ATIVOS TÓXICOS, GASES TÓXICOS E COBARDES TÓXICOS

(In Blog O Jumento, 29/03/2018)

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Esta direita de galos-da-Índia que são algumas personagens do CDS e do PSD só têm coragem quando americanos e ingleses lhes pedem para ladrarem contra gente perigosa com armas químicas. Cá por dentro só aparecem para tentar colher frutos das desgraças nacionais, sejam assaltos a paióis ou grandes incêndios. Quando lhes convém deixam de estar esganiçados, metem o rabinho entre as pernas e calam-se, não se vá reparar neles.

Onde estão Paulo Portas, Maria Luís Albuquerque, Carlos Costa, Passos Coelho, Teodora Cardoso e todos os que durante quatro anos executaram, apoiaram ou deram cobertura à política económica de um governo que fez uma coleta nacional junto dos pobres para refinanciar a banca? Onde estão os bandalhos que não se cansavam de repetir que a intervenção no BES não teria custos para os contribuintes? Até garantiam que os investimentos na banca iriam dar lucros.

Onde estão os senhores banqueiros que não se cansavam de dar lições de moral ao país, que andavam muito preocupados com saída dos centros de decisão e até se juntaram para forçarem o governo a pedir a intervenção externa? Deixaram o agora presidente do Novo Banco a falar sozinho, não apareceu uma única personalidade a dar a cara.

Agora já não se queixam de que o governo está condicionado pela Geringonça para tapar os buracos que deixaram em vários bancos. Agora não aparecem como fizeram em várias ocasiões em que mal saíam boas notícias eram os primeiros a dizer que os louros eram deles. Não aparecem para assumir o buraco no Novo banco, como não apareceram no caso Banif e só aparecem no Montepio mas não para dizerem que esconderam o problema para agora tentarem colher frutos.

Nem Marcelo Rebelo de Sousa, que disse que tinha sido Passos que tinha aberto o trilho, pelo qual este governo caminhou tranquilamente, aparece agora a comentar; poderia dizer que foi o Passos Coelho que abriu os buracos em que este governo e o país se poderiam ter enterrado.

Não deixa de ter alguma graça o fato de políticos tão corajosos contra os russos, como já o foram contra Sadam, se revelem tão cobardolas quando o assunto é o BES, o BANIF ou o BPN. Parece que estão mais preocupados com os gases tóxicos produzidos pelos russos do que com os ativos tóxicos resultantes dos roubos promovidos pelos seus amigos corruptores da banca portuguesa, que terão de ser pagos pelos contribuintes.

Resta saber o que será mais tóxico, se os gases que acusam os russos de ter usado, os ativos tóxicos dos nossos banqueiros corruptos ou a as intervenções dos cobardes que andam por aí escondidos quando lhes convém.


Fonte aqui

Quando é que demais é demais?

(Marco Capitão Ferreira, in Expresso Diário, 07/02/2018)

 

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(Este tipo, Carlos Costa, é como o guarda do galinheiro que olha para o lado quando a raposa ataca. Com polícias destes qualquer larápio se delicia. E como a ocasião faz o ladrão, com um polícia destes não há banqueiro que resista à tentação de pisar o risco. Foi o que se viu. Para mal de todos nós e do país.

Comentário da Estátua, 07/02/2018)


Já aqui o escrevi. É dia de o repetir.

O nosso modelo de regulação e supervisão para o setor financeiro faliu. Colapsou. Não serve. Há uma entidade pública, que é o Banco de Portugal, responsável por garantir que o sistema financeiro é um contributo positivo para a qualidade de vida dos portugueses e para a Economia Portuguesa e isso não tem sido cumprido e não tem sido cumprido repetidas vezes.

Os factos ontem noticiados (aqui) não deixam margem para dúvidas. O Banco de Portugal sabia muito mais, algo que sempre se suspeitou, que foi sendo dito aqui e ali, com a diferença de que agora se sabe que há prova documental.

Enganar os outros Bancos do sistema financeiro quanto à real situação da Rioforte foi decidir proteger o BES, Ricardo Salgado, e o próprio Banco de Portugal (que supostamente tinha feito um tal de ring-fencing, que ia evitar o que aconteceu – o contágio entre as áreas financeira e não financeira do GES) sacrificando todos os outros.

Sacrificando o BANIF, que acabou por ter de ser resolvido.

Sacrificando a PT, que perdeu 900 milhões e a sua viabilidade como empresa portuguesa, autónoma e inovadora.

Sacrificando a lealdade com a CMVM, que permitiu que os pequenos investidores tivessem ido ao aumento de capital sem uma noção clara do risco, e onde todos tudo perderam.

Sacrificando, por fim, todos os portugueses, que tiveram de assumir à cabeça um custo de mais de 4000 milhões de euros (e, a prazo, muito mais do que isso).

Como também já em tempos aqui escrevi, o estatuto de independência que é reconhecido aos bancos centrais é um estatuto de independência para que eles cumpram melhor com o seu mandato junto da população; não é uma autorização para a impunidade na conduta e, neste aspeto, nós temos, demasiadas vezes, confundido as duas coisas.

Não sei que mais será necessário para se perceber de vez o que vem sendo óbvio há anos – e já o era antes de Carlos Costa ser reconduzido por Passos Coelho –, quando é que demais é demais? É a decência que está em causa.

Ó faxavor, juros baratinhos

(Francisco Louçã, in Público, 19/08/2017)

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Mensagem no telemóvel. “Sr. fulano, transfira mil euros para a sua conta à ordem, sem juros, um ano (TAN de 0%). Acresce comissão de 59 euros na primeira mensalidade. Ligue o número tal, prima 2 e fale com um consultor de crédito. TAEG 17,5% para um limite de cinco mil euros”. Percebeu? Não é para perceber, mas o juro são 17,5%.

Toca o telemóvel.

“Está? É o sr. fulano? Daqui fala João Silva, da agência financeira Tudobom, queria falar-lhe do nosso cartão de crédito…”

“Quem lhe deu o número do meu telemóvel?”

“Bem, está aqui na base de dados.”

“Quem lhe deu a base de dados?”

“Vou perguntar, é um momento… Obrigado por ter esperado. É a base de dados Todostelefones, que regista pessoas que concorreram a sorteios de automóveis.”

“Mas eu nunca na vida concorri a um sorteio de automóveis, não posso estar nessa base de dados. Sabe que é punível por lei utilizar uma base de dados ilegal e há uma Autoridade para vigiar esses abusos?”

“Pois então pode apresentar queixa à tal Autoridade. Mas entretanto vou apresentar-lhe o nosso novo cartão de crédito…”

Toca outra vez o telemóvel.

“Bom dia, sr. fulano. Sou Luís Silva, da Boasaúde, quero apresentar-lhe um plano financeiro que lhe garante todos os cuidados de saúde…”

“Não estou interessado.”

“Porquê? Porque é que não quer um plano que lhe garante todos os cuidados de saúde?”

“Não tenho de lhe dar explicações, não estou interessado.”

“Vou então registar, sr. fulano, que não está interessado num plano que lhe garante todos os cuidados de saúde.”

Saio do Metropolitano e encontro uns jovens vestidos com coletes reflectores cor de laranja. As farpelas têm Idosossós escrito em letras garrafais. Aproximam-se de todos os adultos que não tenham ar de estrangeiro.

“Bom dia, sabe que há idosos sós que vivem abandonados?”

“Sim.”

“E acha que eles devem ficar abandonados?”

“Não.”

“Somos da Idosossós e estmos a proteger os idosos abandonados. Se quiser apoiar o nosso trabalho para proteger os idosos abandonados, tenho aqui um folha para que desconte pelo banco só 60 cêntimos por dia para proteger os idosos abandonados.”

“Portanto, pede-me um contributo de cerca de 200 euros por ano, mas eu nunca ouvi falar da vossa organização, importa-se de me dar algum folheto que descreva a vossa actividade, quem são os corpos gerentes, e referências de onde trabalha com os idosos abandonados?”

“Isso não temos.”

“Site da internet com essas informações?”

“Isso também não temos.”

Chego a casa, toca o telefone fixo.

“Bom dia, é de casa do doutor fulano?”

“Que deseja?”

“É para lhe comunicar que ganhou um prémio na agência de viagens Todomundo e que o pode vir levantar a partir das 9h dos dias de semana.”

“Mas não concorri a nenhum prémio.”

Não lhe aconteceu nada disto? Adivinho que é todos os dias. A sua vida, como a minha, é uma aventura em que navegamos no meio de manipulações, truques, extorsões, seduções e juros baratinhos. Dizem-nos que tudo é fácil, prémios, sorteios, viagens, cartões de crédito, telemóveis. As empresas não vendem, distribuem. A finança não empresta, entrega. Não há contratos, há palavras doces. É um mundo maravilhoso.