Ignorar, uma outra forma de esquecer – a propósito das lutas estudantis no Porto

(José Pacheco Pereira, in Público, 22/10/2016)

Autor

                Pacheco Pereira

 

Vamos continuar a falar do esquecimento, desta vez por interesse próprio, mas, se todo o interesse próprio fosse desta natureza, não viria daí mal nenhum ao mundo. Passei as últimas semanas em conjunto com vários antigos companheiros de lutas na universidade a preparar uma exposição sobre o movimento estudantil do Porto entre 1968 e 1974, que está aberta ao público até ao fim do mês. Deu bastante trabalho a todos nós, trabalho manual e intelectual, exigiu muitas horas de esforço, tudo feito apenas por pura dedicação, gosto e um certo sentido de reparação de uma memória colectiva de resistência à ditadura, que é um óbvio motivo de orgulho de todos os que eram activistas e militantes nesses anos.

Com excepção mais que meritória da TVI, e da Lusa e de uma forte presença na Rede, apesar de a exposição se realizar no local onde estão sediados vários órgãos de informação (incluindo o PÚBLICO) e vários deles se terem deslocado ao local da sua inauguração apenas para colherem com grande aparato declarações de Rui Moreira sobre uma provocação menor de Passos Coelho, retirando-se depois, fazendo de conta que não viram nada do que se passava à sua volta, pouca foi a atenção que os media dedicaram ao acontecimento.

Escrevo isto porque me reconhecerão algum conhecimento do que é o interesse jornalístico e editorial e é impossível defender que o que se passou não tinha interesse jornalístico, tendo por isso visto, com ironia, o principal jornal do Porto, no dia seguinte, a dedicar uma página a uma operação aos seios de uma minivedeta.

O que se passou foi uma inauguração muito sui generis de uma exposição num local, uma escadaria do átrio da actual Reitoria, onde os estudantes do Porto faziam os seus plenários, habitualmente interrompidos por cargas policiais e prisões. Estiveram presentes centenas de velhos activistas estudantis que ocuparam o seu antigo local de combate, para ouvir, como então, uma mesa improvisada a falar alto e bom som para contrariar o ruído que vinha das portadas abertas para a Praça dos Leões. Perguntaram os que não viveram esses tempos se os oradores queriam um megafone. Explicou-se que se aparecesse um megafone, instrumento raro e caro na altura, ele seria certamente apreendido pela polícia, que acharia, e bem, que o seu uso implicava alguma organização subversiva e prenderia quem estivesse com ele. Na assistência estavam muitos dos estudantes que em vésperas do 25 de Abril tinham ali sido presos, sujeitos a processos disciplinares, multados e que deveriam ser julgados… em Junho de 1974. A diferença para os dias de hoje é gigantesca e chama-se liberdade. E por isso lá estava o representante académico do reitor, os presidentes das câmaras do Porto e Lisboa (Fernando Medina é filho de dois dos elementos constantes de uma lista da PIDE de estudantes perigosos, Helena Medina e Edgar Maciel Correia, já falecido e lembrado e honrado naquela sessão), representantes de vários partidos políticos, artistas, intelectuais, escritores e gente que é gente.

O que lá aconteceu, a fila de pessoas à chuva que, como se fosse uma manifestação, se deslocou para o local físico da exposição a centenas de metros dali, até era suficientemente cénico para os critérios de entretenimento dos nossos dias, dava “boa televisão”. Como dava “boa televisão” e melhor escrita, se a houvesse, ver dezenas de jovens estudantes de Belas-Artes e Design, que participavam no evento anfitrião do Futureplaces – MediaLab for Citizenship , a olharem para o ressuscitar de um velho copiógrafo Gestetner manipulado por dois reputados médicos que foram “tipógrafos” clandestinos com o entusiasmo de quem mexe de novo em stencis, máquinas de escrever, escantilhões, tubos de tinta e verniz das unhas para servir de corrector. Tenho a certeza que esses jovens, que vivem felizmente em democracia e liberdade, perceberam nessa sessão muita coisa sobre o que era fazer um panfleto livre nesses anos de repressão.

Podia não referir nada disto e falar apenas da exposição, mas não queria que houvesse tanta impunidade para outra forma de esquecimento, que é a pura ignorância ou indiferença, quando não hostilidade, ao facto de a liberdade não ter caído do céu sem custo e ter pessoas e rostos.

Quanto à exposição, ela retrata um movimento estudantil pujante, muito aguerrido, pouco conhecido nacionalmente pela atenção dada a Coimbra e a Lisboa, e que estava bem vivo no 25 de Abril. Aliás, as grandes lutas do Porto nos anos 70 estavam já muito para lá das reivindicações associativas clássicas e contestavam a Queima das Fitas e a praxe, puseram fim à tentativa de realizar na universidade um festival de coros que incluía sul-africanos do regime do apartheid, numa luta que já era claramente contracultural (no caso da Queima e da praxe) e anticolonial (no caso dos coros). Enquanto em Coimbra havia o refluxo das lutas pós-1969, com um muito polémico “pedido de desculpas”, em Lisboa e no Porto, as universidades estavam ingovernáveis pela ditadura e pelos seus representantes académicos.

O movimento estudantil do Porto que a exposição documenta é o posterior a 1968 e vai até ao 25 de Abril de 1974. A data de 1968 pode ser injusta para com muitos estudantes das gerações do final dos anos 50, das lutas da crise de 1962, e dos anos de repressão por volta de 1965, e num certo sentido é. Muitos dos que foram presos e perseguidos nesses anos merecem também ser lembrados e, com a continuação deste trabalho, sê-lo-ão sem dúvida. Mas a geração que entrou na Universidade do Porto por volta de 1968 tinha uma forte identidade, que acompanhava a politização dos movimentos estudantis da Europa e dos EUA, influenciada por várias variantes do chamado “esquerdismo”, que no caso português era dominantemente maoísta. Mas o impacto genético foi o próprio ano de 1968, que influenciou a criação da primeira organização alheia ao PCP e às suas organizações estudantis, os comités de base. Depois, como aconteceu um pouco por todo o lado, cavam-se divisões mais profundas entre os estudantes comunistas da linha de “unidade” e internas ao esquerdismo, que no Porto se polarizavam à volta da organização estudantil do Grito do Povo, e a sua expressão semilegal os Núcleos Sindicais e o PCP(ML) e a equivalente tendência do “por um ensino ao serviço do povo”. A comprovar a identidade própria dos diferentes movimentos de Lisboa, Coimbra e Porto está o facto de o MRPP, que era muito activo em Lisboa, praticamente não existir no Porto. Toda esta história de conflitos, divisões e unidades está expressa na exposição, com as naturais limitações de espaço.

Quando fiz um comentário sobre o facto de pela primeira vez estarem numa iniciativa comum “liquidas”, “pops”, “revisas”, “esquerdistas” e “trotskas”, que se digladiavam forte e feio no movimento estudantil, um companheiro meu disse à moda do Porto: “P… foi preciso esperar 40 anos para ficarmos ecuménicos.” Talvez isso acontecesse porque, ao olhar para os papéis que fizemos nesses anos, nos apercebemos que havia uma direcção comum mais forte do que o que nos dividia, “cortar o pio” à ditadura. E conseguimos.

5 pensamentos sobre “Ignorar, uma outra forma de esquecer – a propósito das lutas estudantis no Porto

  1. “E conseguimos.”
    Diz o grande lutador “revolucionário” da OCMLP ou lá como se designava o seu grupinho que era uma variante ideológica do obreirismo bacoco e obscuro da UDP hoxaista de entre a enorme variedade de grupos(m-l) que proliferavam à época e que, realmente, lutavam à brava: sobretudo guerreavam mais entre si e a tal ponto que até se esqueciam que havia uma ditadura a combater.
    Aliás todos acusavam todos de que afinal cada um deles individualmente faziam o jogo da ditadura o que, como resultado prático, não andava longe da verdade.
    Mas, não obstante fazerem ou não o jogo do poder e da pide, o grande pacheco conseguiu calar o pio à ditadura. O mesmo reivndicam os “exilistas” que foram para as capitais Europeias combater a dita ditadura porque eram contra a guerra colonial. Idem, idem, os cantautores que fizeram da cantiga uma arma e disparavam das capitais europeias do exílio (honra a Zeca Afonso).
    Os que foram obrigados para a guerra colonial e derramaram o sangue nas matas e picadas junto dos militares do quadro o que lhes abriu os olhos e a cabeça par meditar a questão da guerra, esses não só não lutaram como foram os cobardes que aceitaram ir para a guerra.
    O pacheco não foi à guerra porque, como agora nos conta, era preciso cá para calar o bico à ditadura; brilhante.

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    • Ó Neves, não é que não tenha a sua razão. Mas não bata tanto no JPP. Há por aí muito mas muito pior. E conhece a narrativa bíblica de Estrada de Damasco? O S. Paulo também era um grande pecador…. Pode ser que ao JPP também tenha aparecido o anjo…:)

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      • Claro que conheço e acha que, Saulo que era homem de mão de Caifaz, ao tranformar-se (ou metamorforsiar-se segundo o grego e tradução de Frederico Lourenço) em Paulo, homem fundamental criador da “Igreja” de Cristo, trouxe ao mundo um grande avanço civilizacional relativamente ao paganismo?

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