A LIÇÃO DA SÍRIA

(Por Carlos Fino, in Facebook)

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A narrativa ocidental sobre a guerra na Síria é simples – era uma vez um ditador chamado Assad contra o qual, em 2011, o povo se ergueu pedindo democracia; o ditador mandou prender, torturar e bombardear os rebeldes e aí começou uma guerra civil que dura até hoje.

Uma guerra terrível, que já fez meio milhão de mortos e provocou milhões de refugiados – mais de metade da população, deixando um rasto de devastação e ruínas, a ponto de estar em causa a própria sobrevivência do país, agora retalhado em zonas de influência.

O problema com esta narrativa é que ela não se sustenta inteiramente. Tem, é certo, elementos de verdade – Assad é um ditador, a perseguição aos opositores é terrível, havendo até suspeitas (como no caso de Saddam, no Iraque) de utilização de armas químicas contra populações civis.

Mas esse esquema interpretativo deixa na sombra as razões mais profundas do conflito: o embate regional entre as duas grandes correntes do Islão – sunitas contra xiitas – e, tanto ou mais importante ainda, a luta pelos recursos energéticos da região.

O acordo a que chegaram Síria e Irão para construir um oleoducto para escoar o petróleo do Cáspio evitando a Turquia e concorrendo com os sauditas e os outros países do Golfo no fornecimento de petróleo ao Ocidente é apontado por especialistas como sendo uma das causas da guerra de que pouco ou nada se fala.

Esse enquadramento explicativo simplista, embora possa funcionar até certo ponto em termos de grande público, tem, além disso, debilidades evidentes que não resistem a um olhar minimamente crítico.

Se a questão é simplesmente uma luta da liberdade contra a ditadura, maus de um lado, bons do outro, como explicar que do lado dos “rebeldes” estejam alguns dos piores inimigos das democracias ocidentais – o chamado Estado Islâmico, a Al-Qaeda e a Al-Nusra?

Se esta guerra é só e principalmente um confronto entre liberdade e ditadura, como explicar que do lado da democracia estejam regimes tão prepotentes como os da Turquia, Arábia Saudita e Qatar?

O facto dos Estados Unidos apoiarem os chamados “moderados” não muda o essencial.

Sim, os moderados existem, não são mera ficção – mas o núcleo duro das forças anti-Assad é outro – o Estado Islâmico e a Al-Qaeda. E alguém tem dúvidas de que se Assad caísse seriam estas forças e não os democratas que a curto prazo iriam prevalecer?

É manifesto que a opção americana nesta guerra – auxiliando os que querem derrubar Assad – deriva mais de concepções geoestratégicas sobre a correlação de forças que se pretende ver vitoriosa no Médio Oriente do que da defesa da democracia.

O que Washington pretende é um Médio Oriente em que os países do Golfo, fornecedores de petróleo e aliados dóceis dos ocidentais – a quem compram milhões de milhões de dólares em armamento – continuem a ser dominantes, contendo as ambições nacionalistas do Irão e da Síria.

Já com um pé na Síria, onde desfruta de uma base aérea e de acesso marítimo crucial para a sua frota no Mediterrâneo, por via dos acordos anteriores com o regime alauita, a Rússia preferiu jogar pelo seguro, apoiando financeira e militarmente Damasco.

A vitória obtida agora em Alepo, com a recaptura da cidade pelo exército sírio, estimula certamente Moscovo a prosseguir nessa via, desafiando assim os interesses americanos na região.

REACÇÃO DE WASHINGTON

Para Washington, pelo contrário, a retomada de Alepo por Assad foi sentida como uma derrota quase humilhante.

Certamente não por acaso, os liberais americanos recuperaram agora as acusações de interferência de Moscovo nas eleições dos EUA supostamente para favorecerem Trump em detrimento de Hillary. Nos media, pelo menos, o sentimento anti-russo atinge níveis só comparáveis aos piores anos da Guerra Fria.

Com isso, dá-se vazão à fúria pelo fracasso da política de Obama na Síria e ao mesmo tempo cria-se um clima tendente a dificultar ao máximo qualquer viragem na relação com a Rússia que o novo presidente possa – como já indicou – querer empreender.

Melhor seria, no entanto, que se retirassem do desastre da Síria – que se segue aos do Iraque, Afeganistão e Líbia – a lição que se impõe: as políticas neoconservadoras de caos criativo e “regime change” foram um completo fracasso, só se traduzindo em devastação e morte, com prejuízo evidente para as populações dos países envolvidos e consequências negativas para a velha Europa, onde vêm agora embater ondas sem precedentes de refugiados em fuga dos cenários de guerra que supostamente seriam o preço a pagar para democratizar os países árabes.

Está mais do que na hora de rever essa estratégia e essa grande mentira. Sob pena de se obterem resultados diametralmente opostos aos pretendidos – consolidação de regimes ditatoriais e reforço das posições da Rússia no Médio Oriente.

A selfie de Marcelo e o ódio sonso de Tavares

(Francisco Louçã, in Público, 14/12/2016)

 

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Francisco Louçã

Como todos percebemos, o Presidente Marcelo só foi a Cuba para tirar uma selfie com Fidel. A visita de Estado não tinha qualquer outro objectivo. A azia da direita esparramou-se pelo país, mas nenhum dos seus gurus se atreveu a criticar o Presidente. Nem uma palavra. Quando Marcelo mandou mensagem pela morte de Fidel, nem um ai. Quando o governo mandou um ministro ao funeral, silêncio sepulcral. Quando o Papa e Juncker e Merkel e Rajoy mandaram mensagens, caladinhos. Afinal, eles estão a branquear um “ditador ditador ditador”, mas os nossos corajosos reaccionários sobre tal tema não brandiram a sua indignação.

No entanto, paradoxo, houve vários artigos dos gurus da direita sobre o assunto. Só sobre este tema, JM Tavares já escreveu três contra mim. Em cada um deles foi subindo o nível do insulto. Não se preocupem os leitores, Tavares é assim: tem que esbracejar para existir, acha que quanto mais grotesco for o verbo mais será venerado. Só que ele não pretende reflectir sobre a história de Cuba e do seu regime. Pretende catalogar por razões instrumentais, para cultivar o seu pequeno hobby que é a política caseira.

Se ler a imprensa nacional ou estrangeira de referência, verá que jornais hostis ao regime cubano publicaram estudos rigorosos sobre a história de Fidel, do Financial Times ao The Economist, analisando a sua relação internacional (do apoio à invasão soviética da Checoslováquia à guerra de Angola em que derrotou a invasão sul-africana) e a sua evolução interna (da formação do regime de partido único à sua base social). Em Portugal, os gurus preferiram os ajustes de contas porque só se ocupam de si próprios, a história é-lhes irrelevante.

Mais esfuziante do que os congéneres, Tavares indigna-se contra os que, ao contrário dele, não saberiam distinguir uma democracia de uma ditadura. Como todos sabemos, o mundo divide-se entre os tavaristas e os ditadores. Escreve então: “Porque não começar também a elogiar Salazar ou Pinochet, que mataram menos gente e deixaram os seus países mais desenvolvidos?” Este tavarómetro das ditaduras vai directo para Marcelo mas, mais uma vez, a acusação é só assim-assim, o melhor que o nosso Alípio consegue. Sim, pergunta o sorridente Tavares, e porque não elogiar Salazar ou Pinochet?

Tavares precisa destes eflúvios, é o que faz a sua vida. No resto, faz constar que tem umas vagas ideias políticas, é um liberal que arrasa toda a gente, Sócrates, Passos, Costa e quem respirar, tudo com muitos ódios, mas nunca se arrisca naquela coisa da democracia a provar as suas ideias, a tomar posição, a fazer alguma coisa. Está em todo o lado porque não está em lado nenhum. Prefere a porrada de cátedra e, como tem menos atenção do que se acha merecedor, grita mais alto. O homem atira, tonitruante, que de mim “discorda em tudo” e até “no essencial”, como se o mundo fosse um jogo floral e a prosápia me comovesse.

Sabe, Tavares, quando se enche o peito de ditadura e democracia, vale mais o que se faz do que o segura-me-se-não-eu-bato. Espero por isso que consiga perceber o que lhe digo: quando vivi sob a ditadura de Salazar e Caetano, conheci gente que lutava mesmo pela liberdade. Não os insulte com a sua pergunta sobre se se deve elogiar Salazar. Quando estive no Chile, sob a ditadura de Pinochet, conheci gente que estava na clandestinidade e que veio a ser presa. Ouvi Hayek elogiar Pinochet, vi a Casa Branca a apoiar o golpe e vi Mao a reconhecer o novo governo. Os lutadores da liberdade estavam quase sozinhos mas resistiram até vencer. Não os insulte com a sua graçola sobre Pinochet. Sabe, nisto de ditadura e de liberdade, pode-se combater ou pode-se esbracejar. Continue pois a esbracejar no seu ódio, afinal é o que sabe fazer melhor.

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Ignorar, uma outra forma de esquecer – a propósito das lutas estudantis no Porto

(José Pacheco Pereira, in Público, 22/10/2016)

Autor

                Pacheco Pereira

 

Vamos continuar a falar do esquecimento, desta vez por interesse próprio, mas, se todo o interesse próprio fosse desta natureza, não viria daí mal nenhum ao mundo. Passei as últimas semanas em conjunto com vários antigos companheiros de lutas na universidade a preparar uma exposição sobre o movimento estudantil do Porto entre 1968 e 1974, que está aberta ao público até ao fim do mês. Deu bastante trabalho a todos nós, trabalho manual e intelectual, exigiu muitas horas de esforço, tudo feito apenas por pura dedicação, gosto e um certo sentido de reparação de uma memória colectiva de resistência à ditadura, que é um óbvio motivo de orgulho de todos os que eram activistas e militantes nesses anos.

Com excepção mais que meritória da TVI, e da Lusa e de uma forte presença na Rede, apesar de a exposição se realizar no local onde estão sediados vários órgãos de informação (incluindo o PÚBLICO) e vários deles se terem deslocado ao local da sua inauguração apenas para colherem com grande aparato declarações de Rui Moreira sobre uma provocação menor de Passos Coelho, retirando-se depois, fazendo de conta que não viram nada do que se passava à sua volta, pouca foi a atenção que os media dedicaram ao acontecimento.

Escrevo isto porque me reconhecerão algum conhecimento do que é o interesse jornalístico e editorial e é impossível defender que o que se passou não tinha interesse jornalístico, tendo por isso visto, com ironia, o principal jornal do Porto, no dia seguinte, a dedicar uma página a uma operação aos seios de uma minivedeta.

O que se passou foi uma inauguração muito sui generis de uma exposição num local, uma escadaria do átrio da actual Reitoria, onde os estudantes do Porto faziam os seus plenários, habitualmente interrompidos por cargas policiais e prisões. Estiveram presentes centenas de velhos activistas estudantis que ocuparam o seu antigo local de combate, para ouvir, como então, uma mesa improvisada a falar alto e bom som para contrariar o ruído que vinha das portadas abertas para a Praça dos Leões. Perguntaram os que não viveram esses tempos se os oradores queriam um megafone. Explicou-se que se aparecesse um megafone, instrumento raro e caro na altura, ele seria certamente apreendido pela polícia, que acharia, e bem, que o seu uso implicava alguma organização subversiva e prenderia quem estivesse com ele. Na assistência estavam muitos dos estudantes que em vésperas do 25 de Abril tinham ali sido presos, sujeitos a processos disciplinares, multados e que deveriam ser julgados… em Junho de 1974. A diferença para os dias de hoje é gigantesca e chama-se liberdade. E por isso lá estava o representante académico do reitor, os presidentes das câmaras do Porto e Lisboa (Fernando Medina é filho de dois dos elementos constantes de uma lista da PIDE de estudantes perigosos, Helena Medina e Edgar Maciel Correia, já falecido e lembrado e honrado naquela sessão), representantes de vários partidos políticos, artistas, intelectuais, escritores e gente que é gente.

O que lá aconteceu, a fila de pessoas à chuva que, como se fosse uma manifestação, se deslocou para o local físico da exposição a centenas de metros dali, até era suficientemente cénico para os critérios de entretenimento dos nossos dias, dava “boa televisão”. Como dava “boa televisão” e melhor escrita, se a houvesse, ver dezenas de jovens estudantes de Belas-Artes e Design, que participavam no evento anfitrião do Futureplaces – MediaLab for Citizenship , a olharem para o ressuscitar de um velho copiógrafo Gestetner manipulado por dois reputados médicos que foram “tipógrafos” clandestinos com o entusiasmo de quem mexe de novo em stencis, máquinas de escrever, escantilhões, tubos de tinta e verniz das unhas para servir de corrector. Tenho a certeza que esses jovens, que vivem felizmente em democracia e liberdade, perceberam nessa sessão muita coisa sobre o que era fazer um panfleto livre nesses anos de repressão.

Podia não referir nada disto e falar apenas da exposição, mas não queria que houvesse tanta impunidade para outra forma de esquecimento, que é a pura ignorância ou indiferença, quando não hostilidade, ao facto de a liberdade não ter caído do céu sem custo e ter pessoas e rostos.

Quanto à exposição, ela retrata um movimento estudantil pujante, muito aguerrido, pouco conhecido nacionalmente pela atenção dada a Coimbra e a Lisboa, e que estava bem vivo no 25 de Abril. Aliás, as grandes lutas do Porto nos anos 70 estavam já muito para lá das reivindicações associativas clássicas e contestavam a Queima das Fitas e a praxe, puseram fim à tentativa de realizar na universidade um festival de coros que incluía sul-africanos do regime do apartheid, numa luta que já era claramente contracultural (no caso da Queima e da praxe) e anticolonial (no caso dos coros). Enquanto em Coimbra havia o refluxo das lutas pós-1969, com um muito polémico “pedido de desculpas”, em Lisboa e no Porto, as universidades estavam ingovernáveis pela ditadura e pelos seus representantes académicos.

O movimento estudantil do Porto que a exposição documenta é o posterior a 1968 e vai até ao 25 de Abril de 1974. A data de 1968 pode ser injusta para com muitos estudantes das gerações do final dos anos 50, das lutas da crise de 1962, e dos anos de repressão por volta de 1965, e num certo sentido é. Muitos dos que foram presos e perseguidos nesses anos merecem também ser lembrados e, com a continuação deste trabalho, sê-lo-ão sem dúvida. Mas a geração que entrou na Universidade do Porto por volta de 1968 tinha uma forte identidade, que acompanhava a politização dos movimentos estudantis da Europa e dos EUA, influenciada por várias variantes do chamado “esquerdismo”, que no caso português era dominantemente maoísta. Mas o impacto genético foi o próprio ano de 1968, que influenciou a criação da primeira organização alheia ao PCP e às suas organizações estudantis, os comités de base. Depois, como aconteceu um pouco por todo o lado, cavam-se divisões mais profundas entre os estudantes comunistas da linha de “unidade” e internas ao esquerdismo, que no Porto se polarizavam à volta da organização estudantil do Grito do Povo, e a sua expressão semilegal os Núcleos Sindicais e o PCP(ML) e a equivalente tendência do “por um ensino ao serviço do povo”. A comprovar a identidade própria dos diferentes movimentos de Lisboa, Coimbra e Porto está o facto de o MRPP, que era muito activo em Lisboa, praticamente não existir no Porto. Toda esta história de conflitos, divisões e unidades está expressa na exposição, com as naturais limitações de espaço.

Quando fiz um comentário sobre o facto de pela primeira vez estarem numa iniciativa comum “liquidas”, “pops”, “revisas”, “esquerdistas” e “trotskas”, que se digladiavam forte e feio no movimento estudantil, um companheiro meu disse à moda do Porto: “P… foi preciso esperar 40 anos para ficarmos ecuménicos.” Talvez isso acontecesse porque, ao olhar para os papéis que fizemos nesses anos, nos apercebemos que havia uma direcção comum mais forte do que o que nos dividia, “cortar o pio” à ditadura. E conseguimos.