre a NATO e a Rússia. Mas depois viu uma oportunidade da Europa derrotar a Rússia. Agora não sabe o que fazer… 

    Olaf Scholz. A sua passagem pelo governo alemão terá sido das mais desprestigiantes para a Alemanha, provavelmente só ultrapassável pelo atual chanceler Frederic Merz, que quer conduzir a Alemanha como se fosse uma empresa de gestão de  ativos financeiros. 

    Com ele os Verdes tiveram a maior influência num governo alemão. Deu aos Verdes duas pastas importantes como a economia e os negócios estrangeiros. O resultado foi simplesmente desastroso na economia e na energia, e desprestigiante para o governo em política externa. Nas últimas eleições pensou que continuava a governar, mas saiu pela porta dos fundos arrastando os sociais-democratas para um resultado medíocre de terceira força política. Uma situação que começa a ser mais frequente na Europa.

    Estes podem ser considerados os  dois principais coveiros recentes do Projeto  Europeu. Com Ursula von der Leyen à frente da Comissão Europeia, fecha-se um trio absolutamente incompetente na condução da Europa nos últimos anos.

    Pode e deve dizer-se que a maioria dos chefes de governo dos restantes países membros da União Europeia são igualmente desta extração, mas é razoável afirmar-se que se os líderes de França e da Alemanha fossem políticos com verdadeira dimensão política e sentido europeu, os restantes líderes seguiriam a França e a Alemanha. 

    Conclusão: A França e a Alemanha falharam onde não podiam ter falhado dadas as suas responsabilidades especiais no Projeto Europeu: na política energética, na imigração, na guerra na Ucrânia e, como cereja no topo do bolo,  na escolha e recondução de Ursula von der Leyen como Presidente da Comissão Europeia,  uma figura política  de segundo ou terceiro  plano,  cuja utilidade foi apenas executar a agenda política da coligação de Liberais/Socialistas/Verdes.

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