(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 28/08/2025)

Quando tudo deveria ser repensado e reprogramado, em defesa da sobrevivência do que resta da vida no interior do país, o Governo acha que sossega tudo com 45 medidas avulsas.
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e um alto da serra do Açor, uma “área protegida”, a ministra do Ambiente contemplava o mar de cinzas a seus pés e comentava que felizmente tinha sobrevivido um pequeno oásis de carvalhos, árvores de combustão lenta e que mantêm a humidade no solo. Tudo à volta era um cemitério de eucaliptos queimados, chegando mesmo às primeiras casas da aldeia. É estranho este desperdício da memória e do saber ancestral dos habitantes destes povoados do Centro e Norte — nunca antes a floresta chegava às portas da aldeia, esta era, sim, rodeada por jardins, hortas, vinhas, pomares e, para sombrear as ruas, árvores frondosas, mas de crescimento e fogo lento: carvalhos, faias, castanheiros, tílias. Mas isso foi antes de Portugal se ter entregue — não sem vários avisos em contrário — à monocultura fatal dos eucaliptos e pinheiros-mansos, que tudo secam, tudo exterminam à volta e tudo incendeiam. Mas quando vi o ministro da Agricultura afirmar que só 4% da área ardida este Verão era de eucaliptal, fiquei na dúvida se ele veria televisão, no espanto de o saber já senhor de números que mais ninguém tem, mas na certeza de que nada de essencial irá mudar no futuro. Anos a ver o país a arder, umas vezes mais, outras menos, ensinaram-me que a seguir a grandes incêndios acontecem duas coisas garantidas: os bombeiros apressam-se a pedir melhores condições, mais material e mais dinheiro, e vêm à superfície, por dever de ofício, os defensores dos eucaliptos, tentando demonstrar “cientificamente” que somos cegos ou estúpidos. Devemos ser o único país do mundo onde se pretende confundir a cultura de eucaliptos com agricultura.
2 Já tudo se disse sobre o Governo e os incêndios. Mas não é demais, a benefício futuro, recordar as três coisas mais preocupantes: a insensibilidade política, ou apenas humana, que um Governo viciado em propaganda e em verdades alternativas demonstrou; a perdição a que Luís Montenegro se entrega perante as poucas crises sérias que já foi chamado a enfrentar, e a incapacidade de extrair disto as devidas lições para o futuro e mudar o registo das políticas habituais — quando tudo deveria ser repensado e reprogramado em defesa da sobrevivência do que resta da vida no interior do país, o Governo acha que sossega tudo com 45 medidas avulsas, paridas num Conselho de Ministro extraordinário marcado para Viseu — como se as palavras “extraordinário” e “Viseu” tivessem o dom de tudo apagar e fazer esquecer. Nada de essencial vai mudar. Nada, nada.

3 Montenegro, coitado, só terá tido três dias de férias. Mas o seu estimado parceiro de várias estratégias, parlamentares e governativas, o incansável André Ventura, esse emergiu de três, seguramente merecidas, semanas de férias para tentar ainda extrair dos salvados qualquer coisa de útil para si e a sua causa. Generosamente, José Luís Carneiro acusou-o apenas de 10 dias de desaparecimento, os 10 dias que abalaram o país, do Minho ao Mondego. Mas foram mais do que isso e foi uma estrondosa ausência para quem nos habituou a ocupar diariamente o palco desde que acorda até que já não haja mais ninguém acordado. Sem nunca antes ou durante os fogos se ter pronunciado sobre o assunto, Ventura tenta agora recuperar o tempo perdido jogando a artilharia habitual: CPI parlamentar, exigência da demissão da ministra da pasta, visita aos locais do inferno, elogio a tudo o que lhe cheira a autoridade. Mas nada de novo, nada de diferente, nada pensado sem ser para a ocasião. Se é com este parceiro que Montenegro espera governar o país nos próximos quatro anos, bem pode convocar o próximo Conselho de Ministros para Fátima.
4 Muito a medo, mas vencido pelas saudades, resolvi um destes dias fazer uma excursão solitária ao território dos Verões da minha infância, adolescência e juventude prolongada: Lagos e a praia D. Ana. Comecei pela Ponta da Piedade, que no meu tempo era apenas uma estrada sobre a falésia conduzindo a um farol e, em baixo, as incríveis, deslumbrantes e depois célebres grutas que o terramoto de 1755 abriu entre os rochedos. Visitei centenas de vezes todas e cada uma das grutas, demoradamente e tomando banho lá dentro, entre farrapos de sol entrando através das paredes de rocha, com os seus raios pousando no fundo e, através da água, tão transparente que parecia vidro, desenhando sombras e desmascarando os linguados escondidos na areia. Caramba, eu vi com os meus olhos! Porém, há muito tempo que não vou às grutas da Ponta da Piedade e suponho que hoje seja preciso tirar senha com hora marcada de tal maneira o seu acesso está congestionado por dezenas de caiaques e pirogas em excursão, ou barcos, de profissionais e amadores: entre aquilo e a Rua Cor de Rosa, do Cais do Sodré, a única diferença é a água. Mas cá em cima, ao lado do farol, aconteceu outra catástrofe: primeiro, nasceram umas casinhas brancas, quase inofensivas, mas depois, como sempre, tudo foi alastrando como uma doença má. Vivendas umas em cima das outras, hotéis, edifícios de vários andares, arruamentos em todas as direcções, até quase não conseguirmos dizer para que lado fica o mar. E uns cartazes da Câmara Municipal de Lagos garantindo que está a “regenerar” a Ponta da Piedade (foi você que pediu?) e que, uma vez regenerada, a natureza regressa em força. Confesso que nem nos meus piores pesadelos alguma vez me passou pela cabeça que o promontório da Ponta da Piedade pudesse vir a ser a nova zona de expansão urbanística de Lagos. Porém, havia um problema: como não queriam parar o “progresso”, em forma de construção, e as centenas ou milhares de novos habitantes não se podiam atirar lá de cima da falésia directamente para o mar, havia que arranjar praias novas ou espaço nas praias existentes para os acolher, visto que era para isso que eles viriam. Ora, ali nas redondezas há duas praias e uma impossibilidade física de inventar outra: Porto de Mós, onde desde há muitos anos não há um lugar para estacionar nem um metro para estender a toalha, e a mítica D. Ana, em tempos declarada a praia mais bonita do mundo pela “Condé Nast Traveler”. E foi então que algum crânio camarário se lembrou da solução milagrosa: aumentar a D. Ana, injectar-lhe toneladas extra de areia, a expensas dos contribuintes, a benefício dos hoteleiros e com o aval do Ambiente, da CCDRA, dos portos, da capitania e de quem mais de direito. Hoje, a praia da minha infância e juventude é uma caricatura de si mesma: há duas tonalidades de areia, a antiga e a nova, um tapete de conchas que cortam os pés junto à água, as rochas que eu escalava para saltar para a água ficam agora em terra na maré vazia e, pior do que tudo, o fabuloso enquadramento da baía entre as falésias deixou de existir. É o poder local no seu pior: um poder fatal.
5 Sobre as cinzas e a destruição de Gaza, Netanyahu, um criminoso de guerra e de paz, quer agora expulsar da sua capital em ruínas o milhão de palestinianos que lá vive. Para lado nenhum — ou, como disse o seu sinistro ministro do Interior, podem ficar e escolher se querem morrer debaixo de bombardeamentos ou morrer de fome. Eu, que venho da geração que marchou contra Hiroshima, contra a Guerra do Vietname, contra as guerras de África, achei que, pelo menos, nunca mais teríamos de ver alguém defender, sem vergonha, coisas como o genocídio étnico que Israel leva a cabo em Gaza e em breve na Cisjordânia. Mas não: mesmo aqui, em Portugal, Israel tem mais defensores da sua política de extermínio e de fome, dos seus ataques a hospitais ou acampamentos civis, dos seus 250 jornalistas assassinados do que alguma vez achei que fosse possível.
Numa televisão perto de mim, por exemplo, uma senhora defende regularmente, entusiasmada e embalada, os feitos de Israel, jurando que tudo o que testemunham em contrário ou que vimos com os nossos olhos é propaganda do Hamas. Vai ser candidata às autárquicas em Lisboa pela lista de Carlos Moedas. O que será, dr. Moedas, que a recomenda?
Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia
E outra coisa que nunca consegui perceber e porque carga de água as Nações Unidas teem a sua sede nos Estados Unidos e não num país neutro como a Suiça.
Não e a primeira vez que gente que aqueles cerdos consideram terrorista, como os palestinianos, são proibidos de lá entrar para denunciar ao mundo os crimes dos verdadeiros terroristas, Israel.
Ter as Nações Unidas como reféns de um país como os Estados Unidos da ainda menos credibilidade a organização.
Como e que uma organização pode fizer que e o garante de paz no mundo se tem sede no país que mais guerras faz e que ainda por cima só deixa lá entrar quem eles querem quando há reuniões do organismo?
Valha lhes um burro aos coices.
Claro que a única doutrina que tem objectivos atingiveis e justos e o fascismo recauchutado tal como definido pelo iluminado CU.
Descansa que não és o único. Hoje nos livros de história pode ler se que o nazismo até dava boas vidas não fossem detalhes de somenos como matar judeus.
Esquecendo ou pouco falando de outras vítimas como ciganos, deficientes, outros grupos raciais como os negros e até grupos religiosos como as Testemunhas de Jeová, então designado Estudantes da Bíblia.
Depois espantam se por haver meninos que votam Chega e liberais até dizer Chega, vulgo Iniciativa Liberal.
Mas se temos escravos alforriados mesmo tendo já idade para ter juízo o que raio se pode fazer.
Vai ver se o mar da tubarão branco cheio de larica.
Não sei sei qual e o espanto pela atitude perfeitamente desumana do Montenegro e do Marcelo ante a catástrofe dos incêndios.
A desumanidade de Montenegro e conhecida desde o tempos da míseria desumana lançada por aquele trio de malfeitores, FMI, Comissão Europeia e Banco Central Europeu que ficou conhecido por troika.
O homem revelou um desprezo profundo pelo povo português e pelas suas vidas.
Éramos uns malandros, que viviamos acima das nossas possibilidades, que mereciamos voltar a miséria dos anos 60 do Século passado pelo que era comer e calar.
Afinal de contas a nossa vida não estava melhor mas o país estava pelo que era comer e calar e quem não gostasse que se mudasse.
Por isso só a grande falta de memória desta gente pós tal criatura a frente dos destinos do país.
E, claro, que tendo um psicopata desumano a frente dos destinos do país o resultado é este quando algo de mal acontece.
O pais arde mas o homem vai de férias pois que ele não e bombeiro.
Só se espanta quem não conhece o bicho.
Quanto a Israel e a impunidade que lhes damos também só se espanta quem não conhece estes bichos e o seu racismo.
Simplesmente as máscaras caíram. Já ninguém finge que se preocupa com os Direitos Humanos.
O apoio incondicional ao nazismo ucraniano que queimou pessoas vivas devia ter nos alertado.
Devia também ter alertado quem na Palestina e não so achou que um ataque a Israel chamaria a atenção do mundo para o seu martírio.
Porque outra coisa que ninguém diz é que já antes do famigerado 7 de Outubro de 2023 soldados e colonos tinham assassinado só nesse ano centenas de pessoas na Cisjordânia e estavam a agravar a situação de cerco e fome em Gaza.
Já não havia água potável no enclave cercado. A fome e a doença corriam soltas.
Claro que este foi o pretexto perfeito para que um assassino bíblico carregasse no acelerador cumprindo um objectivo que sempre foi esse.
Agora houve ingenuidade em quem pensou que quem submeteu a sua própria gente a uma existência científica cruel, que apoia o nazismo contra a Rússia visando dividir o país teria alguma consideração por uma gente castanha e na sua maioria muçulmana.
A religião que a extrema direita elegeu para odiar no lugar do judaísmo porque hoje odiar o judaísmo e perigoso.
Claro que seriam abandonados a fúria bíblica de Israel sem que esta gente tivesse indigestão.
E ate quem hoje se mostra horrorizado com a quantidade de gente que apoia Israel nos primeiros tempos achou normal que os carrascos da Mossad andassem a matar sem julgamento membros da Resistência Palestiniana.
Por isso a existência de gente como a Ferra Aveia também não me espanta como também não me espanta a escolha do Moedas pós que o homem e outra criatura sem entranhas que só uma grande falta de memória pos a frente dos destinos da capital.
Enfim, anda muita gente a precisar de Memofante.
E outros a precisar de ir ver se o mar da Kraken.
Pazinho, “uma guerra nuclear de fato” seria um problema menor! Problema a sério, mas mesmo muito sério, seria uma guerra nuclear em cuecas!
🍄🟫🍄
https://vz.ru/opinions/2025/8/29/1356101.html
A luta pela inteligência artificial é como a luta pelo comunismo
As utopias mais perigosas não são aquelas completamente falsas, mas aquelas que contêm verdade suficiente para atrair pessoas inteligentes e mobilizar enormes recursos para um objetivo deliberadamente falso. E a competição por um objetivo inatingível pode levar – se alguém “piscar” da maneira errada – a uma guerra nuclear de fato.
… (continua)
Sem palavras para qualificar o que se está passando em Portugal – incêndios . Uma tragédia sem solução à vista .
E em Gaza um autêntico genocídio.