Semanada

(In Blog O Jumento, 25/06/2017)
HERMINIO
Esta foi a semana em que o diabo veio (finalmente), estava combinado aparecer em Setembro ali para os lados do ministério das Finanças, mas acabou por aparecer em Pedrógão Grande, uma localidade que em poucas horas se transformou numa imagem do inferno. O pessoal do PSD que estava instalado a tempo inteiro no terreiro do Paço, esperando pela queda de Centeno percebeu rapidamente a nova oportunidade, mudou-se de armas e bagagem para a Administração Interna.
Passos Coelho bem começou a encenação do político que não se aproveita da desgraça alheia, algo que já tinha feito com a crise financeira e com o Caso marquês. Mas a ansiedade dos seus deputados é tanta que desta vez o próprio Passos foi ultrapassado, propôs uma comissão técnica para avaliar os acontecimentos, mas o seu grupo parlamentar forçou um debate parlamentar sem quaisquer relatórios técnicos, só para aproveitar os acontecimentos.
Ninguém reparou, mas há uma figura grada do mundo autárquico do PSD que está a viver o seu próprio inferno, acompanhado de mais alguns companheiros. Hermínio Loureiro, homem forte de Oliveira de Azeméis e uma ponte entre o PSD e o mundo da bola está passando o fim de semana nas instalações hoteleiras da PJ.
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A agenda do rescaldo

(Francisco Louçã, in Público, 24/06/2017)

louca

Francisco Louçã

Estamos em rescaldo do incêndio, depois de 64 mortos e muitos feridos, 150 famílias desalojadas e 46 mil hectares ardidos. O drama é demasiado e não se pode fechar os olhos. Já chegou a hora da política.

Em contrapartida, Passos Coelho e Assunção Cristas foram cuidadosos nos primeiros dias. Tinham boas razões para isso, além do natural respeito pelos mortos e pelo sofrimento de quem ainda via o incêndio à porta. Quanto à dirigente do CDS, ela teme mais do que tudo que a sua passagem pelo ministério da agricultura, em que promoveu a extensão do eucaliptal, se torne um centro de atenção.

E ela como Passos Coelho temem ainda que o caso SIRESP seja tóxico para os partidos que criaram o negócio, que foi assinado já depois de o governo PSD-CDS ter perdido as eleições de 2005 e favorecendo um centro de negócios de homens do PSD (a SLN, dona do BPN), ao preço de 485 milhões, que terá sido cinco vezes o devido segundo o PÚBLICO de então, além de se assegurar uma renda de 100% na manutenção, pagando o dobro do devido (e que os governos PS aceitaram). Soube-se agora, também pelo PÚBLICO, que Passos Coelho pôs na gaveta uma redução de 25 milhões, já negociada com o consórcio do SIRESP. E, já agora, o SIRESP não funciona.

O PSD e o CDS, bem como o PCP, têm ainda outro problema em mãos: é que durante o ano, apesar das promessas solenes do final da época de fogos de 2016, escolheram não apresentar qualquer projecto no parlamento. Podem naturalmente alegar que a lei actual é suficiente, mas isso deixá-los-ia em situação difícil, forçados então a rejeitar as propostas que estão em consideração há vários meses – e é impossível alegar que está tudo bem e é só questão de corrigir meios e práticas para salvar a floresta.

O governo reagiu depressa, percebendo o caos que estava instalado na frente de combate ao fogo, envolvendo os ministros necessários e coordenando entre o primeiro-ministro e o presidente o apoio às populações. Mas hesitou no apuramento dos factos, mesmo que António Costa, com o seu instinto, tenha vindo a aceitar a sugestão de uma comissão independente. Ora, entendamo-nos: uma comissão parlamentar, que é o que o PSD propõe, é vagamente inútil. O que o governo devia ter feito era nomear logo uma comissão presidida por uma personalidade independente e com prestígio indiscutível, com o mandato de investigar as falhas de coordenação e os erros cometidos e de fazer recomendações num prazo curto.

Há ainda outro agente político que entrou em cena, e dá-se menos conta dele: as empresas do eucalipto estão a mover-se para proteger o seu baú. Cuidado com elas, são o poder sombra da floresta. Precisam que nunca entre na agenda política a única medida estrutural que salva Portugal: a reflorestação com a redução forçada das manchas de eucalipto e a reorganização da economia da floresta para sustentabilidade e a protecção dos pequenos proprietários. Por isso, querem aproveitar a necessidade de posse administrativa dos terrenos abandonados para um movimento de concentração da propriedade, à espera de um novo governo que lhes favoreça a eucaliptização, na esteira de Passos e Cristas. Assim, as leis que estão a ser discutidas devem ser muito bem ponderadas, e creio que a esquerda deve rejeitar qualquer caminho que conduza ao benefício dos eucaliptocratas. Não estamos livres disso.

Conversas a 40º

(José Pacheco Pereira, in Público, 24/06/2017)

Autor

                     Pacheco Pereira

À medida que se caminhava para o calor dos trópicos, as pessoas pensavam pior.


[Simplicio, Sagredo e Salviati estão à sombra de um dia de 40º. Não sei bem onde os colocar, porque tem que estar parados. Ninguém se mexe com 40º a não ser que seja obrigado ou seja trabalhador ou pobre. Numa esplanada urbana, há sempre turistas a mais. Make Porto podre again, está escrito na parede. Num bar de hotel, envolvidos por uma lista com cinquenta gins tónicos diferentes, e ar condicionado, é mau cenário para uma conversa destas. Chaparros que dão sombra eficaz com 40º são um mito rural alentejano. Na praia? Salviati não gosta de praia, Sagredo é indiferente e só Simplicio gosta. Simplicio ficaria muito inteligente, e Sagredo muito estupido. Não dá. Mas em frente ao mar, sem ser na praia, serve. No Norte, com cheiro a maresia, sem praia, serve. Vem no Roland Barthes, mas ninguém já o lê. É ficcional o arranjo, porque com 40º não há cheiro a maresia. Comecemos.]

Sagredo – De que falamos?

Simplicio – Dos fogos.

Salviati – Já chega!

Simplicio – Enquanto for notícia, nunca chega. Os fogos sugam tudo: fora deles nada interessa a ninguém.

Salviati – Não é bem assim, como já vamos ver. Seja. Os fogos.

Sagredo – Mas não achas que se fala demais? Não estás também tu a discutir os fogos e a participar na logomaquia dominante?

Salviati – Estou, mas defendo-me.

Sagredo – Como?

Salviati – Estou a fazer um diálogo e os diálogos desafiam as citações. Quem tiver que colocar uma citação no jornal vai-se ver aflito.

Simplicio – Isso é maldade com o jornal.

Sagredo – De que falamos então?

Simplicio – Dos fogos. Dos mortos. Da culpa.

Salviati – Tem mesmo que ser?

Simplicio – Tem. Está na agenda e se não falarmos do que está na agenda, ninguém nos ouve. Está tudo virado para o mesmo lado e a agenda só pode ter um tema. Dois já colidem entre si. Os fogos são a hoje a agenda…

Sagredo – … não é bem assim. Os escândalos do futebol ocupam quase tanto tempo como os fogos, só que é fora dos noticiários. Fogos nos noticiários, futebol nos programas de conversa.

Salviati – Mas o que é que há para ser discutido no futebol? O futebol é o ruído de fundo da comunicação social, está lá sempre, de vez em quando invade tudo. Agora com os fogos, perde os noticiários, mas está lá sempre. É a doença infantil da comunicação social portuguesa.

Sagredo – Parece que os clubes estão a contratar hackers para entrarem nos computadores e telefones uns dos outros. E depois encontram exactamente aquilo que estão à procura…

Salviati – … o espelho daquilo que eles mesmos têm nos seus computadores e telefones. Que interesse é que isso têm? Falcatruas, amantes, ameaças, corrupção aos árbitros, alegria com a desgraça alheia, bares de alterne, restaurantes da moda, insultos, negociatas, escatologia. Parece uma ópera bufa.

Simplicio – O povo gosta. Os vermelhos ficam felizes quando são os azuis que se tramam, e vice-versa.

Sagredo – Sim, a nós tudo se desculpa e é permitido, aos “outros” é um escândalo.

Salviati – É a escola Trump.

Sagredo – E o que pode ser importante, isso não se discute, ou só se discute com falinhas mansas.

Salviati – Os impostos por pagar, a fuga ao fisco. Na verdade, ninguém quer saber se o Ronaldo fugiu ou não aos impostos. É o Ronald ou o “special one”. Podem sair de casa e dar um tiro na rua num passeante e tudo continua na mesma.

Simplicio – Estou a ouvir-te pensar: “É a escola Trump.”

Salviati – É. É por isso que eu não dou um tostão pelas denúncias populistas da corrupção. Param sempre nos “nossos”. Em Portugal então é uma enorme hipocrisia.

Sagredo – E nos fogos não há hipocrisia?

Salviati – Muita. Quem os viveu tem medo e alívio. A maioria das pessoas, – e isso é a coisa mais sã no meio destas coisas, – não quer sequer pensar no que aconteceu a quem morreu. E vos garanto que as pessoas são muito capazes de recriar mentalmente as cenas…

Sagredo – …e são terríveis. Esse choque fica lá no fundo e não passa facilmente. Mas é interior, indizível, íntimo. Não se desabafa, não se conversa, não se fala.

Simplicio – E a culpa?

Salviati – A culpa é já outra coisa, já implica um afastamento, uma distância. Pode parecer estranho, mas já é um mecanismo de apaziguamento face à tragédia, abre caminho para inserir o indizível no dizível. Podemos já então falar sem que o mero acto de falar seja ofensivo.

Sagredo – É por isso que o mecanismo comunicacional explora o pathos enquanto há choque, alimenta-o e prolonga-o e depois, quando se esgota, começa a normaliza-lo com a discussão da culpa. A culpa ajuda a tornar o que aconteceu num “assunto”. Passa de drama a “assunto”.

Simplicio – Mas isso não favorece a passagem do pathos para o logos, de que estás sempre a falar?

Salviati – Parece, mas não é. O que emerge não é uma discussão racional, como seria se ela fosse centrada nos factos, nas causas, nos eventos, na identificação de quem é responsável e por quê, mas um prolongamento menos dramático do pathos, um pathos menor, que, como sabem os leitores de audiências, tem menos valor comunicacional, é menos poderoso e dura menos. Por isso, os sinais de que o impacto mediático dos fogos e dos mortos já está na fase decrescente, são evidentes. Dentro de pouco tempo, o futebol vai de novo ocupar o lugar dos fogos nos noticiários, e os fogos não tem a mesma condição de ruído de fundo do futebol, que se está sempre a ouvir, e vão-se extinguir. Até à próxima calamidade.

Simplicio – E os políticos?

Salviati – Com esta passagem para a logomaquia mais habitual…

Sagredo –… como a nossa…

Salviati – … como a nossa, as personagens mudam. Acabam os moradores, as testemunhas, acabam os “locais”, as aldeias, as serrações queimadas, a devastação, passa tudo a filme de arquivo e entram em cena as “autoridades”, a competição política, os “meios”, os custos, o dinheiro.

Sagredo – Os bombeiros, os autarcas, a Protecção Civil, os secretários de estado, os ministros, o Primeiro-Ministro, o Presidente, os cientistas e os técnicos de fogos, da floresta, do ordenamento. Aparecem as burocracias.

Simplicio – Mas não tem sentido que se pergunte sobre as responsabilidades, sobre as culpas, sobre as negligências, sobre os erros?

Sagredo – Tem todo o sentido.

Salviati – Mas o que emerge é o pensamento utilitário, que quer tirar vantagens do que aconteceu. E isso é uma das nossas maiores pobrezas: a escassa independência, o simplismo das acusações, a afronta das defesas, a irresponsabilidade generalizada, a cultura da protecção política. As pessoas começam a alinhar conforme gostam ou não do governo, conforme pensam que podem tirar vantagens da tragédia, a inquinar o assunto, com culpas e passa-culpas. Metade só está a pensar em como escapar às responsabilidades, reais ou imaginárias, e a dizer que o que aconteceu já vem detrás, e a outra metade a pensar que tudo o que correu mal foi responsabilidade dos actuais governantes. As duas coisas são verdade, mas o equilibro entre elas é falso e impede a discussão. Estamos já nesta fase, a dos exércitos combatentes, dos clubes em armas, dos vermelhos contra os azuis. O terreno mais favorável vai ser a Assembleia, e é para lá que isto agora vai.

Simplicio – Assim não se vai a lado nenhum.

Sagredo – Assim não se tem ido a lado nenhum.

Salviati – Mas então há uma terceira fase, que está por detrás de tudo, e que depois vai, com toda a discrição que puder ter ou comprar, tornar-se dominante: a dos interesses que estão presentes na floresta portuguesa. Dos grandes, dos pequenos dos médios. Dos proprietários individuais, aos compartes dos baldios, às empresas de celulose, ou mesmo nalguns casos na exploração imobiliária. Esses todos falam baixo, mas forte, Vão ser os limites de quaisquer soluções, em nome do empreendorismo, da propriedade privada, do poder autárquico, das “populações”, dos negócios dos bombeiros aos aviões. Até agora tem impedido que as coisas mudem, vamos ver como vão actuar.

Simplicio – Sempre pessimista.

Salviati – Talvez, a culpa é dos 40º. Não é uma temperatura em que se pense bem.

Sagredo – Estou virado para dar razão ao General Kaúlza de Arriaga que dizia que à medida que se caminhava para o calor dos Trópicos, as pessoas pensavam pior.

Salvaiti. Se calhar.