OS “LESADOS” da CAIXA!

(Joaquim Vassalo Abreu, 26/01/2019)

 

Eu decidi que esta semana iria, finalmente, escrever uma coisa qualquer mas, quando ouvi e li um resumo de um debate parlamentar acerca de uma dita auditoria às contas da Caixa, reneguei imediatamente a ideia que tinha pois rapidamente concluí serem os partidos da nossa Direita, o PSD e o CDS os verdadeiros patronos dos “lesados” da Caixa…

Nesse mesmo debate, parabolicamente querendo exprimir o mesmo que eu, o Ministro Centeno até disse: “o vosso sonho era ver a Caixa privatizada…”! E eu acrescento: e tudo esquecido, como nas outras todas…

Eles, os verdadeiros “lesados”, até que queriam pagar até ao último tostão, mas a Caixa não deixou! Não paguem, verberou ela, pois isso é um mau princípio, é a desestabilização do “sistema” pois dessa maneira o Estado não mais injectará liquidez, não estão a ver?

Vocês não foram feitos para pagar, foram criados para “sacar”! Não foram feitos para pagar, foram inventados para utilizar, para brilhar, para arrecadar, para edificar, para apropriar e para…não pagar!

Onde colocaria a Caixa as suas reservas, a sua liquidez e aqueles depósitos do Estado todos se não fossem vocês? Nas dívidas de Angola e Moçambique, por exemplo? Na da Grécia? Ou na da Pérsia?

E o que fazer ao dinheiro dos nossos depositantes, aqueles da cadernetazinha, actualizadinha, nada já sendo como dantes? Emprestava ao Estado, apenas ao Estado, a taxas nunca superiores ao menos que o mínimo, se a Caixa até lhes paga os ordenados e pensões e para nela terem o seu dinheiro? Tem que ter um sumiço esta liquidez!

Mas aplicar essa enorme liquidez nas dívidas das Alemanhas, Suiças, Noruegas, Dinamarcas, Holandas, Áustrias até “Canadazes” e outros também assim capazes e vender-lhes em “dumping”, abaixo até do justo preço? Emprestar a estes? Não!

Emprestar é a vocês, os criadores, os investidores, os empreendedores…vocês podem no fim não pagar mas, no entretanto fizemos negócios e recebemos prémios, prémios esses que não mais serão devolvidos! E vocês além de terem investido, como disse, fizeram obras, construíram edifícios, até casaram e prosperaram, exportaram ( o coiso…) para umas Ilhas Virgens quaisquer, eu sei lá. Todos vocês se governaram e souberam governar-se. Mas todos, todos menos um: aquele morcão que emprestou tudo a um amigo…

Os Partidos da Direita queriam a todo o custo fazer mais uma Comissão de Inquérito Parlamentar, assim tipo as do BPN e BES, onde poderiam passar tempos infinitos, e brilhar. Um brilhar assim tipo o Nuno Melo naquela do BPN onde defendeu a condenação do Policia, na altura o Constâncio, e a absolvição dos vilões…E o resultado? O que vimos. Mas também tal como na do BES onde houve mesmo muita brilhantina, mas onde a que mais brilhou foi a da Mariana Mortágua! Mas também não me admirou já que exibia um cabelo tão preto que umas simples gotas já faziam brilhantismo…Mas, e o resultado?

De modos que eu cá por mim proponho a nomeação de uma comissão externa e independente, sempre independente claro, mas que terá que ser forçosamente presidida pelo Marques Mendes. Eu ainda pensei no João não sei quê de Tavares, mas o Presidente disse-me: vai com calma e não te aproveites. Eu já o requisitei!

E porquê o Mini Mendes? Porque é uma personagem de uma notoriedade tal que, só por isso, e reparem que até a sua altura acharam irrelevante, foi nomeado presidente da Caixa Angola! É que, para o ter sido, ele tem que ser um notório e histórico “inimigo” de Angola pois, sendo amigo, não prosperaria. Apesar de algumas empresas suas representadas, outras onde representar se faz e ainda outras até onde se representa mesmo!

Mas tem que ser de igual modo um notório inimigo de Portugal pois para quem é amigo tudo se complica e até a honorabilidade necessária para presidir à novel comissão será posta em causa. Mas ele vai ter como conselheiro e soprador o Faria de Oliveira, seu correligionário no PSD e de uma reputação tal que, antes de ser Presidente da Caixa do “império”, foi Presidente da Caixa Espanha que, coitada, teve que ser vendida por tuta e meia pois estava falida! Prémio? O do costume mais o ser eleito Presidente dos Presidentes, o da casa Mãe!

Contesta a auditoria no que respeita ao tempo em que esteve à frente da casa mãe, nada mais e, como sempre, não se lembra de ter emprestado nada a ninguém, a não ser aquela espanhola “Las Sedas”. Mais nada. Nem de actas que tivesse assinado? Nada! Mas não era V.Exª o Presidente? Não me lembro…

Mas andaram por lá muitos mais tipos, como uns Bandeiras, uns Norbertos, Josés de Sousa, o Vara, um Vareiro, um Tasqueiro, um Artilheiro, um Tintureiro, um Candongueiro, dizem que até um Pedreiro…Ah e um Sucateiro…

Mas que irá a comissão dirigida por essa altíssima personagem a quem até já apelidam de Micro Mendes, pois a tanto saber tem que andar metido nos bolsos das suas fontes de mini gravador em punho, concluir? Culpado, proferirá ele. Mas culpado quem? O Vara, de quem, infelizmente só conseguimos descobrir uma ponta. A do “iceberg”! Mas este não está preso? Está, mas o resto está muito gelado…

E assim se faz Portugal: uns vão bem e outros mal! Ou como dizia Adoniran Barbosa, cantando o seu bairro, o da  Bexiga, e a rixa no café do Nicola!

No final da rixa a situação estava muito cínica: os mais melhor estavam debaixo das mesas; prós mais pior chamaram duas ambulâncias e levaram eles prás crínicas…Não tem jeito esse Nicola, dizia ele para a Elis Regina!

Tem isto jeito?

Quando é que demais é demais?

(Marco Capitão Ferreira, in Expresso Diário, 07/02/2018)

 

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(Este tipo, Carlos Costa, é como o guarda do galinheiro que olha para o lado quando a raposa ataca. Com polícias destes qualquer larápio se delicia. E como a ocasião faz o ladrão, com um polícia destes não há banqueiro que resista à tentação de pisar o risco. Foi o que se viu. Para mal de todos nós e do país.

Comentário da Estátua, 07/02/2018)


Já aqui o escrevi. É dia de o repetir.

O nosso modelo de regulação e supervisão para o setor financeiro faliu. Colapsou. Não serve. Há uma entidade pública, que é o Banco de Portugal, responsável por garantir que o sistema financeiro é um contributo positivo para a qualidade de vida dos portugueses e para a Economia Portuguesa e isso não tem sido cumprido e não tem sido cumprido repetidas vezes.

Os factos ontem noticiados (aqui) não deixam margem para dúvidas. O Banco de Portugal sabia muito mais, algo que sempre se suspeitou, que foi sendo dito aqui e ali, com a diferença de que agora se sabe que há prova documental.

Enganar os outros Bancos do sistema financeiro quanto à real situação da Rioforte foi decidir proteger o BES, Ricardo Salgado, e o próprio Banco de Portugal (que supostamente tinha feito um tal de ring-fencing, que ia evitar o que aconteceu – o contágio entre as áreas financeira e não financeira do GES) sacrificando todos os outros.

Sacrificando o BANIF, que acabou por ter de ser resolvido.

Sacrificando a PT, que perdeu 900 milhões e a sua viabilidade como empresa portuguesa, autónoma e inovadora.

Sacrificando a lealdade com a CMVM, que permitiu que os pequenos investidores tivessem ido ao aumento de capital sem uma noção clara do risco, e onde todos tudo perderam.

Sacrificando, por fim, todos os portugueses, que tiveram de assumir à cabeça um custo de mais de 4000 milhões de euros (e, a prazo, muito mais do que isso).

Como também já em tempos aqui escrevi, o estatuto de independência que é reconhecido aos bancos centrais é um estatuto de independência para que eles cumpram melhor com o seu mandato junto da população; não é uma autorização para a impunidade na conduta e, neste aspeto, nós temos, demasiadas vezes, confundido as duas coisas.

Não sei que mais será necessário para se perceber de vez o que vem sendo óbvio há anos – e já o era antes de Carlos Costa ser reconduzido por Passos Coelho –, quando é que demais é demais? É a decência que está em causa.

O governador que não governa nem se deixa governar

(Nicolau Santos, in Expresso Diário, 10/03/2017)

nicolau

Há uma batalha em curso entre o Governo e o governador do Banco de Portugal. A direita clama que o Executivo está a colocar em causa a independência de Carlos Costa. Não se lembrou disso quando decidiu reconduzir o governador a escassos meses das eleições legislativas de 4 de Outubro de 2015 – porque a independência de Carlos Costa foi a de fazer todos os favores que davam jeito político ao governo de Pedro Passos Coelho.

O atual Governo não gosta do governador? Não, não gosta. Se pudesse substituía-o? Substituía. Está a fazer-lhe um cerco? Está. Mas as boas perguntas não são essas – ou não são só essas. A única boa pergunta é saber se Carlos Costa efetuou um bom trabalho como supervisor do sistema financeiro no tempo que já leva à frente do Banco de Portugal. E tendo assistido à resolução do terceiro e do sétimo maiores bancos do sistema e às inúmeras fragilidades que o sector financeiro português continua a apresentar, a resposta só pode ser uma: não, Carlos Costa não fez e continua a não fazer um bom trabalho à frente do Banco de Portugal.

O que Carlos Costa fez no caso BES foi adiar a sua resolução para não macular a saída limpa de Portugal do programa de ajustamento, porque esse era um trunfo político para a direita. Depois, já após a implosão do Novo Banco, o governador mudou radicalmente de estratégia: de uma venda a três anos mudou para uma venda o mais rápido possível para não contaminar as eleições legislativas de 5 de Outubro de 2015. Não o conseguiu fazer mas essa mudança de estratégia (que se prova agora, com toda a evidência, que estava completamente errada) custou-lhe a demissão de Vítor Bento e a escolha de um novo presidente, Stock da Cunha, que também partiu sem ter concretizado a venda. Finalmente, também no caso Banif, o governador empurrou o mais possível com a barriga para evitar mais uma vez que algo pudesse prejudicar a direita nas eleições de 2015 – e em Dezembro teve, aparentemente muito surpreendido, de proceder à resolução do banco.

Não, eu não confundo os polícias com os ladrões. Mas no caso do Banif, o Estado português detinha mais de 98% do capital, o Banco de Portugal tinha representantes no conselho de administração, mas mesmo assim assistiu ao envio de oito projetos de reestruturação chumbados por Bruxelas sem que tomasse decisões para evitar aquilo que veio a acontecer. No caso Banif, o Banco de Portugal é conivente com a resolução do banco.

Não se pode, pois, invocar a independência deste governador. Há muito que Carlos Costa não é independente. Não foi independente do calendário político e ideológico do centro-direita, não foi independente dos banqueiros e não foi nem é independente das decisões BCE.

Ao aceitar a resolução do BES, quando já tinha afastado (tarde e a más horas) Ricardo Salgado e a família Espírito Santo e nomeado um presidente da sua confiança, o mínimo que seria exigível é que Carlos Costa se opusesse frontalmente às imposições de Frankfurt e Bruxelas sobre o destino do banco. Não o fez – e com isso causou um enorme prejuízo à instituição e à economia portuguesa. Além do mais, a sua decisão posterior de transferir cinco emissões obrigacionista do Novo Banco para o BES mau não só lesou gravemente os detentores dessas emissões, como atingiu profundamente a imagem do país, porque o que estava em causa eram investidores institucionais internacionais, que obviamente passaram a olhar de forma muito mais desconfiada para o mercado português. A falta de investimento estrangeiro em Portugal resulta muito mais deste episódio do que por aquilo que a direita passa o tempo a propalar, o facto do país ter um governo do PS suportado por BE e PCP.

Com Carlos Costa à frente, ficou provado que o Banco de Portugal só pode ser supervisor (e já é muito). Não pode ser ele a decidir sozinho sobre a resolução de bancos, que depois são outros que têm de pagar; e não pode ser ele a vender bancos de transição, porque não o sabe fazer. O novo modelo de supervisão para o sistema financeiro apresentado pelo ministro das Finanças, Mário Centeno, visa resolver precisamente essas duas ululantes lacunas, que o Banco de Portugal provou á saciedade não ser capaz de prover.