Desemprego nos 9%? O que é que isso interessa?

(Nicolau Santos, in Expresso Diário, 28/07/2017)

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A taxa de desemprego foi revista em baixa para 9,2% em Maio e, de acordo com valores provisórios, deverá ter voltado a cair para 9% em Junho, revelou hoje o INE. A confirmar-se será o valor mais baixo desde há quase nove anos (8,9%, Novembro de 2008) e ameaça mesmo chegar ao final do ano abaixo da taxa de desemprego que se verificava antes da grande crise mundial.

É nesta altura que alguém dirá: mas o que é que isso interessa? O que interessa é que o Governo andou a esconder a lista dos mortos de Pedrógão. Não foi o Governo mas o Ministério Público? Não interessa. E não são 64 mortos, mas 65 ou 66. O Ministério Público diz que são 64? Não interessa. O que interessa é que não chegou um euro às vítimas dos incêndios. Isso é que é uma ignomínia. E o SIRESP, sim, o SIRESP? Não funciona. Quem o comprou? Foi o Costa, claro. E como baixou o preço, o SIRESP ainda ficou a funcionar pior. E Tancos, e Tancos? Uma vergonha! O Costa fez cativações e por causa disso a vedação não estava reparada e o sistema de vigilância não funcionava. Ah, não houve cortes na Lei da Programação Militar? Não interessa. Houve ou não roubo? Houve. Um roubo de material de guerra que nos achincalha perante o mundo e coloca as nossas Forças Armadas de joelhos junto dos nossos parceiros da NATO. E isso é culpa do Costa. O espaço entre rondas foi de 20 horas? É culpa do Costa que cortou no orçamento do Ministério da Defesa e das Forças Armadas. Nunca se viu tantos cortes como com o Costa. Ah, são cativações? O que é que isso interessa? É tudo a mesma coisa: cortes, cativações… A culpa é do Costa. O desemprego em 9%? O que é que isso interessa? Nada. O Costa não tem nada a ver com isto. O desemprego já tinha começado a descer no tempo do Passos Coelho. Aliás, também o défice desceu com o Passos, muito mais do que com o Costa. E a economia já estava a crescer. Este governo só está a aproveitar a boleia e a estragar o que Passos fez. Não tarda nada estamos outra vez na bancarrota e a pedir ajuda internacional. Com o Costa, é tão certo como dois e dois serem quatro: vamos outra vez pedir apoio aos nossos parceiros.

(Está na altura de recuarmos dois anos e irmos buscar as doutas explicações de inúmeros economistas, abalizados comentadores, jornalistas especializados que garantiam várias coisas: 1) que a subida do salário mínimo iria levar ao aumento do desemprego; 2) que a devolução de salários e pensões implicaria a subida do défice orçamental e o regresso dos desequilíbrios externos; 3) que a reversão de várias políticas do tempo da troika desaguaria na estagnação económica ou num crescimento agónico; 4) que a descida do IVA na restauração não teria qualquer efeito no sector. Bom, os índices de confiança dos consumidores são os mais elevados do século, o clima económico está em níveis pré-crise, o desemprego desceu abaixo da barreira psicológica dos 10%, o défice foi o mais baixo em 42 anos de democracia e este ano deve voltar a descer, continuam a verificar-se excedentes orçamentais primários, os desequilíbrios externos não regressaram…)

Sim, mas o que é que isso interessa? E os mortos de Pedrógão que o Governo escondeu? E o dinheiro que não chega às vítimas? E o roubo de Tancos? Sim, o roubo de Tancos? Pois, isso não lhes interessa. Só querem falar da taxa de desemprego, uma coisa sem importância nenhuma e que, aliás, se deve ao Passos. Essa é que é essa.


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Não deixar ninguém para trás

(José Soeiro, in Expresso Diário, 02/06/2017)

soeiro

José Soeiro

 

Maria Manuel tem 31 anos e trabalha há 10. É terapeuta da fala e acompanha crianças autistas, com necessidades permanentes de apoio. Mas os seus contratos são sempre temporários. Nas escolas públicas onde trabalha, fazem-lhe contrato entre outubro e agosto. Não recebe nas férias e entra quando o ano já começou. Fez uma licenciatura de 4 anos, mais 2 de mestrado, e ainda somou uma pós-graduação na área. Ao fim de uma década, a expectativa de ver a sua situação regularizada é grande. A dela e a de milhares de técnicos especializados (terapeutas da fala, fisioterapeutas, psicólogos, assistentes sociais, educadores sociais, animadores, intérpretes de língua gestual portuguesa…). Certezas absolutas, para já, não existem.

Manuel tem 56 anos e trabalha desde os 10, mas só começou a fazer descontos aos 14. Como outras centenas de trabalhadores das pedreiras de Penafiel, ao fim de mais de 45 anos a trabalhar no duro acusa os efeitos das condições do ofício. Na indústria extrativa da pedra proliferam doenças musculares associadas à vibração dos compressores, doenças auditivas resultantes do ruído das máquinas e doenças respiratórias provocadas pelo pó. Para além da tuberculose, da taxa de acidentes de trabalho muito acima da média e de uma esperança média de vida mais curta neste sector do que na generalidade da população. Com mais 4 mil colegas, Manuel fez uma petição ao Parlamento para ver reconhecido o desgaste rápido da sua profissão. Mas ainda não sabe se a proposta vai ser aprovada.

Maria Gil tem 44 anos e mora com os quatro filhos numa sobreloja, mesmo por cima de um bar, no centro do Porto. Há três anos que procura casa na cidade, mas os 350 euros que tem não lhe permitem arrendar nada do que está disponível. Tem uma doença crónica capaz de provocar dor intensa, e está desempregada há muito tempo. Tanto, que já perdeu o subsídio e só lhe resta o RSI para sobreviver. Já desempenhou muitas tarefas, quer fazer o processo de reconhecimento de competências, continua à procura de emprego. Mas, como outras 450 mil pessoas registadas como desempregadas nos centros de emprego, ainda não lhe foi dada uma oportunidade.

Ana é professora há 15 anos. Mas não faz parte dos cerca de 3 mil docentes que serão abrangidos pelo processo de vinculação lançado pelo Ministério da Educação, depois da negociação com os sindicatos. Já deu aulas de inglês, de português e agora de literacia infantil. Ana também não está abrangida pelo Programa de Regularização Extraordinária dos Vínculos Precários na Administração Pública. O seu contrato é com a Câmara de Gaia, e aquele programa não se aplica, para já, às autarquias. Como outros milhares de professores e animadores das AEC (atividades de enriquecimento curricular), os contratos sucessivos começam em setembro e acabam em junho – por isso nunca tem direito a férias pagas. Nas AEC’s ganham pouco mais de 400 euros por mês, 10 meses no ano. Aos 41 anos e com uma filha, já era tempo de ter alguma segurança.

A Maria Manuel e o senhor Manuel, a Ana e a Maria Gil, como todos nós, souberam que este ano “o número de desempregados teve a maior redução em termos homólogos desde que há registo (1989)”; ouviram que o país saiu do “Procedimento do Défice Excessivo” e que isso era razão para celebrar porque fizemos boa figura em Bruxelas e se vai poupar mais de 200 milhões; que o país cresceu, segundo o INE, 2,8% no primeiro trimestre, “um número histórico”; sentiram a ligeira subida dos apoios sociais e um ambiente que é de recuperação de direitos e já não de insulto permanente a quem tem menos e a quem vive do trabalho. Sabem que se está a discutir o direito à reforma antecipada para quem tem longas carreiras contributivas e medidas de combate à precariedade. São boas notícias? Certamente que sim. O país está melhor agora do que há dois anos e qualquer uma destas quatro pessoas (que conheço bem) olha para a atual maioria com simpatia e com expectativa. Mas se “o país”, dito assim em abstrato, está melhor, há ainda a sua vida concreta – e essa continua por resolver.

Não faz sentido esperar mais. Se há folga, este é o momento de ir mais longe. Na regularização de precários e no direito à reforma para quem tem carreiras longas, na vinculação dos professores e dos técnicos precários ou na garantia de proteção social, no direito à habitação ou no investimento público capaz de criar mais emprego, não esqueçamos quem ainda não teve a sua parte. Essa tem de ser a prioridade. Se o país vive um sucesso que se apresenta como de todos, então é o tempo de uma exigência elementar: a de que ele chegue a todos, a de que ninguém fique para trás.

Adivinhem o que aconteceu em 2016

(Nicolau Santos, in Expresso, 06/05/2017)

nicolau

Lembram-se quando Mário Centeno e o grupo de economistas que liderava apresentou o seu modelo para a economia portuguesa, ainda antes das eleições de 4 de outubro de 2015? Lembram-se como o atual ministro das Finanças foi zurzido porque o crescimento que propunha assentava, em parte, no consumo privado? Caiu o Carmo e a Trindade: que Portugal só podia crescer através das exportações e do investimento, que qualquer outra solução era um suicídio que só provocaria novos desequilíbrios externos e talvez a necessidade de recorrer a outro pedido de ajuda internacional, que devolver salários e pensões e aliviar a carga fiscal só de forma muito gradual, sob pena de as contas públicas voltarem a entrar em descontrolo. Quanto ao aumento do salário mínimo, reuniu o pleno: FMI, Comissão Europeia, Banco Mundial e muitos economistas nacionais alertaram para os efeitos nocivos que isso teria sob a criação do emprego. Finalmente, a descida do IVA para a restauração era um rematado disparate, que não levaria à criação de mais emprego no sector.

Lembram-se do modelo de Mário Centeno para a economia portuguesa? E leram o que o Banco de Portugal diz sobre 2016? Pois, pode ser que não seja milagre

Pois bem, o Banco de Portugal veio agora analisar o que se passou na economia portuguesa em 2016 e dizer o seguinte: 1) o PIB cresceu assente no consumo privado (+2,3%) e nas exportações (+4,4%) e não no investimento, que diminuiu 0,1%; 2) embora em termos anuais a economia tenha crescido menos do que no ano anterior (1,4% contra 1,6%), as dinâmicas foram completamente diversas: enquanto na segunda metade de 2015 a economia estava a desacelerar, na segunda metade de 2016, o PIB cresceu fortemente, a um ritmo de 1,9%; 3) para o crescimento do consumo privado foi fundamental, como é óbvio, a reposição dos salários na função pública e das reformas e pensões, bem como o desagravamento fiscal, mas isso não se traduziu num aumento do défice, que não só caiu de 3% para 2% em 2016, bem abaixo da meta acordada com Bruxelas (2,5%), como tudo aponta para que a trajetória descendente se vá manter de forma consistente este ano e no próximo; ao mesmo tempo, Portugal registou de novo um dos maiores saldos primários orçamentais da União Europeia;

4) apesar do aumento do salário mínimo, o desemprego manteve uma descida continuada ao longo do ano, fixando-se em 11,1% mas tendo já caído no primeiro trimestre deste ano abaixo da barreira psicológica dos 10%; e a economia criou mais de 80 mil novos empregos (saldo líquido), dos quais um terço na hotelaria e restauração.

Ah, sim, claro, agora o problema já não é o défice mas a dívida. É verdade. A dívida pesa muito e autoalimenta-se e não há excedentes primários que resolvam o problema senão em 50 anos. Por isso, vai ter de haver uma conversa séria sobre isto em Bruxelas após as eleições alemãs. Até lá, talvez conviesse que muita gente voltasse a ler alguns livros de economia. Pode ser que não seja milagre.


Alma até Almeida na CGD

A ocupação por populares da agência bancária da Caixa Geral de Depósitos em Almeida levanta várias questões. A primeira é óbvia: nos últimos anos, devido à rarefação da população no Interior e ao programa de austeridade, a presença do Estado nessas regiões tem-se vindo a reduzir. É o caso do encerramento de tribunais, de balcões dos CTT, de serviços médicos e de agências de bancos. E as pessoas que vivem nessas localidades sentem-se cada vez mais abandonadas e maltratadas pelo poder central. A CGD é o banco público. Por isso, apela-se ao poder político para impedir o fecho da agência em Almeida ou noutras localidades. Mas a CGD tem de ser gerida como se fosse privada e está obrigada a encerrar agências, reduzir trabalhadores e vender posições no estrangeiro porque recebeu uma forte injeção de dinheiros públicos para sobreviver. Paulo Macedo tem nas mãos um dilema sem solução.


Gulbenkian, a fundação que Isabel Mota vai ter inevitavelmente de mudar

Isabel Mota tomou posse como presidente da Fundação Gulbenkian. É uma mudança histórica porque pela primeira vez uma mulher chega ao topo dessa “utopia cultural”, como lhe chamou Eduardo Lourenço. O problema é que a utopia há muito parece ter cedido às realidades comezinhas. Com efeito, olhando para o relatório e contas da Fundação criada pelo multimilionário arménio Calouste Gulbenkian para apoiar as artes, ciência, educação e desenvolvimentpo humano, constata-se que atualmente esta gasta tanto em salários e pensões (€49,2 milhões) como em todos os apoios que concede e o dobro do que canaliza para as suas três principais áreas de intervenção: concertos, cinema e outros espetáculos (10,6 milhões); subsídios (10,3 milhões); e investigação científica (5 milhões). Ora não se espera que uma Fundação exista para suportar a sua estrutura; ou que tenha uma estrutura acima do necessário para as atividades que desenvolve. O curioso é que nos últimos anos o Ballet Gulbenkian foi encerrado pelos seus custos; o festival Acarte terminou pelas mesmas razões; o museu e o Centro de Arte Moderna tornaram-se uma entidade única. Mas pelos vistos a estrutura administrativa engordou e a Fundação não escapa à acusação de ter sido capturada por uma rede de relações familiares e pessoais e de ser uma plataforma de recuo para ex-políticos. É este desafio que Isabel Mota vai ter de enfrentar: reduzir os custos administrativos e focar a Fundação nas suas quatro áreas de atividade, onde a Gulbenkian seja uma referência incontornável a nível nacional e internacional. Para isso, Isabel Mota conta com três vantagens: conhece profundamente a casa; vai exercer o cargo a tempo inteiro; e é mulher. Há quem duvide da sua capacidade para mudar o statu quo. É o que se verá. Para já, começou bem, ao escolher Pedro Norton para administrador-executivo, dando um inequívoco sinal de renovação.


É difícil, sim

conhecer a luz e falhar a sombra.

Tão difícil como beber apenas

uma cerveja e falhar a palavra

apenas

por não gostar de tremoços.

É difícil não termos sido amigas

na adolescência, mas eu nunca tive amigos

adolescentes,

mesmos os que diziam que eram

mentiam: tinham centenas de anos.

É difícil nunca ter ido em grupos,

nunca ter ido às putas, ter ficado

sempre aqui,

aqui assim,

de coração encostado ao verso,

de língua debaixo da linha.

É difícil, sim,

cair no abismo e descobri-lo afinal

sítio confortável. Como é difícil

ler Celan e Pina,

Herberto e Belo,

Szymborska e Clarice,

e acreditar que a fé

se torna intermitente

sempre aqui,

aqui assim,

entre a saliva e os dentes.

É difícil, por isso,

pisar a madeira,

e esperar que a tábua ranja no sítio certo

da memória.

Tão difícil como o próximo copo ser a única esperança.

Menos difícil porém

do que ter sido mãe

órfã de pai, avós e gatos,

órfã rodeada de órfãos

por todos os lados. Água

rodeada de mar por todos os lados.

É difícil cumular factos:

ter sido eu

a ensinar-te a ler aos 50 anos,

ter sido eu

a falhar-te a leitura da morte aos 90 anos,

ter sido eu

a sobreviver-te, sobrevivente aos 30 anos.

Ter sido eu:

tão difícil quanto ser árvore

quando o tempo não está para colheitas.

Tão difícil quanto ter

medo de cães,

alergia a gatos,

e restar:

uma andorinha para caçar.

É difícil. enfim, sonhar

que a cerveja se bebeu

na companhia do poeta.

Como é difícil acreditar que o poeta perdeu

na carruagem os poemas. E os poemas

sempre aqui,

aqui assim,

rentes ao chão. Apenas.

Gostaria — muito, tanto — de.

Gostaria assim — com gestos largos —

assim tanto de: acreditar que

tudo isto tem banda sonora.

Porém:

para fazer uma canção,

tudo isto trespassado pelo som não chega.

Não chega, não.

É difícil, sim.

(Inês Fonseca Santos, in ‘Marcha Fúnebre’, in Antologia Mixtape, Coimbra, Editora Do Lado Esquerdo, 2013)