Cartas portuguesas a Ludwig Pan, geólogo e agrimensor na Austrália

(José Pacheco Pereira, in Sábado, 23/12/2015)

Autor

Pacheco Pereira

Meu caro Pan,

nem imaginas a reviravolta que se deu no meu país, que tu, na tua encarnação esquerdista, começaste a visitar nos idos de 1975. Imagina que há quem na nossa direita mais ignorante ache que voltamos ao PREC e não lhe cai o céu ou uma pedra em cima. Devias vir cá tu explicar-lhes o PREC, que te levou junto com uns bizarros germanos a ir cavar para a Unidade Colectiva de Produção Viva o Comunismo, debaixo dos olhares divertidos dos trabalhadores rurais de Baleizão, a terra da Catarina. Sabias que em Baleizão houve uma zanga numa taberna com uns trabalhadores de Campo Maior sobre qual seria a genuína “Moscovo do Alentejo”? Sabias que há imensas Catarinas de nome nestes anos para honrar a camponesa baleizoeira? Isso é que era o PREC, folclore, drama, ingenuidade, esperança, cinismo, malvadezas, bondades, violência, desejo, ignorância, interesses, oportunidades e oportunismos, mas foi desse magma, mais o 25 de Novembro, mais a heróica declaração de Melo Antunes, mais a força telúrica do Soares, a habilidade de Cunhal, que nasceu a nossa democracia. Filhos do 25 de Abril, filhos do PREC, filhos do 25 de Novembro.

Pois agora nem PREC, nem sequer PRECinho, mas outra coisa. Os de cima estavam convencidos que continuavam em cima. Tinham vindo por aí abaixo numa derrocada de votos até travarem no mínimo exigido para continuarem a mandar. Tinham ganho relativamente, mas tinham perdido o absoluto. E eles sem o absoluto ficavam nus e hirtos. E o absoluto vingou-se, mudou de campo. Tinham semeado tanta coisa má, tanto vento, tanta cizânia, tanta miséria ética e física, tanto engano, que deram origem a um verdadeiro milagre. Contra eles, formou-se a tempestade perfeita, o absoluto tirou-os do patamar onde a queda os tinha sustido, despidos de centenas de milhares de votos, mas mesmo assim com bastantes e fê-los descer a escada para o Inferno. Pensavam estar seguros e usar a chantagem de sempre para mobilizar ao seu serviço uma coisa que por cá se chama “arco de governação”. Quem passa por baixo do arco é um partido de primeira, quem não passa um partido de segunda. Pois o “pó” que a maioria dos portugueses que votaram lhes tinha era tão grande que juntou tudo no contra, do partido radical chique ao partido da classe operária, com os pacíficos professores e funcionários socialistas. Havia demasiada gente que tinha levado tanta pancada que nem as ilusões da propaganda repetida dia a dia, hora a hora, a salvou. Houve uma fronda e PAF!

Por isso, meu bom Pan, nem com as tuas qualidades de agrimensor, agora à procura de ouro por essas Austrálias, poderias imaginar a volta que isto deu. Está tudo colado a fita -cola, tudo muito frágil, mas a construção é tão inesperada como Nossa Senhora a descer dos céus, já não para os crédulos pastorinhos, mas para a ala pura e dura de uma manifestação da CGTP.

E se Nossa Senhora da Esquerda desceu resplendorosa para o “povo de esquerda”, o da direita acha que foi Belzebu e o seu coro de demónios, personificado nas meninas “esganiçadas” do Bloco de Esquerda, no Jerónimo de Sousa de punhal na boca e no insidioso monhé. No fundo, a direita diverte-nos de tão tonta que está, mas lá por trás não deveria suscitar-nos grande alegria.

Está tudo armado de moca, enfileirando atrás dos jovens dos think tanks que acham que são neocons e soldados da Legião Azul, e que estão de novo em guerra civil. E à espera da primeira grande asneira, da primeira vaidade, do primeiro erro. Como no PREC.

Eu por cá estou bem. Não é mau este reequilíbrio das coisas para se poder reconstruir o sítio onde a direita que nós temos pensa que começa o comunismo: o centro, o centro-direita e o centro-esquerda, umas vezes mais a um lado, outras vezes ao outro. Pede aos teus aborígenes para deitar uns pauzinhos na terra, para ver se se consegue reconstruir a moderação e o bom senso neste meu país, que andou tão torto e tão transviado. E se ainda mantiveres, depois de tanto schnapps, essa boa e alta voz de barítono, que te servia no PREC para gritar uns vivas com muitos rrrs, ou gritar “às arrrmas” no hino, faz lá uma saúde que espante esses homenzinhos que te rodeiam, pela tua segunda pátria, lá longe, este meu Portugal portugalinho.

Seja pelo Natal ou pelo Ano Novo, que a gente bem precisa nestes dire straits em que navegamos nos dias de hoje.

Um abraço deste teu bom amigo.

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