Afinal há um Clausewitz no corpo do sr. Quim

(Major-General Carlos Branco, in Blog Cortar a Direito, 02/04/2024)

(Ó Quim, mas que grande malha… Deves estar todo dorido… Depois de ler com um sorriso prazenteiro o texto abaixo, veio-me à ideia o sábio provérbio popular: “Quem te manda a ti, sapateiro, tocar rabecão?”. Pois é, ó Quim, espero que não estejas nos cuidados intensivos…

Estátua de Sal, 03/04/2024)


Descobrimos recentemente que o Sr. Joaquim Vieira (daqui em diante o Sr. Quim), um ensaísta da nossa praça, com trabalho longo na fotobiografia, algum dele com qualidade, se transfigurou em comentador televisivo de conflitos internacionais. Não conhecemos as posições dele sobre o Iraque (2003) ou a Líbia (2011), mas tem sido muito vocal no que respeita ao conflito na Ucrânia.

Entra em transe sempre que lhe vêm à mente os majores-generais Putinistas (já agora com letra maiúscula) contra os quais, utilizando a sua posição mediática não perde oportunidade para lhes mandar umas farpas descorteses, algumas roçando mesmo a ordinarice. O homem transforma-se quando alguém lhe diz “Ó Quim, os majores-generais Putinistas chegaram”. Fica descontrolado.

Passou de fugitivo à guerra do Ultramar para belicista. Pudera, nesses tempos era ele que ia bater com os costados na guerra, agora são os filhos dos outros. Aliás, estranho como não se alistou ainda para defender os valores das democracias liberais na Ucrânia.

O Sr. Quim utilizou o programa “O Último Apaga a Luz”, do passado dia 30 de março de 2024, na RTP3 (ver aqui, a partir do minuto 42) para fazer mais uma vez jus à sua preparação para debater estes temas e mimosear os majores-generais Putinistas. Soltou-se o Clausewitz que vive dentro dele, qual génio da lanterna mágica. Num ataque de generosidade, deu “às pessoas que estão lá em casa” oportunidade de serem iluminadas com a genialidade do seu pensamento sobre os atentados em Moscovo:

“O atentado islâmico em Madrid [referia-se ao ataque terrorista jihadista de há vinte anos. Não sabe distinguir entre jihadismo e islamismo, para ele é tudo igual] foi parecido com este [o do Crocus, em Moscovo]… A história da Ucrânia não tem pernas nem cabeça [a referir-se à possibilidade da Ucrânia ser responsável pelo atentado]… Eles [os terroristas] iam fugir para a Ucrânia [teria dito Putin]. Não, eles iam a fugir para a Bielorrússia. O presidente da Bielorrússia já o reconheceu. Na fronteira com a Bielorrússia repeliram-nos, não os deixaram entrar… Quando foram presos estavam muito mais perto da fronteira bielorrussa do que da fronteira ucraniana. Há aqui todo um conjunto de mentiras usados para justificar um pretexto, para justificar o massacre sobre a Ucrânia… E depois vêm os majores-generais putinistas falar nos indícios que apontam para a Ucrânia… O facto do Daesh ter reclamando o atentado não era para eles um indício. Isso não existia. Tudo isso era falsificado. Que aquilo era falsificado, que aquilo não correspondia. E depois há um que vem falar nos factos e os factos apontam todos para a Ucrânia… Eu gostava muito de saber porque é que o Exército português que está na NATO admite este tipo de oficialato. Quer dizer uma pessoa que está num Exército que tem determinados objetivos tem de aderir aos objetivos desse exército.”

Disse estas coisas, com uma bonomia delirante e sem noção das asneiras que manda da boca para fora. Não resisti a comentar, uma vez que não tive oportunidade para o fazer no local próprio. O Sr. Quim terá tomado Captagon em excesso e entrou em delírio guerreiro. Construiu uma história falsa sobre o que foi dito.

Devo confessar que não pude deixar de ficar bem-disposto quando o Sr. Quim, qual especialista espontâneo, teve o rasgo intelectual de comparar o atentado islâmico em Madrid com o de Moscovo. Marcou pontos! Deu-nos a oportunidade de julgar a pujança dos conhecimentos da pessoa. Ó Sr. Quim, o ataque em Madrid não foi um ataque islâmico, foi um ataque perpetrado por terroristas jihadistas. Islamismo e terrorismo jihadista são coisas diferentes.

Para o Sr. Quim a possibilidade da Ucrânia ser responsável pelo atentado não tem pernas nem cabeça. Para ele, digo eu, que que vive numa realidade paralela e sob o efeito de drogas duras, ou então está na mailing list dos conselheiros da Victoria Nuland”.

São públicas: as declarações do chefe dos serviços de inteligência militar ucraniana sobre a promessa de efetuar ataques na Rússia profunda; as palavras de Nuland sobre a atribuição de verbas suplementares para causar “nasty surprises” ao Sr. Putin; as declarações do general Malyuk chefe do inteligência ucraniana a assumir os assassinatos na Rússia de Daria Dugina, Vladen Tatarsky, Motorola, etc.

Para o Sr. Quim nada disto é estranho, aliás é muito normal, que ainda não tivesse passado uma hora do início do atentado e já os EUA ilibassem a Ucrânia.

Para o Sr. Quim não é estranho os EUA não terem conseguido até hoje identificar os autores da destruição do NordStream, mas saberem, sem qualquer hesitação e dúvida, que a Ucrânia não tinha nada a ver com o ataque. Tudo normal para o Sr. Quim. Nada a questionar. Mais normal do que isto é impossível.

Para o Sr. Quim devem ter sido os russos que destruíram o Nord Stream, e atacaram a central nuclear de Energodar. E que estiveram por detrás do ataque em Moscovo. Mais uma vez o Clausewitz saiu-lhe do corpo para iluminar o seu pensamento.

Para esta alforreca bem comportadinha, que engole sem pestanejar todas as tretas que lhe colocam à frente, os terroristas foram apanhados mais próximos da Bielorrússia e o presidente Lukashenko como é estúpido até declarou publicamente que os ia receber.

O Sr. Quim não deve ter andado nos escuteiros, nem foi à tropa porque notoriamente não sabe ler mapas da estrada. Isto lembra-me o Allan e Barbara Pease quando se interrogavam porque é que “elas não sabem ler mapas da estrada”. O que disse o Sr. Quim é factualmente falso. É um intrujão. Os terroristas foram apanhados a sul de Bryansk, na estrada que conduz á Ucrânia, tendo deixado a alguns quilómetros para trás a bifurcação que conduzia para oeste, na direção da Bielorrússia. É mentira que quando foram presos estivessem mais perto da Bielorrússia do que da Ucrânia. Mentiu em horário nobre sem contraditório.

O Sr. Quim não percebeu que a Rússia não precisava deste atentado nem de fabricar pretextos para justificar fosse o que fosse, em particular aumentar os ataques na Ucrânia.

Vem falar do Daesh… ó Sr. Quim, não foi o Daesh que reivindicou o ataque, foi o IS-K. Ó Sr., o Daesh e o IS-K não são a mesma coisa. O último foi uma criação dos norte-americanos para combater os talibãs e os russos. Não reparou que o IS-K nunca atacou os americanos?! Depois do que está a acontecer no Médio oriente, da chacina de muçulmanos em Gaza vão escolher este momento para atacar os russos?! Para ele os maus são todos iguais… islâmicos, Daesh, IS-K. São maus, pronto!

Não causa estranheza ao Sr. Quim que os terroristas do IS-K não tenham cometido martírio, que estivessem mais interessados nos dólares do que no descanso eterno junto das 72 virgens, que não tenham levado cintos para se fazerem explodir, que se tenham deixado prender, etc. nada consistente com o que fazem os jihadistas que pertencem ao ISIS. Deve ser o impacto da geração “Z” nos jihadistas, que só o Sr. Quim vislumbrou. Nada disto lhe causa interrogações. É tudo normal, o que é natural porque o Sr. Quim está a meter-se em matérias que não domina e a dar o flanco.

A história que inventou não corresponde ao que foi dito, em particular por mim. Eu disse reiteradamente numa entrevista na CNN que as dúvidas que eu estava a levantar não significavam que estivesse a dizer que tinha sido a Ucrânia, ou que não tivesse sido o IS-K a cometer o atentado terrorista. Limitei-me a enunciar uma série de questões válidas na altura e agora, coisa que o recém autoempossado especialista em assuntos militares não faz, porque é um aldrabãozito confabulatório.

Já agora que me chama Putinista, apesar de não ter referido o meu nome, desafio o Sr. Quim a referir em que situação escrevi ou me pronunciei em defesa do regime de Putin. Basta uma. Não alinho é na desinformação em que o Sr. Quim não só alinha como promove.

Não posso deixar de assinalar ao iluminado ensaísta e foto biógrafo, sem o querer assustar, que o grupo dos “putinistas” se tem vindo a alargar. Num destes dias, Elon Musk publicou um post no seu mural do “X”, que corresponde na íntegra ao que tenho vindo a dizer há dois anos, e passo a citar:

“Foi um trágico desperdício de vidas para a Ucrânia atacar um exército maior que tinha defesa em profundidade, campos minados e uma artilharia mais forte, quando a Ucrânia não tinha blindagem nem superioridade aérea. Qualquer idiota poderia ter previsto isto [Penso que o Sr. Quim pode ser incluído na lista dos idiotas do Elon Musk]. A minha recomendação, há um ano, era que a Ucrânia se entrincheirasse e aplicasse todos os recursos na defesa. Mesmo assim, é difícil manter um território que não tenha fortes barreiras naturais. [quantas vezes eu disse isto]. Não há qualquer hipótese de a Rússia conquistar toda a Ucrânia, uma vez que a resistência local seria extrema no Oeste, mas a Rússia ganhará certamente mais terreno do que tem atualmente. Quanto mais a guerra se prolongar. Quanto mais tempo durar a guerra, mais território a Rússia ganhará, até atingir o Dniepre, que é difícil de ultrapassar. No entanto, se a guerra durar muito tempo, Odessa também cairá. Se a Ucrânia perde ou não todo o acesso ao Mar Negro é, a meu ver, a verdadeira questão que resta. Recomendo uma solução negociada antes que isso aconteça.”

Quando eu falava das baixas ucranianas era acusado de propagandista do Kremlin. A insuspeita Elena Zelenskaya, esposa do presidente ucraniano Zelensky, publicou um texto disponível no site da presidência ucraniana, em que diz o seguinte, e passo a citar:

“Apenas um quarto dos inquiridos [ucranianos] afirma ter reparado em pessoas com deficiência em locais públicos. Na realidade, oficialmente, são apenas três milhões. E cerca de 300.000 foram acrescentadas nos últimos dois anos devido a invasões hostis.”

O seu ódio à Rússia deve vir-lhe dos tempos em que adorava o grande líder Mao. Esses preconceitos afetaram-no cognitivamente e impedem-no de perceber a natureza do presente conflito na Ucrânia, que não é um combate das democracias contra as autocracias. Até o Alto Representante da União Europeia para a política externa Josep Borrel já percebeu isso. O Sr. Quim anda a discutir regimes sem ter percebido ao final de dois anos que não se trata de uma luta entre regimes. Nada que eu não tenha vindo a dizer. E, passo a citar:

“Não podemos deixar a Rússia vencer esta guerra. Caso contrário, os interesses dos Estados Unidos e da Europa sofrerão enormemente. Não se trata apenas de generosidade. Não se trata de apoiar a Ucrânia porque amamos os ucranianos. Isto é do nosso próprio interesse. E é também do interesse dos Estados Unidos como ator global – um ator que quer ser visto como um parceiro responsável pela segurança dos seus aliados”.

O Sr. Quim integra o grupo daqueles que dizem que a economia da Rússia é fraca [mas sobreviveu a 13 pacotes de sanções durante uma guerra], que Putin é impopular [mas obteve 80% dos votos], que a Rússia está isolada [mas mais 32 países querem juntar-se aos BRICS], que as forças armadas russas são fracas, as armas são velhas e os soldados não têm formação [mas o Ocidente inteiro não as consegue vencer], mas ainda não percebeu que anda a ser endrominado por propaganda.

Uma nota final, que a prosa já vai longa para responder à ignorância e aos problemas cognitivos demonstrados pelo Sr. Quim quando refere aquele arrazoado impercetível sobre o Exército português que está na NATO e este tipo de oficialato. Não sabe do que fala. Já agora fique a saber que desempenhei dois cargos de Alta direção na NATO por eleição (não por nomeação), sempre respeitado pelos meus pares. Num deles, fui condecorado (muito poucos o foram) pelo presidente Karzhai do Afeganistão. Por isso, não aceito dichotes de alforrecas de pacotilha.

O que distingue os verdadeiros intelectuais é aquilo a que alguém chama consciência crítica. Observam o mundo com um olhar de oposição ou, pelo menos, com um olhar independente, nada devendo aos poderes instituídos.

O anafado e bem instalado Sr. Quim é daqueles ex-revolucionários maoístas que optou por se integrar no conforto do sistema. Como os cristãos-novos tem de ser mais papista do que o papa para ser aceite pelo establishment. O problema da subserviência passa a funcionar por reflexo condicionado.

Não me choca que o Sr. Quim por questões instrumentais – afinal tem de colocar o pão em cima da mesa – abraçasse o establishment para fazer carreira e o pensamento situacionista. Mas ó Sr. Quim, já está reformado, já não é preciso rejeitar a consciência crítica que desonesta e covardemente pinta por “idiotices”.

O Sr. Quim é um socializado, um pretenso senador de um cinzentismo acomodado, que se ilude a si mesmo. Assim fica mais fácil justificar a si próprio a sua submissão ideológica. Andará pelos cuidados paliativos e ainda procurará um reconhecimentozinho, uma sinecurazinha.

A intervenção do Sr. Quim no referido programa foi uma vergonha. Mentiu, mostrou ignorância. Dedique-se aos ensaios, vá à Torre do Tombo arranjar mais umas fotografias para o próximo livro, aquilo que sabe razoavelmente fazer, e deixe os outros em paz. Aconselho a que se despache porque o programa da metadona está em risco. Aproveite enquanto é tempo.

Fonte aqui


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Responder ao SMO com a objeção de consciência ou enforcar os tipos

(Por oxisdaquestão in blog oxisdaquestao, 02/04/2024)

Lembremo-nos do lítio que as nossas montanhas escondem e que não tarda muito vai ser catado à força de buldozer e escombreiras. Quem ainda não fez as fotos das nossas paisagens já não tem muito mais tempo para fazê-las.

As riquezas do país vão muito para além deste calhau da moda que origina golpes de estado e guerras para o saque de riquezas naturais. Não estamos livres de tais movimentos e, se eles chegam de fora, temos de nos precaver: constituir um poderoso exército conforme a nossa tradição que remonta à reconquista e às lutas contra os espanhóis e franceses.

Dizem-nos de Bruxelas que os russos, tendo aviado Kiev e o seu drogado-nazi, entrarão de roldão por aí dentro e, se não estamos precavidos, chegam a Vila Real de Santo António num abrir e fechar de olhos. É que os russos depois de passarem pela porcaria que são os outros países da NATO e da CEE-UE vão querer assenhorear-se das nossas verdadeiras riquezas: os pastelinhos de Belém, as natinhas do Porto, o presunto de Lamego, os pézinhos de coentrada, o bacalhau à Braga, as castanhas transmontanas, as azeitonas do Alqueva, as pataniscas de bacalhau e as iscas de fígado de cebolada, o pão-de-ló de Margaride… Assim que a Nação está em risco, e como tem um exército de GNR’s voluntários para missões de paz, tem de o reforçar com a rapaziada treinada nos jogos de computador tipo call of duty, sniper elite 5, hell let loose, world of tanks, …

O serviço militar obrigatório era a forma de recrutamento do regime salazarista, enquanto durou, para prover a guerra colonial de homens. O SMO foi responsável por 30 mil soldados mortos e feridos (inválidos), sendo que o número de afetados psicologicamente nunca foi apurado por não se admitir tal situação, que acarretaria elevados custos de reparação ao Estado.

Este assunto vem à baila porque os EUA/NATO encetaram uma operação militar de cerco ao território da Rússia, tendo como base principal a Ucrânia, país sem bases sólidas de nacionalidade e soberania, e que foi levado a ser uma imensa base militar da NATO e um território governado por nazis assumidos e inimigos dos russos declarados. Nesta sua aventura o exército ucraniano tem perto de 700 mil mortos e cerca de 1 milhão de feridos (recuperados uns, estropiados-mutilados outros).

Até ao momento os países da NATO não decidiram enviar militares seus para esta guerra. Mas, como ela está a ser perdida pelo exército nazi e pela NATO/EUA, agora sem munições e efetivos suficientes – a pretexto da falsa ideia que os russos têm algum interesse na porcaria moral e económica em que a Europa se transformou -, correu a propaganda que os países devem gastar mais na sua defesa, 2 ou 3% do PIB, para comprar armas aos norte-americanos e pagar às tropas que irão ao terreno combater e… serem eliminadas.

E, por isso, lançam a campanha do SMO e esperam que os Governos o voltem a instituir. Em Portugal será a repetição do que ocorreu na guerra colonial, quando os jovens viam a sua vida adiada até 4 anos para cumprirem o tempo de tropa, iam aos territórios coloniais combater e correrem riscos absurdos de morte ou de caírem na invalidez.

A campanha em prol do SMO já arrancou nos jornais e nas TV’s e vai ser insidiosa e brutal. Vão falar em patriotismo e meter medo à população enquanto os corrutos fazem as contas às comissões que vão receber dos negócios que vão brotar à conta das despesas inúteis que se irão fazer.

Com o poder totalitário que está instituído restam poucas alternativas aos que não aceitam perder os melhores tempos das suas vidas ao serem arrebanhados para os quarteis: uma é adquirirem o estatuto de objetor de consciência:

Outra é caçar à unha os militaristas e dependurá-los em cordas de candeeiros ou ramos de árvores bem fortes.


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A França salva a Europa

(Aurelien, in SakerLatam, 01/04/2024)

Na imagem: La Retraite de Russie, pintura de Bernard-Edouard Swebach, 1838 – fonte: Musée des beaux-arts de Besançon-WikiCommons

Estamos agora na fase degenerada da crise ucraniana e, mais especialmente, na triste e patética história das tentativas do Ocidente coletivo de administrá-la. Os líderes políticos ocidentais estão em modo zumbi, cambaleando em vários estados de degradação, errando porque não têm a menor ideia do que fazer, completamente superados por eventos que não previram e que agora não conseguem entender. As declarações de líderes nacionais e políticos tornam-se cada vez mais bizarras e surreais, e a maioria delas não vale a pena ser analisada, pois não têm quase nenhum conteúdo real. Na verdade, são gritos de raiva e desespero vindos das profundezas da miséria. Somente o presidente Macron e algumas outras figuras do governo francês têm dito algo remotamente consistente, embora quase ninguém na mídia pareça ter o domínio do contexto e do idioma para entender corretamente o que eles disseram.

O tema deste ensaio é um assunto com o qual tenho convivido e, em alguns casos, trabalhado, desde o fim da Guerra Fria. Portanto, achei que poderia ser útil oferecer uma visão (espero) razoavelmente informada sobre três pontos. Explicarei onde estamos política e militarmente e como os líderes ocidentais estão, na verdade, lutando por uma estratégia de saída. Além disso, com um breve desvio para a história, explicarei de onde acho que os franceses estão vindo e, em seguida, apresentarei muito brevemente algumas ideias sobre onde tudo isso pode levar.

A ideia de que essa crise tem sua origem na ignorância e estupidez culpáveis das lideranças ocidentais é amplamente aceita atualmente. Mas o que não foi suficientemente divulgado, creio eu, é que essa ignorância foi de fato desejada e deliberada. Isso quer dizer que certas coisas foram simplesmente assumidas como verdadeiras e nenhuma tentativa foi feita para verificar sua exatidão, porque não se julgou necessário. A crença em uma Rússia fraca que poderia ser pressionada, a ideia de que, mesmo que os russos não gostassem do que estava acontecendo na Ucrânia, não havia muito que pudessem fazer a respeito, e a convicção de que qualquer tentativa de intervenção russa se transformaria em caos após alguns dias, levando a uma mudança de governo em Moscou, não foram julgamentos feitos após uma análise adequada, foram artigos de fé ideológica, para os quais não foi necessário ou procurado nenhum apoio probatório.

E essa também não é a primeira vez. A lista terrível de desastres políticos ocidentais dos últimos vinte anos, do Iraque à crise financeira de 2008, à Líbia, à Síria, ao Brexit, à Covid e à ascensão do chamado “populismo”, distingue-se menos pela malevolência ou estupidez (embora ambas estivessem presentes) do que por uma crença arrogante na correção das opiniões da Casta Profissional e Gerencial (PMC) e por suas visões ignorantes, mas muito firmes, sobre o mundo, às quais o próprio mundo tinha a responsabilidade de aderir. Por que se preocupar com o trabalho de descobrir os fatos quando se tem certeza de que já os conhece?

Uma coisa é os governos aceitarem que estavam errados sobre algum fato, mesmo que isso não seja fácil: outra coisa é aceitar que estavam iludidos e que seus cérebros estavam cozidos para o almoço. Quando sua estimativa pública da Rússia e seus comentários no início da guerra não se baseiam em nenhum conhecimento real ou em nenhuma estimativa profissional, mas apenas em suposições ideológicas, você perde a capacidade de reagir e se adaptar à medida que as circunstâncias demonstram a falsidade de suas suposições. É essa incapacidade que está causando um colapso nervoso incipiente entre os líderes ocidentais, que se assemelham cada vez mais a pacientes de uma casa de repouso para doentes mentais, com seu comportamento antissocial e sociopata. Aqui está Gabriel Attal, o primeiro-ministro francês adolescente, aproveitando a oportunidade de um almoço para a comunidade armênia em Paris, na presença de vários embaixadores, para lançar um ataque verbal não provocado contra um de seus convidados: o embaixador russo saiu, e estou surpreso que ele não tenha dado um tapa na cara de Attal e dito para ele crescer. Esse é o tipo de comportamento que se associa a crianças perturbadas ou adultos senis, não a supostos líderes nacionais.

Também é um comportamento que você associa a pessoas que estão tão apegadas a determinadas visões de mundo que não conseguem mudar essas visões sem se sentirem psiquicamente ameaçadas. Suponho que eu possa ser acusado de preconceito, mas passei minha existência profissional em duas áreas – governo e academia – onde, em princípio, se você não sabia do que estava falando, as pessoas não te ouviam. Mas é claro que a capacidade de abordar questões é sempre necessariamente limitada, e a qualidade do governo e da academia caiu drasticamente nos últimos anos, portanto, talvez não seja surpreendente que os governos ocidentais tenham se encontrado completamente ignorantes sobre o que estava acontecendo no início da crise, porque simplesmente não acharam que valia a pena dedicar recursos para se informar. Era suficiente “saber” que a Rússia era uma nação fraca e em declínio, que Putin era um ditador implacável, que o exército russo era incompetente e assim por diante. (A propósito, dificilmente você poderia pedir um exemplo melhor de como o “conhecimento” é construído pelo poder: Foucault deve estar rindo em algum lugar).

Na verdade, não era muito difícil. Você poderia ler um livro, OK, um artigo, sobre a estratégia militar russa. Você poderia ler um artigo, até mesmo um artigo curto, sobre a política russa desde 1990. Poderia ler Clausewitz, OK, um artigo sobre Clausewitz, ou, pelo amor de Deus, até mesmo a Wikipédia, e depois disso estaria mais bem informado do que a grande maioria dos políticos e especialistas sobre o porquê e o como do que está acontecendo. A total falta de vontade das pessoas envolvidas nessa controvérsia – de todos os lados – de se informarem sobre os conceitos básicos de estratégia, organização militar e destacamentos, como a OTAN e as organizações internacionais realmente funcionam e como as guerras são travadas, continua a me surpreender. Não é como se fosse difícil aprender alguns dos conceitos básicos, mas as pessoas parecem preferir permanecer em seus casulos ideológicos, em vez de aprender alguma coisa.

Portanto, podemos ter como certo que a classe política ocidental e seus parasitas especialistas nunca admitirão que, fundamentalmente, não entenderam o que estava acontecendo porque não se deram ao trabalho de descobrir. É como se algo tão básico e simples como descobrir o que está acontecendo fosse muito difícil e, de qualquer forma, estivesse abaixo deles. Há toda uma controvérsia cruel e sem sentido sendo travada em um espaço virtual por pessoas completamente separadas da realidade. No passado, isso realmente não importava porque as consequências de nossa ignorância nunca voltaram para nos assombrar. Desta vez, elas voltarão.

Não é de surpreender, portanto, que os especialistas e, pelo que se pode perceber, muitos políticos também, sejam incapazes de ver um fim para a crise, exceto por uma de duas maneiras improváveis. A primeira é, de fato, o Business as Usual, ou seja, o Ocidente “pressiona” Zelensky a “negociar” e “concorda” em “conversar” com os russos, estabelecendo exigências ocidentais que equivalem a algo como uma versão menor da Ucrânia de 2022. Afinal de contas, “não devemos deixar a Rússia lucrar com a agressão” ou “determinar o futuro da Ucrânia”, não é mesmo? É difícil ver o quanto se pode ficar mais distante da realidade, mas essa é a fantasia coletiva em que as pessoas estão vivendo, a partir da ignorância voluntária de que falei. Afinal de contas, somos “mais fortes”, não somos? Em breve, a Ucrânia terá um novo exército, com meio milhão de homens, e o Ocidente, que tem um PIB e uma população muito maiores do que a Rússia, poderá armá-los e equipá-los, de modo que as negociações ocorrerão em uma posição de força. Não é verdade? Não acho que seja possível argumentar com pessoas que pensam assim, porque mudar de ideia exige a aquisição de conhecimento, o que é inerentemente descartado. Do jeito que está, agora há uma confusão total entre o que queremos que seja verdade e o que é de fato verdade, nas mentes das elites ocidentais. A ideia de que a Rússia efetivamente ditará o resultado de qualquer “negociação” sobre a Ucrânia está tão fora de seu quadro de referência que deve estar errada, e descobrir os fatos básicos que explicam por que isso acontece é um problema muito grande e, de qualquer forma, não é para eles. As sociedades liberais, afinal de contas, trabalham com raciocínio indutivo a partir de postulados arbitrários.

A visão alternativa é que agora estamos caminhando impotentemente para a Terceira Guerra Mundial, que começará com a “escalada da OTAN” e passará por uma guerra convencional total, geralmente em direção a um holocausto nuclear. As comparações com 1914 parecem estar em toda parte no momento.

Isso negligencia as realidades subjacentes. Para escalar, é preciso ter algo com que escalar e algum lugar para onde escalar: A OTAN não tem nenhum dos dois. A ideia de que a OTAN tem enormes forças não comprometidas esperando para serem engajadas é uma fantasia, baseada em vagas lembranças da Guerra Fria e no fato indubitável, mas irrelevante, de que a população da Europa Ocidental sozinha é duas vezes maior que a da Rússia. É o mesmo argumento que dizer que a China inevitavelmente vencerá a Holanda no futebol amanhã, porque sua população é muito maior. O fato é que os exércitos maciços de recrutas que teriam sido mobilizados na Guerra Fria simplesmente não existem mais. Os exércitos europeus são pálidas sombras do que costumavam ser: com pouca gente, pouco equipados, subfinanciados e estruturados para o tipo de guerra expedicionária que foi perdida no Afeganistão, mas que se supunha ser a norma para o futuro. A propósito, não sou apenas eu que faço essa última observação, mas também o General Schill, Chefe do Exército Francês, e voltaremos a ele em um minuto.

As partes operacionais das forças armadas ocidentais, por mais fracas e com pouca mão de obra que sejam, não foram projetadas para o tipo de guerra que está sendo travada na Ucrânia e seriam rapidamente obliteradas, mesmo que por algum milagre logístico pudessem ser organizadas e transportadas para a frente de batalha. Mas e os EUA, você pergunta? Eles ainda não têm cem mil soldados na Europa? Bem, sim, mas a grande maioria deles está em unidades aéreas (que não desempenharão um grande papel), treinamento, logística, bandas militares e outras atividades na área de retaguarda. Há “planos” de enviar unidades dos EUA para a Polônia em algum momento, mas, por enquanto, tudo o que os EUA poderiam realmente contribuir seriam algumas forças mecanizadas leves e tropas aeromóveis e helicópteros: nada bom quando seu oponente tem divisões de tanques. (A situação é complicada por destacamentos temporários, exercícios, rotação de unidades e “planos” anunciados, mas mesmo em circunstâncias ideais, as forças que os EUA poderiam trazer para uma luta não são muito mais do que um incômodo no que diz respeito aos russos).

Portanto, a “escalada” do Ocidente, nesse sentido, não tem sentido. Existe um fenômeno chamado “dominância de escalada”, que é bastante simples de explicar, e é assim. Você tem uma faca, eu tenho uma faca maior. Você tem uma faca grande, eu tenho uma arma. Você tem uma arma, eu tenho uma arma automática. Você tem uma arma automática, eu tenho um tanque. Em outras palavras, quando o inimigo consegue igualar qualquer movimento seu e fazer um mais forte, é melhor desistir. Os russos têm o domínio da escalada sobre o Ocidente, e qualquer pessoa que se dê ao trabalho de pesquisar o potencial militar relativo dos dois lados entenderá isso imediatamente. Além disso, o Ocidente não pode nem mesmo enviar unidades para entrar em contato com os russos sem enormes dificuldades e grandes perdas, enquanto os russos podem atacar a OTAN mais ou menos como quiserem.

Talvez seja por essa razão que apenas alguns cabeças quentes tenham imaginado seriamente um combate entre as forças da OTAN e a Rússia. As fantasias agora parecem se concentrar no posicionamento de algumas forças da OTAN em certas partes da Ucrânia para impedir o avanço dos russos. Mas voltamos ao domínio da escalada novamente. A ideia parece ser que, se um pelotão de soldados da OTAN estivesse bloqueando a estrada para Odessa, os russos parariam naquele ponto porque teriam medo das reações da OTAN se passassem por cima deles. E essas reações seriam… o quê, exatamente? É bastante claro que os russos estão tentando evitar um estado de guerra formal com o Ocidente, pois isso complicaria muito as coisas. Mas também está muito claro que eles atacariam diretamente as tropas da OTAN se achassem necessário, e que não haveria muito que a OTAN pudesse fazer a respeito, se o fizessem. Parece haver uma crença perigosa – ignorância voluntária mais uma vez – de que os russos estão, em princípio, assustados com a “escalada” da OTAN e que isso poderia afetar seu comportamento. Mas não há razão para pensar que isso seja realmente verdade.

Portanto, não haverá a Terceira Guerra Mundial, porque um dos lados tem pouco ou quase nada com que lutar. Tampouco estamos em algum tipo de situação de 1914bis. A imagem popular de que a Primeira Guerra Mundial começou por acidente, após um assassinato obscuro, não sobrevive à leitura de um pequeno livro sobre o assunto – ignorância voluntária novamente. A Europa em 1914 era um enorme campo armado onde as principais potências tinham motivos para prever a guerra, objetivos já formulados e planos já feitos. A Alemanha estava pensando em um ataque preventivo por medo do rápido crescimento do poder militar francês e russo. A França estava preparada para entrar em guerra para recuperar os territórios da Alsácia e da Lorena. A Áustria-Hungria estava determinada a dar uma lição militar à Sérvia. A Rússia não estava preparada para permitir que isso acontecesse. As tendências centrífugas estavam ameaçando destruir o Império Habsburgo. Os estados dos Bálcãs que haviam conquistado sua independência dos otomanos agora estavam lutando entre si. Até mesmo a Grã-Bretanha, embora esperasse ficar de fora, estava preparada para se envolver para impedir que os alemães assumissem o controle dos portos do Canal da Mancha. Não é preciso dizer que a situação é completamente diferente hoje em dia: não há nada sério para o Ocidente e a Rússia brigarem agora, e não há muito com o que o Ocidente possa brigar, de qualquer forma.

Há uma crença persistente em alguns setores de que as guerras “acontecem” ou “eclodem” independentemente da vontade humana. Isso não é verdade. Sim, a Primeira Guerra Mundial “eclodiu” em um agosto sonolento, quando os líderes nacionais estavam de férias e, até certo ponto, uma vez iniciados os esquemas de mobilização em massa envolvendo milhões de homens, era difícil detê-los. Mas mesmo que a corrida para a guerra pudesse ser interrompida, os problemas subjacentes não teriam desaparecido. A Alemanha se sentia cercada pela França e pela Rússia. A primeira estava aumentando o tamanho do seu exército e a segunda estava se industrializando rapidamente. A cada ano que passava, a situação estratégica alemã piorava, e os alemães não podiam travar guerras contra os dois adversários simultaneamente. A França se mobilizaria mais rapidamente e precisava ser enfrentada primeiro. Se a crise política do verão de 1914 pudesse ter sido resolvida, esses problemas teriam permanecido os mesmos e, da perspectiva alemã, estariam piorando. Se não for agora, quando?

Claramente, a situação atual é totalmente diferente. E não acho que estejamos prestes a descer uma ladeira em direção à 3ª Guerra Mundial. Não posso provar isso, é claro, assim como não posso provar que, se eu sair pela porta da frente nos próximos minutos, não serei atropelado por um idiota bêbado em uma scooter elétrica cantando slogans de futebol. Mas algumas coisas são tão improváveis que, para fins práticos, podem ser desconsideradas, e essa é uma delas. E não, as armas nucleares táticas não são relevantes aqui. Existem apenas algumas delas na Europa, todas bombas de gravidade que exigem que uma aeronave sobrevoe fisicamente o alvo ou esteja muito próxima dele. Os preparativos ucranianos ou da OTAN para mover e carregar armas nucleares seriam óbvios a partir de imagens de satélite e é duvidoso que os russos esperem mais do que o necessário. As aeronaves teriam que ser baseadas perto da linha de frente, e qualquer aeronave que sobrevivesse para decolar seria rapidamente destruída. Generais malucos, forças nucleares em alerta e explosões nucleares acidentais são uma boa diversão em Hollywood, mas, na prática, os governos exercem um controle político fanático sobre tudo o que tem a ver com armas nucleares.

Portanto, se nem o Business as Usual nem a Terceira Guerra Mundial são resultados prováveis, qual será o fim dessa crise? Bem, aqui é instrutivo olhar para um desastre semelhante do século passado: os alemães conseguiram invadir efetivamente toda a Europa Ocidental em poucos meses. Isso foi sentido de forma especialmente cruel na França, e o sangue dos mortos mal havia secado antes do início da guerra das memórias. Um dos principais participantes foi Paul Reynaud, uma figura conhecida apenas por especialistas hoje em dia, e talvez vagamente vislumbrada nas biografias de De Gaulle, de quem foi patrono e apoiador. Reynaud, na verdade uma pessoa bastante simpática e patriótica, foi Primeiro-Ministro durante o período catastrófico em que o exército francês parecia pronto para cair aos pedaços e seus generais exigiram um armistício por medo de um levante comunista. Reynaud (que também teve que lidar com sua amante Hélène de Portes, uma germanófila raivosa que se convidava para as reuniões do gabinete e que supostamente tinha mais poder do que ele nas decisões do governo) renunciou em vez de pedir um armistício e foi preso durante parte da guerra. Mas depois da Libertação, e como todo bom político, ele recebeu sua retaliação primeiro na forma de suas memórias, com o título, bem, desafiador, France Saved Europe. Não vou incomodá-lo com o argumento, que é complicado e altamente suspeito, mas o livro é um excelente exemplo de uma maneira de lidar com uma derrota política catastrófica: A culpa não foi minha. De fato, nas primeiras páginas do livro, depois de apresentar uma lista de acusações de erros e falhas que levaram à derrota, Reynaud faz a pergunta favorita dos políticos: Quem é o responsável?

Embora seja justo dizer que Reynaud tem menos responsabilidade pela derrota do que muitos (embora sua defesa das propostas de De Gaulle para um exército muito menor e profissional em uma época em que eram necessários exércitos de recrutamento em massa seja, no mínimo, curiosa). Mas ele e os “homens culpados” que identificou (ele foi leal à Sra. de Portes até o fim) faziam parte do jogo de disputa de lama que caracteriza o resultado de toda derrota. Outros, por sua vez, produziram suas próprias memórias autoexculpatórias e, depois disso, os historiadores se juntaram ao jogo de lama com gosto, e ainda o fazem. Portanto, o primeiro estágio do pós-Ucrânia será assim: A culpa não foi minha. Eu tinha as respostas certas. Se ao menos tivessem me ouvido.

A diferença, porém, é que 1939-40 foi uma série de desastres que não podiam ser ocultados. Os alemães haviam invadido a Europa, e era impossível fingir que não haviam invadido, ou que o resultado havia sido algo menos que um desastre. Mas há outro tipo de crise e desastre que é mais equívoco, em que é possível argumentar, com uma cara séria, que poderia ter sido pior. Esse é, obviamente, um reflexo profissional de todos os políticos, muitas vezes combinado com a difamação de outros (“OK, houve problemas, mas outros governos fizeram muito pior com a inflação/Covid/crime ou o que quer que seja”). Um bom exemplo é a Crise de Suez de 1956. Anthony Eden, o primeiro-ministro na época, sustentou até o fim de sua vida que a operação havia sido um sucesso parcial: ela havia impedido Nasser, e a União Soviética por trás dele, de dominar todo o norte da África em nome de sua ideologia revolucionária. Muitos dos colegas e contemporâneos de Eden concordaram com ele.

Agora, é claro que a Operação Suez não foi lançada apenas com esse objetivo em mente, ela foi lançada principalmente para retomar a posse do Canal de Suez e, no caso francês, para interromper o apoio dado pelo governo egípcio à FLN na Argélia. Mas, apesar disso, o argumento é um bom exemplo de como resgatar algo dos destroços, e acho que é isso que veremos na Ucrânia também.

O sucesso e o fracasso, tanto na guerra quanto na política, vão principalmente para aqueles que controlam a compreensão do que é sucesso e fracasso. Desde o início da crise na Ucrânia, ficou claro que o único resultado aceitável para o Ocidente era a vitória, o que significa que a vitória teve de ser definida e redefinida conforme as circunstâncias mudaram. Na maior parte do tempo, a ênfase tem sido menos na vitória ocidental do que na derrota russa, portanto, se olharmos para trás na mídia, veremos uma sequência interminável de derrotas russas, levando à situação atual em que os russos estão prestes a destruir completamente o exército ucraniano. A questão, é claro, é que, assim como o “poderia ter sido pior” é uma vitória para nós, o “poderia ter sido melhor” é uma derrota para eles. Assim, fomos informados de que os russos queriam capturar Kiev – uma ideia ridícula, de qualquer forma – e não o fizeram, o que foi uma derrota. Em seguida, disseram-nos que eles esperavam invadir a Ucrânia em algumas semanas – o que manifestamente nunca pretenderam – e que o fato de não terem conseguido isso foi uma derrota. Depois nos disseram que o fato de não terem tomado grande parte da Ucrânia – mais uma vez, eles nunca tiveram essa intenção – foi outra derrota. E assim por diante. E, em todos os casos, a “derrota” russa era também a “vitória” ocidental, porque estávamos fornecendo aos corajosos ucranianos as ferramentas de que precisavam.

O resultado é que, acredito, agora podemos ver o esboço da defesa da classe política ocidental de seu comportamento e de sua má administração da guerra. Se eu estivesse escrevendo um discurso para um líder ocidental a ser proferido em 2025, ele provavelmente consistiria no seguinte.

  • Após o fim da Guerra Fria, o Ocidente esperava ter relações pacíficas e construtivas com a nova Rússia e, por algum tempo, isso parecia possível.
  • No entanto, com a chegada de Putin ao poder, ficou claro que a recuperação dos antigos territórios soviéticos e uma maior expansão estavam novamente no cardápio.
  • No entanto, o Ocidente persistiu na tentativa de manter a coexistência pacífica, apesar dos comentários agressivos e ameaçadores de Putin na Conferência de Segurança de Munique, em 2007, e de sua tentativa de minar a convenção tradicional de que os Estados podem entrar e sair de organizações internacionais conforme desejarem.
  • Em 2014, ficou claro que nossa confiança e nosso otimismo haviam sido mal empregados. A tomada da Crimeia, seguida pela tentativa de tomada de partes do Donbas, mudou completamente a situação. Agora era óbvio que o plano para dominar e assumir o controle de grande parte da Europa Ocidental estava em andamento.
  • Os líderes da França e da Alemanha conseguiram estabilizar a situação por um breve período por meio dos acordos de Minsk, que forçaram uma interrupção temporária da expansão russa. Mas ficou evidente que isso foi apenas um alívio temporário e que os ucranianos não poderiam resistir a outra ofensiva russa séria.
  • Portanto, a OTAN iniciou um programa de choque para fortalecer as forças ucranianas para impedir ou, se necessário, derrotar novas agressões russas.
  • Os ultimatos apresentados aos governos ocidentais no final de 2021 deixaram claro que Moscou havia decidido por uma guerra total. Nenhum governo democrático poderia ter aceitado tais termos e nenhum parlamento os teria ratificado.
  • A guerra que o Ocidente se esforçou tanto para evitar começou em fevereiro de 2022 e se transformou em um desastre militar para os russos, devido à resistência heroica das forças ucranianas e ao apoio generoso e irrestrito dado pelas democracias de todo o mundo. A Rússia conseguiu capturar apenas um quarto do país a um custo terrível.
  • No entanto, a Rússia continua sendo um adversário perigoso e imprevisível, e o Ocidente deve agora tomar medidas para fortalecer suas próprias defesas para impedir ou proteger contra novas agressões russas.

Agora, independentemente do que você ou eu possamos pensar, eu estimaria que entre metade e dois terços dos tomadores de decisão ocidentais aceitariam esse relato sem questionar. Quase todos os demais aceitariam a maior parte dela sem grandes reservas. Mas a verdadeira diversão começará depois que a crise terminar, sob o slogan “Se ao menos”. Se ao menos tivéssemos feito isso, ou não tivéssemos feito aquilo. Se ao menos tivéssemos fornecido armas e treinamento melhores para a UA. Se ao menos tivéssemos enviado tropas da OTAN em pequenos números em um estágio inicial, se ao menos tivéssemos fornecido esta ou aquela arma, ou implantado estes ou aqueles sensores. Pode até haver algumas almas corajosas que apontem que, se tivéssemos agido de forma diferente, a crise poderia ter sido evitada, embora, sem dúvida, elas serão atacadas por “apaziguamento”. E os líderes políticos individuais e os países que eles representam competirão para ter tido as melhores ideias negligenciadas, para defender com mais veemência as soluções que foram “eficazes” e para se distanciar o máximo possível do fracasso.

Esse é o contexto no qual se deve entender as recentes observações do presidente Macron. Macron não tem interesse em assuntos militares e, consequentemente, os ignora em grande parte. Ele é o primeiro presidente francês da geração que não prestou serviço nacional. Mas ele tem alguns conselhos militares realistas e, se você ler as entrelinhas de suas declarações, muitas vezes confusas, fica bastante claro que ele não está defendendo o envio de tropas francesas para a Ucrânia em uma função de combate, e certamente não sem o apoio de muitos outros países. Da mesma forma, a referência à capacidade de reunir 20.000 homens como parte de uma força internacional no artigo assinado pelo General Schill na semana passada foi feita em um contexto em que as palavras “Ucrânia” e “Rússia” não foram mencionadas, e isso certamente não foi um descuido. (Pelo que vale, a cifra de 20.000 homens levantou dúvidas e, de qualquer forma, essa força só poderia ser mantida em campo por alguns meses).

O que estamos vendo aqui são os primeiros tiros disparados na batalha para assumir o controle das questões de defesa e segurança europeias após o fim da crise atual. Por um lado, os franceses querem sair dessa situação como defensores da Europa, com as ideias certas na hora certa, sempre incentivando as nações a fazerem a coisa certa, fazendo sacrifícios etc. etc. O fato de um pelotão ou uma companhia de tropas estar ou não posicionada em Odessa dificilmente importa na prática. Se estiverem, terão impedido o avanço russo graças à liderança francesa. Se não estiverem, bem, essa foi uma boa ideia da França que nenhum outro país teve a coragem de seguir. Em ambos os casos, eles venceram. Como não existe a possibilidade de mobilizações de combate, tudo isso pode ser feito com risco político mínimo.

Mas por que os franceses estão fazendo isso e por que um presidente notoriamente ignorante em assuntos militares está liderando? Bem, em primeiro lugar, temos que desaprender um pouco de ignorância deliberada. A atitude dos anglo-saxões em relação à França sempre foi uma mistura incômoda de inveja desesperada e desprezo arrogante, e poucas pessoas se dão ao trabalho de analisar os antecedentes históricos e culturais. Portanto, vamos dar uma olhada rápida.

A França entrou no período pós-guerra com um sólido consenso político de que era necessário restabelecer a “glória” e a “posição” da França no mundo. A guerra foi um acidente infeliz, que precisava ser desfeito. Isso deveria ser feito de duas maneiras: uma pela manutenção do Império, que foi apoiada por todos os principais partidos políticos, inclusive os comunistas. A outra era reconstruir a França militarmente, o que logo passou a incluir o desenvolvimento de armas nucleares, iniciado em segredo no início da década de 1950 e que ganhou maior urgência com Suez. Os franceses, movidos, como sempre, por cálculos frios de interesse nacional, receberam bem o envio de tropas dos EUA para a Europa, tanto como uma barreira descartável (“por que matar garotos franceses quando você pode fazer com que os americanos morram por você”, como me disse mais de um oficial francês) quanto como uma garantia de que os EUA realmente viriam em auxílio da Europa imediatamente desta vez, se houvesse uma guerra, e também não provocariam uma crise com a União Soviética levianamente. Esse conceito da presença dos EUA – metade cordeiros sacrificados, metade reféns – era particularmente forte na França, mas, na realidade, a maioria dos países europeus tinha a mesma opinião. Entretanto, por motivos de “hierarquia”, os franceses também buscaram por mais de uma década a ideia de um “triunvirato” interno na OTAN, formado por eles mesmos, pelos britânicos e pelos EUA, mas sem sucesso. A desilusão progressiva de De Gaulle com a Estrutura Militar Integrada da OTAN foi, em grande parte, uma continuação das atitudes de seus antecessores, mas, livre da Guerra da Argélia e agora com armas nucleares, ele conseguiu criar um papel nacional muito mais independente. Mas o interesse nacional também ditou a cooperação com os EUA, que sempre foi estreita, embora pouco divulgada, muitas vezes tempestuosa e amarga, mas, em última análise, valiosa para ambos os lados.

Há décadas de coisas interessantes para pular, mas vamos mencionar apenas três coisas. A partir de Ruanda, em 1995, e principalmente após a desordem da Costa do Marfim, os sucessivos governos franceses procuraram uma saída honrosa para os compromissos militares unilaterais na África, para voltar a se concentrar na Europa e nas operações da OTAN. (Qualquer um que pense que as crises político-militares entre a França e os Estados da África Ocidental são de alguma forma novas ou diferentes tem vivido sob uma rocha nos últimos trinta anos). Houve uma tentativa séria de fazer isso durante o governo do Presidente Sarkozy (2007-12), mas ela foi vítima de todos os tipos de lobbies, inclusive dos próprios líderes africanos. No final, algumas forças foram retiradas, mas não todas. A segunda foi o crescimento progressivo do poder da chamada tendência “neoconservadora” na política e no governo francês, que via os EUA como a única “hiperpotência” e não apenas compartilhava as opiniões dos neoconservadores em Washington, mas também acreditava que a França deveria ser um subordinado leal. O terceiro foi o crescimento paralelo do lobby “europeu” (leia-se “UE”) na política e no governo francês, e até mesmo a mudança de nome do novo Ministério de Assuntos Europeus e Estrangeiros. Os franceses sempre favoreceram as políticas intergovernamentais (uma das poucas áreas em que concordavam com os britânicos), mas se viram cada vez mais dominados pela Comissão e por órgãos supranacionais como a CEDH.

Os franceses sempre foram a favor da construção de uma capacidade de ação militar independente pela Europa, na qual eles desempenhariam um papel importante. Esse era um argumento político mais do que qualquer outro: um continente com uma União Política que não pudesse controlar e mobilizar suas próprias forças não era verdadeiramente soberano. Mas as tentativas francesas de construir essas forças – “separáveis, mas não separadas”, como dizia a frase – foram efetivamente sabotadas pelos britânicos durante várias décadas.

Minha impressão é que as coisas podem estar mudando mais uma vez. Mais do que a maioria das nações europeias, os franceses parecem estar desistindo dos EUA como parceiros. A capacidade militar dos EUA foi revelada como fraca onde é importante, mas, em contrapartida, o sistema político em Washington – caso sobreviva até 2025 – parece perigosamente instável e capaz de provocar crises incontroláveis. Está claro que os EUA nunca mais serão um ator importante nas questões militares europeias. Com grandes despesas e dificuldades, talvez seja possível exumar e consertar tanques e veículos blindados armazenados, encontrar comandantes e suboficiais e, lentamente, construir e implantar talvez uma única divisão blindada na Europa, ao longo dos próximos cinco anos ou mais, se houver vontade política e dinheiro e se os problemas práticos puderem ser resolvidos. Mas isso não afetará muito o equilíbrio de poder. E pode ser que o setor de defesa dos EUA tenha entrado em declínio a ponto de nunca mais ser capaz de produzir armas eficazes. Nesse caso, o papel da França como líder de fato nas questões de defesa e segurança europeias estará garantido, principalmente por ser a única potência nuclear da UE. As forças armadas alemãs são uma piada, e as britânicas estão indo na mesma direção. Os poloneses têm ambições, mas não seriam aceitáveis em um papel de liderança. E a UE está rapidamente se tornando tóxica como participante na área de segurança, onde não tem nada a ver.

Isso, repito, tem pouco a ver com a guerra na Ucrânia e muito mais a ver com o formato da Europa depois disso. Pode ser que, de uma forma que ninguém poderia ter imaginado há trinta e cinco anos, estejamos finalmente nos movendo na direção que os franceses estavam defendendo durante todo esse tempo. E temos que agradecer aos russos por isso. Não é engraçado?

Fonte aqui


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