Os assassínios no PREC

(Nuno Ramos de Almeida, in Diário de Notícias, 11/02/2024)

Sede do PCP, no norte do país, destruída em 1975

Nélson Teixeira foi o único dos quatro filhos de Rosinda Teixeira que dormiu em casa na madrugada de sexta-feira, 21 de maio de 1976. A família morava no lugar de Arnozela, São Martinho do Campo, localidade no meio do coração das populações dos operários da indústria têxtil.

A bomba explodiu às três horas da manhã e foi tão potente que se ouviu a 50 quilómetros de distância.

Os pais de Nélson foram projetados para fora da cama. O soalho deu de si, a casa ficou toda em chamas. O filho tentou entrar no quarto dos pais. Tentou forçar a porta sem sucesso. “Só me lembro de escutar a minha mãe a dizer ‘ai, Jesus’. Foram as últimas palavras que lhe ouvi.”

Em São Martinho do Campo (Santo Tirso), a 21 de Maio de 1976, Rosinda Teixeira morreu na sequência de uma bomba colocada na sua casa por Ramiro Moreira. O marido tinha simpatias de esquerda.

O fogo envolvia tudo. Ainda teve forças para abrir a janela e cair desamparado. O corpo do pai tombou também do parapeito da janela, parecendo um homem-tocha. Ficaram ambos a arder entre a erva e as couves. António Teixeira , 49 anos na altura, ficou com queimaduras de terceiro grau. A mãe, Rosinda Teixeira, morreu nas chamas.

Os explosivos plásticos tinham sido postos por baixo do quarto do casal. Um engenho idêntico ao que tinha deflagrado, uma semana antes, na Embaixada de Cuba em Lisboa, matando duas pessoas.

O homem que tinha perpetrado o atentado em São Martinho do Campo, um dos muitos que cometeu, era Ramiro Moreira, antigo segurança do PPD (atual PSD), e em algumas dessas ações acompanhara-o Manuel Macedo, dirigente do MDLP. Moreira foi militante n.º 7 do PPD e responsável da segurança; foi expulso por Sá Carneiro, em novembro de 1975, por pertencer ao MDLP.

O atentado de São Martinho do Campo fora “encomendado”  a essa organização por um industrial da zona. O alvo era o operário têxtil e pai de Nélson.

“António Teixeira, marido de Rosinda, a vítima mortal na noite fatídica de maio de 1976, começara a trabalhar para ele [esse empresário] em 1949 e notara a grosseria dos modos, os maus-tratos aos empregados, o assédio sexual às operárias. ‘Ele chamava ao gabinete as que lhe interessavam, mas muitas não lhe davam hipótese. Chegava a agredi-las à chapada na frente de toda a gente’, ilustra Nélson Teixeira [filho da mulher assassinada], a partir de histórias escutadas ao pai e a outros empregados. O descaro incluía mulheres grávidas e casadas, ouvir-se-ia mais tarde em tribunal”, relata Miguel Carvalho no seu livro Quando o Portugal Ardeu, em que se investigam os crimes da rede bombista de extrema-direita responsável por muitos assassínios durante o PREC.

Ataque a uma sede do PCP no norte do país em 1975. Fonte: Ephemera – Biblioteca e Arquivo de José Pacheco Pereira

“Os vários ‘exércitos’ da contrarrevolução, alguns avulsos, foram responsáveis por 566 ações violentas no país entre maio de 1975 e abril de 1977, uma média de 24 atos de terrorismo por mês, quase um por dia, causando mais de 10 mortes e prejuízos incalculáveis no património de vítimas e instituições. Os partidos de esquerda, como o PS, com o PCP à cabeça, foram os alvos preferenciais de quase 80% das bombas incendiárias, espancamentos, apedrejamentos e atentados a tiro”, contabiliza Miguel Carvalho no seu livro.

Uma das estruturas responsável por esta dezena de assassínios e quase 600 ações terroristas nos anos depois da revolução foi o MDLP, a que pertenceu o antigo deputado do Chega Diogo Pacheco de Amorim. A organização foi condenada em tribunal pelo assassínio do padre Max e da estudante  Maria de Lurdes.

Quando, no debate entre os líderes do PCP e do Chega, André Ventura resolve acusar o PCP de inúmeros assassínios no PREC, está visivelmente a tentar desviar a atenção das acusações de Paulo Raimundo, bastante mais verdadeiras, do seu apoio às medidas contra reformados e trabalhadores durante os governos de Passos Coelho.

Ventura não ficou por aqui, finalizando a sua intervenção a dizer que todas as situações em que o PCP esteve no poder “acabaram em morte, em roubo e destruição”.

A verdade é que, no caso dos anos posteriores à Revolução de Abril de 1974, pode André Ventura procurar os cúmplices destes atos dentro do seu próprio partido. 
O MDLP estava ao serviço de certos empresários para castigar operários e até pôr bombas, como em São Martinho do Campo. O Chega é mais prosaico, recebe dinheiro de um conjunto largo de  grandes patrões, mas é mais para confundir as coisas e fazer uma muralha de fumo, em que a pequena corrupção permita escapar a grande corrupção não criminalizada dos interesses instalados em Portugal.

Durante os governos da troika que André Ventura apoiou, um conjunto de empresas estratégicas foi alienado por meia dúzia de patacos. Em poucos anos, a REN, EDP e ANA deram dividendos milionários, que permitiram pagar o dinheiro que custaram aos grupos empresariais que as compraram. Várias inspeções do Tribunal de Contas concluíram que o Estado e os contribuintes foram privados de uma enorme riqueza. Tudo isto foi feito com o silêncio, na altura, do atual líder do Chega.

Como é também verdade que ficou mudo perante os cortes às remunerações dos reformados, polícias, professores e trabalhadores nos anos do governo de Passos Coelho.

É isso que ele não soube explicar durante o debate com Paulo Raimundo e que o levou a reescrever a história dos anos que se seguiram à revolução, inventando coisas.

Ventura sabe que a mentira, por mais que seja mentira, é mais difícil de corrigir do que de propagar. Aprendeu isso com Bolsonaro e com a extrema-direita de outros países.


Sobre este tema pode seguir ainda os seguintes links:

https://media.rtp.pt/memoriasdarevolucao/acontecimento/a-violencia-e-uma-arma

https://setentaequatro.pt/wiki/plano-maria-da-fonte

https://www.jornaldenegocios.pt/weekend/detalhe/portugal-a-lei-da-bomba


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Cartas portuguesas a Ludwig Pan, geólogo e agrimensor na Austrália

(José Pacheco Pereira, in Sábado, 23/12/2015)

Autor

Pacheco Pereira

Meu caro Pan,

nem imaginas a reviravolta que se deu no meu país, que tu, na tua encarnação esquerdista, começaste a visitar nos idos de 1975. Imagina que há quem na nossa direita mais ignorante ache que voltamos ao PREC e não lhe cai o céu ou uma pedra em cima. Devias vir cá tu explicar-lhes o PREC, que te levou junto com uns bizarros germanos a ir cavar para a Unidade Colectiva de Produção Viva o Comunismo, debaixo dos olhares divertidos dos trabalhadores rurais de Baleizão, a terra da Catarina. Sabias que em Baleizão houve uma zanga numa taberna com uns trabalhadores de Campo Maior sobre qual seria a genuína “Moscovo do Alentejo”? Sabias que há imensas Catarinas de nome nestes anos para honrar a camponesa baleizoeira? Isso é que era o PREC, folclore, drama, ingenuidade, esperança, cinismo, malvadezas, bondades, violência, desejo, ignorância, interesses, oportunidades e oportunismos, mas foi desse magma, mais o 25 de Novembro, mais a heróica declaração de Melo Antunes, mais a força telúrica do Soares, a habilidade de Cunhal, que nasceu a nossa democracia. Filhos do 25 de Abril, filhos do PREC, filhos do 25 de Novembro.

Pois agora nem PREC, nem sequer PRECinho, mas outra coisa. Os de cima estavam convencidos que continuavam em cima. Tinham vindo por aí abaixo numa derrocada de votos até travarem no mínimo exigido para continuarem a mandar. Tinham ganho relativamente, mas tinham perdido o absoluto. E eles sem o absoluto ficavam nus e hirtos. E o absoluto vingou-se, mudou de campo. Tinham semeado tanta coisa má, tanto vento, tanta cizânia, tanta miséria ética e física, tanto engano, que deram origem a um verdadeiro milagre. Contra eles, formou-se a tempestade perfeita, o absoluto tirou-os do patamar onde a queda os tinha sustido, despidos de centenas de milhares de votos, mas mesmo assim com bastantes e fê-los descer a escada para o Inferno. Pensavam estar seguros e usar a chantagem de sempre para mobilizar ao seu serviço uma coisa que por cá se chama “arco de governação”. Quem passa por baixo do arco é um partido de primeira, quem não passa um partido de segunda. Pois o “pó” que a maioria dos portugueses que votaram lhes tinha era tão grande que juntou tudo no contra, do partido radical chique ao partido da classe operária, com os pacíficos professores e funcionários socialistas. Havia demasiada gente que tinha levado tanta pancada que nem as ilusões da propaganda repetida dia a dia, hora a hora, a salvou. Houve uma fronda e PAF!

Por isso, meu bom Pan, nem com as tuas qualidades de agrimensor, agora à procura de ouro por essas Austrálias, poderias imaginar a volta que isto deu. Está tudo colado a fita -cola, tudo muito frágil, mas a construção é tão inesperada como Nossa Senhora a descer dos céus, já não para os crédulos pastorinhos, mas para a ala pura e dura de uma manifestação da CGTP.

E se Nossa Senhora da Esquerda desceu resplendorosa para o “povo de esquerda”, o da direita acha que foi Belzebu e o seu coro de demónios, personificado nas meninas “esganiçadas” do Bloco de Esquerda, no Jerónimo de Sousa de punhal na boca e no insidioso monhé. No fundo, a direita diverte-nos de tão tonta que está, mas lá por trás não deveria suscitar-nos grande alegria.

Está tudo armado de moca, enfileirando atrás dos jovens dos think tanks que acham que são neocons e soldados da Legião Azul, e que estão de novo em guerra civil. E à espera da primeira grande asneira, da primeira vaidade, do primeiro erro. Como no PREC.

Eu por cá estou bem. Não é mau este reequilíbrio das coisas para se poder reconstruir o sítio onde a direita que nós temos pensa que começa o comunismo: o centro, o centro-direita e o centro-esquerda, umas vezes mais a um lado, outras vezes ao outro. Pede aos teus aborígenes para deitar uns pauzinhos na terra, para ver se se consegue reconstruir a moderação e o bom senso neste meu país, que andou tão torto e tão transviado. E se ainda mantiveres, depois de tanto schnapps, essa boa e alta voz de barítono, que te servia no PREC para gritar uns vivas com muitos rrrs, ou gritar “às arrrmas” no hino, faz lá uma saúde que espante esses homenzinhos que te rodeiam, pela tua segunda pátria, lá longe, este meu Portugal portugalinho.

Seja pelo Natal ou pelo Ano Novo, que a gente bem precisa nestes dire straits em que navegamos nos dias de hoje.

Um abraço deste teu bom amigo.