Em 9 de Abril de 2022, Zelensky preferiu a guerra à paz pelos motivos mais mesquinhos – Parte II

(José Catarino Soares, 12/02/2024)

Valodymyr Zelensky, fotografado em 9 de Abril de 2022, o dia em que tomou a decisão mais vil da sua carreira política e a mais desastrosa para os destinos da Ucrânia.

  1. Introdução 

Em 12 de Dezembro de 2023, publiquei um extenso artigo, intitulado: “Em 9 de Abril de 2022, Zelensky preferiu a guerra à paz pelos motivos mais mesquinhos” (ver aqui). Nesse artigo, divulguei e interpretei dois testemunhos de peso de um facto da máxima relevância ‒ aquele que é enunciado no título do artigo ‒ que o sistema mediático dominante da comunicação social em Portugal não achou por bem dar a conhecer ao público português.

Neste artigo, que é a continuação do artigo de 12-12-2023, divulgo e interpreto mais dois testemunhos de peso, mais recentes, relativos a esse mesmo facto, os quais, uma vez mais (salvo melhor inventariação), o sistema mediático dominante da comunicação social em Portugal não se dignou dar a conhecer ao público português.

Isto, não obstante a sua enorme importância para a boa compreensão das duas guerras na Ucrânia — a que começou em 13 de Abril de 2014 (entre a Ucrânia e as então recém-proclamadas Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk na região da Donbass) e a que começou em 24 de Fevereiro de 2022, entre a Rússia e a Ucrânia, com a “Operação Militar Especial” (OME) da Rússia, antes de se fundirem, militarmente, uma com a outra em Fevereiro de 2023.

Como o artigo é muito extenso, vou dividi-lo em 4 partes (2.ª, 3.ª, 4.ª, 5.ª) para facilitar a sua leitura. Esta é a 2.ª parte, já que o artigo de 12-12-2023 passou a ser a 1.ª parte por retroacção.

2. Lembrete

Os testemunhos a que me referi no artigo de 12 de Dezembro de 2023 são declarações públicas de duas pessoas: (i) Davyd Arakhamia, chefe do grupo parlamentar do partido Servente do Povo (o partido  fundado pelo presidente Volodymyr Zelensky) e chefe da delegação da Ucrânia nas negociações com a Rússia que tiveram lugar na segunda quinzena de Março de 2022, na Turquia, com vista a alcançar um acordo de paz entre os dois países; (ii) Gerhard Schröeder, ex-chanceler da Alemanha (1998-2005), que participou nessas negociações como mediador, a pedido da Ucrânia.

Estes dois homens declararam ambos, publicamente ‒ em 24 de Novembro de 2023 e 21 de Outubro de 2023, respectivamente (cf. fontes indicadas no artigo referido na Introdução) ‒ que a Ucrânia e Rússia tinham chegado a um acordo para pôr termo ao conflito armado entre ambas em Março-Abril de 2022 e que esse acordo de paz era, atendendo às circunstâncias, altamente favorável à Ucrânia.

3. As bases do acordo de Março-Abril de 2022

Porquê? Porque as principais exigências de que a Rússia não abria mão eram (a) a adopção pela Ucrânia de um estatuto de neutralidade político-militar (semelhante, por exemplo, ao da Áustria); e (b) a sua desvinculação total da OTAN (NATO em Inglês). Por outras palavras, a Ucrânia renunciaria a todos os acordos actuais com a OTAN e a qualquer plano futuro de adesão à OTAN, e comprometer-se-ia a não instalar armas nucleares (de fabrico próprio ou alheio) no seu território, nem acolher instalação de bases militares estrangeiras ou contingentes de tropas estrangeiras no seu território.  Repare-se que, para cumprir esta parte do acordo, a Ucrânia teria, entre outras coisas, de revogar três artigos da sua Constituição (os artigos 85, 102 e 116) que prescrevem aos seus órgãos de governação a obrigação de tudo fazerem para a Ucrânia ser aceite como Estado-membro de pleno direito da OTAN.

Em troca, (i) ser-lhe-iam dadas garantias de segurança por vários Estados (como, por exemplo, os EUA, o Reino Unido e a França [membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU] a Turquia, a Alemanha, o Canadá, a Itália e Israel — segundo declarações feitas na altura por Davyd Arakhamia à imprensa, por Mykhailo Podolyak no Tweeter e segundo o testemunho de Schröeder em 21 de Outubro de 2023) ; (ii) haveria um cessar-fogo imediato; (iii) a Rússia abdicaria do objectivo da “desmilitarização” da Ucrânia [entender: a redução das suas Forças Armadas à  porção côngrua] e (iv) retiraria as suas tropas para fora das fronteiras da Ucrânia em 23 de Fevereiro de 2022 (que, convém lembrar, não abrangiam uma parte da Donbass [a parte pertencente às Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk] e a Crimeia) [1].

O acordo previa ainda (??) [2], por proposta da Ucrânia, mais de uma década de negociações posteriores para discutir questões litigiosas (Crimeia [incluindo Sebastopol] e Donbass) sobre as quais as duas partes tinham e têm entendimentos antagónicos. Segundo o testemunho de Schröeder, a Crimeia estava fora de questão por ser há séculos parte do território e da história da Rússia: a Rússia nunca abdicaria dela [3]. Mas estaria disposta negociar um estatuto autonómico para a população russa, russófona e russófila da Donbass no âmbito da Ucrânia. Mais concretamente (segundo o testemunho de Schröeder), as Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk, onde vive uma grande parte dessa população, obteriam um estatuto de autonomia no seio da Ucrânia semelhante à do Tirol do Sul em relação à Itália, que garantiria os seus direitos linguísticos, culturais, legislativos e administrativos.

Para se entender esta proposta, convém saber que o Alemão é, a grande distância, o idioma maioritário do Tirol do Sul (também conhecido como Província Autónoma de Bolzano ou Alto-Ádige), seguido do Italiano, o idioma maioritário na Itália. As línguas alemãs e italiana são ambas línguas oficiais em todo o Tirol do Sul — tal como eram o Russo e o Ucraniano na Donbass e nos demais oblasti russófonos e russófilos do Leste e Sul da Ucrânia, antes do golpe de Estado de Maidan (Fevereiro de 2014). No Tirol do Sul, o ladino (um idioma românico muito minoritário) é também oficial em algumas comunas. Todos os cidadãos do Tirol do Sul têm o direito de se exprimir na sua língua materna nas suas relações com a administração pública e com os órgãos autonómicos de poder, inclusive nos tribunais e perante um juiz. Existem escolas separadas para cada grupo linguístico e a sinalética do espaço público (edifícios públicos, repartições administrativas, sinais de trânsito, etc.) e semipúblico (lojas, restaurantes, cinemas, etc.) é quase inteiramente bilingue ou, por vezes, trilingue.

Repare-se que para acolher uma autonomia da Donbass (Repúblicas de Donetsk e Lugansk) semelhante à do Tirol do Sul, a Constituição da Ucrânia teria de ser profundamente revista, como, aliás, estava já previsto no artigo 11 do Acordo de Minsk-2 (2015), mas que a Ucrânia nunca cumpriu [4]

3. Mais duas testemunhas de peso

Relativamente às negociações de paz entre a Ucrânia e a Rússia que tiveram lugar na Turquia em Março-Abril de 2023, entraram em cena recentemente mais duas testemunhas de peso: Oleksandr Chaliy e Oleksiy Arestovych.

Istambul, 29 de Março de 2022. Na foto vêm-se vários membros da delegação ucraniana nas negociações russo-ucranianas. O primeiro homem a contar da esquerda, é o embaixador Oleksandr Chaliy; o segundo homem é Davyd Arakhamia, chefe dessa delegação e chefe do grupo parlamentar do partido Servente do Povo (o partido fundado pelo presidente Volodymyr Zelensky); o quarto homem é Mykhailo Podolyak, assessor do chefe do Gabinete do Presidente da Ucrânia; o quinto homem é Rustem Umierov, actual ministro da Defesa da Ucrânia. Não consegui identificar o terceiro homem. Foto: Lokman Akkaya/Anadolu Agency via Getty Images.

3.1. Oleksandr Chaliy

Oleksandr Chaliy é um embaixador veterano que foi primeiro vice-Ministro dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia, Secretário de Estado para a Integração Europeia e Conselheiro para a Política Externa do Presidente da Ucrânia. Actualmente, Chaliy é Presidente da Grant Thornton (uma empresa multinacional de auditoria, fiscalidade e consultoria) na Ucrânia e membro do Painel de Personalidades Eminentes da Organização de Segurança e Cooperação Europeia (OSCE), para onde foi nomeado em 2014. Foi um dos membros da delegação da Ucrânia nas negociações com a Rússia que tiveram lugar na Turquia, em Março-Abril de 2022.

3.2. Oleksiy Arestovych

Oleksiy Arestovych é um major (?) ou tenente-coronel (?) na reserva [5] que trabalhou, entre 1994 e 2005, na Direcção Central de Informações do Ministério da Defesa da Ucrânia (um serviço secreto de informações do governo, não do Estado-Maior General das Forças Armadas da Ucrânia). Quando a população russa, russófona e russófila dos oblasti do Leste e do Sul da Ucrânia (i) se revoltou contra o golpe de Estado de Maidan (Fevereiro de 2014) que derrubou o presidente eleito Viktor Yanukovytch e contra a abolição pelos golpistas do Russo como idioma co-oficial (juntamente como o Ucraniano) nesses oblasti e (ii) proclamou, na região da Donbass, as Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk, Arestovych ‒ segundo o seu próprio relato ‒ juntou-se à guerra da Ucrânia contra os revoltosos, participando em 33 missões de combate  [6].

Em 28 de Outubro de 2020, Arestovych foi nomeado conselheiro para a política de informação e porta-voz oficial da delegação ucraniana no Grupo de Contacto Trilateral sobre a Ucrânia nas conversações de Minsk sobre a resolução da guerra na Donbass. Em 1 de Dezembro de 2020, o Chefe do Gabinete do Presidente Zelensky, Andriy Yermak, nomeou Oleksiy Arestovych como seu conselheiro para as comunicações estratégicas no domínio da segurança e defesa nacional. Arestovych exerceu este cargo até Janeiro de 2023, altura em que se demitiu. Após o início da invasão da Ucrânia em 2022 pela Rússia, Arestovych tornou-se internacionalmente conhecido por uma recomendação e uma profecia que fez, com o maior cinismo, durante uma entrevista ao canal de televisão ucraniano “Apostrophe.ua,” em 18 de Fevereiro de 2019.

[continua]


Notas e Referências

[1] Este relato foi também corroborado, um tanto surpreendentemente, por um artigo de Fiona Hill (ex-directora sénior para a Europa e a Rússia do Conselho Nacional de Segurança dos EUA) e Angela Stent (directora do Centro de Estudos Eurasianos, Russos e do Leste Europeu da Universidade Georgetown, em Washington D.C). No meio das suas muitas lucubrações fantasistas sobre Putin e a Rússia, alimentadas pela sua proverbial russofobia, a senhora Hill e sua colega Stent confidenciam-nos que obtiveram informações fidedignas junto de «múltiplos ex-dignitários americanos» [entenda-se: membros do Conselho Nacional de Segurança, CIA e Pentágono que continuam no activo, mas que fazem questão em falar como se estivessem reformados] com quem falámos em Abril de 2022» sobre o que estava a passar nas negociações entre a Ucrânia e Rússia. E ficaram a saber o seguinte: «Os negociadores russos e ucranianos parecem ter chegado a um acordo provisório sobre as linhas gerais de um acordo provisório negociado: a Rússia regressaria à sua posição de 23 de Fevereiro, quando controlava parte da região da Donbass e toda a Crimeia, e, em troca, a Ucrânia prometeria não procurar adesão à NATO e, em vez disso, receberia garantias de segurança de uma série de países» (Fiona Hill & Angela Stent, “The World Putin Wants: How Distortions About the Past Feed Delusions About the Future”. Foreign Affairs, September/October 2022). Apesar de reconhecerem os factos essenciais do acordo de Março-Abril de 2022 entre a Rússia e a Ucrânia, convém não deixar passar em silêncio as imprecisões destas duas autoras. Não era a Rússia que “controlava parte da região da Donbass” em 23 de Fevereiro de 2022, mas a República Popular de Donetsk (RPD) e a República Popular de Lugansk (RPL). Estas duas repúblicas separaram-se da Ucrânia em 2014 e os seus cidadãos expressaram livremente, por grande maioria, a sua vontade de fazer parte da Federação Russa em dois referendos: um realizado em 11 de Maio de 2014, na RPD e na RPL, e o outro realizado em 23-27 de Setembro de 2022 nas mesmas repúblicas. A adesão à Federação Russa só ocorreu, porém, na sequência do último referendo, oito anos depois do primeiro. Também não é exacto dizer que a Rússia “controlava toda a Crimeia” em 23 de Fevereiro de 2022 (seria semelhante a dizer que “Portugal controla o arquipélago da Madeira” ou que “Portugal controla o Arquipélago dos Açores”, em vez de dizer que “a Madeira e os Açores são regiões autónomas de Portugal”). O que é exacto é dizer que a Crimeia é, desde 2014, uma república autónoma da Federação Russa, por vontade maioritária dos Crimeus, expressa num referendo realizado em 16 de Março de 2014.

[2] Pus dois pontos de interrogação a seguir a “o acordo previa ainda” porque desconhecemos o teor exacto, literal e completo desse acordo, conhecido como “Comunicado de Istambul”. Michael Von Der Schulenburg, ex-Secretário Geral Adjunto da ONU, referiu, em 6 de Março de 2022, que esse acordo tinha 15 artigos (“Ukraine: we need peace now”, https://michael-von-der-schulenburg.com/ukraine-we-need-peace-now/). Por sua vez, a jornalista independente russa Farida Rustamova, que não nutre qualquer simpatia por Putin e pelo seu regime, publicou o que diz ser o texto completo desse acordo, na versão entregue pela delegação ucraniana à delegação russa em 29 de Setembro de 2022, em Istambul (“Ukraine’s 10-point plan”, Faridaily, Mars 29, 2022 [substack.com/@faridaily]. Mas Vladimir Putin afirmou no seu encontro com a delegação africana de 17 de Junho de 2023, que o acordo final de Istambul, assinado pelos chefes de ambas as delegações, tinha 18 artigos. Não pode, por conseguinte, tratar-se (pelo menos parcialmente) do mesmo documento de 15 artigos referido por Schulenburg, nem do documento de 10 artigos publicado por Rustamova. Teremos de aguardar a publicação do documento exibido por Putin para termos uma avaliação mais completa e exacta desse acordo.

[3] Elucidei as razões dessa posição da Rússia no capítulo 3 [A colossal patranha da anexação da Ucrânia pela Rússia] do meu livro Dissipando a Névoa Artificial da Guerra: Um roteiro para o fim da guerra na Ucrânia, a paz na Europa e o desarmamento nuclear universal (Editora Primeiro Capítulo, Agosto de 2023).

[4] Sobre este assunto, ver José Catarino Soares, op.cit., pp.11-12.

[5] A entrada “Oleksiy Arestovych” da Wikipedia (edição em Inglês) afirma que Arestovych é tenente-coronel. Porém, uma outra fonte, o jornalista ucraniano Dmytro Oliinyk, afirma que ele é major (“Zelenskyi’s spokesperson: soldier, actor, psychologist, propagandist.” OpenDemocracy, 26 April 2022). Daí os pontos de interrogação entre colchetes.

[6] «Tal como Zelenskyi, Arestovych também tem um passado de actor, tendo trabalhado no teatro, em anúncios publicitários e em filmes durante as décadas de 1990 e 2000. A partir de 2000, realizou seminários e acções de formação em psicologia, inscreveu-se na escola do psicólogo e astrólogo russo Absalom Podvodny e estudou teologia no Instituto de Ciências Religiosas São Tomás de Aquino, em Quieve. A combinação de competências militares, de representação e psicológicas de Arestovych ajudou-o a tornar-se um bloguista de sucesso na década de 2010. Após a revolução ucraniana de 2014, apresentou-se como especialista militar, aparecendo na televisão e noutros meios» (Dmytro Oliinyk, op.cit.).


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Raimundo bom, Anselmo ainda melhor!

(Tiago Franco, in Facebook, 11/02/2024)

Eu espero que, no próximo governo de direita, Anselmo Crespo tenha um lugar de destaque. Porta-voz de grupo parlamentar, assessor de ministro, epá qualquer coisa, porque é merecido.

O que este homem faz no comentário político está ao nível de um Pedro Guerra ou Aníbal Pinto nos lagares noturnos sobre bola da CMTV.

Notem que eu compreendo que um deputado seja tendencioso na análise política. Não espero que Marques Mendes, Bernardino Soares, Catarina Martins, Lobo Xavier ou o Relvas das 4 cadeiras façam uma crítica isenta. É normal que falem com o casaco de político vestido. Mas um painel de jornalistas, noite após noite, sempre a tentar influenciar a  opinião pública com análises absolutamente tendenciosas, é algo que me irrita profundamente.

A não ser que aceitemos, de bom grado, que as opiniões na praça pública sejam apenas de um espectro político e tudo bem. Metade do país desliga a televisão e fala entre si.

Vi o debate entre Paulo Raimundo e Montenegro apenas hoje. Nas ilhas dos Açores (ou naquele sítio fora da República, se preferirem) o carnaval dura um mês, pelo que esta azáfama com eleições chega na altura errada.

Sobre a oratória de Paulo Raimundo já falei ontem, noutro artigo (ver aqui), e li as críticas feitas a um texto que acabou por ser lido por mais gente que eu imaginava.

As minhas expectativas para o debate eram por isso pequenas, apesar de achar Montenegro muito fraco nestas lides da argumentação. Mas enganei-me. Paulo Raimundo apareceu melhor, com algum trabalho feito e com o raciocínio estruturado.

Raimundo não consegue cativar pela eloquência da palavra e usa, de forma aflitiva, bengalas gramaticais. Em cada tema não podemos ter, “este é que é o grande problema”. Porque se for esse, já não pode ser o seguinte ou o anterior. Continua sem conseguir “atirar a matar” quando os adversários abrem a carreira de tiro. João Adelino Faria passou-lhe a casca de banana na história do aeroporto, que Montenegro mordeu e, Raimundo podia ter aproveitado para lhe dizer que, o aeroporto e a nova comissão, saída da cabeça de Montenegro, mostram a falta de palavra do PSD e os fretes aos grupos privados.

Ainda assim, Paulo Raimundo, como dizem os brasileiros, optou por feijão com arroz. Bola no pé, toca e foge, ideias simples mas concretas. Em 3 palavras: passou a mensagem.

Teve a ajuda de Luís Montenegro que patinou na história das pensões. Raimundo disse-lhe duas vezes que o PSD promete agora, não só o que cortou no passado (pensões), como também aquilo que votou contra no parlamento (proposta do PCP).

Ficou claro, para quem ouviu, que as pensões são uma promessa eleitoral para o PSD e não mais do que isso. Porque se assim não fosse, teriam votado favoravelmente no parlamento. A vida nestas coisas é muito simples e o que parece, é.

Montenegro voltou a ficar entalado com o apoio ao PS no congelamento da carreira docente, embora agora andem a prometer mundos e fundos aos professores. Eles, com Luís Montenegro como líder da bancada parlamentar, que disseram a estes mesmos professores que não fossem piegas e emigrassem.

O mesmo aconteceu com os benefícios fiscais dados às maiores empresas e onde Raimundo disse que se poderia ir buscar o dinheiro para as pensões. Nem com a insistência do moderador Montenegro conseguiu responder se taxaria o lucro excessivo. Vá lá, vá lá que, pelo menos, ao contrário dos seus parceiros de coligação (CDS) não disse que desconhecia o conceito de lucro excessivo.

Até a realização do debate à distância favoreceu Paulo Raimundo porque deixou Montenegro a reclamar por respostas que já tinham sido dadas.

No fim dos 25 minutos ficámos com a ideia do que Raimundo queria falar:

1) encostar o PSD aos cortes da ultima década e aos apoios ao PS no ataque aos trabalhadores; 2) aumento de pensões e salários à custa dos benefícios dados hoje ao capital. A ideia de que é para fazer hoje e não amanhã, passou.

Montenegro ficou na maionese nas pensões e quando chegou aos salários, deixou tudo para previsões de crescimento. Ou seja, ZERO de justiça fiscal e a continuação dos benefícios aos mais ricos. Em suma, o programa de sempre do PSD.

Paulo Raimundo ainda acabou com chave de ouro, explicando que o PSD não ficou com grandes bandeiras porque até isso o PS lhes levou. Voltou a encostar Montenegro à descida do IRC para os grandes grupos económicos. Montenegro não respondeu e voltou a perder tempo a falar de unicórnios.

Tal como na história do aeroporto. Raimundo respondeu em 5 segundos: Alcochete e está a andar. Montenegro voltou a meter os pés e a não assumir mais do que novas comissões e ajudas à Vinci.

Com discurso simples, sem qualquer agressividade, mas também sem perder o controlo emocional, Paulo Raimundo deixou claro que Montenegro promete coisas que nunca quis corrigir. É isso que passa deste debate. E corre particularmente mal a Montenegro porque ele é muito mais experimentado e beneficiou de “ataques suaves” de Paulo Raimundo. Um político tarimbado teria atropelado Montenegro.

Ora…no fim disto tudo como é que o belo do Anselmo “arremata” a coisa? Mau para Raimundo, bom para Montenegro. Mas “bom sem ser brilhante”, acrescenta o “jornalista”.

E não é para menos, digo eu. Para brilhante, como poucos, já cá temos o nosso Anselmo. Tudo o que não seja porta-voz do governo será derrota. É muito suor.


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Os assassínios no PREC

(Nuno Ramos de Almeida, in Diário de Notícias, 11/02/2024)

Sede do PCP, no norte do país, destruída em 1975

Nélson Teixeira foi o único dos quatro filhos de Rosinda Teixeira que dormiu em casa na madrugada de sexta-feira, 21 de maio de 1976. A família morava no lugar de Arnozela, São Martinho do Campo, localidade no meio do coração das populações dos operários da indústria têxtil.

A bomba explodiu às três horas da manhã e foi tão potente que se ouviu a 50 quilómetros de distância.

Os pais de Nélson foram projetados para fora da cama. O soalho deu de si, a casa ficou toda em chamas. O filho tentou entrar no quarto dos pais. Tentou forçar a porta sem sucesso. “Só me lembro de escutar a minha mãe a dizer ‘ai, Jesus’. Foram as últimas palavras que lhe ouvi.”

Em São Martinho do Campo (Santo Tirso), a 21 de Maio de 1976, Rosinda Teixeira morreu na sequência de uma bomba colocada na sua casa por Ramiro Moreira. O marido tinha simpatias de esquerda.

O fogo envolvia tudo. Ainda teve forças para abrir a janela e cair desamparado. O corpo do pai tombou também do parapeito da janela, parecendo um homem-tocha. Ficaram ambos a arder entre a erva e as couves. António Teixeira , 49 anos na altura, ficou com queimaduras de terceiro grau. A mãe, Rosinda Teixeira, morreu nas chamas.

Os explosivos plásticos tinham sido postos por baixo do quarto do casal. Um engenho idêntico ao que tinha deflagrado, uma semana antes, na Embaixada de Cuba em Lisboa, matando duas pessoas.

O homem que tinha perpetrado o atentado em São Martinho do Campo, um dos muitos que cometeu, era Ramiro Moreira, antigo segurança do PPD (atual PSD), e em algumas dessas ações acompanhara-o Manuel Macedo, dirigente do MDLP. Moreira foi militante n.º 7 do PPD e responsável da segurança; foi expulso por Sá Carneiro, em novembro de 1975, por pertencer ao MDLP.

O atentado de São Martinho do Campo fora “encomendado”  a essa organização por um industrial da zona. O alvo era o operário têxtil e pai de Nélson.

“António Teixeira, marido de Rosinda, a vítima mortal na noite fatídica de maio de 1976, começara a trabalhar para ele [esse empresário] em 1949 e notara a grosseria dos modos, os maus-tratos aos empregados, o assédio sexual às operárias. ‘Ele chamava ao gabinete as que lhe interessavam, mas muitas não lhe davam hipótese. Chegava a agredi-las à chapada na frente de toda a gente’, ilustra Nélson Teixeira [filho da mulher assassinada], a partir de histórias escutadas ao pai e a outros empregados. O descaro incluía mulheres grávidas e casadas, ouvir-se-ia mais tarde em tribunal”, relata Miguel Carvalho no seu livro Quando o Portugal Ardeu, em que se investigam os crimes da rede bombista de extrema-direita responsável por muitos assassínios durante o PREC.

Ataque a uma sede do PCP no norte do país em 1975. Fonte: Ephemera – Biblioteca e Arquivo de José Pacheco Pereira

“Os vários ‘exércitos’ da contrarrevolução, alguns avulsos, foram responsáveis por 566 ações violentas no país entre maio de 1975 e abril de 1977, uma média de 24 atos de terrorismo por mês, quase um por dia, causando mais de 10 mortes e prejuízos incalculáveis no património de vítimas e instituições. Os partidos de esquerda, como o PS, com o PCP à cabeça, foram os alvos preferenciais de quase 80% das bombas incendiárias, espancamentos, apedrejamentos e atentados a tiro”, contabiliza Miguel Carvalho no seu livro.

Uma das estruturas responsável por esta dezena de assassínios e quase 600 ações terroristas nos anos depois da revolução foi o MDLP, a que pertenceu o antigo deputado do Chega Diogo Pacheco de Amorim. A organização foi condenada em tribunal pelo assassínio do padre Max e da estudante  Maria de Lurdes.

Quando, no debate entre os líderes do PCP e do Chega, André Ventura resolve acusar o PCP de inúmeros assassínios no PREC, está visivelmente a tentar desviar a atenção das acusações de Paulo Raimundo, bastante mais verdadeiras, do seu apoio às medidas contra reformados e trabalhadores durante os governos de Passos Coelho.

Ventura não ficou por aqui, finalizando a sua intervenção a dizer que todas as situações em que o PCP esteve no poder “acabaram em morte, em roubo e destruição”.

A verdade é que, no caso dos anos posteriores à Revolução de Abril de 1974, pode André Ventura procurar os cúmplices destes atos dentro do seu próprio partido. 
O MDLP estava ao serviço de certos empresários para castigar operários e até pôr bombas, como em São Martinho do Campo. O Chega é mais prosaico, recebe dinheiro de um conjunto largo de  grandes patrões, mas é mais para confundir as coisas e fazer uma muralha de fumo, em que a pequena corrupção permita escapar a grande corrupção não criminalizada dos interesses instalados em Portugal.

Durante os governos da troika que André Ventura apoiou, um conjunto de empresas estratégicas foi alienado por meia dúzia de patacos. Em poucos anos, a REN, EDP e ANA deram dividendos milionários, que permitiram pagar o dinheiro que custaram aos grupos empresariais que as compraram. Várias inspeções do Tribunal de Contas concluíram que o Estado e os contribuintes foram privados de uma enorme riqueza. Tudo isto foi feito com o silêncio, na altura, do atual líder do Chega.

Como é também verdade que ficou mudo perante os cortes às remunerações dos reformados, polícias, professores e trabalhadores nos anos do governo de Passos Coelho.

É isso que ele não soube explicar durante o debate com Paulo Raimundo e que o levou a reescrever a história dos anos que se seguiram à revolução, inventando coisas.

Ventura sabe que a mentira, por mais que seja mentira, é mais difícil de corrigir do que de propagar. Aprendeu isso com Bolsonaro e com a extrema-direita de outros países.


Sobre este tema pode seguir ainda os seguintes links:

https://media.rtp.pt/memoriasdarevolucao/acontecimento/a-violencia-e-uma-arma

https://setentaequatro.pt/wiki/plano-maria-da-fonte

https://www.jornaldenegocios.pt/weekend/detalhe/portugal-a-lei-da-bomba


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