A indústria do medo

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 27/12/2024)

Agora, e apesar de as despesas militares dos 27 terem aumentado 10% no último ano e pelo nono ano consecutivo, a nova meta é 3% do PIB para cada país. Para tal, esclareceu Rutte, “é preciso fazer sacrifícios”, sobretudo os europeus, cortando nas despesas com saúde, pensões e segurança social, mudando os espíritos para “uma mentalidade de guerra”.


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Em 2024, o planeta aqueceu 1,5 graus, e o Ártico, cujo aquecimento é superior ao da zona continental, aqueceu o dobro. Nos últimos dez anos, a perda de gelo nos polos e sobretudo no Ártico, por efeito do aquecimento global, acelerou de forma repentina, fazendo subir a temperatura dos oceanos 2 graus e diminuindo equivalentemente a massa da criosfera, que reflecte a luz solar e contribui para arrefecer o planeta. Tudo isto é sabido de todos os cientistas e de todos os estudos, como o da Agência Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos. Caminhamos conscientemente, pois, para a destruição do nosso modo de vida — de que algumas imagens premonitórias, como incêndios e inundações devastadoras, nos são servidas regularmente nas televisões.

Reunidos em Bruxelas na semana passada no Conselho Europeu, os líderes da Europa — o continente mais ameaçado pelas alterações climáticas — não gastaram, porém, um minuto que fosse com o assunto. Em lugar disso, um só tema os ocupou: Ucrânia, Ucrânia, Ucrânia; armas, armas, armas. Para que não restassem dúvidas do que ali os trazia, na véspera da reunião do Conselho, o novo secretário-geral da NATO, o holandês Mark Rutte, aproveitou para juntar previamente a cúpula europeia. Como não havia nenhuma cimeira da NATO marcada, ele reuniu num “jantar privado” na sua residência oficial Macron, Scholtz, Meloni, Von der Leyen, António Costa e, claro, Zelensky — que não tem lugar formal à mesa da NATO ou da UE, mas que está em todas as reuniões e determina todas as agendas. Assim, sem disfarce, se tornou clara a íntima confusão entre a NATO e a UE e os interesses e desejos comuns de ambas as organizações. Rutte aproveitou para subir a fasquia das despesas com a defesa dos membros da NATO: afinal, disse ele, os 2% estabelecidos como patamar para cada país só garantirão a segurança do Ocidente nos próximos quatro ou cinco anos.

Agora, e apesar de as despesas militares dos 27 terem aumentado 10% no último ano e pelo nono ano consecutivo, a nova meta é 3% do PIB para cada país. Para tal, esclareceu Rutte, “é preciso fazer sacrifícios”, sobretudo os europeus, cortando nas despesas com saúde, pensões e segurança social, mudando os espíritos para “uma mentalidade de guerra”.

Mas se a ideia do secretário-geral da NATO era apaziguar os maus fígados de Donald Trump antes de 20 de Janeiro, foi insuficiente: a equipa do próximo Presidente americano já fez saber qual o acréscimo com defesa que ele vai exigir aos “aliados” da NATO: 5%. Nada menos do que 5% da riqueza de cada país (para Portugal seriam 13.300 milhões por ano) terá de ser destinada à defesa, em preparação para a guerra.

A tese entre os europeus é a de que a Rússia, uma vez ganha a guerra da Ucrânia, não se deteria nas suas fronteiras — uma tese cujo fundamento não se baseia em nada nem esclarece até onde iria a Rússia, se teria capacidade para tal e um verdadeiro desejo de se lançar numa guerra contra a NATO. Mas uma vez que Putin se viu obrigado a aumentar as despesas com a defesa por força do pântano que encontrou na Ucrânia (ele, que a seguir se lançaria Europa adentro…) tal é suficiente para os arautos da guerra apregoarem a inadiável corrida às armas. Ora, não obstante toda a propaganda, as despesas militares da Rússia representam apenas um sétimo das dos Estados Unidos (126 mil milhões de dólares contra 916 mil milhões). Para quem achar, então, que isto, toda esta histeria bélica, pode ser apenas um exagero inocente, fruto de erros de cálculo ou pânico desencadeado pela invasão russa da Ucrânia, há alguns dados que podem servir de meditação. Como os 100% de crescimento bolsista e os 600 mil milhões de euros de lucros da indústria de armamento europeu no ano passado, com a alemã Rheinmetall, fabricante dos tanques Leopard-2 fornecidos à Ucrânia, à cabeça, com um aumento de 158% nos lucros, bem assim como a capitalização bolsista de 120 mil milhões (mais 26% desde o início da Guerra da Ucrânia) da americana Lockheed Martin, fabricante dos mísseis antitanque Javelin ou dos sistemas de artilharia Himars, igualmente testados na Ucrânia. E todas as demais empresas de armamento dos dois lados do Atlântico.

Depois do jantar de Mark Rutte, veio então o tal primeiro Conselho Europeu presidido por António Costa. O português, caso alguém esperasse diferente, mostrou-se perfeitamente afinado com a narrativa oficial e a única tolerada: é preciso continuar a apoiar a Ucrânia durante todo o tempo que for necessário e eventuais negociações para pôr termo à guerra só quando e como a Ucrânia quiser. Até lá, fornecemos armas e armamo-nos, na espera da invasão russa. Um plano de paz da própria UE é coisa que ninguém pensa nem ninguém acha necessário, pois isso seria fazer o jogo de Putin. De passagem, também se falou da Síria, para exigir ao novo poder acabado de se instalar rápidas eleições e a expulsão dos russos do seu território. Nem uma palavra, porém, sobre a descarada invasão israelita, os seus bombardeamentos contra alvos indefesos e a apropriação da totalidade dos Montes Golã: há invasões más e invasões invisíveis. Porém, nesta espécie de doutrina oficial europeia, há uma coisa que não deixa de me surpreender. Toda a gente fala e toda a gente concorda na necessidade de uma política externa e defesa europeia autónoma e coordenada, apesar de, como se viu no curioso jantar íntimo de Mark Rutte, já estarem todos prontos a agachar-se perante as exigências e ameaças do “democrata” Donald Trump. Ora, a Europa, sem a Inglaterra, deve, creio eu, ter uma política externa e de defesa coordenada entre as restantes grandes potências europeias: Alemanha, França, Espanha, Itália. Porém, quem é que Ursula von der Leyen foi buscar para as pastas destas áreas na sua nova equipa da Comissão Europeia? Como representante da política externa e vice-presidente, a estoniana Kaja Kallas, conhecida por um insanável e compreensível ódio à Rússia; para a política de defesa e segurança, o lituano Andrius Kubilius. Dois representantes de países do Báltico, que, por razões históricas bem legítimas, vivem no permanente medo da Rússia e contam com o resto da Europa e a NATO para os defenderem. É assim deste ponto de partida nacional e pessoal que eles pretendem definir as políticas europeias em matéria diplomática e militar. Kaja Kallas já declarou ter a certeza de que a Rússia, caso não a detenham entretanto, não se deterá nas fronteiras da Ucrânia. E Andrius Kubilius defendeu um “big bang de 500 mil milhões de euros anual” a gastar em defesa pelos europeus (já deve estar ultrapassado…). Mas o que me surpreende é isto: a Europa tem 700 milhões de habitantes, a Estónia 1,3 milhões e a Lituânia 2,8 milhões. Juntos, os comissários da Estónia e Lituânia, que representam pouco mais de 0,5% da população europeia, vão agora ditar a sua política externa e de defesa? Será isto uma coincidência ou antes uma criteriosa escolha segundo o princípio “quanto mais favorável à guerra com a Rússia, mais europeu”? O antecessor de António Costa no Conselho Europeu, Charles Michel, deixou um aviso que ninguém deve ter ouvido ou querido levar a sério: “A III Guerra Mundial é possível. Temos urgentemente de cair em nós.”

E você, meu caro português, já decidiu começar a preocupar-se com o assunto? Já sabe, ou não quer saber, o que pensar de tudo isto? É que chamar bandido a Putin nas caixas de comentários ou condenar a invasão da Ucrânia é muito fácil e aparentemente não custa nada para quem não associa a guerra à inflação ou à paralisia no combate às alterações climáticas.

Mas, entretanto, o gelo do Ártico continua a derreter e o planeta continua a aquecer. Os ucranianos continuam a morrer no campo de batalha e o seu país a ser destruído, mas não há pressa alguma em alcançar a paz porque são eles que morrem e depois a reconstrução da Ucrânia será um excelente negócio para algumas empresas ocidentais, financiado com o dinheiro russo depositado nos bancos ocidentais e entretanto confiscado por decisão informal de um tribunal ad hoc da NATO e União Europeia — como antes aconteceu com a Sérvia, destruída pelos bombardeamentos da NATO, reconstruí­da por empresas americanas. Mas, atenção, porque agora, de crescendo em crescendo, já não basta enviar armas para a Ucrânia “por quanto tempo quanto necessário”: agora somos nós também que temos de entrar “em mentalidade de guerra”. Cortar na saúde, nas pensões, nos direitos sociais, começar a desmantelar o nosso querido modelo social europeu, porque — só não vê quem não quer ver — tudo isto é igual à situação em 1939. Sem tirar nem pôr, com a única diferença de que agora os judeus estão por cima e só praticam o bem e os nazis são os russos. E, com o medo induzido convictamente pelos grandes líderes que temos e alimentado por uma imprensa dócil e alinhada como nunca antes, preparamo-nos para nos curvar perante o génio do mal da Casa Branca. O homem que olha para os estudos sobre o clima, para as imagens do gelo a derreter no Ártico e na Gronelândia e resume tudo a três palavras: “drill, baby drill!”. Nós, tugas, vamos desde já investir em mais dois submarinos para combater os russos (se os marinheiros quiserem embarcar, não se tratando de exercícios), e, apesar da falta de pilotos, vamos investir 5000 milhões em F-35, o último grito dos céus. Mas isso não é nada comparado com o que nos vão exigir: 3%, 3,5%, 5% de toda a riqueza que produzimos neste país a trabalhar, a investir, a pensar no futuro. Mas qual futuro? É a guerra, estúpido! O futuro é investir em acções das empresas de armamento.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

Os palestinianos contra Israel são “terroristas”, os sírios contra Assad são “rebeldes”

(Eduardo Vasco, in S. C. F., 04/12/2024)

A ofensiva liderada pelo Hayat Tahrir al Sham contra Bashar al Assad começou no mesmo dia em que entrou em vigor o cessar-fogo entre Hezbollah e Israel. Será coincidência?


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Uma nova onda de “terrorismo” tem se abatido sobre o Oriente Médio desde o final do ano passado, desde que “os terroristas do Hamas” cometeram “graves atrocidades” contra “civis inocentes” em Israel, no dia 7 de outubro de 2023.

É esse tipo de discurso que tem permeado os principais noticiários brasileiros e internacionais nos últimos 14 meses. Somente no primeiro mês de “guerra” entre os “terroristas do Hamas” (termo que é repetido exaustivamente pelos âncoras e repórteres da Rede Globo, por exemplo) e o exército de Israel, no Jornal Nacional foram difundidas precisamente 258 acusações de terrorismo contra o Hamas. Os âncoras e repórteres do telejornal, sozinhos, foram responsáveis por 160 dessas acusações – uma média de praticamente sete acusações de terrorismo por edição.

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Por que é que os Estados Unidos perderão uma guerra com a Rússia

(Por Mike Whitney in Blog osbarbarosnet.blogspot.com, 30/11/2024)


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Nunca deixo de me surpreender com a crença generalizada de que as forças armadas dos EUA são superiores a qualquer outra no planeta. Em que base se baseia esta fé? Os EUA não se envolveram numa guerra real desde a Coreia. Ninguém nas forças armadas dos EUA tem QUALQUER experiência com conflitos de alta intensidade. Will Schryver, analista militar.

Se os Estados Unidos lançarem um ataque nuclear de “decapitação” contra a Rússia que mate o Presidente Putin e os seus generais, a Rússia terá um sistema de apoio que irá retaliar automaticamente. O sistema Dead Hand foi concebido para recolher dados de sensores espalhados pela Rússia sobre radiação, calor e atividade sísmica que confirmam um ataque nuclear. Se o sistema não receber instruções do Centro de Comando de Moscovo num determinado período de tempo, o sistema lançará autonomamente 4.000 mísseis balísticos intercontinentais táticos e estratégicos contra os Estados Unidos, garantindo a destruição completa do país e a incineração de centenas de milhões de americanos. A mensagem de Moscovo é simples: “Mesmo que um ataque preventivo derrube os nossos líderes, a nossa “mão morta” ainda vos matará a todos.” Mão Morta, Reportagem Planeta.

A maioria dos americanos continua a acreditar que os Estados Unidos vencerão numa guerra convencional com a Rússia. Mas isso simplesmente não é o caso. Para começar, a tecnologia de mísseis e os sistemas de defesa antimíssil de última geração da Rússia são muito superiores aos produzidos pelos fabricantes de armas ocidentais. Em segundo lugar, a Rússia pode mobilizar um exército de mais de 1 milhão de soldados de combate experientes, que já experimentaram guerras de alta intensidade e estão preparados para enfrentar qualquer inimigo que possam vir a enfrentar no futuro. Em terceiro lugar, os Estados Unidos já não têm capacidade industrial para igualar a impressionante produção de armamento letal, munições e mísseis balísticos de última geração da Rússia. Em suma, a capacidade militar russa excede em muito a dos EUA nas áreas que realmente contam: armamento de alta tecnologia, capacidade industrial militar e mão-de-obra experiente. Para esclarecer este ponto geral, tomei excertos do trabalho de três analistas militares que explicam estas questões com maior detalhe, sublinhando as deficiências dramáticas das forças armadas modernas dos EUA e os problemas que provavelmente encontrará quando confrontado com uma situação mais adversarial tecnologicamente avançada e formidável. O primeiro excerto é de um artigo de Alex Vershinin intitulado The Return of Industrial Warfare:

A guerra na Ucrânia provou que a era da guerra industrial ainda está aqui. O consumo massivo de equipamento, veículos e munições requer uma base industrial de grande escala para reabastecimento – a quantidade ainda tem uma qualidade própria…. A taxa de consumo de munições e equipamento na Ucrânia só pode ser suportada por uma base industrial de grande escala.

Esta realidade deveria constituir um aviso concreto para os países ocidentais, que reduziram a capacidade industrial militar e sacrificaram a escala e a eficácia pela eficiência. Esta estratégia baseia-se em pressupostos errados sobre o futuro da guerra e tem sido influenciada tanto pela cultura burocrática dos governos ocidentais como pelo legado de conflitos de baixa intensidade. Actualmente, o Ocidente pode não ter capacidade industrial para travar uma guerra em grande escala…

A capacidade da base industrial do Ocidente

O vencedor numa guerra prolongada entre duas potências próximas depende ainda de qual dos lados tem a base industrial mais forte. Um país deve ter capacidade de produção para construir grandes quantidades de munições ou ter outras indústrias de produção que possam ser rapidamente convertidas para a produção de munições. Infelizmente, o Ocidente parece já não ter nenhum dos dois… Num recente jogo de guerra envolvendo forças dos EUA, do Reino Unido e da França, as forças do Reino Unido esgotaram os arsenais nacionais de munições críticas em oito dias.

Suposições erradas

A primeira suposição fundamental sobre o futuro do combate é que as armas guiadas com precisão reduzirão o consumo geral de munições, exigindo apenas um tiro para destruir o alvo. A guerra na Ucrânia está a desafiar esta suposição… A segunda suposição crucial é que a indústria pode ser ligada e desligada à vontade….. Infelizmente, isto não funciona para compras militares. Existe apenas um cliente nos EUA para os projécteis de artilharia – os militares. Assim que os pedidos diminuem, o fabricante deve fechar as linhas de produção para reduzir custos e manter-se no negócio. As pequenas empresas podem fechar totalmente. Gerar nova capacidade é um grande desafio, especialmente porque resta tão pouca capacidade de produção para atrair trabalhadores qualificados… As questões da cadeia de abastecimento são também problemáticas porque os subcomponentes podem ser produzidos por um subcontratante que sai do negócio, com perda de encomendas ou reequipamento para outros clientes ou que dependem de peças do estrangeiro, eventualmente de um país hostil…

Conclusão

A guerra na Ucrânia demonstra que a guerra entre adversários iguais ou próximos exige a existência de uma capacidade de produção tecnicamente avançada, em grande escala e na era industrial… Para que os EUA actuem como o arsenal da democracia em defesa da Ucrânia, é necessário que haja uma grande análise do modo e da escala em que os EUA organizam a sua base industrial… Se a competição entre autocracias e democracias entrou realmente numa fase militar, então o arsenal da democracia deve primeiro melhorar radicalmente a sua abordagem na produção de material em tempo de guerra.

Extraído de O Regresso da Guerra Industrial, Alex Vershinin, Rusi

Em suma: os Estados Unidos já não têm a base industrial nem os arsenais necessários para prevalecer numa guerra prolongada entre duas potências quase iguais. Simplificando, os EUA não vencerão uma guerra convencional prolongada com a Rússia.

Veja como o analista Lee Slusher resumiu isto numa publicação recente no Twitter:

(…) Os EUA tinham efectivamente monopólios sobre muitas capacidades decisivas, como munições guiadas com precisão, visão nocturna, ataque global, etc. Acho que a ausência de conflitos de alta intensidade entre os EUA e outras nações teve muito a ver com essas assimetrias. Não havia necessidade de os EUA aplicarem massa quando as suas capacidades avançadas – ou mesmo apenas a ameaça delas – eram suficientes para alcançar objectivos políticos… A lista de nações com capacidades avançadas continua a crescer. Ao mesmo tempo, as forças armadas ocidentais e as bases industriais de defesa continuam a sofrer erosão. O Ocidente trocou os seus grandes exércitos permanentes pela confiança nas capacidades de ameaça americanas que já foram decisivas, mas que agora são cada vez mais comuns. Isto deixou o Ocidente sem a sua vantagem tecnológica e sem a sua anterior massa militar. Aqueles que ainda acreditam na supremacia militar dos EUA não conseguem perceber estas mudanças. Pior ainda, a maioria deles nutre noções caricaturalmente subestimadas sobre as capacidades militares russas. Não conseguem perceber que a Rússia tem tanto uma vantagem tecnológica como uma massa militar. A reputação que os militares norte-americanos tinham foi merecida durante algum tempo, mas tudo muda.”

Extraído de Lee Slusher @LeeBTConsulting

Conclusão: Os adversários da América – Rússia, China, Irão – alcançaram ou ultrapassaram os EUA em tecnologia avançada de mísseis, Veículos Aéreos Não Tripulados (UAV), guerra electrónica, sistemas de defesa antimíssil de ponta, etc. o que encerra o período de supremacia militar dos EUA. O século americano está rapidamente a chegar ao fim.

Passemos ao analista militar número 2, Will Schyver, que tira conclusões semelhantes às de Vershinin, mas de um ângulo ligeiramente diferente. Confira:

“Estou mais convencido do que nunca de que os EUA NÃO conseguiriam estabelecer superioridade aérea contra a Rússia – nem numa semana; não num ano. Nunca. Simplesmente não podia ser feito. Seria um desafio de projecção de poder logístico muito para além das actuais capacidades militares dos Estados Unidos.

O poder aéreo americano revelar-se-ia substancialmente inferior às defesas aéreas extremamente potentes e abundantemente fornecidas pelos russos.

Tal como a maioria dos foguetes GMLRS, mísseis HARMS, mísseis ATACMS e mísseis britânicos Storm Shadow lançados pelo HIMARS estão agora a ser abatidos na Ucrânia, a grande maioria dos mísseis guiados de precisão de longo alcance dos EUA seriam abatidos, e os EUA esgotariam muito rapidamente o seu limitado inventário destas munições, numa tentativa fútil de sobrecarregar a capacidade russa de continuar a disparar.

A supressão americana das defesas aéreas inimigas revelar-se-ia inadequada para a tarefa de derrotar radares e mísseis de defesa aérea extremamente sofisticados, profundamente estratificados e altamente móveis…

a guerra na Ucrânia tornou perfeitamente claro que todos os tipos de sistemas de defesa aérea ocidentais são inferiores até mesmo aos sistemas soviéticos S-300 e Buk, com décadas de existência, que a Ucrânia originalmente implantou. E mesmo que os sistemas ocidentais fossem formidáveis, simplesmente não existem em números que se aproximem dos números necessários para fornecer uma defesa credível em grande alcance e profundidade.

Para complicar ainda mais a situação, o escasso inventário de munições dos EUA e as limitações de produção insuperáveis ​​permitiriam aos EUA levar a cabo uma guerra aérea contra a Rússia ou a China durante apenas algumas semanas, no máximo.

Além disso, num cenário de combate de alta intensidade na Europa de Leste, nos mares da China ou no Golfo Pérsico, as necessidades de manutenção das aeronaves dos EUA sobrecarregariam o seu fornecimento próximo. As taxas de capacidade para missões cairiam ainda mais abaixo dos seus padrões notoriamente abismais em tempo de paz.

Os EUA veriam, literalmente, após apenas alguns dias, taxas de capacidade de missão inferiores a 10% para o F-22 e F-35, e taxas inferiores a 25% para quase todas as outras plataformas do inventário. Seria um enorme embaraço para o Pentágono… mas dificilmente uma grande surpresa…

Simplificando, o poder aéreo dos EUA, enquanto empreendimento que abrange todo o teatro, não poderia ser sustentado no contexto de um campo de batalha regional e global não permissivo contra um ou mais adversários semelhantes.

Na Europa de Leste, a Rússia destruiria as bases e as rotas de abastecimento da NATO. Os mares Báltico e Negro tornar-se-iam efectivamente lagos russos onde a navegação da NATO não poderia aventurar-se…

Muitos estão convencidos de que se trata de afirmações histéricas infundadas. Na minha opinião, as simples realidades militares, matemáticas e geográficas da situação ditam estas conclusões, e aqueles que lhes resistem ficam tipicamente cegos pelo mito do excepcionalismo americano e pelos males que o acompanham, a tal ponto que são incapazes de discernir as coisas como elas realmente são…

Estou cada vez mais convencido de que, se os EUA decidirem fazer uma guerra directa contra a Rússia, a China ou o Irão, isso resultará numa guerra contra os três em simultâneo.

E esta, surpreendentemente, é apenas uma das múltiplas verdades duras que o culto #EmpireAtAllCosts, e aqueles que aquiescem aos seus desígnios delirantes, deveriam considerar mais seriamente enquanto continuam a cambalear em direção ao abismo de uma guerra que nunca poderiam vencer…” 

Extraído de Cambaleando em direção ao abismo, Will Schryver, Substack.

Há muito para discutir aqui, mas, no fundo, Schryver está a avaliar a impressionante capacidade de defesa aérea da Rússia contra o “escasso stock de munições e as limitações de produção insuperáveis” dos EUA, cuja combinação sugere que uma ofensiva militar dos EUA provavelmente desapareceria antes de infligir graves ataques. Mais uma vez, o nosso analista militar infere que os Estados Unidos não vencerão num confronto directo com a Rússia.

Por fim, extraímos uma sinopse mais longa de Kit Klarenberg, que é mais um jornalista de investigação do que um analista militar. Num artigo intitulado Colapsing Empire: China and Russia Checkmate US Military, Klarenberg detalha aquilo a que chama uma “análise implacavelmente sombria de todos os aspetos da inchada e decadente máquina de guerra global do Império”. Se pelo menos metade do que o autor diz for verdade, então podemos estar razoavelmente certos de que a escalada dos Estados Unidos com a Rússia é o caminho mais rápido para uma catástrofe militar diferente de tudo o que o mundo viu desde a queda de Berlim em Maio de 1945. Dê uma vista de olhos:

“No dia 29 de julho. A RAND Corporation publicou uma avaliação histórica do estado da Estratégia de Defesa Nacional (NDS) do Pentágono para 2022 e da actual prontidão militar dos EUA… As suas conclusões são nítidas, uma análise implacavelmente sombria de todos os aspectos da inchada e decadente máquina de guerra global do Império. Em resumo, os EUA “não estão preparados” de forma significativa para uma “competição” séria com os seus principais adversários – e são vulneráveis ​​ou mesmo significativamente superados em todas as esferas da guerra. o domínio mundial do Império, são considerados, na melhor das hipóteses, lamentavelmente inadequados e, na pior, completamente delirantes.

Do Relatório Rand:

“Acreditamos que a magnitude das ameaças que os EUA enfrentam é subestimada e significativamente pior… Em muitos aspetos, a China está a ultrapassar os EUA… na produção de defesa e no crescimento do tamanho da força e, cada vez mais, na capacidade da força e é quase certo que continuará a fazê-lo.  [Pequim] anulou amplamente a vantagem militar dos EUA no Pacífico Ocidental por meio de duas décadas de investimento militar focado. Sem mudanças significativas por parte dos EUA, o equilíbrio de poder continuará a mudar a favor da China.”

No mínimo, os EUA deveriam assumir que se entrar num conflito directo envolvendo a Rússia, a China, o Irão ou a Coreia do Norte, esse país beneficiará da ajuda económica e militar dos outros… Este novo alinhamento de nações que se opõem aos interesses dos EUA cria uma o risco real, se não a probabilidade, de que o conflito em qualquer lugar possa tornar-se uma guerra multi-teatro ou global…Como os adversários dos EUA estão a cooperar mais estreitamente do que antes, os EUA e os os seus aliados devem estar preparados para enfrentar um eixo de múltiplos adversários.” Comissão de Defesa Nacional, Rand

Tal como o relatório da Comissão explica em detalhes forenses, Washington ficaria quase completamente indefeso num tal cenário, e provavelmente derrotado quase instantaneamente…. Não é apenas o facto de estar muito pouco espalhado pelo Grande Tabuleiro de Xadrez que significa que as forças armadas do Império “não têm tanto as capacidades como a capacidade necessária para estarem confiantes de que podem dissuadir e prevalecer no combate.”…

A Comissão RAND concluiu que a “base industrial de defesa” de Washington é completamente “incapaz de satisfazer as necessidades de equipamento, tecnologia e munições” dos EUA, e muito menos dos seus aliados. “Um conflito prolongado, especialmente em múltiplos teatros, exigiria uma capacidade muito maior para produzir, manter e reabastecer armas e munições” do que a que existe actualmente…

Durante décadas, os militares norte-americanos “empregaram tecnologia de ponta para obter uma vantagem decisiva durante décadas”. Esta “suposição de superioridade tecnológica incontestada” por parte do Império significava que Washington tinha “o luxo de construir capacidades extraordinárias, com longos ciclos de aquisição e pouca tolerância ao fracasso ou ao risco”. Esses dias já terminaram há muito tempo, com a China e a Rússia a “incorporar tecnologia a uma velocidade acelerada”… A “base industrial de defesa” da América está hoje a desmoronar-se, repleta de uma miríade de questões prejudiciais…

Para resolver estes problemas, a Comissão apela… à reindustrialização dos EUA após anos de externalização, deslocalização e negligência. Não é fornecido qualquer prazo, embora provavelmente levaria décadas…

Entramos numa era estranha e em fase avançada do Império, comparável à Glasnost da União Soviética, na qual elementos do grupo de cérebros imperial dos EUA podem ver com uma clareza ofuscante que todo o projecto global hegemónico de Washington está a cambalear rápida e irreversivelmente para a extinção…” 

Extraído de Império em colapso: China e Rússia Checkmate Militar dos EUA , Kit Klarenberg, Substack.

Mais uma vez, vemos as mesmas críticas reiteradas vezes sem conta : capacidade industrial insuficiente, reservas cada vez menores, “limitações de produção insuperáveis” e superioridade tecnológica diminuída. Quando acrescentamos isto à miríade de problemas logísticos de conduzir uma guerra na Europa de Leste com um exército ad hoc de voluntários inexperientes que nunca participaram em combate, só podemos concluir que os Estados Unidos não podem nem irão prevalecer num conflito prolongado com a Rússia. Ainda assim, Washington continua a disparar mísseis ATACMS contra a Rússia (mais 13 foram lançados nos últimos dois dias) acreditando aparentemente que não haverá resposta à provocação. Ainda assim, o Comando da NATO continua a alimentar ilusões de vitória, pressionando para “ataques de precisão” preventivos em território russo, saudando a perspectiva de uma conflagração directa entre a NATO e a Rússia. E, mesmo assim, tanto a França como o Reino Unido ameaçam enviar tropas de combate para a Ucrânia pensando que a trajectória inexorável da guerra pode de alguma forma ser invertida. É uma loucura.

Cinco séculos de primazia produziram um quadro de elites ocidentais tão inebriadas de arrogância que são incapazes de ver o que é dolorosamente óbvio para todos os outros: que o modelo imperial de exploração ocidental (a “ordem baseada em regras”) está em colapso e que novos centros de poder estão a emergir rapidamente.

Parece agora que estas mesmas elites estão preparadas para arrastar o mundo para uma catastrófica Terceira Guerra Mundial para preservar o seu controlo do poder e impedir que outras nações alcancem a independência e a prosperidade que conquistaram. Felizmente, Washington irá falhar neste esforço, tal como falhou em todas as suas outras intervenções que remontam a 1945. Porque os Estados Unidos já não possuem a tecnologia, a mão-de-obra ou a capacidade industrial necessárias para vencer uma guerra com a Rússia .

É um jogo totalmente novo.

Fonte aqui.