A decomposição

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 10/05/2024)

Bastaram 30 dias apenas da nova ordem para já percebermos o que se adivinha: um país ingovernável, dure o Governo três, seis ou nove meses de penosa e ruinosa agonia.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Bastaram 30 dias apenas da nova ordem para já percebermos o que se adivinha e o que se adivinhava, desde que, em 7 de Novembro passado, Marcelo Rebelo de Sousa, dando sequência ao plano “maquiavélico” de Lucília Gago (ele o disse) e aos devaneios presidenciais de alta política, deitou fora uma maioria absoluta e convocou todos os demagogos disponíveis para tomarem conta do país. O resultado está à vista: é um país ingovernável, dure o Governo três, seis ou nove meses de penosa e ruinosa agonia.

Em 30 dias, o Governo Montenegro não resolveu nem começou a resolver nada do que era urgente: a localização do novo aeroporto de Lisboa, a privatização da TAP, o início das obras da alta velocidade ferroviária, a apresentação de uma ideia que faça sentido para o SNS, um efectivo desagravamento fiscal, a paz nos tribunais, nas escolas, nas ruas, nas polícias, nas Forças Armadas. Em lugar disso, empenhou-se em tentar convencer os 70% de portugueses que não votaram nele que tudo estava mal na governação anterior e que todas as boas notícias tidas como verdadeiras eram falsas. Investiu contra os organismos e quadros superiores da Função Pública, ameaçando, intimidando, exigindo relatórios e reestruturações em prazos impossíveis, para depois se ver paralisado, sem alternativa imediata, chegando a exigir de quem havia demitido que se mantivesse ao serviço até conseguir perceber o que fazer. Até agora, ouvimos queixarem-se da herança recebida os ministros e ministras da Justiça, da Agricultura, das Finanças, do Trabalho, da Administração Interna e da Saúde, enquanto o ministro da Defesa se desdobra em disparates em vez de ir ler os dossiês essenciais do cargo, sem perceber que já não está em campanha eleitoral, e o dos Negócios Estrangeiros ensaia uma difícil transição entre um papel e o outro. E é difícil perceber como é que sobre tudo isto, como que voando sobre um ninho de cucos, Luís Montenegro declara que é tudo “natural” e que está a gostar de governar. Claro que é cedo demais para declarar o seu sonho falhado ou passar uma certidão de óbito ao mérito do seu Governo — ao mérito, não ao destino dele, porque esse parece-me traçado. Mas, francamente, ele anda satisfeito com quê? Com a nossa satisfação não é certamente.

2 E depois temos o principal partido da oposição, o PS. Ah, o PS! Há uns dois anos talvez, escrevi aqui que se um dia o PS caísse na tentação de se entregar nas mãos de Pedro Nuno Santos estaria a caminho do suicídio político. Pois bem, entregou-se. Ou, melhor, entregou-o Marcelo e Lucília Gago, mas ele aproveitou sofregamente a oportunidade por que há muito esperava e para a qual de há muito se vinha preparando. A forma como para tal se livrou do contencioso incómodo de António Costa, sem uma palavra para, antes das eleições, o defender do infame processo Influencer —- da mesma forma como se pôs convenientemente ao largo do seu ex-secretário de Estado João Galamba, injustamente acossado por todos, mas não abandonado por Costa —, diz muito, diz provavelmente tudo, sobre aquilo de que é capaz para chegar ao poder. E marca uma diferença, que é mais, bem mais, do que de simples atitude. De Edmundo Pedro a José Sócrates, Mário Soares nunca abandonou os seus camaradas, por mais inconvenien­te que tal fosse: não deixar feridos para trás no campo de batalha é a marca dos verdadeiros líderes. Não me admira nada, por isso, que naquele seu insípido discurso, no seu habitual tom de socialista/seminarista, para celebrar os 50 anos do 25 de Abril, não tenha ocorrido a P.N.S. evocar o nome do homem que mais marcou este meio século de liberdade, sujeitando-se e ao PS ao enxovalho de ter de ver alguém do PSD, Aguiar-Branco, resgatar o nome de Mário Soares perante a Assembleia da República e o país.

Saiba mais aqui

 

Este é o homem que o PS tem agora no seu comando e que espera ver ao leme do país dentro de seis meses ou pouco mais. E aos olhos do grande estratego P.N.S. o caminho para lá chegar é simples: ou impedir a AD de governar ou ajudá-la a desgovernar. Não, não é verdade, diz ele, que, apesar das aparências, o PS esteja disponível para coligações negativas envolvendo a extrema-esquerda e a extrema-direita do horrendo Chega: não se pode é exigir que o PS abdique das suas propostas e do seu programa eleitoral (que, por acaso, não ganhou as eleições) só porque os “racistas, xenófobos e populistas” do Chega pontualmente também votam a favor das suas propostas. Não, não é verdade, e a prova é que o PS está disponível para votar ao lado do PSD tudo o que seja aumentos na Função Pública e até um orçamento rectificativo para os cobrir. Ou, melhor dito: o PS estará sempre disponível para aumentar a despesa pública, aderindo alegremente à onda de fartar, vilanagem, que mais uma vez irá dividir os portugueses entre quem vive do Estado e quem vive para o Estado. Se a AD concordar, votam juntos e os socialistas recolhem os louros e os futuros votos, dizendo que foi graças a pressões suas; se a AD não concordar, o PS vota com o Chega e dividirá os louros com o partido de Ventura. Depois, quando o país estiver à beira da falência outra vez, o PS dirá que a culpa foi do Governo da AD, porque os socialistas tinham deixado as contas certas. E com isso P.N.S. espera ter via aberta para, enfim, chegar ao almejado poder — onde todos podemos esperar um desempenho tão brilhante como o que ele teve a governar a TAP, a CP, a Habitação, as Obras Públicas ou as Comunicações.

3 Nunca alinhei no bota-abaixo generalizado dos políticos e da classe política, muito embora o lugar de jornalista seja propício a tal. Mas não alinhei nem alinho, primeiro, porque a democracia não existe sem partidos que a sirvam e políticos que os sirvam e sirvam a democracia. É uma profissão como qualquer outra, mas pior tratada do que qualquer outra, e essa é a segunda razão. Entre nós, os políticos são mal pagos (são os únicos servidores públicos que ainda têm os vencimentos congelados desde o último Governo Sócrates, antes mesmo da troika), ao mesmo tempo que se lhes exige permanente disponibilidade e exclusividade, vivendo-se ainda na crença, há muito terminada, das reformas vitalícias ao fim de oito anos de trabalho político. A par disso, todos os políticos, sem excepção, são por natureza tidos como corruptos, unicamente preocupados com o seu benefício pessoal e movidos por interesses ocultos. Mas depois espera-se desta gente, mal paga e malvista, que sejam os melhores entre os melhores. Mas porque haveriam de sê-lo? — “You pay peanuts, you get monkeys.”

Quando me acontece passar em revista os nomes daqueles que nestes 50 anos passaram pela Assembleia da República ou pelos Governos, fico impressionado com a abissal diferença de qualidade que se foi perdendo ao longo do tempo. Mas isso não acontece só aqui: em toda a Europa não existe hoje um só líder político a que possamos chamar um estadista e as consequências disso estão à vista. Fruto da ignorância, do populismo e da demagogia que reinam livremente nas redes sociais, no jornalismo tablóide e na arrogância de massas, os políticos abrem hoje caminho e sobrevivem jogando com essas mesmas armas e no mesmo terreno. Por isso mesmo, quando me deparo com uma excepção, é como se renascesse a esperança de que, começando por essa excepção, o caminho se possa ir invertendo. E, por isso mesmo, quando esse alguém afinal se rende também, a desilusão é ainda mais difícil de aceitar. Muito a contragosto, porque se trata de alguém que me habituei a admirar, chamo à colação o nome de Francisco Assis, do PS. Contra a corrente, ele tinha passado os últimos tempos a defender uma variante da mal-afamada “terceira via” entre os socialistas e até mesmo, abertamente e com coragem, um acordo de bloco central entre PS e PSD. Fê-lo com um discurso pensado, fundamentado e a justificar internamente um debate sério em nome do país. Mas eis que António Costa cai e Pedro Nuno Santos se candidata ao partido e, em vez de um debate, lhe propõe um almoço. E desse almoço sai um homem novo, transfigurado no mais improvável apoiante de P.N.S. e admirador dos seus dotes de “acção” (mas qual acção, caramba?). Seguiram-se várias penosas e, obviamente, infrutíferas tentativas de explicações sobre tão radical cambalhota ideológica. Depois, o lugar de cabeça de lista pelo Porto e o prometido lugar de presidente da Assembleia dentro de dois anos. Mas ainda não chegava, dois anos é muito tempo: faltava ainda trair os eleitores do Porto, trocando-os por um mais lucrativo lugar no Parlamento Europeu, em Bruxelas. Irá, suponho, “fazer o mesmo, só que num lugar diferente”, como disse a sua camarada Marta Temido, outra que seguiu o mesmo percurso. O mais extraordinário é imaginar que, se perguntarmos o que pensarão eles que nós ficamos a pensar deles, a resposta mais provável é que isso não os preo­cupa nada. E se tudo correr muito mal, se tudo correr o pior possível, a culpa será sempre e só do Chega.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia
Vídeo

9 de Maio – Dia da Vitória sobre o nazismo!

(Por João-Mc Gomes, in VK, 09/05/2024)

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Hoje é um dia que deveria ser solene em todo o Mundo, porque se comemoram os 79 anos da derrota de Hitler, que permitiu o fim da Segunda Guerra Mundial. Uma data que ecoa não apenas a vitória das forças aliadas sobre o fascismo e o nazismo, mas também o triunfo da liberdade sobre a opressão, da justiça sobre a tirania.

Entre 1940 e 1945 os anos foram sombrios e marcados pelo rugido dos canhões e pelo clamor dos que lutavam por um mundo livre. Milhões de europeus, homens e mulheres corajosos, enfrentaram o fogo e a fúria dos seus inimigos, sacrificando as suas vidas em nome de um ideal maior: o de derrotar um mal que ameaçava engolir o mundo inteiro.

Nas trincheiras, nos campos de batalha, nos campos de concentração, o sacrifício foi a moeda de troca pela esperança. Cada vida perdida, cada lágrima derramada, foi um tributo à coragem e à determinação daqueles que se recusaram a curvar-se diante da injustiça.

Mas não foram apenas as armas que garantiram a vitória. Foi a força inquebrantável do espírito humano, a solidariedade entre nações e povos, que permitiu a reversão do curso da história. Foi o sacrifício dos soldados, dos civis, dos heróis anónimos, que fez toda a diferença no destino da humanidade.

Hoje, apenas alguns países celebram essa paz conquistada com tanto esforço e a morte de milhões dos seus. Os que não a comemoram é porque voltaram a ter politicas que querem exercer o poder indiscriminado sobre os seus próprios povos, sem perceber que os cidadãos não se esquecem do seu passado doloroso.

Aqueles que deram suas vidas para que pudéssemos viver em liberdade devem ser recordados. Os seus nomes podem ter-se perdido no tempo, mas o seu legado perdura, como uma chama que jamais se extinguirá.

Que estas comemorações nos lembrem sempre da importância de honrar a memória daqueles que lutaram e sofreram durante a Segunda Guerra Mundial. Que nunca esqueçamos o preço da liberdade e que estejamos sempre vigilantes contra qualquer ameaça que nos tente privar desse bem tão precioso.


Ser “aliado” dos EUA é assistir calado à sua própria destruição

(Hugo Dionísio in Strategic Culture Foundation, 07/05/2024)

Nos termos em que é definida a “segurança nacional” dos EUA, a sua protecção cresce ao ritmo da destruição da soberania, economia e liberdade dos seus “aliados”.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

O ministro chinês dos Negócios Estrangeiros, Wang Yi, disse uma vez que a fórmula usada pela União Europeia, para gerir as suas relações com a China, é “impraticável”, “é como conduzir um automóvel para um cruzamento e olhar para o semáforo e ver as luzes amarela, verde e vermelha acesas ao mesmo tempo”. Eu diria mais… Para além da confusão com as indicações fornecidas pelo semáforo, o condutor – apenas para os chineses – ainda tem de ter atenção aos pregos, óleo e buracos na estrada, que podem originar o despiste ou danos na viatura.

E quem provocaria tais perigos no percurso? Face ao desespero dos actores envolvidos e o caracter unidireccional das acções… Consequentemente, o tom exasperado e catastrofista que encontramos na imprensa ocidental, por oposição a um tom mais triunfalista que vigorava ainda há seis meses (nem tanto), diz-nos tudo o que necessitamos de saber. É incrível como as emoções ocidentais andam num alvoroço, passando de um extremo ao outro, em períodos muito curtos. Da vitória certa na Ucrânia contra a Rússia, passa-se para o pânico generalizado, em que Sullivan, Biden, Borrel ou Macron, que ainda em Setembro já se viam banhar-se nas boas águas da Crimeia, agora passaram à certeza de que as tropas russas não pararão no Dniepr e talvez nem no Danúbio, Reno ou Elba.

Durante 2023 todos assistimos à imparável sucessão de previsões de queda da economia chinesa – a russa já estava “em pedações”, lembremos -, para agora surgir o pânico com a inundação de produtos de grande qualidade e a baixos custos, com os quais o ocidente preguiçoso não consegue sequer sonhar competir. Está a acontecer nos automóveis, como nos semicondutores, máquinas agrícolas, descobrindo-se, aos poucos, pelo tom histérico de Janet Yellen e Blinken, que se algo está a cair, esse algo é a hegemonia americana, cujas estratégias de contenção, até agora, apenas resultaram em adversários ainda mais fortes e capazes. Afinal, é o trabalho duro que molda o carácter. A elite capitalista rentista do ocidente está demasiado habituada ao dinheiro fácil dos royalties, para conseguir competir com aqueles que nunca abandonaram a indústria, a agricultura e as actividades realmente produtivas.

O facto é que, no Washington Post, David Ignatius, investigador ligado ao maior Think Thank do Estados Unidos, partindo de um trabalho da própria Rand Corporation, diz que os analistas referem que os os EUA estão a entrar num declive do qual poucas potências recuperaram; é também a RAND que nos fornece um artigo intitulado “a rivalidade EUA e China numa nova idade média”, apontando para a necessidade de que os decisores têm de desenvolver uma mentalidade neomedieval, nomeadamente, tendo de fazer a guerra sabendo que o “público” não a quer; Borrel diz que os EUA já não são hegemónicos e que a China já se tornou uma superpotência, algo que Brezinsky prometera que nunca mais aconteceria; ou, ainda, os dados estatísticos da economia norte americana, dizem que cresceu apenas 1.6%, no primeiro trimestre de 2024, o que mostra um abrandamento em relação ao previsto. Um grande abrandamento, considerando os 2.7% que são previstos pelas cadeias de transmissão dos EUA, como o FMI.

Curiosamente é da própria RAND que vêm os conselhos mais avisados. No seu estudo “The Fates of Nations” (os destinos das nações), sugerem-se duas reflexões que, considerando o teor e a actualidade, não têm outro destino que não o poder político sedeado em Washington: 1. Quando as nações estão entre uma vitória na guerra ou o colapso nacional (entre a espada e a parede, digo eu), a imposição punitiva e coerciva das condições não constitui um caminho adequado para o sucesso nas rivalidades; 2. A excessiva ambição e abrangência estratégica sobredimensionada contribui para muitos tipos de falhanços.

Estas reflexões são o retrato actual dos EUA: querendo estender-se a todo o lado, começam a abrir fendas no centro, pois quanto maior a extensão da superfície, menor a espessura da cobertura; tomar posições de força em todas as situações – ameaçando todos os contendores com sanções – provoca a fuga e a aversão dos envolvidos e dos que possam vir a estar no alvo dessas acções. Se a isto somarmos o facto de, segundo diversas fontes, a equipa de assessores de Trump lhe ter proposto a aplicação de penalizações aos países que quiserem reduzir a dependência do dólar, já se vê que 2024 vai ser um ano terrível para a maior moeda de reserva mundial. Para já, o ouro nunca esteve tão alto e quase 1/3 do petróleo transaccionado em 2023 foi em outras moedas que não o dólar. Se eu fosse presidente de um qualquer país, tudo faria para reduzir a dependência até à tomada de posse de Trump, considerando que as perspectivas de reeleição de Biden não são as mais entusiásticas.

Perante esta realidade, o que faz Washington? Não conseguindo situar-se neste mundo multipolar em construção e não conseguindo adoptar uma abordagem cooperativa e respeitadora dos outros estados, preferindo focar-se “numa competição de grandes superpotências”, em sentido contrário ao que propõe, por exemplo, a Carnegie Endowment for Internacional Peace, no seu relatório “The United States Policy Challenge”, a administração chefiada por Biden opera como se ainda tivesse todo o poder do seu lado e, faltando-lhe a força com que normalmente contava, adopta a postura da sabotagem, da disrupção e da provocação de instabilidade no “ambiente de negócios” dos seus próprios “aliados”, nomeadamente quando estes se encontram entre a China e as necessidades de “segurança nacional” dos EUA.

Se, no México, terão sido veiculadas ameaças – ninguém as confirmou – contra o governo de López Obrador, caso este persista na intenção de permitir a instalação de fábricas da BYD, para que estas possam utilizar a isenção de taxas aduaneiras aplicável ao acordo de livre comércio USMCA. São os próprios EUA a desdizer, unilateralmente, que as regras acordadas entre três países, afinal deixam de valer para o México, sem que este, supostamente parte no acordo, tenha uma palavra a dizer. Se esta situação não é demonstrativa de quem manda, realmente, quando algum país assina um “acordo” com os EUA…

Este processo de disrupção, que visa tornar impossível a instalação de empresas chinesas, é levado tão a sério, que até um país como Portugal pode ser apanhado na rede e ver a sua economia profundamente afectada com a intervenção e ingerência norte-americanas.

Vejamos o caso da petrolífera GALP, empresa privatizada e com 51% do capital detido por “investidores institucionais” estado-unidenses. Primeiro, assistimos às notícias de que o 8.º maior poço de petróleo do mundo, situado na áfrica oriental, mais concretamente na costa da Namíbia, tinha sido concessionado “a Portugal”. Concretamente, o poço de petróleo havia sido concessionado, não “a Portugal”, mas à GALP, teria sido “a Portugal”, se a empresa ainda fosse pública (apenas 8% o são). A empresa é gerida por uma família oligarca portuguesa, cuja Holding “Amorim Energia”, que detém 35,8 % do capital, está sedeada nos Países Baixos.

Convém dizer que mais correcto seria dizer que, 80% da exploração, do 8.º maior poço de petróleo do mundo, foi concessionada, não “a Portugal”, mas “aos Países Baixos”. E, embora a família Amorim tenha a gestão da empresa, o capital é detido por uma esmagadora maioria de capital Norte-Americano, Inglês e Canadiano (75,2% ao todo). Já se viu quem realmente manda.

Esta mesma GALP, cujo programa de transição para as energias e sectores sustentáveis, previa um afastamento progressivo dos combustíveis fósseis, veio agora comunicar que abandonou a proposta de instalação de uma refinaria de lítio, no sul de Portugal. A GALP, uma empresa privada que prossegue o lucro, prescinde de um negócio de refinação e lítio, em grande parte financiado por fundos europeus e portugueses e com mercado garantido?

Não esqueçamos que o objectivo final seria, com dinheiro dos contribuintes, garantir à GALP a entrada em um sector estratégico do ponto de vista das indústrias “sustentáveis”, e com rentabilidade garantida, pois o lítio seria explorado também em Portugal, refinado em Portugal e instalado em baterias, em Portugal. Negócio extremamente lucrativo garantido e com desenvolvimento de importante know-how. Explica-se, assim, porque razão a GALP acedeu ao 8.º maior poço do mundo e porque razão veio agora dizer que, afinal, os objectivos de descarbonização vão ter de ser adiados. O que esta gente se preocupa com “as alterações climáticas”!

Para Portugal, este projecto era fundamental, pois fecharia o ciclo de produção e veículos eléctricos dentro de fronteiras. Da mineração do lítio à produção e carros eléctricos, tudo se faria em Portugal. Contudo, havia um senão, neste projecto ambicioso. Este projecto que se constitui como um dos mais importantes a financiar no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência da União Europeia para o país, assentava a produção de baterias através da instalação de uma fábrica da chinesa CALB, a qual já está aprovada pelo anterior governo, o qual sofreu, curiosamente, um golpe judicial de “lawfare”, após o qual foi eleito um outro governo, supostamente com ideias diferentes, nesta matéria. O futuro nos dirá se diferem, ou se o dinheiro acabará por falar mais alto.

Uma vez mais, teremos de voltar a ouvir o que disse o embaixador dos EUA, em Portugal, a respeito dos negócios relativamente aos quais, Washington, não veria com bons olhos a entrada da China. Não ver com bons olhos é um eufemismo, como se sabe. Lítio, dados pessoais, portos e 5G.

Foi assim que um pequeno país, como Portugal, foi apanhado no meio de uma tectónica disputa entre superpotências, em que a, ainda, potência hegemónica, desenvolve um processo de destruição do “ambiente de negócios” aplicável à concorrente. Como sabemos, a história não reza grande coisa sobre aqueles que estão sempre à defesa, e assim se foram fechando cada vez mais. Mas isso são outras contas.

Este exemplo integra em si toda a complexidade, falácia e agressividade da estratégia do “decoupling”, a qual quando traduzida por Ursula von der Leyen para a “língua da EU”, passou para “derisking”. Também demonstra como, na EU, quem manda são os EUA e como estar, hoje, ancorado à União Europeia, e a tudo o que ela representa, constitui, de facto, um grave travão ao desenvolvimento. Portugal, tal como o México, tal como a Alemanha, Espanha, França e toda a Europa, vêem encerrados, boicotados e destruídos projectos de investimento, que poderiam manter a Europa industrializada. Só porque são projectados com companhias chinesas.

Talvez, nem assim a chinesa CALB desista da sua fábrica em Portugal. Contudo, esta previsível ingerência estrangeira, não deixará de diminuir as expectativas de rentabilidade futura da empresa e, sobretudo, de criar um travão à sua competitividade por melhores preços. Sintomaticamente, esta continuada sabotagem da economia europeia e dos “países aliados”, assenta sobretudo em tecnologias que os EUA pretendem dominar. Neste quadro, saber que a Wolkswagen fez um acordo com a chinesa Xpeng, e que em Portugal também se situa uma fábrica da marca alemã. Não deixamos de sentir aqui um cheirinho à já tradicional perseguição, pelos EUA, à economia alemã, a qual sofreu um duro revés com a destruição e encerramento do Nord Stream e do que dele restou. Tudo se volta a interligar.

O que este caso comprova é que, hoje, no ocidente e em especial em territórios de alguma forma controlados pelos tentáculos do poder monopolista estado-unidense (o caso português comprova a importância do caracter público de empresas como a GALP), estão limitados aos negócios que estes não consigam ou não queira sabotar ou destruir.

Se são os próprios Think Thank e institutos de investigação a sugerirem à elite política norte-americana que a melhor abordagem seria a da cooperação, respeito pelas soberanias alheias e, sobretudo, não tentar chegar a todo o lado, não é por falta de conhecimento fundamentado que estas elites se comportam de forma selvática. O seu objectivo muito claro e que consiste em criar um ambiente de tal forma inseguro, imprevisível e errático para as empresas chinesas, que sejam estas a abandonar a pretensão de se instalarem e de comerciarem com a europa e américa latina, sem que possa dizer-se que foram os próprios EUA a sabotarem o desenvolvimento económico de países que dizem ser aliados.

Os meios usados vão desde a alteração unilateral de regras, das suas próprias regras, à promoção de agendas como o “decoupling” ou o “derisking”, ou, ainda, se necessário for, e como comprova o Nord Stream, proceder à destruição directa das infraestruturas de apoio, subversão das democracias através da organização de golpes judiciais e revoluções coloridas, ameaça com sanções e outras penalizações. Em último caso, até uma guerra se promove, comos e faz na Ucrânia e se tenta agora em Taiwan.

E é assim se desdiz tudo o que antes se havia dito, sobre os mercados abertos que se fecham quando em desvantagem ou se abrem quando existe a garantia de que apenas o poder hegemónico os ganha; as agendas climáticas que são prioritárias mas que são logo abandonadas quando os ciclos de acumulação definidos estão em causa; o respeito pelas soberanias dos outros países que são protegidas quando está em causa a aproximação aos rivais e são desprotegidas quando se trata de defender o domínio dos EUA.

Nos termos em que é definida a “segurança nacional” dos EUA, a sua protecção cresce ao ritmo da destruição da soberania, economia e liberdade dos seus “aliados”.

Ser “aliado” dos EUA não garante imunidade contra a ingerência, subversão e sabotagem económicas, muito pelo contrário. Garante que esta ingerência é feita mais facilmente, pois as defesas tradicionais que resultam da soberania nacional não existem. Ser amigo dos EUA é, hoje, assistir à sua própria destruição e ficar calado. Com amigos destes… Quem precisa de inimigos?

Fonte aqui.