Nos conflitos laborais, o Governo pode contar sempre com a direita radical

(José Pacheco Pereira, in Sábado, 17/06/2018)

JPP

Pacheco Pereira

Nos conflitos laborais, o Governo pode contar sempre com a direita radical…
… como se vê com os professores. O governo, sob a batuta de Centeno, mantém as regras de austeridade da troika e Passos, no confronto com os professores. Mas o trabalho sujo contra os professores, contra os sindicatos, contra a função pública, contra o odiado nº1 do meio sindical, Mário Nogueira, é feito pela nossa direita alt-right. Quando há um conflito, é uma aliança quase natural e que obscurece, e muito, as coisas.

O problema com as classificações simples
Tive recentemente oportunidade de participar numa discussão com Daniel Oliveira sobre o livro De Esquerda, Agora e Sempre, de Mark Lilla, em que repeti, mais uma vez, a minha dificuldade em achar heurística a fractura esquerda/direita. Eis algumas das questões:

– Os anarquistas, que são contra o Estado e contra os governos, são de direita ou são de esquerda?

– Os libertários (americanos) que têm toda a agenda fracturante, por exemplo, do Bloco de Esquerda, em matéria de drogas, LGBT, feminista, ecológica, etc., são de direita ou são de esquerda?

– Trump, cujo proteccionismo em defesa da “economia nacional”, dos mineiros, dos trabalhadores do aço e do alumínio, das indústrias tradicionais “de produção nacional”, constitui uma agenda que nesta matéria não é muito distinta da de vários partidos comunistas, incluindo o português, é de direita ou de esquerda?
E por aí adiante.

A nova Kim Jong-un
Um combate já Trump perdeu em Singapura: a estrela do encontro é Kim Jong-un. É recebido com evidente contentamento pelos seus mais improváveis anfitriões, todos os seus gestos se tornam virais, como aliás a sua escolta de guarda-costas a correr ao lado do carro, e os media internacionais voam à volta da sua bizarra figura como passarinhos à volta de uma migalha.

Trump já não é novidade, embora a sua grosseria e violência sejam muito mais perigosas do que as do “rocket man”, que ele pensa que pode entender logo ao primeiro minuto. Presumo que se ele lhe fizer uma vénia ou lhe oferecer um presente sumptuoso retirado de um qualquer museu norte-coreano, Trump ficará logo rendido a Kim como o é a Putin, a Duterte, a Erdogan e a Xi, homens que ele acha que são da sua laia. Fortes.

O que vai estar em cima da mesa é da ordem do puro narcisismo, e quem pensa que é a “paz” acredita na alquimia. Claro que o narcisismo de Trump e Kim pode conduzi-los a uma aliança que possa ser a curto prazo vantajosa para o resto do mundo, mas convém não ter ilusões quanto aos motivos. Ambos são muito ambiciosos, ambos querem ficar na história – a suprema vaidade. Trump quer ter o Prémio Nobel da Paz e não o esconde, e Kim não se sabe muito bem o que quer, mas sabe-se que é o “chefe supremo” da primeira monarquia comunista. Kim é muito mais inteligente do que Trump, mas Trump é muito mais poderoso. Ambos são cruéis, Kim ganha porque a sua crueldade é despótica, mas ambos estão habituados a mandar sem contestação e a sua última preocupação é o “povo”. Sozinhos, um diante do outro, são um perigo público, mas Deus às vezes escreve direito por linhas tortas. O que é certo é que neste momento ambos precisam desesperadamente um do outro.

Um novo clima de censura atravessa os americanos
Uma cómica chama uns nomes feios a Ivanka Trump. Pediu desculpa. Robert de Niro diz que Trump “se f…”. Não pediu desculpa, repetiu e repetiu com a sala de pé com palmas. Um convidado da Fox News referiu-se ao encontro Trump-Kim como o “encontro de dois ditadores” e o programa continuou normalmente como se ninguém achasse anormal a classificação. Depois rebentou a tempestade. Pediu desculpa. Roseanne, uma actriz “trumpista” com um programa televisivo de sucesso, mandou uns tweets racistas e foi despedida. Meteu os pés pelas mãos e desculpou-se. Todos os dias é isto, e este ambiente é muito mau.

O resultado é que cada vez mais as pessoas se patrulham no que dizem, e cada um dos lados levanta uma pequena guerra civil contra o outro, usando os “seus” media. A Fox News é exímia nessa patrulha, que faz sistematicamente, mas é acompanhada pela obsessão do “politicamente correcto” de que a esquerda americana padece sem perceber os riscos de legitimar a censura do outro lado. O uso generalizado das “redes sociais” é altamente propício à asneira e também parece que ninguém aprende.

Há apenas um homem que escapa de pedir desculpas e que diz as maiores enormidades, insulta e profere obscenidades (os jogadores que se ajoelham são “filhos da puta”), sem consequências – Donald J. Trump.

Anúncios

Obrigado pelo seu comentário. É sempre bem vindo.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.