O incêndio da revolta

(António Guerreiro, in Público, 07/07/2023)

António Guerreiro

A revolta que irrompe actualmente por todo o lado não é um acontecimento conjuntural, é estrutural, ainda que possa parecer efémera e a sua propagação seja intermitente.


Um estabelecimento danificado em Montreuil, perto de Paris, durante os protestos pela morte do jovem Nahel às mãos da polícia EPA/JULIEN MATTIANa semana passada, Paris esteve novamente a arder. O fogo e a pilhagem são, desde sempre, o instrumento e a consequência das revoltas urbanas – ou “motins”, se utilizarmos a classificação dos aparelhos do Estado que obviamente não utilizam a palavra “revolta” para não atribuir ao acontecimento uma qualificação política e para não reconhecerem que estão a lutar contra quem lhes “volta a cara”, que é o que a palavra “revolta” significa quando percebida na sua etimologia.O grito de guerra dos negros do bairro de Watts, em Los Angeles, durante quatro dias de Agosto de 1965 era Burn, baby, burn, que depois serviu de título a muitas canções. Nos primeiros momentos dessa revolta – ou, para quem preferir, motins – as pilhagens seguidas de incêndios deram-se em armazéns de bebidas alcoólicas e de armas. Também agora, em Paris, houve quem apontasse motivações puramente criminosas de roubo de produtos das marcas de prestígio às esquadras juvenis que ocuparam algumas cidades francesas de maneira violenta e com o objectivo de provocar a máxima destruição.Na sequência da revolta de Los Angeles, Guy Debord escreveu um texto, publicado no número 10 da Internacional Situacionista, em 1966, que era uma defesa da revolta, interpretando-a como revolta contra a mercadoria, como o título deixava depreender: O Declínio e a Queda da Economia do Espectáculo-Mercadoria (Le déclin et la chute de l’économie spectaculaire-marchande). Disse então Debord: “A revolta de Los Angeles é uma revolta contra a mercadoria, contra o mundo da mercadoria e do trabalhador-consumidor submetido às medidas da mercadoria.” E, designando os actos dos revoltosos como “o potlatch da destruição”, viu neles “uma superioridade humana sobre as mercadorias”.Nas circunstâncias actuais, ninguém ousaria evocar o valor de fetiche próprio da mercadoria e dizer que os jovens se apropriam dos produtos para os usar e os profanar, recusando o seu valor de troca. Marx não é para aqui chamado, nesta passagem da “consommation à la consumation” (do consumo à consumação), como escreveu Debord. Pensar que a dinâmica da revolta devia ser, hoje, incompatível com a pilhagem e o consumo é tão deslocado como aquele apelo aos pais para não deixarem os meninos sair à noite de modo a evitar que eles façam distúrbios, isto é, queimem carros, autocarros e vandalizem lojas e edifícios públicos.A lógica e o tempo da revolta não é a lógica e o tempo da revolução. A revolta, que permite redescobrir o ponto de contacto entre o tempo mítico e o tempo histórico, é o “laboratório do resgaste”, a “passagem anárquica”. Quem assim a define é a filósofa italiana Donatella Di Cesare, num livro intitulado O Tempo da Revolta, que tem tradução em português nas Edições 70 (2021). Vale muito a pena ler esse livro para percebemos o que se passa nesta longa sucessão de acontecimentos revoltosos que vão de Occupy Wall Street às cidades francesas na semana passada, onde ainda ecoam uns gritos vindos de longe: Burn, baby, burn.A revolta anárquica, diz-nos Donatella Di Cesare, viola as fronteiras, desnacionaliza os supostos cidadão, confere-lhes estranheza, convida-os a considerarem-se residentes estrangeiros, ainda que tenham a nacionalidade do país de residência. Daí a sua afirmação de que há uma relação profunda entre revolta e migração, na medida em que são os migrantes que vêm das margens da arquitectura política (e “migrante”, como se pode ver, é uma condição que se herda). O título do livro, O Tempo da Revolta, remete para a tese central da autora: a revolta que irrompe actualmente por todo o lado não é um acontecimento conjuntural, é estrutural, ainda que possa parecer efémera e a sua propagação seja intermitente.

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Sabemos bem que a revolta como categoria política foi sempre desqualificada, mesmo à esquerda. A tradição da esquerda é a dos sujeitos políticos, não a do anonimato que pertence à própria forma da revolta. Este anonimato não deve ser interpretado apenas como exigência estratégica, faz parte do éthos da revolta.

Daí, o recurso à máscara e aos capuzes. Os jornalistas do Le monde, na abertura de uma reportagem, avisavam o leitor de que era impossível chegar aos revoltosos, identificá-los, retirá-los da invisibilidade e do anonimato. Não conseguiam saber alguma coisa deles senão através de mediações.Só alguém de uma esquerda muito heterodoxa e com algumas afinidades com a anarquia, como foi o mitólogo Furio Jesi, podia definir deste modo a revolta: “Se a revolução prepara o amanhã, a revolta evoca o depois de amanhã.”



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Um mundo em desagregação

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 07/07/2023)

Miguel Sousa Tavares

Nahel pagou com a pena de morte pequenos delitos e pequeno cadastro de juventude. Tinha 17 anos, era argelino em França e conduzia sem carta de condução. Parado pela polícia e ameaçado de morte, assustou-se, deixou o carro avançar sozinho e foi executado por alguém que alguns colegas polícias consideraram um “herói”. Se fosse branco, estaria provavelmente vivo, pelo que este foi um crime de ódio racista, cometido por quem tem o dever de manter a ordem e não de fomentar a desordem.

O racismo nas forças poli­ciais e a infiltração destas pela extrema-direita, dos Estados Unidos a Portugal, é um facto e um motivo de crescente alarme.

E o que se seguiu em França — quatro noites de vandalismo juvenil à solta, de assalto orquestrado nas redes sociais aos símbolos da República e do Estado de Direito, ao comércio e à propriedade privada — já se vai tornando recorrente naquele que é um dos países mais prósperos do mundo. Se não estão na rua a incendiar carros e a lançar cocktails molotov sobre a polícia para protestar porque lhes querem aumentar a idade da reforma (que é a mais baixa do mundo), ou retirar subsídios dos tempos de abundância, tais como o “subsídio do carvão”, dado aos maquinistas de comboio no século XIX e que ainda subsistia no tempo dos TGV, ou porque a política agrícola comum já não suporta a factura dos seus agricultores, os franceses estão nas ruas simplesmente porque estão zangados. Segundo uns, porque protestar e revoltar-se está-lhes na massa do sangue; segundo outros, porque são o país mais politizado do mundo. Ou talvez — atrevo-me a pensar — porque, partindo de um lugar de prosperidade e de conforto do Estado Social ímpar no mundo, a França é o primeiro país a perceber que esses tempos estão a ficar para trás de forma definitiva. Há 30 anos, lembro-me de ter lido no “Nouvel Observateur” uma reportagem sobre a geração francesa mais feliz de sempre: a dos reformados, que então tinham 60 ou menos anos. Hoje, estamos perante a primeira geração desde o pós-guerra que, apesar da baixa natalidade, vai transmitir aos seus filhos uma vida pior do que aquela que viveu. Começa pela França, mas outros se seguirão.

O que houve de novo nestes motins foi a aliança entre os jovens adolescentes brancos, os idiotas das redes sociais, e os jovens argelinos: uma alian­ça contranatura. As sociedades afluentes da Europa escolheram renunciar aos piores trabalhos e fazer filhos para melhor gozarem a vida. Foi uma escolha com consequên­cias, a principal das quais a imigração, que se tornou vital para assegurar os trabalhos que ninguém quer fazer e a própria sustentabilidade financeira da Segurança Social. Os alemães receberam turcos, os ingleses receberam indianos e paquistaneses (os outros querem-nos recambiar para o Ruanda), os italianos e os gregos receberam à força os náufragos do Mediterrâneo, vindos de África e do Médio Oriente, Portugal recebeu os africanos dos PALOP e agora a exótica imigração do Sudoeste Asiático. Mas os franceses receberam o pior: os argelinos, a que eles chamam depreciativamente les arabes. Os argelinos de França são um factor à parte na equação. Bem pode Macron acenar com novos bairros sociais e mais escolas ou projectos de integração — jamais um argelino de França chegará a primeiro-ministro, como indianos chegaram a primeiros-ministros na Inglaterra e na Escócia. Nem os franceses deixariam nem eles próprios querem. Eles não estão em França para se integrarem, mas para a minarem, para a destruírem por dentro, para se vingarem. E para entender isto, que é tão politicamente incorrecto de dizer, é preciso conhecer a História, conhecer a Argélia e conhecer os argelinos.

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A Argélia estava logo ali em baixo, à distância de uma curta travessia do Mediterrâneo, tinha petróleo, mar e um imenso e misterioso deserto: era irresistível para um poder imperial como a França. Expulsa a administração otomana, a Argélia tornou-se um departamento francês em 1848 e começou o seu povoamento com os colonos vindos de França. É fácil imaginar o arbítrio que deve ter sido ser colonizado pelos pequeno-burgueses e deserdados de França, de repente feitos senhores coloniais sob a protecção do Exército, da lei e das autoridades administrativas. Camus deixou-nos uma pequena ideia sobre isso, como Duras deixou sobre a colonização francesa na Indochina. Ambos os sonhos coloniais acabaram em guerras de guerrilha prolongadas, em derrotas humilhantes e em debandadas. Por imposição de De Gaulle, a França e os pied-noirs retiraram definitivamente da Argélia em 1962, deixando para trás 500 mil mortos argelinos na guerra e um povo que transmitiu o ódio aos franceses, de geração em geração, até aos bidonvilles, para onde depois emigrariam em França. Mas isso foi há 60 anos: tempo suficiente para a Argélia ter feito alguma coisa com a sua independência, com as lições aprendidas, com o seu petróleo. Não fez nada. É um Estado policial — não apenas no topo mas ao nível da prepotência de cada autoridade — e um povo antipático, hostil e incivilizado por natureza. Como não têm turistas nem esperam ter, desprezam e maltratam os estrangeiros, e nenhum polícia perde uma oportunidade para mostrar como estamos à mercê do seu arbítrio. Se os polacos, por exemplo, são o povo mais intratável da Europa, os argelinos são-no do Magrebe. Emigrados para França, levam tudo isso com eles, mais um desejo secular de vingança. A França tem um problema muito sério.

2 Quem melhor do que Stoltenberg para suceder a Stoltenberg à frente da NATO? Se ele, como dizem, tem feito “um excelente trabalho” como instigador da guerra, para quê mudá-lo em plena guerra? Siga a guerra, siga Stoltenberg.

Entretanto, com a maior das banalidades e perante a apatia geral, Rússia e Ucrânia acusam-se mutuamente de quererem fazer explodir a central nuclear de Zaporíjia, a maior da Europa. Do lado ucraniano, há um ano que ouvimos relatos de ataques russos à central — todavia, é detida por eles e estão lá homens seus, o que torna a acusação difícil de acreditar. E agora dizem que os russos colocaram explosivos no telhado, o único local não inspeccionado pela Agência de Energia Atómica. Os russos, por seu lado, dizem que estará iminente um ataque da Ucrânia à central. E ninguém se mexe para se interpor entre ambos e evitar uma catástrofe inominável apenas para poder acusar o outro lado da sua responsabilidade?

De facto, brincamos com o fogo, brincamos com a morte de inocentes, brincamos com a guerra. Churchill, com quem alguns ignorantes e oportunistas resolveram comparar Zelensky, estava várias vezes na frente de batalha, mas também estava junto dos civis depois dos bombardeamentos aéreos dos alemães. Vemos várias vezes Zelensky a condecorar tropas e a fazer discursos marciais, mas nunca o vimos na frente de batalha nem junto dos civis bombardeados. Será que tem medo que lhe peçam a paz e não a guerra?

Do lado de lá já sabemos que temos um louco sentado em cima de um arsenal nuclear, que nos dizem que pondera usar todos os dias. Nada que nos dissuada a provocar cada vez mais o louco. Timothy Garton Ash, um dos gurus dessa estratégia da vitória sobre a Rússia até ao último ucraniano vivo, esteve em Lisboa em pregação, fazendo-se entrevistar por dois acólitos. A Teresa de Sousa disse que “foi fantástico” ter acompanhado a marcha das tropas do insano Prigozhin em direcção a Moscovo — louco por louco, preferia este. A José Manuel Fernandes explicou que a guerra só podia terminar com a recuperação da Crimeia por parte da Ucrânia, não importando o estabelecido no Tratado de Minsk. Não por razões históricas, que ele, historiador, sabe que não cabem à Ucrânia, mas porque “a Crimeia é um porta-aviões terrestre que ameaça o flanco sul da Ucrânia”. Pois, e também ameaça o da Rússia, e por isso é que Potemkine a conquistou (aos tártaros e não aos ucranianos, que lá não exis­tiam) para Catarina a Grande, no século XVIII. Mas se esta teoria da ameaça do porta-aviões terrestre fizer caminho, basta procurar no mapa-múndi e não faltarão guerras justas para os novos cruzados do Ocidente.

E enquanto já se esfregam as mãos e se alinham os candidatos ao grande negócio da reconstrução da Ucrânia, prepara-se também a ida à Justiça dos responsáveis dos crimes de guerra do lado russo — e apenas deste, pois do lado ucraniano, não obstante as “calúnias” divulgadas pela ONU ou pela Amnistia Internacional, não há, como se sabe, crimes de guerra alguns. Perante a falta de alçada do TPI, decidiu-se criar um tribunal ad-hoc, sediado em Haia, com jurisdição própria e cujos jurados serão a União Europeia e os Estados Unidos — os fornecedores de armas à Ucrânia — e a própria Ucrânia, uma das partes beligerantes. Antecipam-se resultados mais rápidos do que os daquela comissão que há longos meses investiga em vão quem serão os responsáveis pela sabotagem dos Nordstream — um acto de terrorismo cometido contra estruturas civis, fora do teatro de guerra e em águas territoriais de um país da UE. Quando o direito à justiça, à informação e à verdade sobre todos os factos se submete preventivamente a um juízo sobre o que deve ser contado e feito, por melhores que sejam as razões invocadas, não há razão que se aguente.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

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Moscovo já está a arder?

(Daniel Vaz de Carvalho, in Resistir, 04/07/2023)

1 – A guerra das narrativas

Quando do caso Prigozhin, nos media perpassou uma alegre expectativa de “Moscovo já está a arder?” Um conhecido telefona-me em tom irónico: “Então o Putin está em fuga?” e “Agora a vitória da Ucrânia vai ser mais fácil.” Apenas pude dizer, não sei se bem se mal, que quem acredita nas televisões não faz a mínima ideia do que se passa no mundo. É espantoso que gente que há mais de um ano fala na derrota da Rússia ache agora uma vitória da Ucrânia “mais fácil”.

O caso Prigozin consumou-se em cerca de 12 horas, nenhuma unidade militar, entidade administrativa, partido representado na Duma, aderiu à pretensa “marcha sobre Moscovo”, colocando-se pelo contrário ao lado de Putin. Cumprindo a sua missão de intoxicação mental os media mais de uma semana depois continuavam a repetir insistentemente o tema da “instabilidade política na Rússia” ou “Putin vai fazer uma purga nas FA?”, ignorando o facto de o apoio a Putin ter aumentado para níveis próximo dos 90%.

Eram afirmações com ponto de interrogação no fim e aldrabices como as do Moscow News, sediado na Holanda, que como credibilidade vale tanto como o “Observatório dos direitos humanos da Síria”, em Londres, uma espécie de departamento do MI6 (serviços secretos britânicos), etc. Mas a mais estúpida foi a do paradeiro do general Surovkin: “Onde está Surovkin? Terá sido preso?” Apesar do desmentido da filha a novela prosseguiu, como se a localização de altas patentes não tivesse de ser mantida desconhecida.

É a “guerra das narrativas” – a única que o ocidente tem ganho para mascarar as perdas reais – como escreve o ex-diplomata britânico Alastair Crooke:   “Vivemos uma “guerra de narrativas”, como a insistência de que apenas uma “realidade”, a ideologia de “regras” liderada pelos EUA, pode prevalecer. A linguagem do ocidente abjura qualquer diplomacia séria e sinaliza que é imperativo manter a narrativa: a Ucrânia ganha, Putin perde. Washington (e a UE/NATO) não podem livrar-se da crença de que a Rússia é frágil, que suas forças armadas são pouco competentes, que sua economia entra em colapso, que Putin acabará por aceitar qualquer “ramo de oliveira” que os EUA lhe estendam”.

Trata-se de “acreditar no absurdo”. Subordinados aos interesses oligárquicos os media funcionam como câmaras de ecos, difundem falsas notícias, a realidade, é ofuscada. Narrativas são elaboradas e mantidas sem cessar, na forma de “tema e variações”. De acordo com os media:

A Rússia destruiu os seus próprios gasodutos; bombardeou a ponte sobre a Crimeia; atacou a sua central nuclear de Zaporozhye (agora prepara-se para a destruir!); atacou o Kremlin com drones; destruiu a sua barragem e central hidroelétrica de Kakhovskaya, inundando os seus campos e aldeias, destruindo suas defesas militares, dificultando o abastecimento de água à Crimeia; a Rússia está derrotada e os soldados desmoralizados.

Na Rússia, como em qualquer país que não obedeça totalmente ao ocidente, não existe um governo, uma Constituição, eleições, existe um “regime”, uma “autocracia”. Não é necessário apresentar provas do que se diz, basta repeti-lo vezes sem conta. Quem o negar entra na lista de suspeitos.

O ocidente está saturado de propaganda destinada a manipular a forma como o público pensa, age, trabalha, compra e vota. Os trabalhadores dos media testemunharam estar sob constante pressão para espalhar narrativas favoráveis ao status quo político do império americano. Os media apoiam todas as guerras dos EUA e mobilizam-se para os objetivos da política externa dos EUA, exibindo preconceitos contra os governos visados pelo império, claro que isto só acontece com um mínimo de pensamento crítico. (Caitlin Johnstone)

As campanhas mediáticas mascararam como os acordos de Minsk foram traídos ou a expansão da NATO, escamoteiam o neonazismo instaurado em Kiev. Aos media compete garantir que ao poder hegemónico é dado fazer coisas más em nome da “ordem internacional baseada em regras”. Chantagem financeira, agressões, assassinatos seletivos (como os ordenados pelo prémio Nobel da Paz Obama no Paquistão e respetivos “danos colaterais”) passam sem crítica.

Assange denunciou estas situações, inclusive os assassinatos de jornalistas da Reuters, Saeed Chmagh e Namir Noor-Eldeen, entre outros, sendo baleados por um helicóptero dos EUA. Julian Assange está preso no Reino Unido, tendo pendente a extradição para os EUA para ser preso por 175 anos.

2 – Acreditar no absurdo

Ainda em maio Blinken declarava que a Rússia estava isolada, derrotada geopolítica, estratégica e financeiramente. Os media repetiam religiosamente a “palavra do senhor”.

Os políticos e elites do sistema funcionam na mentira que, dada a intensa manipulação, se torna subconsciente. É com isto que temos de viver. Porém, o problema dos manipuladores – também a sua fraqueza – é acabarem por acreditar na própria manipulação. Mas nada de positivo pode ser construido através da mentira. A França tornou-se um exemplo dramático e nos EUA a proliferação tanto de sem abrigo como de bandos criminosos e massacres arbitrários, mostram como as sociedades ocidentais estão longe da democracia.

A “lavagem cerebral para a guerra atual é semelhante à de outras guerras”, escreveu John Pilger, em um tuíte, “mas nunca, na minha experiência como correspondente de guerra, foi tão implacável e desprovida de jornalismo honesto como nesta”.

No apoio às oligarquias e ao imperialismo as mentes são constantemente sujeitas a deformações da realidade para que no mínimo a confusão se instale. As evidências e a lógica factual são recusadas, a crítica torna-se suspeita por perturbar convicções instaladas. O que altera os cenários instituídos é recusado como “propaganda russa”, o que vem de Kiev é tomado como verdadeiro, nunca como “propaganda ucraniana”, ou melhor, propaganda da NATO.Indústria manufatureira: China, EUA, UE, Japão e Índia.

Claro que esta situação psicológica e socialmente disfuncional tornou-se absolutamente necessária a um sistema em declínio. A desdolarização do mundo está em curso; a crise financeira é um facto que EUA e UE não mostram ter capacidade de controlar; o armamento da Rússia – e também da China – é qualitativamente superior ao ocidental; o VA do produto industrial da China ultrapassou o dos EUA e UE somados. (Financial Times)

Mas é preciso que as pessoas não tenham ideia destas situações, nem das desigualdades, nem de como a inflação é gerada e como as crises e a guerra aumentam os lucros dos grandes oligopólios. É por isto que a realidade tem de ser ofuscada, com gente muito inteligente a dizer-nos que insistir em lucros excessivos é um disparate porque 99% das empresas são MPME…

Mas não é só nos media, nas redes sociais aparecem textos no mesmo sentido da propaganda, absolutamente idênticos, postados nas mesmas alturas, dispersos em vários países como se obedecessem a uma central, ou talvez gerados por automatismos, para que certas versões da realidade passem por opinião generalizada.

Tudo isto contribui para o síndroma do consenso belicista, necessário para que nos países da UE/NATO se aceite reduzir o nível de vida e aumentar as despesas militares. Que se continue a dar dezenas de milhares de milhões de euros para combater a Rússia e “ajudar” a Ucrânia. Embora, o grosso da “ajuda” acabe em grande parte danificado ou destruído.

Implicitamente, querem que nos preparemos – e paguemos – uma longa guerra sem pensar nas consequências, já que pouco falta para que pensar criticamente seja proibido. Assim, a Alemanha e a França querem acabar com o direito de veto na UE. Estes países consideram importante abolir a votação unânime no CE em domínios como a política externa e a fiscalidade antes do alargamento da UE. Como dizia alguém, não é preciso estar certo, é preciso é ter bons argumentos. E para isso cá estão os media e seus pregadores, ditos “comentadores” e “analistas”.

3 – O patético papel da social-democracia

Como diz certa canção “escutei com atenção um tocador do passado”, também muito novo escutei com atenção um militante do passado falando acerca do fascismo. Disse-me, que era fácil saber o que é fascismo, o fascismo tem tudo o que é negativo, e a partir daqui explicou-me o que para o povo era positivo e o que era negativo.

Impedir que o povo, os trabalhadores, tomem por si clara consciência desta diferença é o papel básico dos media corporativos e seus “comentadores”. Seja na economia, no social, na política externa e geopolítica, o que vale é a “ordem internacional baseada em regras”.

Não há líder da UE/NATO que não se desloque a Kiev a prestar homenagem ao fantoche de serviço. Faz lembrar os atos medievais de profissão de fé e submissão a Roma perante delegados papais. Aqueles líderes repetem o credo estabelecido por Washington de que a Rússia iniciou uma guerra de agressão não provocada, há um claro agressor e um agredido, a Ucrânia vai vencer, as condições de paz são as de Zelensky, etc. Tudo o que se passou antes, desde a expansão da NATO ao golpe de 2014 e após, é dado como não existente. Nunca foi permitido um debate nem ouvida a opinião dos seus povos sobre a justeza e as consequências daquelas posições.

Neste contexto a social-democracia desempenha, como em tantas outras vezes, um papel reacionário contra a unidade popular visando o progresso social. Graças às suas mentiras eleitorais, com os interesses oligárquicos e geopolíticos imperialistas sobrepondo-se aos interesses nacionais e populares, a democracia cessa, fica o campo aberto à demagogia da extrema-direita fascizante ou mesmo fascista.

O branqueamento do nazismo do clã de Kiev, e também dos Estados Bálticos, é de grave responsabilidade da social-democracia. Monumentos à derrota do nazifascismo são destruídos e substituídos por criminosos nazis. Mas não só, livros são queimados, bustos de artistas consagrados são derrubados, pessoas são ameaçadas e perseguidas pela origem e fala russa ou por criticarem o clã de Kiev. Que a direita o omita não espanta, mas que a social-democracia se cale perante o retorno dos monstros nazis, para além da indignação infunde profunda tristeza.

Arrastada por incompetentes e tresloucados a UE afunda-se. Sem o mínimo nexo do que diz, motivada pela sua obsessão ideológica a sra. von der Leyen (já apontada como a Maria Antonieta da UE) afirma que a UE apoiará a Ucrânia até onde for necessário, “O futuro da Ucrânia é o nosso futuro. Estamos construindo esse futuro juntos, já hoje”. Eis o que ela reserva para os europeus da UE: um nada invejável futuro semelhante à vida dos ucranianos. (Ukraine Watch,  22/06) Por espantoso que pareça, é para lá que se caminha, é para onde esta gente nos leva, porque a oligarquia das grandes potências ocidentais nunca aceitou perder os escandalosos lucros que obteve com o saque após o fim da União Soviética.

Aos media compete esconderem o desmantelamento das ilusões do mundo unipolar liderado pelos EUA. Uma narrativa mantida sem contraditório e sem argumentos, bastando a ocultação de factos e inverdades. Escondem a rapidez com que a geopolítica se altera: o fracasso das sanções contra a Rússia levou a que noutros países a hegemonia ocidental seja contestada. A China lidera esta verdadeira revolução com a sua diplomacia nos países árabes, o alargamento dos BRICS, a ligação à Ásia central, etc.

No entanto, o caso Prigozhin mostra as contradições da política russa atual. Não pelas razões propaladas pelos media: os EUA e outros da NATO têm dezenas de empresas militares privadas que operaram em todos os seus cenários de guerra e estão também espalhadas por África, a “promover a paz e a democracia” (?!) dos interesses das grandes transnacionais.

As contradições da política russa residem na unidade nacional conseguida por Putin, facilitada pelo descalabro a que o liberalismo levou a Rússia e outras ex-republicas soviéticas. A Rússia precisa de unidade perante as ameaças expostas pela NATO. Porém a conciliação entre interesses oligárquicos e populares é transitória e sempre perante objetivos/ameaças bem definidas. A oligarquia, mesmo submetida ao poder do Estado representado por Putin, não deixa por natureza de olhar para o ocidente como o seu modelo – acabando por entrar em choque com os interesses nacionais e populares.

Atualmente, em termos históricos e culturais foi recuperado tanto o passado imperial czarista como o soviético. Para o povo russo hoje Estaline é tanto referência da grandeza russa como Pedro o Grande. Putin coloca-se ou é colocado como grande líder, acima das contradições existentes já evidenciadas por Sergey Glasiev e outros. Por mais carismática que uma personagem seja, não pode eliminar as contradições sociais, apenas menoriza-las – temporariamente.

Por ironia, afinal não foi Moscovo que começou a arder, mas sim a França – pelos que noutro país seriam elogiados “combatentes da liberdade”… Por tudo isto, num mundo que se mantém complexo e cada vez mais perigoso, “o mais importante, como nos diz Caitlin Johnstone, é continuar a dizer a verdade, de qualquer maneira nova, envolvente e criativa que possamos imaginar. Quanto mais de nós o fizermos, mais oportunidades haverá para alguém vislumbrar algo para além do véu que obscurece a sua visão do mundo, instalado pela propaganda e desvios cognitivos. Quanto mais criarmos essas oportunidades, maior a probabilidade da verdade ser ouvida”.

Fonte aqui


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