Uma Europa destruída por uma Senhora

(Dieter Dellinger, 16/08/2018)

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A Merkel com duas frases ditas sem pensar iniciou o processo de destruição da Europa e o Mundo deixou de respeitar a União Europeia, a começar pelos EUA.

A primeira frase foi dita na sequência da crise do Lehman Brothers em 2007/2008 e foi simples: “Os países europeus devem injetar o máximo de meios nos mercados em obras públicas e em investimentos para evitar uma crise económica”.

Pouco tempo depois, a Merkel verificou que a grande crise não vinha e retirou o tapete, deixando que muitos países, principalmente do sul, se endividassem com juros muito altos e nada fez para criar um verdadeiro mecanismo de solidariedade financeira e de fundos europeus com emissão de moeda por parte do BCE de modo a evitar o endividamento de países com economias mais fracas.

A segunda frase foi a de que “a Alemanha podia receber um milhão de refugiados sírios”.Com isso, a Merkel desencadeou uma onda gigantesca de pessoas em direção à Europa, continuando a não querer que o BCE emita dinheiro de modo a alargar a produção e integrar os refugiados/migrantes na economia da Europa, mas a exigir que todos os países europeus paguem e aceitem refugiados. Estes são a causa de um processo de fascização da Europa com a inerente destruição da União.

A Alemanha sempre teve a obsessão da moeda forte que prejudica muito as indústrias europeias e favorece as exportações da China. Não quis, mas já não conseguiu evitar, as pequenas emissões feitas por Draghi que ajudou a resolver um pouco o problema do endividamento português e de outros países, mas não o da Grécia porque está ainda debaixo da pata exploradora e gananciosa do FMI.

Portugal fez muito bem em pagar adiantadamente a dívida à organização de bandidos, libertando-se dos seus juros de usura, endividando-se com dívida a juros muito mais baixos.

Mário Centeno mostrou-se um habilidoso ministro das Finanças que conseguiu chegar a presidente do Eurogrupo e em conjunto com Draghi e Vitor Constâncio convencer todos os fanáticos da moeda forte a deixar emitir alguma moeda para o alívio financeiro que fez baixar os juros dos grandes empréstimos aos Estados.

Ao contrário do que muita gente diz em Portugal, Mário Centeno não foi eleito para obrigar Portugal a fazer isto ou aquilo. Ele foi eleito por 17 países da zona Euro com políticas diferentes e já com a Alemanha em crise governamental e Schäuble de fora. Era um desconhecido, mas mostrou tais conhecimentos das finanças europeias e em particular da moeda comum nas reuniões do Eurogrupo que foi eleito. Centeno apresentou boas ideias para uma reforma das finanças europeias que foi apreciada por muitos países e é visto como o único meio para evitar a fascização de grande parte da Europa como está a acontecer.

Nos conflitos laborais, o Governo pode contar sempre com a direita radical

(José Pacheco Pereira, in Sábado, 17/06/2018)

JPP

Pacheco Pereira

Nos conflitos laborais, o Governo pode contar sempre com a direita radical…
… como se vê com os professores. O governo, sob a batuta de Centeno, mantém as regras de austeridade da troika e Passos, no confronto com os professores. Mas o trabalho sujo contra os professores, contra os sindicatos, contra a função pública, contra o odiado nº1 do meio sindical, Mário Nogueira, é feito pela nossa direita alt-right. Quando há um conflito, é uma aliança quase natural e que obscurece, e muito, as coisas.

O problema com as classificações simples
Tive recentemente oportunidade de participar numa discussão com Daniel Oliveira sobre o livro De Esquerda, Agora e Sempre, de Mark Lilla, em que repeti, mais uma vez, a minha dificuldade em achar heurística a fractura esquerda/direita. Eis algumas das questões:

– Os anarquistas, que são contra o Estado e contra os governos, são de direita ou são de esquerda?

– Os libertários (americanos) que têm toda a agenda fracturante, por exemplo, do Bloco de Esquerda, em matéria de drogas, LGBT, feminista, ecológica, etc., são de direita ou são de esquerda?

– Trump, cujo proteccionismo em defesa da “economia nacional”, dos mineiros, dos trabalhadores do aço e do alumínio, das indústrias tradicionais “de produção nacional”, constitui uma agenda que nesta matéria não é muito distinta da de vários partidos comunistas, incluindo o português, é de direita ou de esquerda?
E por aí adiante.

A nova Kim Jong-un
Um combate já Trump perdeu em Singapura: a estrela do encontro é Kim Jong-un. É recebido com evidente contentamento pelos seus mais improváveis anfitriões, todos os seus gestos se tornam virais, como aliás a sua escolta de guarda-costas a correr ao lado do carro, e os media internacionais voam à volta da sua bizarra figura como passarinhos à volta de uma migalha.

Trump já não é novidade, embora a sua grosseria e violência sejam muito mais perigosas do que as do “rocket man”, que ele pensa que pode entender logo ao primeiro minuto. Presumo que se ele lhe fizer uma vénia ou lhe oferecer um presente sumptuoso retirado de um qualquer museu norte-coreano, Trump ficará logo rendido a Kim como o é a Putin, a Duterte, a Erdogan e a Xi, homens que ele acha que são da sua laia. Fortes.

O que vai estar em cima da mesa é da ordem do puro narcisismo, e quem pensa que é a “paz” acredita na alquimia. Claro que o narcisismo de Trump e Kim pode conduzi-los a uma aliança que possa ser a curto prazo vantajosa para o resto do mundo, mas convém não ter ilusões quanto aos motivos. Ambos são muito ambiciosos, ambos querem ficar na história – a suprema vaidade. Trump quer ter o Prémio Nobel da Paz e não o esconde, e Kim não se sabe muito bem o que quer, mas sabe-se que é o “chefe supremo” da primeira monarquia comunista. Kim é muito mais inteligente do que Trump, mas Trump é muito mais poderoso. Ambos são cruéis, Kim ganha porque a sua crueldade é despótica, mas ambos estão habituados a mandar sem contestação e a sua última preocupação é o “povo”. Sozinhos, um diante do outro, são um perigo público, mas Deus às vezes escreve direito por linhas tortas. O que é certo é que neste momento ambos precisam desesperadamente um do outro.

Um novo clima de censura atravessa os americanos
Uma cómica chama uns nomes feios a Ivanka Trump. Pediu desculpa. Robert de Niro diz que Trump “se f…”. Não pediu desculpa, repetiu e repetiu com a sala de pé com palmas. Um convidado da Fox News referiu-se ao encontro Trump-Kim como o “encontro de dois ditadores” e o programa continuou normalmente como se ninguém achasse anormal a classificação. Depois rebentou a tempestade. Pediu desculpa. Roseanne, uma actriz “trumpista” com um programa televisivo de sucesso, mandou uns tweets racistas e foi despedida. Meteu os pés pelas mãos e desculpou-se. Todos os dias é isto, e este ambiente é muito mau.

O resultado é que cada vez mais as pessoas se patrulham no que dizem, e cada um dos lados levanta uma pequena guerra civil contra o outro, usando os “seus” media. A Fox News é exímia nessa patrulha, que faz sistematicamente, mas é acompanhada pela obsessão do “politicamente correcto” de que a esquerda americana padece sem perceber os riscos de legitimar a censura do outro lado. O uso generalizado das “redes sociais” é altamente propício à asneira e também parece que ninguém aprende.

Há apenas um homem que escapa de pedir desculpas e que diz as maiores enormidades, insulta e profere obscenidades (os jogadores que se ajoelham são “filhos da puta”), sem consequências – Donald J. Trump.

NA PROA DOS MOLICEIROS, CARAGO!

(José Gabriel, 14/06/2018)

moliceiro

“Universidade de Aveiro anuncia estágios com salários de 120 euros para licenciados”- lê-se no Jornal de Negócios. (Ver notícia aqui ).

Perante isto, o nosso primeiro impulso – que, a bem dizer, costuma ser o certo – é dar um murro na mesa, em a havendo – somos pela paz – e gritar: cambada de crápulas! – notem, apesar de tudo, a contenção. Depois, pensamos bem e a coisa merece uma análise mais fina.

Ora, sabendo nós que a palavra “salário” tem a sua origem no latim “salarium” , o soldo, pagamento do soldado que era feito em sal, logo nos apercebemos de que a iniciativa da Universidade de Aveiro é uma aposta na economia local, já que todos conhecemos a importância da produção do sal nesta região.

São, pois, só vantagens. Excepto para os contratados, claro, mas esses vão tornar-se, por esta via, funcionários públicos os quais são, asseguram-nos quase todos os comentadores televisivos, um bando inúteis com demasiados privilégios.

Deste modo, não só se aproveitam os recursos locais como, por esse facto, se dá força ao movimento municipalizador com que o nosso governo quer livrar-se de problemas, entregando a sua resolução aos poderes locais que, no caso de Aveiro, são de uma formosura democrática e de uma tradição progressista da qual já muitos de nós tivemos explosiva – literalmente – experiência.

E mais: levando às últimas consequências a etimologia deste pagamento, a vida dos contratados não apresenta grande esperança, uma vez que bem sabemos do efeito do consumo de sal nas doenças cardiovasculares, dando assim novo sentido à ideia de contrato a prazo. 

Como se vê, a Universidade da chamada – por um pobre de espírito, é verdade – “Veneza de Portugal”, rasga novos caminhos para a Nação. Desta vez não são caravelas, são barcos moliceiros de passear turistas, mas é o que se arranja com a boa vontade local.

Elevado por este espírito inovador, eu próprio proponho para a dita Universidade um novo hino académico: 

“Sapore di sale
Sapore di mare
Un gusto un po’ amaro
Di cose perdute
Di cose lasciate
Lontano da noi
Dove il mondo è diverso
Diverso da qui”