Leis de merda, arremesso de tijolo ou a arte de ser governado por um azeiteiro

(Luís Rocha, in Facebook, 17/10/2026, Revisão da Estátua)


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Há uma meia dúzia de pormenores extraordinários na maneira como os políticos portugueses falam quando começam a desconfiar de que o país já não está para aí virado. A voz continua firme, o fato está impecável, a gravata não denuncia o suor frio. Mas há ali qualquer coisa. Uma pressa em explicar, um excesso de serenidade que faz lembrar o sujeito que parte o vaso na casa dos outros e se apressa a garantir que aquilo já estava rachado. É o pânico fininho a instalar-se. O medo apocalíptico de que o pessoal se canse de discutir o penálti de domingo e resolva começar a olhar para a carta de despejo em cima da mesa.

Quando o rebanho deixa de berrar pelo esférico e começa a fazer contas à vida, os pastores tremem.

Luís Montenegro tem andado particularmente interessante de observar neste teatro do absurdo. Primeiro, garantiu que Portugal não estava em turbulência, que não havia aquela instabilidade de que tanto se fala na rua. Tudo calmo, tudo controlado, a vida flui na Suíça plantada à beira-mar. Depois, bastou um manifestante falar em atirar um tijolo contra a sua residência para o herói de Espinho entrar em colapso institucional. O gabinete do primeiro-ministro divulgou o vídeo com a urgência de quem anuncia uma invasão alienígena. A habitação, que até aí era um detalhe menor na vida de quem dorme num quarto interior por seiscentos euros, passou a ser tratada como o maior problema da segurança nacional.

A preocupação deste moço azeiteiro tem um raio muito curto. Só ganha escala quando sai do bairro social e ameaça o sossego de São Bento.

É a velha e benta hipocrisia do poder.

A miséria pode durar décadas sem direito a uma única conferência de imprensa. As rendas podem subir até à estratosfera, as pessoas podem ser postas na rua por leis de merda feitas à pressa por trastes para agradar a fundos de investimento e as famílias podem fazer contas ao cêntimo a meio do mês. O Governo acompanha, avalia, monta comissões e pede resiliência à malta.

Mas basta a palavra “tijolo” aparecer numa assembleia popular e instala-se um histerismo comunicacional digno da proteção civil sueca.

Descobrem subitamente que as pessoas perdem os brandos costumes quando são governadas por psicopatas que as atiram para a miséria com o carimbo do Diário da República.

Mas para alegrar a festa temos também Belém, agora com António José Seguro, que subiu os degraus do palácio com promessas de seriedade e rigor, mas que perante o cheiro a esturro na rua parece estar a descobrir que a dignidade das instituições não enche a barriga a ninguém nem paga hipotecas. O estilo mudou, já não há os afetos e as canjinhas para acamados do anterior inquilino, mas o susto burocrático é rigorosamente o mesmo.

E o apelo à calma pachorrenta sai-lhe entremeado com cobardia política. Pura miufa.

Ao mesmo tempo, em Lisboa, Carlos Moedas sobressalta-se com a estética do protesto de hoje. A indignação popular incomoda-o quase tanto como as ciclovias ou a falta de unicórnios na Almirante Reis. O civismo do protesto, para esta gente, é uma coisa superlativa, desde que seja praticado em silêncio, de preferência no recato do lar e sem estragar o trânsito aos turistas. Tudo feito em voz de falsete, misturada com o esterco moral, de quem jurou a pés juntos que deu apoio às famílias das vítimas do elevador.

Cá fora, o país real começa a perceber que há leis que parecem redigidas por senhorios com assento parlamentar e aprovadas por gente que nunca teve de escolher entre pagar a renda e encher o frigorífico.

É divertido ver esta tropa de privilegiados, habituada a confundir silêncio com respeito e resignação com consentimento, descobrir subitamente que os portugueses também têm voz e, pior ainda, vontade de a usar.

No Parlamento, há sempre um figurão qualquer, de uma bancada grunha qualquer, a perguntar quem autorizou o barulho, como se a democracia fosse um jantar de gala e o povo tivesse entrado pela cozinha sem convite.

Montenegro, entretanto, continua diante dos microfones, com aquele ar grave de administrador de 55 propriedades apanhado a aumentar a própria comissão, a garantir que está tudo sob controlo e a exigir ordem a quem já não tem onde arrumar a vida.

O espetáculo é extraordinário.

Os responsáveis pela desordem social apresentam-se como bombeiros, dão ordens para que ninguém grite e ficam ofendidos quando alguém lhes aponta um dedo.

E agora, pelos vistos, também têm medo dos tijolos.

Compreende-se. Um tijolo é uma coisa incómoda, sobretudo para quem passou tanto tempo a atirar os outros para a rua e começa a perceber que a rua também sabe onde mora.

O verniz estala, a gravata aperta e a pose de estadista dá lugar à figura de um homem que vai verificar se fechou a porta, espreita pela janela, volta a verificar a fechadura e acaba por dormir de luz acesa.

Tudo em nome da tranquilidade pública, naturalmente.

Porque governar é isto.

Deixar milhares de pessoas a viver na rua e depois chamar as autoridades quando alguém toca à campainha.

Beijinhos e até à próxima…

Referências consultadas

https://www.rtp.pt/…/montenegro-preocupado-apos-ameacas…

https://rr.pt/…/descobrir-o-endereco-da-casa-do…/489537

https://observador.pt/…/montenegro-critica-ameaca-a…

https://www.rtp.pt/…/montenegro-nao-ve-pais-em…

https://pt.euronews.com/…/manifestantes-pelo-direito-a…

https://rr.pt/…/porto-psp-intervem-em-protesto…/489246

https://www.rtp.pt/…/protestos-pela-habitacao-e-contra…

2 pensamentos sobre “Leis de merda, arremesso de tijolo ou a arte de ser governado por um azeiteiro”

  1. E que dizer do deputado do Núncio do CDS chamar de arruaceiros aos manifestantes, “esqueceu-se” que muitos dos manifestantes votaram no CDS/PPD, nas próximas eleições vote de novo nos que nos trata como arruaceiros.

  2. O que faria se alguém ameaçasse dar lhe um tiro nos cornos.
    Então era isso que eram as ameaças dos manifestantes que segundo esse grande cerdo justificaram a actuação canalha da bófia no Porto?
    O que faria se ameaçassem cortar lhe a cabeça como os manifestantes em França?
    Continuo a perguntar o que e que passou pela cabeça de tanta gente que foi votar para votar num traste destes.
    Um traste que tem seis casas em vários pontos do país e tem a pouca vergonha de querer calar quem não tem nenhuma ou quem gasta todo o salario na renda ou na prestação da casa.
    Que grande canalha.

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